palavras! Não augmente a triste vida que eu tenho. Eu lhe prometto de
trabalhar toda a minha vida para que em sua casa nunca haja a menor
privação. Pedirei esmolas ás senhoras religiosas ricas, para lhe mandar,
meu pae. Não me amaldiçôe, que eu não lhe mereço esse castigo, nem é
possivel que Deus consinta que a sua maldição seja valiosa. Pelas chagas
de Christo, arrependa-se d'essas amargas palavras que disse...
A pobre menina, banhada em lagrimas, supplicava ainda de joelhos, quando
Norberto de Meirelles saíu da grade esbaforido, resfolegando vapores do
interior vulcanico do peito.
Ao passar por Antonio José da Silva, que o esperava á porta da loja, na
rua das Flores, disse-lhe:
--Nada feito.
--Venha cá, snr. Norberto, conte lá isso. Com que então não é o mel p'ra
bôca do asno; aqui calha melhor dizer _da asna_, digo bem, snr.
Norberto?
--V. m. é pouco cortez, snr. Antonio. Se vamos a pôr as cousas no
direito, ninguem póde ser asno sem sua licença. Lá por que a minha filha
me desobedece não dou ousio a v. m. de lhe chamar nomes, que é o mesmo
que chamarm'os a mim. Se é rico, snr. Antonio, eu tambem já o fui, e não
tratava ninguem de asno, porque aprendi a cortezia com as pessoas de bem
com quem sempre tratei.
--Não se enfade, homem,--replicou o irmão da snr.ª Angelica
(honrosamente mencionada na Filha do arcediago) pondo-lhe as mãos
vermelhas, como dois mólhos de rábanos, sobre os hombros--não vá a
Vallongo por tão pouco, snr. Norberto. Isto que eu lhe disse foi assim
um modo de fallar, sem aquella de injuriar a sua filha, nem a v. m., que
tem os figados, como lá diz o dictado, muito ao pé da bôca. Entre cá,
sente-se, desabafe, e veja se quer tomar um copo do da instituição da
Companhia, e uma cavaca de Arouca pare lhe dar animo.
--Obrigado; não quero nada; passe v. m. muito bem, e rasgue quando
quizer o tal papelucho das condições que me deu... Aqui o tem. Emquanto
ao que lhe devo, se v. m. não quizer esperar que eu lhe possa pagar,
mande tomar conta do que eu tiver, e fica d'aqui já arrumada esta
pendencia.
--Espere, homem, que ainda não chegaram as cousas a esse ponto. Eu quero
fallar com a sua filha, e mau é se ella me não dá o sim. Uma cousa é ir,
outra mandar.
--Não faz nada, snr. Antonio, digo-lh'o eu. A rapariga não falla como
nós, e tem lá na cabeça um palavriado da breca, que não sei onde ella o
foi aprender. Dizia-me o meu cunhado doutor (Deus lhe falle n'alma), que
a cabeça de Carlota era um vulcão. V. m. sabe o que é um vulcão?
--_Vulcão_, pelos modos, é... é o mesmo que _balcão_...
--Bem no digo eu! Vulcão é uma cousa de lume que sáe debaixo da terra.
--Ah!--interrompeu o snr. Antonio, abrindo a bôca como em testimunho da
sua admiração--Já entendo... Quer dizer que ella tem grandes fumaças de
ser bonita!... Olha o milagre! bonita é, mas ha-as por ahi tão bonitas
como ella, que tomaram que eu as quizesse. Emfim, eu sempre lá quero ir,
dê no que der. Assim como assim, nada se perde. O que for soará.
Appareça por aqui ámanhã, snr. Norberto.
Afoutado por tão estupida esperança, Antonio José da Silva teve a
audacia de procurar Carlota Angela. Vae ler-se o texto d'esta visita,
porque foi ella uma das maiores affrontas que a desgraça fez á pobre
menina. Todas as outras, confrontadas com esta, eram favores da fortuna.
O snr. Antonio ignorava a pratica dos conventos, ao tocante a
locutorios. Quando o introduziram, pela primeira vez de sua vida, em uma
grade, o alapuzado moço achou-se affrontado com a vista dos ferros.
Carlota appareceu com sua tia, meia hora depois que a esperavam. Esse
espaço de tempo fora necessario á freira para convencer a sobrinha de
que não era civil nem bonito deixar de receber a visita, qualquer que
fosse a intenção da pessoa que a visitava.
