CAIXAS ECONOMICAS

1844*

I

A origem das caixas economicas, embora imperfeitamente organisadas, como

todas as instituições nos seus começos, remonta apenas aos fins do

seculo passado, e a Allemanha e a Suissa foram os primeiros paizes que

as viram nascer. Hamburgo possuia uma em 1787, e a de Berna, instituida

só para os creados de servir, appareceu em 1789. Seguiram-se poucos

annos depois a do ducado de Oldemburgo e a de Genebra. Todas as demais,

nestes e n'outros paizes, foram fundadas posteriormente, e pertencem ao

presente seculo. Em Inglaterra, dizem alguns que a idéa das caixas

economicas occorrera primeiramente ao celebre Wilberforce; mas os

vestigios dellas que ahi se apontam anteriores a 1810 são de natureza

duvidosa ou apenas tentativas obscuras. Data daquella epocha o _banco de

poupanças_ (_saving's bank_) de Ruthwel, fundado por Duncan, e que foi o

primeiro que se constituiu naquelle paiz com estatutos publicos e

regulares. Os seus prosperos resultados foram poderoso incentivo para a

diffusão das caixas economicas. Dentro de sete annos contavam-se no

Reino-unido perto de oitenta estabelecimentes analogos, e em 1833 quasi

quinhentos, onde 470:000 individuos, pouco mais ou menos, tinham

depositado a enorme somma de quasi 16 milhões de libras esterlinas, ou

acima de 160 milhões de cruzados, subindo nos quatro annos immediatos o

numero dos depositarios a 636:000 e o valor dos depositos a 20 milhões

de libras ou mais de 200 milhões de cruzados. Ao passo que estes

beneficos institutos cresciam e se multiplicavam na Gran-Bretanha,

generalisavam-se e prosperavam tambem no meio das nações continentaes.

Em 1838 o numero das caixas economicas subia na Allemanha a 257, e na

Suissa a 100. A França, onde só foram introduzidas em 1818, conta

actualmente (1844) perto de 300, e na Italia quasi não ha cidade que não

possua estabelecimentos desta especie. Á porfia, os governos e os povos

tem concorrido para arraigar uma instituição, cuja idéa fundamental é,

talvez mais que nenhuma, civilisadora e moral. Como todas as cousas

verdadeiramente grandes e uteis, as caixas economicas não tem encontrado

uma unica parcialidade politica, uma unica eschola que ouse

condemná-las, uma só crença religiosa que as repudie. As monarchias

absolutas, os governos parlamentares, as republicas acceitam-nas,

promovem-nas. Ao passo que o ministro protestante as aconselha como

poderoso instrumento de morigeração e de ventura para o povo, o papa

sanctifica esta formosa instituição, abençoando-a e propagando-a nos

estados da igreja. Progresso verdadeiro, nascido no meio da terrivel

lucta de idéas, de paixões e de interesses em que ha meio seculo se

debate a Europa, as caixas economicas não tem custado á humanidade nem

lagrymas, nem sangue. Evidentemente uteis por sua natureza; provadas

taes pelos principios em que se estribam e pelos seus esplendidos

resultados; simples no seu mechanismo, por toda a parte aquelles a quem

os seus beneficios são especialmente destinados, os homens do povo,

tem-nas comprehendido e abraçado. Simplicidade, clareza, utilidade

reconhecida são as principaes condições de todo e qualquer pensamento

social que tenda a popularisar-se. As caixas economicas ostentam no mais

subido grau estes caracteres de todas as instituições que devem vir a

encarnar-se na sociedade e a viver a larga e robusta vida das nações, a

vida dos muitos seculos.

Este consenso unanime, não de paizes ignorantes, mas dos que estão na

dianteira da civilisação, e ahi, não de uma classe de individuos, mas de

homens de todas as jerarchias; tal consenso, dizemos, é o julgamento

mais completo, o testemunho mais irrefragavel da utilidade nunca

desmentida das caixas economicas. Onde quer que ellas appareceram, a

moralidade das classes inferiores e pobres melhorou em breve, e a

miseria, perspectiva permanente que o jornaleiro e o assalariado tem

diante dos olhos para o ultimo quartel da existencia, deixou de ser para

elles uma fatalidade ineluctavel. A sobriedade; a poupança, as virtudes,

em summa, de homem do povo deixaram de ser van precaução contra o seu

negro porvir de mendicante velhice.

