II

As caixas economicas são o primeiro e agigantado passo para a solução do

problema que as leis ainda não tentaram resolver: as caixas economicas

são o contraste, a negação do patibulo. Matam a perversão popular nas

suas causas, em vez de a punir nos seus effeitos. Criam o futuro para

milhares de individuos que nunca imaginaram tê-lo, creando-lhes o goso

da propriedade, e nesta um recurso para a hora da afflicção e escaceza,

tão proxima, entre as almas vulgares, da hora do crime. O facto de não

apparecer o nome de um unico depositante das caixas economicas nas

listas dos sentenceados em França e em Inglaterra é a consequencia

natural dos principios em que esta instituição se estriba.

A sua influencia moral vai ainda mais longe. Os vicios são, depois da

miseria, a origem de frequentes attentados. O jogo e a embriaguez estão

por toda a parte mais ou menos nos habitos do povo: a embriaguez,

sobretudo, é para o maior numero de jornaleiros como refrigerio, como

prazer licito nos dias de repouso. Quem, todavia, ignora que estes dous

vicios são quasi sempre a causa de rixas entre os operarios, de

desordens domesticas, e de se aggravar cada vez mais a miseria das

classes laboriosas? As caixas economicas guerreiam, geralmente com

vantagem, a propensão para as bebidas fermentadas e para o jogo.

Inimigas da penalidade feroz e sanguinaria que ainda governa a Europa,

não o são menos da taberna, que muitas vezes é a porta fatal por onde o

homem de trabalho enceta o caminho que tantas vezes o conduz ás galés,

ao desterro e, até, á morte.

Mas, dir-se-ha, como podem as caixas economicas desarreigar os vicios

inveterados do povo? Como correrá este a depositar nos escriptorios das

caixas a exigua quantia que ia applicar á embriaguez e ao jogo? A esta

pergunta responde a experiencia dos paizes onde esta especie de

depositos estão instituidos e vulgarisados ha certo numero de annos. A

principio a concorrencia era diminuta e lenta; mas cresceu gradualmente,

e vai tomando hoje um incremento que passa além de todas as previsões

dos amigos da humanidade.

Entre nós mesmos ha um triste exemplo de como o povo, quando descortina

ainda a mais duvidosa perspectiva de melhorar a sua condição, dá de

barato o satisfazer os outros appetites para correr após essa incerta

esperança. São as loterias o exemplo: é exemplo essa deploravel invenção

de especular com a cubiça e com o desejo ardente que as classes menos

abastadas tem de conquistarem, seja como for, fortuna independente.

É de ver a ancia, diriamos quasi o delirio, com que o vulgo concorre a

lançar no sorvedouro das loterias quantos reaes lhe sobram do que lhe

cumpre gastar nas mais estrictas precisões da vida. Muitos ha que até

cortam pelo necessario a si e á família para o irem dar a devorar á

loteria, a essa fatal banca de jogo em que se joga á luz do dia, no meio

da praça publica, embora haja a certeza de _que a grandissima maioria

dos que apontam hão de forçosamente perder_; circumstancia que

caracterisa esta instituição _publica_ de modo, que, se fosse uma

especulação particular, os tribunaes puniriam severamente o especulador.

Mas o facto demonstra que, apenas clareia algum tanto o negro horisonte

do porvir; apenas lá reluz uma esperança tenue, improvavel até, a de um

premio avultado, o povo corre para essa esperança; porque antevê as

dolorosas consequencias da sua precaria situação e busca esquivar-se a

ellas.

É para tornar proficua e moral esta previsão que se instituiram as

caixas economicas. Fazendo convergir para si as sobras escaças dos pouco

abastados, as quaes aliás se desbaratariam provavelmente em vergonhosos

deleites, ou no que vale quasi o mesmo, na loteria, ellas não apresentam

esses engodos fementidos, essas promessas mentirosas com que se desperta

a cubiça popular; não promettem mil por dez com a condição de, em cem

casos, perderem-se noventa e nove vezes os dez e não se obterem os mil.

Não! As caixas economicas offerecem unicamente um juro modico, mas

constante, e alèm disso a certeza de rehaver o depositante o seu

capital, augmentado com o juro, no momento em que delle careça:

offerecem uma cousa simples, clara, possivel: não promettem milagres,

nem sequer maravilhas; porque o maravilhoso muitas vezes, e o milagroso

sempre, nas cousas humanas, são a caracteristica do charlatanismo.

