Francisco Salter balbuciava apenas monosyllabos. As palavras da freira

calaram-lhe na alma um spasmo atribulado. Carlota sentia-o tremer como

ella, ou mais ainda: o seu terror augmentava, com o silencio de

Mendonça, com aquella especie de assentimento que elle dava aos

presagios d'ella.

Por um momento se afigurou ao amante da religiosa que a desgraça era

inevitavel. Calara-se o coração. Era o espirito religioso que

sobrepujava o animo robusto do capitão de marinha. Tinham-o, talvez,

debilitado os infortunios. Fizera-o, talvez, supersticioso a desgraça,

se não quereis que possa chamar-se influxo providencial este mêdo. Por

que não dizemos antes que a desgraça o fizera crente? Por que não

estaria entre ambos o anjo do Senhor, o anjo Custodio que pedira ao

Altissimo um raio da sua divina graça com que alumiar, a dois corações

que se despenhavam, a profundeza do abysmo?

Carlota parecia banhada d'esse raio celestial, quando se lançou aos pés

de Mendonça de mãos erguidas, orando, póde dizer-se, orando assim:

--Não me leves d'aqui, meu amigo. Não me queiras fóra do amparo divino

que me deu esperanças de te encontrar no céo. Guardemos para lá os

nossos amores felizes, amores bemaventurados por uma eternidade. Temos

merecido tanto com os nossos martyrios, Francisco... deviamos de ser tão

caros á piedade de Deus... não sejamos agora indignos da sua

misericordia, e crueis para comnosco... A minha vida será curta no

convento, e fóra do convento. Deixa-me morrer aqui; serás menos infeliz.

Eu não me importa a deshonra do mundo: a infamação não poderia matar-me;

mas, lá fóra, espera-me uma dor maior que todas, a do remorso, a da

contrição impossivel sem a emenda.

Carlota proseguiu soluçando no seio do amante palavras inarticuladas, ás

quaes responderam por fim as lagrimas copiosas de Mendonça, as primeiras

que elle chorava doces e suavissimas, quaes se o Senhor lh'as désse como

prelibação aprazivel das alegrias que sua alma teria em galardão do

sacrificio.

Era já quasi dia claro, quando a freira benedictina, encostada ao braço

de Mendonça, foi sentar-se no degrau da porta por onde uma hora antes

saíra com a resolução de não mais entrar. Ahi, d'esse abraço derradeiro

que se deram silenciosos, arquejantes, convulsivos, não saberemos dizer

qual fosse a infinita angustia.

É certo que Francisco Salter, ao desapertal-a dos braços estremecidos em

que ella proferia n'um gemido o ultimo adeus, cruzou os braços e disse:

--Vae, Carlota, que eu não posso disputar-te a Deus. Vae, filha da minha

alma, que eu alimentei com lagrimas, que eu mereci a preço dos tormentos

que nenhum homem supportou, para finalmente te ceder a um phantasma que

me diz que não pódes ser minha. Recorda-te... olha para mim, Carlota, e

assombra-te da grandeza da minha angustia e da minha paciencia. O homem

que tanto padeceu para merecer-te, vae, sem ti, procurar a morte do

corpo onde Deus quer que ella o espere depois da morte da alma, do

assassinio lento de um coração que se teria salvado se ha tres annos te

arrancasse aos braços de teu pae. Fui demasiadamente honrado para este

mundo e para esta sociedade. Não quiz respirar este ar corrompido em que

vivem os felizes... devia morrer. Por fim, devias ser tu a que me

apontasses o teu remorso como estorvo a pertenceres-me. Fica, minha

amiga, com a tranquillidade do teu espirito. Por ti soffri muito; mas

não era o teu soffrimento o premio que eu vinha pedir-te agora. Quiz

dar-te a felicidade, e cuidei que t'a dava. Quiz levar-te commigo aos

pés do representante do Eterno na terra, para lhe supplicarmos que

houvesse de Deus perdão para ti, que não poderas ser o que a desgraça te

aconselhara que fosses. Diz-te o coração que o teu crime não póde ter

reparação: é Deus que t'o segreda, Carlota, e eu não ouso argumentar

contra as inspirações que te baixam do céo. Vae, pois, esposa de

Christo, vae para o teu santuario, e chora-me ahi, chora-me emquanto eu

viver; depois, ora por mim, porque a minha alma só as tuas orações podem

purifical-a, e erguel-a á presença do divino Juiz. Adeus, Carlota.