A familia, sobretudo, essa imagem da sociedade e sua origem, que para o

obreiro, ás vezes escaçamente retribuido, é, não raro, flagello e

maldicção, póde deixar de ser desgraça, ao menos para aquelle a quem ou

viva crença religiosa, ou a natural bondade da indole induzem a preferir

á satisfação de vicios ignobeis o proprio bem estar futuro e o bem estar

de seus filhos.

Que é, pois, a caixa economica, essa arvore que produz taes fructos de

benção? É a cousa mais conhecida e trivial. É o mealheiro; é esse velho

alvitre de poupados que desde pequeninos todos nós temos visto usar aos

pouco opulentos, e que nossos paes e avós já conheceram; é a astucia do

pobre para fugir a superfluidades tentadoras (é longa a lista das

superfluidades do pobre: encerra quasi todo o necessario do rico) e á

custa dellas achar em si proprio soccorro nos dias de inactividade

forçada, da carestia ou da enfermidade. É o mealheiro, mas o mealheiro

tornado productivo, fecundado pela intelligencia e pelo principio de

associação: é uma grandiosa, e por isso singela, invenção do senso

commum, que durante muitas eras ficou, por assim dizer, no estado de

sementinha perdida, até que a luz do progresso e da civilisação a fez

rebentar, crescer, bracejar, florir e gerar fructos preciosos, que della

colhem em abundancia as sociedades modernas.

A este baptismo de regeneração, que, bem como ao do evangelho, são

principalmente chamados os pequenos e humildes, só tarde nós

concorremos. Não que ignorassemos a sua existencia, mas por essa especie

de destino mau que nos arrasta após novidades de pouca monta ou

contrarias á razão, ao passo que desprezamos o que nas instituições

estranhas ha conforme com os nossos costumes ou accommodado ás nossas

precisões reaes. Debalde um dos primeiros economistas portugueses[2]

propôs ha annos na camara dos deputados a creação das caixas economicas,

offerecendo a lei que as devia regular, e mostrando as suas vantagens

n'um largo relatorio, onde á vasta sciencia se ajuncta a eloquencia que

vem da convicção profunda. Entretidos com theorias, ou com interesses de

partidos ou de pessoas, os homens politicos lançaram no esquecimento as

boas e sinceras diligencias do deputado que desempenhava uma das mais

graves obrigações do seu mandato. Até hoje nada fizeram a semelhante

respeito aquelles a quem mais que a ninguem isso incumbia; e se a

existencia da primeira caixa economica portuguesa se realisou, deve-se o

facto a uma associação particular[3].

É sabido que, por via de regra, as caixas economicas são uma especie de

deposito, onde qualquer individuo póde ir ajunctando lentamente e em

quantias pequenas ou grandes as sobras da sua receita, salvas das

despesas necessarias á vida;--que, em vez de ficarem inertes as sommas

alli depositadas, começam logo a produzir juro, o qual, passado um anno,

se converte em capital e se accumula ao capital primitivo para com elle

produzir novos juros;--que esta accumulação, bem como a formação do

capital primitivo, é perfeitamente indeterminada e sem accepção nem

excepção de tempos e de quantias, uma vez que não sejam estas inferiores

ao diminuto minimo de cem réis;--que o depositante póde quando lhe

aprouver levantar o juro ou o principal no todo ou em parte, ou

transmitti-lo por testamento ou por successão a seus herdeiros ou

legatarios;--que, finalmente, o homem laborioso e poupado tem alli as

suas economias seguras pelas garantias positivas que lhe presta uma

associação poderosa e respeitavel, em vez de as conservar improductivas

e arriscadas no mealheiro domestico, ao qual, suppondo-lhe a indole

previdente e poupada que tantas vezes falta ao operario e, em geral, a

todos os que vivem de pequenos lucros eventuaes, teria necessariamente

de recorrer.

