Romances do Conde Alberto

(_Versão do Porto_)

Indo Dona Silvaninha

Pelo corredor acima,

Tocando sua guitarra,

Muito bem que a tangia;

Acordou seu pae da cama

Com o estrondo que fazia.

--Que tendes, Dona Silvana,

Que tendes, oh vida minha?

«Raparigas do meu tempo

São casadas, têm familia,

Eu por ser a mais formosa

Para o canto ficaria?

--Não tenho com quem te case

Neste reino, minha filha;

Só se fôr o Conde Alberto,

É casado e tem familia.

«Mandai-o chamar, meu pae,

Da sua parte e da minha,

Que mate sua condessa,

E case com vossa filha;

Que traga a cabeça d’ella

Nesta dourada bacia.

Eis manda chamar o Conde

Da sua parte e da filha;

Matasse a sua condessa,

Casasse com Silvaninha.

Veio o Conde mui depressa,

Mais depressa que podia:

--Quero mates a condessa,

Que cases com minha filha.

--«Como matar a condessa

Se ella a morte não merecia?

--Mata, mata, Conde Alberto;

Antes de uma Ave-maria

Me traz a sua cabeça

N’esta dourada bacia.

Foi o Conde para casa,

Muito triste que elle ia;

Mandou fechar seus palacios,

Cousa que nunca fazia.

Mandou vestir seus criados

De luto á maravilha;

Mandou pôr a sua mesa

Para fazer que comia.

As lagrimas eram tantas

Que pela mesa corria;

Os suspiros eram tantos

Que o palacio estremecia.

Desceu a condessa abaixo

A vêr o que o Conde tinha:

»Que tens tu, oh Conde Alberto,

Que tendes, oh vida minha?

Conta-me as tuas tristezas

Como contaes alegrias.

--«Minhas tristezas são tantas

Que contar-vos não queria,

»Conta, conta, Conde Alberto,

Conta, conta, vida minha.

--«Manda-me el-rei que te mate,

Que case com sua filha.

»Cala-te lá, Conde Alberto,

Que isso remedio teria:

Meter-me-has n’um convento,

Que não veja sol, nem dia;

Deras-me o pão por onça,

Agua por uma medida.

--«Ai! como pode isso ser,

Condessa da minha vida?

Diz que te leve a cabeça

Nesta maldita bacia.

»Cala-te d’ahi, oh Conde,

Que isso remedio teria:

Matarias a donzella

Que se parece commigo.

--«Cala-te d’ahi, mulher,

Que isso não é honra minha.

»Vou para casa de meu pae

Nunca mais apparecia.

Palavras não eram ditas

El-rei á porta batia:

Se a condessa era morta,

Senão elle a mataria.

--«A Condessa não é morta,

Anda n’essas agonias.

»Deixa-me dar um passeio

Da sala até á cosinha:

Adeos moças, adeos aias

Com quem eu me divertia,

Adeos espelho real

Onde me via e vestia;

Que ámanhã por estas horas

Já estarei na terra fria.

Dá-me cá esse menino

Que o quero pentear;

Dá-me cá o outro mais novo,

Quero-lhe dar de mammar:

Mamma, mamma, meu menino,

Este leite de paixão,

Que ámanhã por estas horas

Está tua mãe no caixão.

Mamma, mamma, meu menino,

Este leite de pesar,

Que ámanhã por estas horas

Vae tua mãe a enterrar.

Mamma, mamma, meu menino,

Este leite de amargura,

Ámanhã por estas horas

Está tua mãe na sepultura.

Tocam sinos em palacio,

Ai, Jesus, quem morreria?

--Morreu a filha do rei

Pela soberba que tinha,

Descasar os bem casados

Cousa que Deos não queria.

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Romanceiro geral · 第 39 / 84 题