A freira, do limiar da porta estendera ainda os braços para Mendonça,

exclamando:

--Vem cá, Francisco, vem cá... escuta-me, por piedade!

--Carlota! Carlota!--disse uma voz, que os fizera estremecer a ambos.

Era soror Rufina, que surgira no angulo do muro, entre as ameias que

cercam o terraço por onde a freira conseguira evadir-se.

Francisco Salter de Mendonça, admiravel de dignidade, retrocedeu,

aproximou-se de Rufina, baixou ligeiramente a cabeça, e tomando Carlota

pela mão, disse:

--Deus sabe que ella é cada vez mais digna d'elle. Assista com piedade

ás agonias d'este anjo. Sua sobrinha, senhora, veio aqui buscar coragem

para a morte, e ensinar-me a morrer com honra. A vida honrada já ella

m'a tinha ensinado: faltava-me a morte, que devia ser de desesperança

impia, se esta santa me ensinasse o segredo de expirar abençoando a

desgraça.

Foram as ultimas palavras de Salter, palavras que a joven freira já não

ouvira, porque os braços de sua tia lhe estavam sendo amparo na perda

dos sentidos.

XIX

As religiões no meio do seculo, são como as ilhas no meio do mar,

que ás vezes por invasões do mesmo mar se vão comendo, e

soçobrando, e padecem suas injurias da visinhança deste poderoso

adversario. Mas se nas ilhas ha tempestades, que será no coração

dos mares? Oh! alegrem-se as ilhas, e multipliquem-se! que ainda

com a communicação tão visinha dos mares, estão muito mais firmes

e seguras que elles.

P. Manoel Bernardes. (_Floresta._)

Decorreram alguns mezes, tres seriam, depois do terrivel combate

d'aquellas duas grandes almas comsigo mesmas.

Os succedimentos d'este lapso de tempo chegaram ao meu conhecimento

contados de diversas maneiras.

Dizem informações do mosteiro, que a religiosa Carlota Angela,

recobrando o vigor que o susto religioso lhe quebrantara, tentou de novo

evadir-se, n'um impeto de delirio, pela porta de serventia dos carros

que abre para o largo de S. Bento: tentação diabolica de que a

energumena pôde salvar-se por intercessão do patriarcha, o qual n'esse

momento lhe empeceu a fuga com o baculo, que a cegou com sua vivida

refulgencia. Isto, pelos modos, não está bem averiguado, nem

canonicamente se encampa, como milagre, á crendice dos leitores.

Outras informações mais racionaes dizem que Francisco Salter de Mendonça

fora, no decurso d'esses tres mezes, com pontualidade quotidiana ao

mosteiro, onde passava horas e horas na grade, com Carlota Angela, e com

sua tia, algumas vezes.

A tradição, porém, mais corrente, e sustentada por pessoas coevas de

grande auctoridade, é que Francisco Salter não voltara ao convento

depois d'aquella fuga mallograda, senão anno e meio mais tarde, já

vestido com o habito da ordem benedictina.

Foi-me, portanto, necessario pedir informações a um conventual de frei

Francisco da Soledade, que assim se chamou na religião o capitão de

marinha. Queria eu que me contasse qual foi o viver d'esse desventurado

no mosteiro; que assombrosas pelejas se deram n'aquelle seio, antes que

o habito o amortalhasse; quantas vezes a luz da graça divina alumiou o

coração blasphemo do noviço; quantas vezes a mão glacial da morte lhe

esfriou na fronte os estos afogueados da desesperação.

Colleccionei das vagas lembranças do egresso que fora seu companheiro de

noviciado em Tibães, as seguintes miudezas, que apenas satisfizeram a

minha curiosidade:

Francisco Salter apparecera na manhã do dia seguinte áquella noite do

anterior capitulo, no mosteiro de S. Bento da Victoria pedindo ao dom

abbade que o admittisse a noviciado. Mendonça era alli conhecido como

sobrinho do afamado monge, que ajuntava ao lustre do nascimento e ao das

lettras a santidade sufficiente para que o mundo lhe perdoasse uma

velleidade de moço, da qual velleidade procedera Francisco Salter.

O abbade acolhera-o de bom animo, suspeitando, porém, passageiro

desgosto de coração. Teve-o em sua casa alguns dias, esperando o

conselho do tempo, até que, senhor das mágoas do mancebo, acreditou na

firmeza da resolução e na efficacia do balsamo.

