(_Variante da Beira-Alta_)
Prêso vae o conde, preso,
Prêso vae a bom recado;
Não vae preso por ladrão,
Nem por homem ter matado,
Mas por violar a donzella
Que vinha de Sanctiago:
Não bastou dormir com ella,
Senão dal-a ao seu criado.
Accommetteu-a na serra,
Mui longe do povoado:
Por morta ali a deixara
Sem mais dó, nem mais cuidado.
Chorou tres dias, tres noites,
E mais teria chorado,
Senão que Deos sempre acode
A amparar o desgraçado.
Passou por ali um velho,
Um pobre velho soldado,
As barbas brancas de neve,
Em sua espada abordoado.
Vieiras traz na esclavina,
O chapeo d’ellas cercado;
Chegou-se á pobre romeira
Com muito amor, muito agrado:
--Não chores mais, filha minha,
Filha, de mais tens chorado;
Que esse villão cavalleiro
Prêso vae a bom recado.
Levou comsigo a donzella
O bom velho do soldado,
Vão á presença d’el-rei
Onde o conde era levado.
--Eu te requeiro, bom rei,
Pelo Apostolo sagrado,
Que n’esta tua romeira
O fôro seja guardado.
Da lei divina é casar-se,
Da humana ser degollado:
Que não valem fidalguias
Onde Deos é o aggravado.
Disse el-rei aos do conselho
Com semblante carregado:
--«Sem mais detença, este feito
Quero já desembargado,
«--Visto está o feito, visto,
Julgado está, bem julgado:
Ou hade casar com ella,
Ou senão, ser degollado.
--«Pois que me praz, disse o rei,
O algoz que seja chamado;
Ou já casar com a romeira,
Ou aqui ser degollado.
«Venham algoz e cutello,
Respondeu o accusado:
Mas antes morrer mil vezes
Que viver envergonhado.
Agora ouvireis o velho,
O bom velho do soldado:
--Fazeis, bom rei, má justiça,
Mau feito tendes julgado;
Primeiro casar com ella,
E depois ser degollado.
Lava-se a honra com sangue,
Mas não se lava o peccado.
Palavras não eram ditas
A espada tinha arrojado;
Despe o gaivão de romeiro,
Despe as armas de soldado,
Nos trajos de um santo Bispo
Apparece transformado!
Sua mitra de pedras finas,
De ouro puro o seu cajado;
Tomou a mão da romeira,
A mão do conde ha tomado,
Por palavras de presente
Ali os tem desposado.
Choravam todos que o viam,
Chorava mais o culpado;
Chorando, pedia a morte
Por não ficar deshonrado.
O santo Bispo o absolvia
Contricto do seu peccado:
D’ali o levam por morto,
Que nem o algoz foi chamado;
Justiça de Deos foi n’elle:
Antes de uma hora é finado.
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