recuperando os sentidos, chamava Francisco Salter de Mendonça, e
forcejava por evadir-se dos braços que a sustinham. Algumas religiosas
estavam passadas de religioso terror, vendo-a, ainda vestida com os
hábitos da profissão, invocar tão afflicta e descomposta o nome profano
de um homem que, no entender das servas de Deus, devia considerar-se de
direito morto, quando o não estivesse de facto. Algumas escrupulisaram
de assistirem ao debate da professa nos braços das mais novas, e
congregaram-se na cella da escrivã para decidirem que o demonio entrara
no corpo de Carlota. O voto da mais auctorisada era que se chamasse o
capellão para exorcismar a energumena. Outra acrescentava que, no caso
infausto de contumacia diabolica, seria util e piedoso dar parte do
successo ao bispo, para que este obrigasse Francisco Salter a sair do
Porto, como perturbador d'aquella casa.
Entretanto, soror Rufina, chamada da grade, onde deixara Mendonça
esperando saber o estado de Carlota, pedira ás amigas menos escrupulosas
de sua sobrinha que a deixassem só com ella.
--Francisco desejava ver-te--disse Rufina.--Logo que tenhas força e
vontade irás ver o que é um amigo do coração, um anjo de paz que Deus te
envia, assegurando-te que a felicidade do espirito não destroe a
felicidade do claustro, que a esposa do Senhor póde ser a irmã estremosa
do homem a quem amou.
Carlota cravava os seus grandes olhos no rosto risonho da tia, como se
não comprehendesse. A freira continuou:
--Esperavas que Mendonça te viesse lançar em rosto a tua impersistencia,
minha filha? Não, Carlota. Mendonça sabe tudo. Diz que vem procurar as
tuas consolações, a fim de não tentar contra a propria vida. Vês tu,
menina, que sublime encargo Deus te confia no momento em que as tuas
angustias tocam o extremo? Tens de amparar a vida do nobre moço, de lhe
dares consolações...
--Eu, meu Deusl eu consolal-o!--exclamou Carlota, arrancando
impetuosamente o véo--Ha uma só consolação possivel para nós.
Annullem-me os votos que fiz. Não posso ser freira, não quero ser
freira. Deus sabe que fui atraiçoada, que professei, porque me mentiram,
e eu não minto a Deus. Minha querida tia, eu sou agora mais desgraçada
que nunca. Morro impenitente, se me não dizem que é possivel annullar um
juramento falso que me obrigaram a dar.
--Carlota! tu não comprehendes a felicidade n'este mundo sem o crime?
--Crime! qual foi o meu crime? que fiz eu para merecer este castigo?
Onde está Deus, que me não amparou antes d'este desgraçado passo que dei
hoje, e me não mata agora, se não posso remedial-o?
--Isso é uma blasphemia, filha! o demonio da tentação não quer deixar-te
gosar as alegrias puras que Deus te permitte.
--Alegrias, minha tia! Pois cuida que se engana assim a afflicção?
Alegrias para mim, que estou condemnada a um carcere perpetuo, que hei
de ver sempre entre mim e o esposo da minha alma uma barreira de ferro,
que nem posso sequer esperar que elle venha recolher o meu ultimo
suspiro?! Vel-o todos os dias... oh! esse é o mais horrivel de quantos
padecimentos podia antever a minha imaginação! Antes acabar no
desespero, sem vel-o! Antes morrer aqui abafada sem que elle seja a
desgraçada testimunha das minhas agonias! Que hei de eu dizer-lhe, ou
que ha de elle dizer-me a mim? Se elle me pedir contas dos meus
juramentos, se me lançar na rosto a minha falta de fé, se me perguntar
como pude eu sobreviver á certeza de que elle tinha morrido, que hei de
eu responder?
--Diz-lhe que vestiste o habito de eterna viuvez, que escolheste a vida
mais pura, para que as orações por alma d'elle fossem mais gratas ao
Senhor. Diz-lhe antes que escolheste o mais longo paroxismo de uma morte
atribulada; que podeste acreditar que elle violara o seu juramento;
conta-lhe tudo quanto a traição inventou em teu damno; diz-lhe que ainda
convencida de que elle morrera, depois de atraiçoar-te, lhe perdoaste, e
caíste de joelhos aos pés da cruz, pedindo á misericordia infinita que
lhe perdoasse o perjurio. Que mulher houve n'este mundo tão forte da sua
innocencia como tu para poder apresentar-se com o rosto immaculado na
presença do homem que lhe vem pedir contas? Qual é o teu crime, infeliz?