Decorrido um mez de prova, Francisco foi fazer noviciado para a casa de

Tibães, e ahi é que o meu informador o tratou com intimidade mediana,

porque o noviço vivia tão taciturno e triste, que os seus companheiros,

por pena, o não importunavam com frivolos allivios.

Sem embargo da pouca convivencia, notou o egresso que as noites do

noviço deviam de ser atribuladas, porque nunca de manhã lhe vira os

olhos sem raios de sangue, e como que ainda crystallinos dos residuos de

lagrimas regeladas pelo frio das manhãs.

Observara elle mais que, nas obrigações do côro, Francisco era pontual,

mas os seus labios, nem sequer murmuravam as orações do breviario. E,

posto que para os companheiros houvesse censuras do mestre por motivos

identicos, Francisco nunca fora reprehendido, nem ainda procurado na

cella, se alguma vez faltava ao côro. D'isto inferiam os demais noviços

que o seu companheiro trouxera do Porto especiaes recommendações do dom

abbade.

Acrescenta que Francisco, ás horas em que os noviços passeiavam na

cêrca, não saía do seu cubiculo, ou ia sentar-se no claustro lendo a

_Imitação de Christo_, livro que nunca lhe esquecia; ou lia um por um os

singelos epitaphios das lagens que formam o pavimento do claustro.

Notava-se que durante um anno o mysterioso noviço apenas recebera uma

carta do dom abbade, em que lhe era dada a nova de que todos os seus

papeis estavam legalisados canonicamente para poder professar, concluido

que fosse o tempo do noviciado.

N'este pouco se resume o que pude alcançar do egresso indifferente ou

desmemoriado.

Quem nos dirá, pois, as angustias do amante de Carlota Angela? O

coração.

Consultemos o coração aquelles que o tivermos.

Revivamos algum tormento da alma, se o tivemos na vida, e teremos

inducções remotas do que seria aquelle demorado paroxismo, aquelle lento

suicidar-se em presença de homens que não lhe entendiam as lagrimas, nem

saberiam nem poderiam enxugar-lh'as, se as entendessem.

A imagem de Carlota devia de estar sempre entre elle e o Christo. A luz

da graça divina devia de ser muitas vezes deslumbrada pelo reflexo da

labareda que o abrasava no intimo.

A phrase blasphema prenderia muitas vezes á consolação do Kempis. As

mãos convulsas deviam travar do habito para rasgal-o sobre o seio onde

batia o coração amante, do bravo, do homem de amor e batalhas, do que a

sociedade fizera atheu, antes que a desgraça fizesse religioso.

E, se assim não acontecia, abençoada seja a religião de Jesus, que tanto

póde! Abençoadas sejam as angustias, que levam pela mão o filho da

desventura ao pé de uma cruz, e o hasteam n'ella como holocausto, que se

consola por saber que ha um Deus compassivo a vel-o em suas torturas.

É o que necessitam os grandes infelizes, e esse olhar misericordioso do

Senhor, que reanima e salva do inferno dos homens aquelle que os homens

desampararam mutilado em todos os affectos, espedaçado em todas as

cordas do coração, que não coube na terra, repellido da communhão dos

innocentes prazeres d'esta vida, condemnado a expiar no flagicio da sua

dor immerecida as culpas que os grandes perversos não expiam, á vista de

suas victimas.

Se, pois, Francisco Salter caía de joelhos, paciente e consolado, aos

pés do crucificado, abençoada seja a religião de Jesus, que tanto póde!

Desde o dia em que frei Francisco da Soledade professou, a freira

benedictina recebeu regularmente novas d'elle, escriptas de Tibães, onde

o frade prolongou a sua residencia.

Faziam-lhe saudades os sitios onde tanto chorou.

Aviventara com a sua angustia as arvores seculares, os penhascos, e as

cruzes que lhe ouviram os gemidos.

Essas existencias insensiveis viviam-lhe na alma, e custava-lhe o

desprender-se d'ellas.

O coração affeiçôa-se aos logares onde soffreu ou gosou, quando o goso

não é crime, nem o soffrimento a desesperação da alma corrompida. As

alegrias do impio, e as tristezas do perverso, essas não deixam traços

indeleveis de suavissima saudade ou branda mágoa no coração.

