O Duque da Lombardia (_Variante da Beira-Alta_)

Por manhã de Sam João,

Manhã de doce alvorada,

Ao seu balcão muito cedo

A Infanta se assomava.

Viu andar tres cegadores

Fazendo sua cegada;

O mais pequeno dos tres

Era o que mais trabalhava.

Fitta que traz no chapeo

De ouro e seda era bordada.

Fina prata que luzia

A foice com que ceifava.

De seu garbo e gentileza

A Infanta se namorava.

O ceifeiro vae ceifando...

Bem sabe elle o que ceifava.

«Vês, aia, aquelle ceifeiro

Que anda n’aquella cegada?

Vae-m’o chamar em segredo,

Que ninguem não saiba nada.

Entraram por um postigo,

Que a porta inda era cerrada;

No camarim da princeza

O bom do ceifeiro estava:

«Quero saber se te atreves

A fazer a minha cegada?

--Atrever me atrevo a tudo,

Trabalho não me acobarda.

«Não é no monte ou no vale,

No baldio ou na coutada;

Cegador é nos meus braços

Que de ti estou namorada.

Passou todo aquelle dia,

O mais da noite passava,

Ceifando vae o ceifeiro...

Bem sabe o que elle ceifava.

«Basta, basta, cegador,

Feita está tua cegada;

Vae-te que meu pae não venha

Antes de ser madrugada.

Palavras não eram ditas

El-rei á cama chegava:

--«Com quem falas, minha filha,

Tão cedo de madrugada?

«Falo com esta minha aia,

Que me tem desesperada;

Uma cama tão malfeita

Que dormir me não deixava.

--«É forte essa tua aia

Que a barba tem tão cerrada!

Vista-se já a donzella,

Que antes de ser madrugada,

Pelo barbeiro do algoz

A quero ver barbeada.

O cegador muito enchuto

Sua sentença escutava;

Com uma mão se vestia,

Com a outra se calçava.

Saltou no meio da casa,

Como se não fôra nada:

--Venha já esse barbeiro

Com a navalha afiada:

Ao Duque da Lombardia,

Verêmos quem faz a barba.

O imperador mui contente

Depressa ali os casava:

Não quiz senhores, nem condes,

Homens de capa ou de espada,

Senão só o cegador

Que andava em sua cegada.

Sahiu-lhe um Duque reinante,

Senhor d’alta nomeada,

Pois tudo é sorte no mundo,

A sorte foi bem deitada.

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Romanceiro geral · 第 31 / 84 题