Não te disseram a ti que Francisco esposara outra mulher no Rio de
Janeiro? Não te affirmaram que elle morrera depois? O silencio de dois
annos não estava sempre confirmando o cruel desengano das tuas
esperanças? Quem te ha de accusar, Carlota?
--Elle, minha tia. Eu tinha obrigação de não acreditar a calumnia! Eu
fui mais vil e miseravel que os infames que urdiram a minha desgraça!
Não tenho animo de lhe apparecer, não sei como possa defender-se a minha
fraqueza, nem quero defender-me, porque sou eu a que me accuso de
indigna do perdão d'este homem, que eu fiz tão infeliz... Ha um só
remedio, minha tia... Se m'o não dão, nem quero mais vel-o, nem prometto
respeitar a religião que nos manda supportar com paciencia o peso da
vida... e que vida, meu Deus!... que vida de inferno me seria esta, se
eu não podesse arrancar do coração esta braza viva que me está
atormentando!
--Pois que queres tu, Carlota! Valha-me a Virgem Santissima! que se ha
de fazer, infeliz creatura?
--Annullem-me os votos, deixem-me ir lançar aos pés de quem póde
restituir-me a minha liberdade. Não posso ser freira, declaro bem alto
para que todos me ouçam n'esta casa, e me desculpem do mal que eu fizer;
não posso ser freira, sem dar grandes escandalos, sem insultar a virtude
das pessoas que me rodeiam, sem amaldiçoar a hora em que professei, e a
religião que me manda morrer sem desabafo.
--Carlota! pelo amor de Deus!--exclamou soror Rufina, tapando-lhe a
bôca, e abraçando-a com convulsivo terror. Teme o castigo do céo, minha
filha. Arrepende-te d'essas blasphemias, e Deus não permittirá que tu
comeces a expial-as n'este mundo com a deshonra... Tu não sabes o que
disseste, Carlota. Foi a desesperação que a fez assim fallar, minha Mãe
Santissima; não consintaes que ella seja castigada! Alcançae de vosso
Filho um bocadinho de refrigerio para esta desgraçada que a dor
enlouqueceu.
A freira continuou uma supplica assim afflictiva diante da imagem da Mãe
de Deus. Carlota Angela correra impetuosamente para o mais escuro da
casa, e lá prorompera, sósinha, em prantos, que não eram de contrição,
nem sequer de desafôgo á sua grande angustia. Apertavam-a ainda os
frenesis da desesperação enraivecida e impia. Rebatia com gestos
furiosos as timidas consolações da tia e da meiga Dorothea, cujas
palavras mais suavemente lhe deviam fallar ao coração, se a quasi
demencia a não tivesse assaltado com vertigens de quarto em quarto de
hora.
Francisco Salter recebeu, ainda na grade, a triste informação do estado
de Carlota. Perguntou elle a soror Rufina, se teria duvida em
entregar-lhe uma carta. A freira hesitou emquanto Mendonça lhe não disse
que a carta seria um lenitivo para Carlota, e talvez um balsamo de
completa cura.
Qual deva ser a efficacia d'esse balsamo infere-se da carta que se copia
textualmente no capitulo immediato.
XVII
Dans le monde tout est confondu. Les juges ne sont plus que des
bourreaux, qui offrent des victimes humaines á ce Dieu mensonger
qu'on appelle le Droit et la Justice. L'homme sans foi devient un
sage et le sage une dupe. Le héros qui donne sa vie pour la vérité
n'est qu'un malheureux fou, qui s'est sacrifié pour une chimère.
Qu'il meure désespéré sur les pavés sanglants, objet de
l'indifférence de Dieu et de la raillerie des hommes!
Jules Simon. (_Le Devoir._)
«Carlota.
«O destino esmaga-nos, se succumbirmos. Coragem, intrepidez de
desesperados, é a nossa salvação... A sociedade pôz-nos um pé sobre o
peito: o coração geme nas agonias da morte violenta; mas não morrerá.
Affrontemos os assassinos. Vamos direitos ao encontro da infamia. A
nossa vingança é viver. A nossa vingança é enxugar as lagrimas, e
suffocar os gemidos. A nossa vingança é fazer a sociedade responsavel
perante a sua propria consciencia do crime que ella propria ha de
condemnar, depois que nos queimou na alma o germen da virtude.
«És freira, Carlota Angela. Forçaram-te a violar a palavra jurada, cujo
cumprimento vinha pedir. Disseram-te que eu te atraiçoara e morrera.