Frei Francisco sabia que morrera para o mundo, e o ermo de S. Martinho

de Tibães era-lhe um sepulchro grato, uma lousa amiga sua, já polida dos

prantos d'elle. Impetos ainda de coração mal domado o impelliam para

Carlota. Mas quem era n'este mundo a professa benedictina? Era um

cadaver como elle, uma existencia passada, uma vaga imagem que esvoaçava

entre a cruz e o monge, e parava um momento para lhe verter nas mãos

erguidas uma lagrima.

Que importavam as visões da noite, esse fitar de olhos lagrimosos na

lua, e nas estrellas, nas nuvens encapelladas, e no clarão do relampago?

Que valia ao pobre coração do frade estrebuxar ainda nas agonias do

amor, no paroxismo horrivel d'esse suicidio de tantas vidas?

Que conforto lhe seria baixar do céo os olhos sobre si, e ver-se

amortalhado?

Não recorramos ao milagre para explicarmos a tranquillidade do espirito

que de repente abjura o mundo, e se lança desesperado ás misericordias

divinas.

Terrivel deve de ser o preço da tranquillidade, quando não é a morte que

a traz. A morte, sim: essa será sempre a bem-vinda dos desgraçados,

porque Deus lhe fez de gêlo a mão que ella põe no seio abrasado do

afflicto.

As cartas de Carlota Angela eram um adeus repetido ao seu amigo, um

convite festival para a eternidade. Nem uma só reminiscencia do passado

escurecia a linguagem lucida da prophetisa que descrevia as alegrias do

céo. Era tudo porvir, tudo paragens do vôo que ella ia desferir da

margem da sepultura para além. Dos seus soffrimentos nada lhe dizia: os

da alma abençoava-os, os do corpo chamava-lhes o doce pungimento dos

espinhos da sua corôa gloriosa.

Soror Rufina, amiga do monge benedictino, escrevia-lhe menos enlevada em

extasis. Fallando-lhe da sobrinha, contava-lhe os rapidos progressos de

uma tisica irremediavel, e da paciencia christã com que ella via

aproximar-se o termo de suas dores. A ultima carta que lhe escreveu,

revelava-lhe o desejo que sua sobrinha mostrara de ver o seu amigo, o

seu esposo celestial, uma vez, uma só vez antes de morrer.

Frei Francisco mediu as suas forças, e pediu a Deus que lhe aniquilasse

as que elle sentia para encarar Carlota, se eram peccaminosas.

Seis mezes depois de professo, o monge foi ao Porto, e recolheu-se ao

mosteiro de S. Bento da Victoria. D'ahi consultou soror Rufina sobre a

sua ida ao convento, porque entrara n'elle o presagio de que a infeliz

succumbiria ao vel-o desfigurado, encanecido, e triste como o espectro

de uma felicidade morta, que os vermes roazes da desventura tornaram

pavorosa.

Rufina sondou sua sobrinha, e Carlota, antes de responder, sentiu uma

convulsão estranha, que lhe fez espirrar do seio borbotões de sangue.

Passada a crise, que julgaram derradeira, Carlota disse anciosamente que

aceitava a visita do seu irmão, e quanto mais depressa, mais grata lhe

seria.

Cuidavam as amigas da moribunda que similhante impressão lhe seria

salutar.

Os medicos, com a sua costumada innocencia, conjecturavam que a presença

do monge faria uma grande revolução nos elementos desorganisados da vida

de Carlota, e agouravam a possibilidade de uma cura por meios todos

moraes.

N'esta esperança, que fazia sorrir a freira, frei Francisco foi avisado

para encontrar Carlota n'uma grade.

Espectaculo indescriptivel!

Frei Francisco entrara na grade onde dezoito mezes antes concertara a

fuga de Carlota. Alli se trocaram, em phrases cortadas de suspiros,

queixumes contra o destino; porém, as esperanças deslumbrantes acudiam

logo com as promessas de uma vida cheia de prazeres, prazeres embora

criminosos no tribunal dos homens, porém perdoaveis, talvez, aos olhos

de Deus. D'alli saíra Francisco Salter de Mendonça, o capitão de

marinha, com o coração fremente de aspirações, e até de soberba por ter

calcado, ao cabo de tantas desventuras, a inexoravel desgraça.

Oh! quão mudado agora! Como elle se estava examinando diante do seu

passado! O que se passaria n'aquella alma, e n'aquella fronte inclinada

para as mãos cruzadas sobre o seio! Porque não deu o Senhor duas

lagrimas áquelle infeliz!

