(_Variante da Beira Baixa_)
--Não venho por te vêr, nem por te dar valor,
Venho por erguer olhos e a vista no sol pôr.
Falar quero á princeza, o amor me traz rendido,
A ti peço conselho, velha do tempo antigo.
«Vista traje mudado, cante em seu bandolim,
Boquinha de crystal, faces de seraphim.
--Um bom conselho velha me deste para mim;
Não farão de mim caso, se me virem assim.
Com Deos te fica velha mais a tua porfia,
Mas se eu a render, velha, tens tensa cada dia.
Eu vou bater o mato, caçar altanaria,
Mas se ella me escapar em ti me vingaria.
--Abri lá essas portas, oh hortelão das flores,
Venho em traje mudado falar aos meus amores.
--«Senhor podeis entrar, que tendes sempre acerto;
Senhor, sois Dom Duarte, que bem vos reconheço.
--Oh que varandas altas, com cem palmos de alteza,
Diz velho de bom tempo se ali vem a princeza?
«Para as varandas altas, para tomar a fresca
Costuma vir sósinha quasi sempre a princeza.
--Se ella te perguntar quem é o estrangeiro,
Dize que é um teu filho vindo lá d’outro reino.
Que varandas tão altas, que jardim bem plantado;
Soubera o que hoje sei, que o tinha passeado.
«Oh regador dos cravos venha para mais perto
Conversar a princeza com prazer discreto.
Oh regador dos cravos venha para o mirante
Olhar para a princeza com olhos de diamante.
--Mandaram-me cá vir, não sei se é verdade.
--«Tão verdade não fôra, espelho bello e claro.
--Tendes-me aqui senhora, mandae como a vassallo,
Já estive em noite escura, agora é dia claro;
Dae-me, que tenho sêde, um pucarinho de agua!
--«Aqui vos mato a sêde, espelho bello e claro.
--A mim não ha quem mate a sêde continuada...
--«Vem cá falar commigo ámanhã de madrugada.
Alluga uma burrinha, que o não saiba ninguem,
Que eu quero para sempre ir d’aqui para alem.
--Como a levarei, senhora, com quem irá d’aqui?
Filho d’um corta carne, que apregôa aqui!
--«Não se me dá que o sejas ou que apregôe aqui.
--Alluguei a burrinha, vá-se despedir.
--«Adeos oh fontes claras e poços de agua fria,
Eu já não ouço aqui rouxinóes ao meio dia.
Se meu pae perguntar quem é que me queria,
Dizei que a desgraça não é a que me guia.
--Cala-te, Magdalena, lagrimas de peregrina!
Nos reinos estrangeiros melhor agua haveria.
Tambem ha claras fontes, poços de agua fria,
E canta o rouxinol á hora do meio dia.
--«Pareces Dom Duarte! oh que fortuna a minha,
Tornemos ao palacio a dizel-o á rainha:
Rainha e mãe senhora, humildo-me ao castigo,
Aqui está Dom Duarte, que vem por meu marido.
Rainha e mãe senhora, que pena me acompanha,
De não achar meu pae senhor de toda a Hespanha.
Rainha e mãe senhora, humildo-me com dor,
Não tem a quem pôr culpa, é mui cego o amor.»
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