--Bons dias, minhas senhoras--disse Antonio, avançando e recuando, tres
vezes, uma assaralhopada cortezia.--Não me conhecem?
--Já soubemos que era o snr. Antonio José da Silva que procurava minha
sobrinha--disse soror Rufina.
--Já sabem ao que vim, pelos modos.
--Ignoramos.
--Venho a troco do que se passou com o snr. Norberto.
--Parece impossivel!--acudiu Carlota--Eu creio que disse claramente a
meu pae o que é escusado repetir ao snr. Silva.
--A menina ha de fazer favor de me ouvir um bocadinho, se não tem muito
que fazer.
--Pois não! queira fallar--disse Rufina.
--Eu sympathiso com a snr.ª D. Carlotinha desde que a vi nas endoenças
da Misericordia faz agora cinco annos. Já então me deu na venêta de a
pedir ao snr. seu pae; mas rosnava-se por ahi que a menina não gostava
de rapazes do negocio, e tinha lá suas tendencias para a farda. Metti a
falla no bucho, e esperei até ver no que paravam as cousas. Depois
aconteceu em sua casa a desgraça d'aquelle grande roubo, o snr. Norberto
ficou mal arranjado de fortuna, e eu, como o outro que diz, fiquei sendo
o mesmo homem a respeito da menina. Fui pedil-a a seu pae em casamento,
e elle ficou a pular de contente, porque, a fallar-lhe a verdade, não é
por me gabar, mas seu pae não endireita mais a cabeça se eu não casar
com a menina. Em primeiro logar, rasgo as letras que se vencem contra o
snr. Norberto no mez que vem, depois empresto-lhe quasi sem juro o
capital necessario para elle montar o negocio no pé em que estava antes
da quebra; depois, arremato a quinta do Candal em nome da snr.ª D.
Carlotinha, porque já ouvi dizer que a menina gosta muito da aldeia, e
eu tambem não desgosto, porque lá cômo muito melhor, e as aguas são mais
leves. Pois é verdade: eu venho para este fim. Agora veja lá a menina o
que decide. Se quer ser minha esposa, trato de arranjar os papeis,
botam-se os banhos, e vamos a isto. Então que diz?
--Já respondi a meu pae--disse, com mal disfarçada cólera, Carlota
Angela.--Não me queixo do snr. por aqui vir com similhante fim; creio
que meu pae, por delicadeza, lhe não diria sem rebuço a minha resposta.
Eu não caso com o snr. Silva, nem com alguem. Resolvi ser religiosa. O
meu tempo de noviciado acabou. Estou esperando a licença regia para
professar.
--Deixe-se de asneiras--atalhou Antonio José, soltando um boçal frouxo
de riso que indignou Rufina e enojou Carlota--Pois a menina quer-se vir
aqui metter n'esta espelunca, podendo ser rica e viver regaladamente
como pouca gente! Tenha juizo, creaturinha! Isto de convento é bom para
quem não tem, como o outro que diz, um marido que lhe dê tudo o que for
necessario para o augmento da sua pessoa, e que a traga nas pontinhas.
Carlota erguera-se para sair. Rufina seguira o exemplo da sobrinha.
Antonio José da Silva permanecera refestellado na cadeira, até que se
ergueu, forçado pela silenciosa mesura das duas senhoras, exclamando:
--Então que diz?!
--Minha sobrinha já respondeu ao snr. Antonio--disse a freira
affavelmente.
--Com que então, nada feito?--redarguiu o lêrdo aspirante ao matrimonio,
que, dez annos depois, lhe empeçonhou a existencia, segundo reza a
chronica já citada, da qual entendemos que a leitora deve prover-se, se
a zanga que lhe faz o bronco mercador de pannos requer uma vingança
superior ao delicto--Pois sabe que mais, snr.ª D. Carlota?--proseguiu,
erguendo-se, com modos colericos, e brutalmente canhotos--Eu entendo o
que isso é, e bem sei por que a menina anda a fingir que quer ser freira
p'ra dar tempo a que elle volte lá do Brazil.
--Elle! quem?!--exclamou Carlota com assomos de indignação, que o só
olhar da tia sofreou.
--Faça-se de novas! pois não sabe quem?! o da marinha, aquelle que lhe
caiu lá no gôto, porque trazia a cintura arrochada no fardalhão, que
sabe Deus a quem elle o ficou devendo, quando foi para Lisboa...