Carlota Angela appareceu, encostada ao braço de sua tia. O monge

erguera-se, e voltado para ellas baixara a cabeça, e não mais erguera do

chão os olhos. Encostando uma das mãos á banqueta da grade, sentia-se o

tremor d'este movel sob a pressão convulsa. Apenas a madre Rufina

proferira alguns monosyllabos, Carlota fitara os olhos lucidos de um

brilho sinistro no habito do monge, e, voltando-os, silenciosa, para sua

tia, parecia perguntar-lhe se era aquelle Francisco Salter.

--Francisco!--balbuciou ella.

O frade estremeceu a esta voz, e encarou a freira.

--Francisco!--repetiu ella com a voz quasi desfallecida--és tu?

--Não vol-o disse, minha irmã, que me não conhecerieis?--disse o

benedictino com um violento sorriso.

--Conheço, conheço...--tornou ella, sentando-se, ou caíndo na cadeira

aonde a tia se esforçara em sental-a.--Era assim que eu o via nos meus

delirios, irmão da minha alma. Cá o sentia no coração morrendo assim...

Faltava-me ouvir este som de finados que me está cortando os ultimos

fios... É por mim, ou por ti, Francisco?... por ambos...

De feito, soava um dobre a finados na torre do mosteiro. Expirara

momentos antes uma religiosa d'aquella casa, a quem Carlota pedira que

intercedesse ao Senhor por ella, a fim de que a chamasse a si antes que

se apagassem os cirios do funeral da agonisante. Esta fizera um gesto

affirmativo, e expirara com os olhos fitos na freira.

Carlota proferira aquellas palavras, e pedira uma gotta de agua.

Emquanto soror Rufina descera á portaria a buscal-a, a freira introduziu

a custo o braço pela grade e disse:

--Francisco! dá-me a tua mão.

O monge tomou a mão de Carlota, e, ao apertal-a, sentiu a frialdade

humida da mão de um cadaver. A posição da religiosa era violenta, com o

peito encostado aos ferros, e a tosse suffocava-a. Frei Francisco fez

esforço para afastar o braço, mas debalde. Aquella mão apertava como a

do naufrago em trances de morte. Um frouxo de tosse salpicou de sangue o

braço do monge, e em seguida, já quando Rufina entrava na grade com o

copo, a mão de Carlota decaíu com o braço ao longo da grade, a fronte

pendeu para as costas da cadeira, o outro braço já se não ergueu para

tomar o copo da agua que lhe roçava os labios humidos de sangue.

--Minha filha!--exclamou a atribulada freira. Carlota descerrou as

palpebras, relanceou a vista quasi apagada para o monge, e fechou-as de

novo, murmurando:

--Ouviu-me Deus!

Rufina soltou um ai vibrante, e caiu de joelhos aos pés da sobrinha.

Frei Francisco ajoelhou tambem, e disse com terrivel serenidade:

--Oremos por ella. Meu Deus! recebei a martyr em vosso seio!

CONCLUSÃO

Cinco annos depois, vivia ainda no mosteiro de S. Martinho de Tibães

frei Francisco da Soledade.

Os leitores de mais rija e invulneravel organisação admiram-se de que

tal homem podesse viver tanto.

A mim custar-me-hia tambem a crel-o, se m'o não fizessem acreditar pela

data da lousa que vi na claustra d'aquelle mosteiro, com os meus

proprios olhos.

Viveu cinco annos para purificar-se e fazer-se digno da esposa que o

esperava no céo.

Quereis saber a purificação qual foi?

Norberto de Meirelles e sua mulher, quando a filha expirava, luctavam

com as extremas perseguições da fortuna infausta.

Mezes depois, estavam pobres, pobres até á indigencia.

Frei Francisco chamou estes infelizes para a visinhança do mosteiro, e

dava-lhes tres partes do seu pão. A communidade, quando conheceu tamanha

virtude, repartia tambem do seu por elles. A mãe de Carlota expirou nos

braços do monge, o velho sobreviveu-lhe um anno, e expirou quinze dias

antes de frei Francisco.

Francisco Salter saíu d'este mundo, quando já não tinha a quem perdoar

em nome de Carlota Angela.

Vêde-me do céo a mim, e a todos os infelizes, almas bemaventuradas!

Não foi a minha imaginação que vos creou! Logo que eu me senti soffrer

em vós, a vossa passagem na terra deixou vestigios.

FIM.

Carlota Angela · 第 11 / 11 段