Como os descobridores de thesouros encantados, como os viciosos de

loterias, como os alchimistas, os que desenvolveram e applicaram o

pensamento desta instituição calcularam tambem com a insaciabilidade da

cubiça humana; com a cubiça que póde estar dormente ou subjugada por

outros affectos, mas que existe em todos os corações. O primeiro

sentimento que deve levar o obreiro, o familiar, o caixeiro, o artifice

a ir entregar na caixa economica alguns tostões que forrou do producto

do seu trabalho será a idéa de que virão de futuro as occasiões da

enfermidade, da falta de occupação ou de outro qualquer contratempo, e a

reflexão de que, reservando os sobejos de hoje para as faltas de amanhã

é, sem questão, mais judicioso accumulá-los no mealheiro seguro e

publico, onde não corre uma hora, um minuto, em que a somma poupada não

produza seu lucro, e em que este lucro não se esteja transformando em

capital productivo, do que mettê-los no mealheiro particular, que póde

ser roubado, e onde, no momento da precisão, nem mais um ceitil se

achará daquillo que ahi se metteu. É este o sentimento que, no povo,

suscita desde logo a caixa economica, e conforme a experiencia de todos

os paizes, basta elle para angariar extraordinario numero de

depositantes. Ha, porém, um perigo: quando algum destes tiver accumulado

certa quantia que repute sufficiente para occorrer a qualquer apuro

inesperado, os costumes viciosos e desordenados que o temor do futuro e

a esperança de remedio domaram, hão de provavelmente melhorar-se nessa

lucta entre o bem e o mal, e o homem de trabalho voltará aos habitos de

desleixo e dissipação que lhe absorviam as suas sobras, e que lh'as

tornarão a absorver de novo, e quem sabe se, até, as proprias economias

que fizera. Obviamente o perigo é real e grandissimo: ha, todavia, no

coração humano tambem a avareza; ha essa paixão, que, ao contrario das

outras, augmenta com a posse, radica-se com a idade, arde violenta ainda

na penumbra fria do sepulchro. Na instituição das caixas economicas,

contou-se com ella. Invenção que toca as raias do sublime é o aproveitar

uma paixão má e ignobil para fazer o bem; tornar instrumento da moral e

da civilisação a mais indomavel, a pessima entre as nossas propensões.

Perigosa, destructiva, anti-social no rico, ella será útil ao pobre,

que, sem deshonra, a póde alimentar onde quer que existirem as caixas

economicas. E é o que deve succeder e succede. O creado, o jornaleiro, o

artifice que insensivelmente se achou transformado em pequeno

capitalista e que vê, com o decurso do tempo, engrossar os tostões em

cruzados, os cruzados em moedas, começa a amar o seu peculio e a fazer

sacrificios para o augmentar: esta idéa entranha-se no seu espirito, e

não tarda a vir o exame severo das superfluidades e o córte em todas

ellas. E fazem-no desafogadamente, porque sabem que no dia ou no

instante em que o excesso da poupança os conduza a algum apuro, é-lhes

licito ir levantar no todo ou em parte o juro ou o capital que possuem:

e se tal aperto se não der, tem a certeza de que, quanto mais depressa

ajunctarem um peculio de certo vulto, mais depressa realisarão o sonho

constante da maioria dos individuos collocados na precaria situação de

assalariados, a existencia independente. Um abrirá a loja de retalho,

outro a officina de pequena industria: este irá plantar a vinha no

outeiro escalvado; aquelle arrotear o chão baldio na planicie. Cada qual

seguirá a senda que a sua inclinação lhe indicar, mas todos pensarão só

n'uma cousa, a independencia; a independencia que nasce da propriedade,

e que é o mais fertil elemento da moral, da paz e da prosperidade

publica.

As considerações que temos feito são geraes; applícam-se a todos os

paizes, porque assentam sobre a indole dos affectos humanos, e sobre

circumstancias mais ou menos communs nas sociedades modernas. Se, porém,

ha nação cujo estado social, cujas tendencias entre as classes

inferiores assegurem ás caixas economicas, mais que nenhuma outra, uma

acção poderosa em melhorar a condição dessas mesmas classes, essa nação

é a nossa.

Em Inglaterra e em França as caixas economicas, apesar das suas

grandissimas e innegaveis vantagens, tem apresentado alguns

inconvenientes: tal é o de servirem para especulações de gente rica,

que, na falta de applicações para os seus cabedaes, alli os vão

depositar com os juros compostos que delles devem auferir, sem correrem

riscos e sem se onerarem com as despesas de administração. Procurou-se

em muitas partes remover este inconveniente, estabelecendo maximos para

as entradas e para o total dos depositos de cada individuo; mas esta

providencia nem é geral, nem impede que a frequencia das entradas supra

a modicidade dellas, e que repartindo uma quantia avultada por diversos

membros da propria familia, e fazendo todos estes ao mesmo tempo

pequenos depositos em diversas caixas, o abastado venha a abusar de uma

instituição cujo fim não é, de certo, locupletá-lo.

Entre nós não existe e difficilmente existirá semelhante perigo.

Portugal é um dos paizes da Europa, onde, graças á nossa antiga

organisação social e á natureza e condições das nossas industrias, as

fortunas são por via de regra mediocres, a propriedade territorial mui

dividida nas provincias mais populosas, e por consequencia os capitaes

raros e os grandes capitaes rarissimos. Fallecem elles ás applicações,

não as applicações a elles. Se a essa limitada força de capitaes que

possuimos faltasse o minotauro que os devora quasi todos, a agiotagem,

quasi sempre infecunda, com o governo e com os particulares, ainda

restavam as necessidades das industrias fabril e agricola, ás quaes por

muitos annos não bastarão os que existem, sem que receiemos sirvam para

perverter uma instituição quasi exclusivamente destinada ás classes

laboriosas e menos abastadas.

Tem-se ponderado que a acção benefica das caixas economicas é impotente

contra a miseria do maximo numero de obreiros, isto é, contra a miseria

de quasi todos os que pertencem á industria fabril. Nos paizes onde as

grandes fabricas são a principal fórma, o mais commum systema da

industria, essa observação é infelizmente verdadeira. O aperfeiçoamento

das machinas, a concorrencia dos productos nos mercados, a desproporção

entre o fabrico e o consumo tem feito descer os salarios a ponto que

toda e qualquer economia é impossivel para o operario, que ganha

exactamente só o preciso para não morrer de fome. Depois, nos grandes

focos de industria fabril, principalmente na Gran-Bretanha, a depravação

dos costumes é tão profunda, que, ainda quando a economia não fora

materialmente impossível, sê-lo-hia moralmente. Ahi, portanto, as caixas

economicas, são, sem duvida, insufficientes para libertar o povo da

miseria e da corrupção.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 01 · 第 60 / 87 题