Tinhas obrigação de defender a minha honra, emquanto eu não viesse da
sepultura pedir-te perdão da perfidia. Não te condemno, nem sequer me
queixo. Entre a perversidade dos que te rodearam e a tua innocencia, a
lucta era desigual. Fraqueaste, porque a desgraça exigia que eu bebesse
o ultimo trago do meu calix. Eu não podia deixar de ser infeliz até á
extrema d'este inferno. Aqui deve ser o termo final da minha
condemnação. Não se póde ir mais além. Suicidar-me seria desmentir a
fortaleza com que tenho arrostado a desventura até hoje. Chorar comtigo,
devorar em silencio um dia e outro dia, na escuridade da desesperação, o
resto de duas vidas tão miseraveis como as nossas, seria escolher a
peior das mortes, o paroxismo prolongado, sem desafôgo nas crenças, sem
refugio na esperança de outro mundo.
«Não creio, nem espero nada além d'esta vida, Carlota.
«Se te sentes arrebatada para a grandeza do Creador, repara na miseria
das creaturas. D'este asqueroso lamaçal de sangue e lagrimas, para onde
nos empurrou a mão humana, como queres tu que o espirito possa
levantar-se para Deus?! Não ha justiça na terra, nem providencia no céo.
O summo bem é um sonho dos corações opprimidos, quando a oppressão não
estala os ultimos filamentos da fé, quando a angustia não é tamanha que
cerre todos os respiradouros da alma. Se ha Deus, a sua inercia, á vista
das atrocidades que soffremos, é igual á indifferença, á impotencia, ao
nada. Nas minhas e nas tuas dores, a justiça eterna permaneceu
insensivel, como se temesse ou approvasse a infamia dos homens.
«Não baixou do céo um anjo que te dissesse:
«Aquelle que te ama, vive em torturas, arcou já triumphante com a morte,
esmagará por fim o preconceito da honra, e virá buscar-te. Não dês a
Deus um coração que não podes dar. Não jures ante o altar um voto que
implica a morte do homem que a estas horas, sobre o mar, me está pedindo
que te dê forças para o soffrimento, que te illumine com um clarão de
esperança, que te povôe os sonhos com a imagem d'elle.»
«Fallou-te assim um anjo, Carlota? Não. Em redor de ti estava o terror
do desconforto, o silencio da desesperação, o desamparo, e as piedosas
lamentações de algumas almas boas que te mostravam o céo, porque a vida
se te havia convertido em inferno.
«Eu gemi n'um carcere longos mezes. Visitou-me a fome, a sêde, o frenesi
da loucura, o terrivel _nunca mais_, essas duas palavras malditas que
encerram todo o fel das amarguras humanas. E, no tumultuar de tantas
penas injustas, nunca a justiça divina me disse que esperasse o dia do
resgate, a corôa do martyrio immerecido, a vista da mulher chorada que
me vinha consolar nos instantes do lethargo, e fazer suave a pedra em
que eu encostava a cabeça abrasada. Nunca. Gemi no desamparo, como o
malfeitor repulsivo, que a sociedade lançou de si maldito, e maldito de
Deus nem sequer podia esperar a purificação do remorso.
«Que mal fizeras tu, pobre mulher? Por que te mortificaram os homens, e
como consentiu um Deus justiceiro o tormento que te deram?
«Que mal fizera eu, homem de consciencia pura, que passei os annos da
minha mocidade estudando os raros exemplos de virtude que me encantavam
o coração?
«Padecemos, porque fomos escravos da honra, Carlota Angela.
«Se eu passasse por cima dos respeitos humanos, terias sido minha
amante, serias hoje minha esposa, e a sociedade apontar-nos-hia como
modelo de amor fiel e devotado a todos os sacrificios. Faltou a culpa,
para que a fortuna nos não ludibriasse. Era necessario o crime para
sermos hoje felizes. A virtude o que é?
«A minha honra reduziu-me a isto que eu sou. Sacrifiquei-te aos deveres
que a minha probidade me impunha, e fiz-te a desgraçada que hoje és.
«Quero salvar-te, Carlota, e quero que me salves.
«Apparece-me, filha da minha alma; vem ouvir-me, porque a nossa época de
felicidade começa hoje. Não ha para nós n'este mundo mais que nós
mesmos. Tudo que se oppozer ao destino que vamos seguir, é mentira, é
perfidia, é uma nova traição que te armam, Carlota.
