Romances do Conde de Allemanha

(_Versão da Beira-Baixa_)

Já o sol nasce na serra,

Já lá vem o claro dia,

Inda o Conde de Allemanha

Com a rainha dormia.

Não o sabia o rei,

Nem quantos na côrte havia,

Sabia-o só o princesa

Juliana sua filha.

--Juliana, se o sabes,

Não o queiras descubrir;

Porque o Conde é muito rico

De ouro te hade vestir.

«Não quero seus fatos d’oiro,

Já os tenho de damasco;

Inda meu pae não é morto,

Já me querem dar padrasto!

As pregas d’esta camisa

Eu não as chegue a fazer,

Quando meu pae vier da missa

Se eu lh’o não fôr dizer.

As pregas d’esta camisa

Não as chegue eu a acabar,

Em meu pae vindo da missa

Se lh’o eu não fôr contar.

Estando n’estas rasões

O pae á porta batia:

--«Oh que razões serão essas

Entre uma mãe e a filha?

«Com bem venha, senhor pae,

Com Deos seja a sua vinda;

Tenho para lhe contar

Um conto de maravilha:

Estando eu no meu tear,

Tecendo cambraia fina,

Veio o Conde de Allemanha...

--«Algum fio te quebraria?

Não te zangues, minha filha,

Nem me faças tu zangar,

Porque o Conde é divertido,

Talvez fosse por brincar.

«Mal o hajam os seus brincos,

Mais o seu negro brincar;

Que me pegou por um braço

E á cama me quiz levar.

--«Accommoda-te pois, filha,

Não me faças mais zangar,

Ámanhã por estas horas

Vae o Conde a degollar.

«Levante-se, minha mãe,

Venha vêr a bizarria!

E o Conde da Allemanha

Tambem vae na companhia,

Com a cabeça n’um prato,

E o sangue n’uma bacia.

--Mal o hajas tu, oh filha,

Fóra o leite que mammaste;

Sendo o Conde tão bonito

A morte que lhe causaste.

«Accommode-se minha, mãe,

Não me faça mais zangar,

A morte, que o Conde leva

Não lh’a faça eu levar.

--Bem hajas, oh minha filha,

Mais o leite que mammaste;

Menina de doze annos

Da morte que me livraste.

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Romanceiro geral · 第 41 / 84 题