Carlota Angela saiu precipitadamente da grade; soror Rufina ficou para
explicar ao sandeu a descortezia da sobrinha; aconteceu, porém, que elle
não se julgou affrontado pelo impeto da saida.
--Snr. Antonio--disse a freira--v. m. está ahi fallando n'uma pessoa que
morreu. Minha sobrinha não espera alguem.
--Eu não sabia que elle morreu! Isso agora é outro caso... Acho que fiz
uma asneira em lembral-o á pobre moça! Faça favor de lhe dizer que me
desculpe. Ora olhem quem havia de dizer que o tal rapaz dera á casca lá
no Brazil! Pois eu cuidava que ella estava, como diz lá o outro,
encantada por elle, como a doninha com o sapo. Ainda bem que ella lhe
não caíu nas mãos, porque pelos modos o homem era jacobino, e melhor foi
assim, não lhe parece, senhora Madre?
A freira não pôde deixar de sorrir ao titulo de _Madre_ que pela
primeira vez lhe fora dado.
--An?--tornou elle--está-se a rir?! então que quer dizer lá essa
risadita?! Isto parece-me casa de doudos, por mais que me digam.
--Não deve aqui voltar, snr. Antonio,--replicou a freira com muita
brandura e graça--porque seria pena que o seu juizo perigasse n'esta
casa de doudos.
--E olhe que a fallar a verdade já me lembrou isso, e essa cousa que a
senhora Madre acaba de propôr não me cáe em cesto roto. Isso leva agua
no bico. A senhora Madre lá lhe parece que a sua sobrinha é capaz de me
fazer dar volta ó miôlo? Não tenha pena do rapaz, que eu tambem a não
tenho! (O snr. Antonio José da Silva tinha por esse tempo os seus
quarenta annos.) Quem chegou á idade adultera (emende _adulta_) sem dar
com as ventas no sedeiro, tambem já não cáe na arriola de se apaixonar
por quem lhe não sabe agradecer os affectos do seu peito; é como lhe
digo, senhora Madre, e póde dizel-o tal e qual á sua sobrinha, que não
vá ella cuidar que eu perco a vontade de comer. De tolas como ella está
cheio o Porto. Tomara eu boa vontade de casar, que mulheres andam-se-me
a metter pelos olhos com um palmo de cara soffrivel, e bons dotes...
cuida que não, senhora freira!?
--Cuido que sim, snr. Antonio,--disse com a mais comica paciencia soror
Rufina--cuido que v. m. merece uma menina de merecimentos muito
superiores aos da minha pobre sobrinha. Se ella o não sabe avaliar ao
justo, é porque está inclinada para a religião, onde nem todas as
pessoas são doudas, snr. Antonio. Vá v. m. na graça de Deus, escolha
entre tantas meninas que se lhe offerecem a melhor, e seja muito feliz.
As minhas obrigações não consentem que eu me demore.
--Sempre lhe quero dizer mais uma palavra, se está para isso, snr.ª
Madre.
--Com tanto que seja breve...
--Olhe lá... A senhora quer fazer um contracto commigo?
--Um contracto! Nós as religiosas não podemos fazer contractos, nem
supponho que genero de contracto possamos fazer.
--Eu lhe digo. Se a senhora fizer com que sua sobrinha queira casar
commigo, eu obrigo-me a dar á senhora cem mil réis cada anno emquanto a
snr.ª Madre for viva...
--Emquanto eu for viva?--atalhou a freira, sustendo com difficuldade o
impeto do riso.
--Sim, senhora--tem cem mil réis em metal, pagos no principio do anno,
emquanto a senhora for viva.
--Não aceito.
--Então quanto quer? diga lá, que me pilha em boa maré!
--Se me dá os cem mil réis por mais alguns annos...
--Que é? não entendo isso.
--V. m. diz que me dá cem mil réis annuaes; mas tira a condição de m'os
não dar logo que eu morra, não é assim?
--Podera não! Dou-lh'os emquanto a snr.ª Madre for viva.
--Pois eu quero que m'os continue a pagar por mais alguns annos.
--A senhora por mais que me digam está a mangar commigo! Então é douda
ou não é?! E o caso é que já pegou á moça a toleima...
Soror Rufina arquejava em gargalhadas indomitas, quando o lôrpa lhe
dirigia os ultimos insultos.
Não podendo mais sustentar-se na grade, a freira deixou o mercador a
resmungar, e lançou-se a rir nos braços de Carlota, que a esperava
chorando.