«Sorri á esperança, martyr! Irradie em volta de ti o sol de esperança
que me está abrilhantando o futuro. O coração delira-me de alegria no
peito, onde não cabe. Agora conheço que me pertences, que te não perdi,
que és mais minha por um direito de torturas, que valem mais que todos
os juramentos. Sacode as algemas que a hypocrisia te encadeiou nos
pulsos. Deixa voar o coração, que um voto sacrilego ou impostor te
assellou ao nada da uma esperança estupida ou fementida. És livre,
Carlota. A tua alma não podia obedecer ás suggestões de malvados, porque
era minha.
«Agora te digo que venho pedir contas do teu juramento.
«Carlota Angela, estou aqui! Pertences-me.»
A freira acabava de ler esta carta, e correra á grade, onde a esperava
Mendonça.
Não dizem os nossos apontamentos o que se passou na grade. Se
escrevessemos de imaginação, dava-se aqui um dialogo plangente, travado
de exclamações, umas de expansão maviosa, outras de frenesi insano. O
mais natural, na situação dos dois infelizes, é chorarem longo tempo
silenciosos. Devia a sua dor ser uma das que suffocam e entalam na
garganta o gemido. A desesperação mataria n'elles o jubilo de se verem:
a freira não poderia dizer a Mendonça: «sou tua». N'aquellas grades,
duras e inflexiveis como o «cumpra-se» terrivel do destino, estava
escripto o impossivel. Entalal-as, espedaçal-as, só a mão sacrilega do
crime poderia. Carlota ha de rasgar o véo, ha de calcar o habito, ha de
passar por cima da sua virtude, da sua religião, do seu esposo
celestial, se quizer dizer a Mendonça: «sou tua».
Devia, pois, ser melancolico além do exprimivel o que ahi se passou
n'essa grade; triste, e desgraçado direi, a julgal-o pelas
consequencias, que se vão descrever, com um certo pezar em que esperamos
tomem os leitores o seu quinhão de pena, se não todos, ao menos aquelles
que não dão nada pela felicidade da terra, quando ella implica offensa
ao Senhor do céo.
Se as calamidades que promanarem d'esse encontro não forem das que matam
os agentes da sua propria desgraça, e, ao mesmo tempo, escandalisam a
moral, a quem ha de a moral condemnar? em que ponto d'esta escabrosa
senda da vida quereis que se levante o signal de aviso para acautelar os
ignorantes do abysmo que as flores escondem?
Nao sabemos, não o sabem os que teem a experiencia das quédas, e vão
caíndo sempre no golfão, para onde os allicia com blandicias uma
attracção satanica. Estamos fartos até ao tedio de ouvir dizer que o
homem é bom, que o homem é mau. O homem não é bom nem mau de seu
natural: é aquillo que o fazem ser; é o que realmente deve ser n'este
mundo, segundo a organisação d'este mundo, organisação viciosa,
aleijada, falsa, peccaminosa, quer o defeito começasse no paraizo
terreal, quer nos multiplicados infernos que as idades se foram
inventando através das civilisações.
O leitor tem o juizo necessario para se não dar á canceira de
interpretar essas linhas assim com assomos de dogmaticas. Este romance
pecca por acaso em divagações philosophicas, e n'isso está cifrado o
merito não vulgar de um livro que sustenta o caracter singelo e lhano
desde a primeira pagina, para que aos mais myopes se não esconda a luz
debaixo do alqueire.
Reparou soror Rufina em sua sobrinha, na volta da grade; achou-a serena
de mais, risonha até; um lampejo de alegria interior que lhe reaccendia
nos olhos a luz que as lagrimas haviam apagado. A velha freira, já
apalpada por infortunios de amor, não conjecturou d'aquella inesperada
alegria tão innocentemente como Carlota cuidava. O temor que a
sobresaltou presagiava a verdade, mas tão desgraçada era a verdade, que
a freira antes quiz desmentir o proprio presentimento, do que interrogar
a sobrinha, innocente talvez.
--Como vens alegre, Carlota!--disse ella.
--Fiquei mais desopprimida, minha tia; o muito chorar faz bem... estou
muito melhor, e agora espero vencer o infortunio.
--Com que armas, filha?
--Com que armas?... Com as da resignação... A maldade, a guerra que o
mundo faz a fracas mulheres como eu, só com a paciencia se sustenta.
--E Mendonça aconselhou-te a resignação?--disse a freira com suspeitoso
intento.
