(_Variante da Beira Baixa_)
Estando a princesa a chorar,
Filha do rei de Castilla:
Seu pae se foi ter com ella
Ao estrondo que fazia:
--O que é isso, oh Silvana,
Que é isso, oh filha minha?
«De tres manas que eu tenho
São casadas tem família;
Eu por ser a mais formosa
Solteirinha ficaria?
--Não tenho com quem te case
Na mais alta senhoria;
Só sendo com o Conde Alves,
É casado e tem familia.
«Com esse, meu pai, com esse,
Com esse é que eu queria;
Mande-o chamar, meu pae,
Da sua parte e da minha!
--Ála, ála, meus criados,
O Conde Alves vão chamar.
--«Ainda agora de lá venho,
Já para lá heide tornar?
Entrou pelo passo dentro
Fazendo mil cortezias:
--«Que me quer a Vossa Alteza,
Vossa Alteza Senhoria?
--Quero que mates a Condessa,
E cases com minha filha!
--«A Condessa não a mato,
Que ella a morte não merecia.
Mando-a deitar aos matos,
Que os bichos a comeria.
--Mata, mata, Conde Alves,
Não me tornes demasia;
A cabeça me ha de vir
N’esta dourada bacia.
Não m’a troques lá por outra,
Que eu bem a conhecia;
Que ao seu lado direito
Um sinal preto teria.
Foi-se d’ali o bom Conde,
Cheio de melancholia;
Mandou fechar suas portas,
Cousa que nunca fazia!
Mandou pôr a sua mesa,
Nem um, nem outro comia;
As lagrimas eram tantas,
Que pela mesa corria.
«--O que é isso, oh bom Conde,
Que é essa melancholia?
Conta-me as tuas tristezas,
Que eu te conto alegrias!
--«Se eu te contasse tristezas,
Morta para trás cahirias:
Mandou o rei que te mate,
Que case com sua filha.
«--Isso não, bom conde, não,
Que eu a morte não merecia;
Manda-me deitar aos mares,
Que os peixes me comeria.
--«Isso não, condessa, não,
Que o rei logo o sabia,
A cabeça te hade ir
N’aquella negra bacia,
Que te não troque por outra
Que elle bem te conhecia;
Que ao teu lado direito
Um sinal preto teria.
«--Deixa-me dar um passeio
Da sala para o jardim:
Adeos cravos, adeos rosas,
Adeos flor do alecrim.
Deixa-me dar um passeio
Da sala para a cosinha;
Deixa-me dar de mammar
Ao filho que tanto queria.
Mamma, filho, mamma, filho,
Este leite amargurado,
Ámanhã por estas horas
Já teu pai está coroado.
Mamma, filho, mamma, filho,
Este leite de amargura;
Ámanhã por estas horas
Já estarei na sepultura.
Anda cá, filho mais velho,
Que te quero ensinar
A tua mãe a rainha
Como lhe haveis de chamar,
Com o joelho no chão,
O chapeosinho no ar.
Estando n’estas razões
El-rei á porta batia:
A condessa já é morta,
Senão elle a mataria.
--«A condessa não é morta,
Está n’essas agonias.
Tocam os sinos na côrte,
Ai, Jesus, quem morreria?
Morreu, foi Dona Silvana,
Por crimes que commettia;
O pae morreu ás dez horas,
E a filha ao meio dia.
Apartar os bem casados
Era o que Deos não queria.
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