Acabou-se o ignobil episodio de Antonio José da Silva.
Aos que não conhecem esta raça inextinguivel no Porto, aos que reputam
desnaturada a linguagem que o romancista saccou da lingua d'este
Antonio, emprasamos para que estudem, e observem, hoje, n'este anno de
1858, já passado quasi meio seculo, os Antonios existentes, se é
possivel encontrar-se um Antonio assim que não seja um lustre da nobreza
coeva do gaz e do telegrapho electrico.
XVI
Quem quizer saber quantos são ao todo os filhos de Adão, conte
primeiro quantos são os afflictos e atribulados.
Bernardes. (_Nova Floresta_.)
A filha de Norberto de Meirelles esperava em vão que sua mãe com
supplicas incessantes alcançasse do marido o dote para a profissão. O
negociante poderia com algum sacrificio acceder ás instancias de D.
Rosalia; mas a pertinacia de Carlota em rejeitar a proposta de Antonio
José da Silva irritou-o de tal modo, que não houve convencel-o a
aceitar, a titulo de emprestimo, a dadiva do patrimonio que os paes da
noviça Dorothea queriam dar á intima amiga de sua filha. Ia mais por
diante a brutalidade do arrozeiro, negando-lhe o consentimento. Ora,
contra esta tyrannia nova, entre as tyrannias de paes crueis e barbaros
tutores, como se diz nos romances não menos barbaros e crueis, contra
esta nova tyrannia trabalhavam na côrte pessoas empenhadas a favor da
noviça por intervenção de algumas freiras.
Obtida a licença regia, graças á pouca actividade de Norberto, e talvez
á diversão em que o traziam os cuidados e afflicções de pagar as letras
do snr. Antonio José da rua das Flores, Carlota Angela soube que seria
freira sem dote, freira de prenda, como se chamam as meninas que tocam
ou cantam, e dão a sua habilidade como equivalente de patrimonio.
Foi um dia de jubilo no mosteiro de S. Bento da Avè Maria o da chegada
da licença. A profissão de Carlota era uma festa, em que todas as
freiras tomavam parte. Os fartos meios, que lhes sobejavam, permittiam
solemnisar com todas as galas e magestade o acto augusto, que a noviça
anciava, chorando de alegria, e esperando com susto, como se temesse
algum imprevisto obstaculo á sua felicidade. Chegou o fausto dia.
Se entendem que não é impertinencia descriptiva debuxar á pressa os
promenores da profissão de uma religiosa benedictina, acompanharemos
Carlota Angela desde que a mestra, avisada pelo dobre do sino, a foi
buscar da casa do noviciado para o côro. A noviça ajoelhou aos pés da
prelada, proferindo as palavras do rito, que são uma supplica de
misericordia a Deus e á abbadessa, que a interroga ácerca do que
pretende. Entre as mãos de Carlota estava a regra do patriarcha S.
Bento, e n'essa postura devota e humilhada profere os votos. Á grade do
côro, onde se passa esta scena quasi silenciosa, chega um sacerdote com
a cruz processional entre dois candelabros, e após elle os paramentos.
A noviça cantou com a voz tremida a carta da sua profissão. As ultimas
palavras mais as dissereis gemidos desatados de uma suffocante angustia.
Lida a carta, o som melancolico do orgão parecia chorar com ella, cuja
voz, em terceto com a da cantora e da mestra de noviças, entoou, tres
vezes, o seguinte verso:
_Suscipe, Domine, secundum eloquium tuum, et vivam, et non confundas me
ab expectatione mea._
Carlota foi ajoelhar ante o altar da Virgem, e depôz no respaldo do
altar a carta da profissão. O côro cantava, entretanto, um _Gloria_ de
tristissima toada.
D'alli, foi ao meio do côro a professante, e ajoelhou sobre uma alcatifa
entre quatro candelabros; ajoelharam todos, e entoaram uma ladainha,
acompanhada a orgão, e instrumental.
As freiras assistentes ergueram nos braços a noviça, emquanto se cantava
o _Veni, creator Spiritus_, invocação de tanta religiosidade e
compunção, que as lagrimas saltaram a um tempo de todos os olhos.
