(_Versão do Alemtejo_)
Era uma menina bella,
Discreta e bem parecida,
Dom João a namorava,
Mil requebros lhe fazia.
Por fidalgo e gentil moço
Ninguem tanto a merecia;
Mas o pae d’aquella moça
Por melhor conselho havia
Casal-a com um mercador
Que áquellas partes vivia.
Dom João quando isto soube
Por pouco se não morria:
Foi se d’ali muito longe
Sem dizer para onde ia.
Tres mezes por lá andou,
Tres mezes n’essa agonia.
Mandou sellar seu cavallo
Sem cuidar no que fazia;
Deitou por esses caminhos
Sem saber adonde ia.
O cavallo é quem andava,
Cavalleiro obedecia;
Passou por terras e terras
Nenhuma não conhecia.
Á sua tinha chegado,
Onde estava não sabia.
Té que veio a passear
Á rua da sua amiga;
As casas onde morava,
Janellas aonde a via,
Tudo é coberto de preto
Mais preto que ser podia.
Mandou chamar uma dama
Por Deos e á cortezia:
--Dize-me tu por quem trazes
Ausencias tam doloridas?
«Trago-as por minha senhora
Dona Agueda de Mexia,
Que é com Deos a sua alma,
Seu corpo na terra fria;
E por vós foi, Dom João,
Por vosso amor que morria.
Dom João quando isto ouviu
Por morto em terra cahia;
Os seus olhos não choravam,
Sua bocca não se abria.
Mirava a gente em redor
A vêr o que elle faria.
Foi-se direito á egreja
Onde a sua dama tinha:
--Eu te rogo, sacristão,
Por Deos e Santa Maria,
Que me ajudes a erguer
A campa da minha amiga.
Ali a viu tão formosa
Tal como d’antes a via.
Pôz os joelhos em terra,
Os braços ao céo erguia;
Jurou a Deos e á sua alma
Que mais a não deixaria.
Puchou por um punhal d’ouro
Por lhe fazer companhia.
Permittiu a virgem santa
A virgem Santa Maria,
Que se não perdesse uma alma
E um milagre fazia:
A defuncta a mão direita
Ao seu amante estendia,
Seus lindos olhos se abriram
A sua bocca sorria;
Volta á vida que se fôra
Com todo o amor que não se ia.
Seu pae o foram buscar,
Já estava na agonia;
Vêm amigos, vêm parentes
Todos com grande alegria;
E a Dom João dão a esposa
Que mui bem a merecia
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