--Elle? tomara o infeliz quem lhe ensinasse o remedio das suas
afflicções... Nenhum de nós é forte; somos ambos por igual desgraçados e
fracos para luctar com as perfidias que nos fazem, ou que nos fizeram. O
remedio unico é gemer até á morte, dar á sociedade o regalo de nos
esmagar, soffrer-lhe na garganta o pé com evangelica submissão.
Entende-o assim, minha tia?
--Que modo de perguntar é esse, Carlota?! Eu estranho-te...
--Estranha-me!? Pois queria que eu voltasse da grade mais afflicta do
que fui?
--Não; esperava que as tuas palavras fossem mais sinceras, filha.
--Pois não são?!
--Ha ironia n'esse elogio que fazes á tua paciencia. O coração de uma
mulher não é assim. Concilias-te muito depressa com o sacrificio. A
virtude não se alcança assim tão rapida, e essa paciencia, que te
impões, é a virtude suprema. Não, Carlota, não. Tu... Tremo dizer-t'o...
--Diga, minha tia.
--Tu, filha, meditas um desatino.
--Um desatino!...
--Sim, Carlota; tu intentas fugir do convento--disse a freira com pavor.
--Não, tia...--balbuciou a trémula religiosa, mudando subitamente do
semblante sereno para os gestos alvoroçados da surpreza, do mêdo,
reflexivos da agitação interior que fizera n'ella o ar assombrado da
tia.
--Não balbucies, desgraçada. O teu rosto está confessando o desvario do
coração. Diz com animo, filha, confia á tua amiga essa resolução
funesta, que não executarás, sem que as minhas lagrimas te demovam de
tal desgraça. Oh! não faças tal, infeliz, que te deshonras para o mundo,
e te perdes para Deus.
--Minha tia!--exclamou Carlota, abraçando-a, e soluçando palavras
inarticuladas.
--É pois certo?--tornou a freira.
--É certo, minha tia, é certo que ou Deus me mata, ou eu fujo.
--Jesus! Maria Santissima! Que dizes, Carlota!
--Não posso desdizer-me, minha querida tia. Eu sou do homem que amo. Não
vejo nada n'este mundo senão elle, e as suas lagrimas. Mas as suas
lagrimas são-me menos preciosas que a vida de Francisco. Soffreu muito o
meu desgraçado amigo, soffreu muito; é preciso que eu o indemnise com a
minha reputação, com a vida, com os soffrimentos de todas as pessoas que
me estimam. Eu hei de ser menos infeliz, e elle será feliz quanto se
póde ser...
--Á custa de um crime... Carlota!
--De um crime que é o resultado de muitas infamias urdidas contra a
nossa felicidade. É um crime só o nosso, um só; Deus perdôa, e, se não
perdôa, aceito o inferno, se ha inferno, aceito...
--Cala-te, desgraçada, que insultas a religião; cala-te ahi, que
enlouqueceste, Carlota, e Deus bem sabe que a tua razão desvaria!
--Não, minha tia. Eu sinto-me no meu perfeito juizo: a desesperação
enlouquecia-me de antes algumas vezes; mas a esperança restituiu-me hoje
o vigor da minha antiga razão; com a differença que de antes
assustal-a-hiam os juizos do mundo, que a subornavam, e hoje a minha
razão vê tudo como tudo é, sente-se livre, e capaz de destruir todos os
obstaculos que uma falsa piedade me pozer.
--Mas tu não és já senhora de tuas acções, Carlota!--bradou a tia com
azedume.
--Sou. Emancipou-me o infortunio. Se me cortarem todos os meios da fuga,
resta-me o recurso do suicidio; apparecerei morta no pateo do convento.
Soror Rufina ficou tranzida. Carlota contemplou-a com pezar n'aquelle
quietismo terrivel. Estava a pobre senhora com a face apoiada sobre os
joelhos, e as mãos erguidas. A filha de Norberto quiz divertil-a da
lethargia; mas a gélida face da freira parecia de pedra, apenas as
lagrimas borbulhavam incessantes nas mãos da sobrinha.
Ao lado, porém, da consternada anciã estava a imagem de Francisco
Salter. Carlota queria consolar, promettendo o impossivel; mas o coração
recusava-se á mentira.
A freira benedictina promettera fugir n'aquelle dia. Se não soubera
esconder a traição, tambem não seria capaz de revogal-a, ou differil-a
para mais tarde.
XVIII
_Venite ad me omnes qui laboratis, et onerati estis, et ego
reficiam vos._
Jesus Christo.