Carlota foi prostrar-se diante da abbadessa, que a despiu, ao passo que
a trança dos cabellos era deposta n'uma salva de prata. Cingiram-lhe
depois a touca e o véo, que o celebrante aspergira e incensara, e
ajoelharam com ella. «Recebe, donzella, o véo sagrado--disse a
abbadessa, impondo-lh'o na cabeça--para que chegues sem mácula ao
tribunal de nosso Senhor Jesus Christo, ao qual se dobram os joelhos no
céo, na terra, e no inferno por toda a eternidade.» Sobre o hombro
direito lhe collocaram em seguida umas disciplinas, acompanhando a acção
com estas palavras: «Recebe, ó cara irmã, as armas da tua milicia».
O celebrante entoou uma oração, durante a qual as lagrimas da
professante manavam copiosamente sobre as mãos de soror Rufina, que lhe
amparava o rosto.
A prelada proferia as ultimas palavras da benção final, o orgão
acompanhava _Benedictio Dei Patris_, esse hymno de acção de graças, que
os anjos parecia sublimarem em accordes de celestial melodia, quando
entrou na igreja um mancebo com tal impeto, que se fez reparado ás
pessoas por entre as quaes rompeu com precipitada vehemencia.
--Já professou?--perguntou o individuo machinalmente a um rosto
conhecido que proferira o seu nome,
--Agora mesmo.
--Professa!--exclamou Francisco Salter de Mendonça, correndo para as
grades do côro--Professa! Tudo perdido, tudo perdido!
Encostado aos ferros do côro, com a fronte banhada de suor frio, e a luz
dos olhos turvada, Francisco Salter estava já amparado entre os braços
das pessoas que o reconheceram.
Fez-se um grande reboliço na igreja. A multidão agglomerava-se em redor
do official de marinha, sem poder averiguar a causa dos gemidos que se
ouviam no côro.
Não eram de Carlota Angela esses gemidos. A infeliz dirieis que
adivinhou a entrada de Salter na igreja, porque, erguendo-se de repente,
antes que a prelada pronunciasse as ultimas palavras da benção final,
correu á grade, soltou um ai suffocado, como se outro não podésse já
soltar do coração expirante, e caiu desmaiada nos braços de algumas
freiras, que lhe tinham seguido o movimento arrebatado.
Soror Carlota foi transportada á sua cella, sem sentidos. Francisco
Salter de Mendonça recobrou alento e razão, quando se viu espectaculo de
tanta gente, e pediu licença para sair.
A serenidade que de repente lhe assomou ao rosto causava novo espanto
aos amigos ou conhecidos que se empenhavam em o levar d'alli. Entre
esses havia um que tinha o segredo d'aquella grande desventura, e lhe
pediu mui encarecidamente que o acompanhasse para sua casa. Mendonça
rejeitou com tranquilla urbanidade os offerecimentos, e parecia surdo ás
consolações. O sorriso contrafeito, com que desmentia as lagrimas que
lhe aguavam os olhos, presagiava alguma grande desgraça. Um suicidio foi
o receio das pessoas a quem o mysterioso acontecimento foi de bôca em
bôca revelado.
Por fim, Mendonça desopprimido do concurso que o rodeava ainda no adro
da igreja, entrou no pateo do mosteiro, foi com sereno aspecto á
portaria, e pediu á madre porteira o favor de o annunciar á senhora
religiosa que acabava de professar. Concorreram algumas freiras a ouvir
este recado, e todas á uma balbuciaram não sabemos que palavras de
consolação religiosa que Francisco Salter parecia não ouvir.
Immovel permanecia elle, esperando a apparição de Carlota, quando lhe
indicaram a grade onde elle devia esperar que lhe fallassem.
--É a snr.ª D. Carlota Angela que eu procuro--disse elle com
imperturbavel firmeza.
--Pois suba para a grade, que o estão lá esperando.
--Mas quem é que me espera, senhoras?
--Alguem é...--responderam as freiras.
--Quem eu procuro, e com quem preciso fallar, é a senhora que professou
ha pouco. Não conheço mais alguem n'esta casa.
--Pois queira subir...--disse o padre capellão do mosteiro, que n'este
momento viera collocar-se ao pé de Francisco Salter--Eu acompanho v.
s.ª á grade onde o esperam--continuou o padre, dando-lhe o braço, e
guiando-o automaticamente para a grade, onde o estavam esperando.
Mendonça encontrou na grade uma freira desconhecida: era soror Rufina.
--Creio que não lhe será desagradavel--disse ella--encontrar uma tia de
Carlota.
--Quizera antes, minha senhora, encontrar sua sobrinha.