«Com razão se tem apontado, diz De Gerando, a utilidade moral que esta

instituição produz, favorecendo as inclinações para o arranjo e

economia. Ella é propicia ás virtudes que se ligam com essas

inclinações, ou que d'ahi nascem. Excita ao trabalho; habitua o homem

laborioso a cogitar; ajuda a desenvolver os affectos domesticos;

concorre para multiplicar tanto os estabelecimentos industriaes como as

familias, proporcionando meios de formar e conservar o cabedal

necessario para abrir uma officina ou ajunctar um dote para casamento;

ensina ao pouco abastado como em si proprio póde achar recursos e como

se póde remir na miseria, na doença e na velhice. As caixas economicas,

ao passo que diminuem o numero dos indigentes, concorrem tambem para

nobilitar o caracter do homem pobre e para lhe dar aquella honrada

altivez que nasce da maior independencia. Aos que vivem na estreiteza

faz-lhes saber quanto é grato o sentimento da propriedade,

estabelecendo-lhes uma que é real e que, apesar de modica, fructifica e

se perpetua. Além disso, são proveitosas em subido grau á sociedade,

porque são conjunctamente symptoma e instrumento da quietação publica.»

Veio o successo justificar as previsões do illustre moralista. Tem-se

observado em França e em em Inglaterra, que não ha individuo que tenha

feito depositos nas caixas economicas que fosse accusado nunca perante

os tribunaes, ao passo que as listas de criminosos feitas em diversas

epochas provam que as tres quartas partes dos individuos sentenceados

eram pessoas inclinadas ao jogo, ás loterias, ou a bebidas espirituosas.

Os factos citados pelo virtuoso De Gerando são, de feito, as

consequencias forçosas da idéa fundamental das caixas economicas. Das

classes populares saem, não só absolutamente, mas tambem relativamente,

a maior parte dos criminosos. Tem-se attribuido isto á falta de educação

nessas classes: sob certo aspecto e até certo ponto a causa é

verdadeira; não é, porém, a unica, nem a principal. Se indagamos quaes

foram os primeiros passos dos mais celebres malvados, achamos que

partiram dos simples roubos até chegarem á maxima ferocidade no crime.

Poucos entre os assassinos famosos escreveram logo com sangue as paginas

maldictas da historia da sua existência. Na estatistica da criminalidade

popular predomina o roubo: é cousa trivialmente sabida, como o é que a

miseria das classes laboriosas produz principalmente esse facto. Mas o

que a sociedade parece ignorar ou esquecer é que ella é a culpada de que

a pobreza do humilde se converta facilmente em miseria; miseria extrema,

desesperada, terrivel; miseria que impelle quasi forçadamente pela

estrada da immoralidade o homem do povo, para quem os legisladores ha

muito inventaram as masmorras, os desterros, os supplicios, em vez de

alevantarem barreiras moraes que lhe obstem a precipitar-se no abysmo.

Para o individuo sem propriedade, para o obreiro, o artifice, o creado

de servir; para aquelle, emfim, que só tem por capital os proprios

braços, e cuja renda é apenas um salario contingente, a imprevidencia e

o habito de procurar cada dia os meios de viver esse dia nascem

naturalmente da sua situação precaria. Nada espera no futuro, e por isso

nada teme delle: probabilidades, contingencias, não as calcula nem

previne. Assim, vemo-lo acceitar com facilidade os encargos de pae de

familia. Satisfez o appetite momentaneo; que importa o futuro áquelle

para quem isso não existe?

Depois vem os filhos, vem a doença, vem a falta de trabalho: as

affeições domesticas enraizaram-se no coração do desgraçado. A natureza,

a religião, os costumes, tudo lhe diz que esses entes que gerou, que

essa mulher a quem se prendeu devem achar nelle o seu abrigo, a sua

providencia. Ao passo que a má organisação da sociedade o inhabilita

absolutamente para em certos casos poder supprir os seus, a mesma

sociedade lhe diz, e diz bem, que nunca os deve abandonar. Desta ordem

de cousas, falsa, violenta, contradictoria, resulta que as mais leves

tendencias para o crime se excitam e dilatam até chegarem a produzir

tristes fructos, cujo desenvolvimento a sociedade crê impedir com as

algemas, carceres, grilhetas, desterros e patibulos, emquanto ella

propria, com o seu desprezo pelas classes pobres, com a falta absoluta

de instituições verdadeiramente moralisadoras e beneficas, alimenta a

arvore mortifera que produz as acções criminosas.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 01 · 第 59 / 87 题