Soror Rufina comprehendeu mal a exaltação de Carlota. No conceito da
ingenua religiosa, sua sobrinha, posto que tentada pelo espirito das
trevas a dar um passo de desesperada, um passo do altar para o abysmo,
do limbo de esperanças celestiaes para o inferno das eternas dores, não
chegaria a deixar-se vencer, caíria contrita aos pés da cruz antes de
infamar-se e infamar o mosteiro com a fuga.
Carlota, por sua parte, não desmentiu a conjectura da freira, por isso
que, por espaço de dois dias, esteve reclusa na sua cella, orando e
chorando, quasi sempre sósinha, porque tanto a Cecilia como a Rufina
pedia que a deixassem desafogar a sua angustia a sós com a imagem do
Senhor, sua consolação extrema e unica.
Não podemos, porém, asseverar que as lagrimas e orações fossem o
constante exercicio da freira benedictina. Duas ou tres cartas, que
Francisco Salter de Mendonça recebeu, foram de certo escriptas em
intervallos pouco edificantes d'esses dois dias, se devemos, do que
aconteceu ao terceiro dia, avaliar o conteúdo d'ellas.
Ás tres horas da madrugada d'esse terceiro dia, que era o setimo do mez
de setembro de 1811, Francisco Salter de Mendonça estava já desde a meia
noite, encostado ao muro da cêrca do mosteiro, n'aquelle angulo que
confina com a ultima casa da rua do Loureiro, hoje bem conhecida pela
«Estalagem do Cantinho». Não averiguamos como elle conseguiu do
locatario d'essa casa, que devia ser um sujeito de maus costumes,
licença para engatinhar através do telhado, até alcançar o muro na parte
onde é facil o salto para a cêrca.
Ao dar das tres horas no campanario do mosteiro, branquejou rente com o
angulo do muro, que fórma a especie de fortim de ameias sobranceira á
Porta de Carros, um vulto que desceu ao pomar, e ahi se sumiu por alguns
minutos á vista do anciado Francisco Salter.
Era Carlota Angela, a professa benedictina, que fugira do thalamo do
divino esposo, e a cada passo que dava comprimia no peito o coração que
o phantasma do seu crime apavorava. Os minutos que se demorou no pomar,
cerrado, por cuja copa o clarão da lua, já desmaiado pelos alvores
matutinos, se coava, traçando sombras movediças, foram uma demora
causada por uma syncope.
Francisco Salter, suspeitando isto mesmo, ou receiando o arrependimento,
saltou o muro, deixando içada a escada de corda por onde Carlota devia
subir, e foi direito ao pomar. A freira soltou um grito de terror quando
viu ao pé de si um vulto. Salter proferiu o nome d'ella com amorosa
angustia.
Mendonça tremia.
Não ha coragem de homem que vença a commoção d'estes lances. O silencio
religioso que reinava alli; os trajos da religiosa, ainda os mesmos com
que horas antes assistira á sua ultima oração em communidade, excepto a
touca e o escapulario; esse intimo abalo com que a Providencia se
denuncia nos corações mais endurecidos pela negação da falsa consciencia
do irreligioso; e, sobretudo, a lucta de todos esses sentimentos com a
paixão imperiosa, e o plano irrevogavel d'esses dois infelizes, fora,
talvez, a causa do quebranto, e quasi desfalecimento de espirito em que
ficou Mendonça ao apertar nos braços, pela primeira vez, Carlota Angela.
--Não posso!--exclamou ella--não posso dar um passo... Começo a sentir o
castigo do céo... Receio morrer aqui.
--Não morrerás, Carlota...--acudiu Mendonça, apertando-a ao seio com
vehemente ternura misturada de supersticioso sobresalto--Deus só castiga
o crime das que abjuram os votos que faz o coração. Vem, Carlota, mais
alguns passos, pouco nos falta já; d'aqui a momentos verás fugir esse
terror, que me está opprimindo tambem a mim. Vem, amiga da minha alma...
--Não posso, Francisco... não posso...--tornou ella, soluçando,
pendurando-se-lhe dos hombros com afflictivo modo, e olhando em redor
com a vista assombrada de visões medonhas--Vae tu, que eu torno para o
meu supplicio... Vae, meu amigo, que não póde haver felicidade sem Deus.
Não queiras ser cumplice do meu crime, porque o has de expiar commigo. O
melhor, na minha desgraça, é morrer, Francisco; morrer martyr, morrer
digna de pedir ao Senhor por ti...