--É impossivel; minha sobrinha não dá accordo de si, nem dará tão cêdo.
V. s.ª devia presumir isto mesmo, antes que lh'o dissessem.
--Por que, minha senhora?!
--Porque minha pobre sobrinha o julgava morto, todas nós as amigas da
infeliz o julgavamos como ella: eu mesmo agradeço a Deus as forças que
me dispensa para poder vir a esta grade rogar de mãos erguidas ao snr.
Mendonça que não diga á desgraçada uma palavra que a póde matar; não lhe
lance em rosto a falta de palavra, que seria affrontal-a e dar-lhe o
ultimo empurrão para a sepultura.
--E disse eu já que vinha lançar em rosto a Carlota alguma falta? Não
venho, minha senhora, não. Eu vim a querer enxugar-lhe as lagrimas que a
minha apparição lhe fez chorar.
--Carlota por ora não póde chorar, snr. Mendonça. Para tamanha dor não
ha tal desafôgo por emquanto, e Deus sabe se alguma vez o haverá... Eu
não conto já com a vida de minha sobrinha. Vamos ser n'este convento
testimunhas de uma agonia muito atribulada. Deus lh'a dê curta, ou me
leve a mim primeiro, por misericordia. Duas horas antes, snr. Mendonça,
têl-a-hia talvez matado de alegria com a sua presença. Assim, matou-a,
ha de matal-a de pena, de desespero, de dores infernaes, que não hão de
obedecer aos confortos da religião.
--Que são confortos da religião?!--interrompeu Mendonça, carregando o
sobre-olho com a turvação da blasphemia.
--Aterra-me essa pergunta, snr. Mendonça!
--Não se aterre, minha senhora: responda-me antes a uma pergunta: o Deus
que ha de consolar Carlota é o mesmo que viu impassivel até este momento
a minha desgraça e a d'ella?
--Altos juizos do Senhor! Por quem é não lhe falle essa linguagem á
pobre Carlota! Ajude-a a supportar o peso da sua dor, com os olhos
postos no céo. A impiedade não serve de nada, snr. Mendonça. A
respiração da blasphemia traz para o interior do coração o fogo do
desespero. Se a vir succumbida, dê-lhe animo para a paciencia, venha
aqui todos os dias, dê-lhe a felicidade que a religião dos infelizes não
condemna; amigo, seja o irmão extremoso da minha pobre sobrinha.
Prometta-me isto, que eu vou prevenil-a pouco e pouco, até que ella
possa encaral-o com firmeza e confiança. Se a accusar de inconstante,
snr. Mendonça, olhe que a calumnia cruelmente. Ha de saber da bôca de
Carlota que dois annos de martyrio ella tem amargurado n'este convento.
--Sei, senhora.
--Que desenganos, que torturas, que repetidas luctas com a desesperação,
e que ferventes supplicas ella fazia a Deus para que a levasse, desde
que lhe deram como certa a sua morte!
--Tudo sei, minha senhora. Já vê que a não posso condemnar. Eu venho
pedir-lhe consolações, venho aprender a paciencia, venho pedir-lhe
coragem para não tentar contra a minha vida.
--Peça, peça, e verá que a minha santa sobrinha lhe ensina a consolação
do soffrimento, o bálsamo divino da paciencia, e o segredo de achar a
alegria na vida que tão desgraçada lhe parece. Hoje não, snr. Mendonça;
Carlota a esta hora precisa de que a animem, se é que Deus não quer que
este golpe seja o ultimo no debil fio da sua existencia. Eu vou para
junto d'ella, parece-me que a estou ouvindo pronunciar o seu nome, e eu
corro a dizer-lhe que encontrei no snr. Mendonça o irmão, o amigo
carinhoso da nossa Carlota. Deixa-me dizer-lhe isto, snr. Mendonça?
--Diga, diga, que é preciso salvarmol-a, ainda mesmo que ella me não
torne a ver.
--Por que não ha de ella tornar a vel-o?! Então quer que a infeliz morra
atormentada? Tenha compaixão de nós, snr. Mendonça! Outra freira d'esta
casa talvez lhe pedisse que não voltasse aqui mais. Eu, pelo contrario,
lhe rogo que venha todos os dias, que seja testimunha de todas as
lagrimas salvadoras que ella chorar, que lhe prometta uma affeição pura
sem manchar a santidade das obrigações religiosas de Carlota. Pois a
amizade immaculada não é o reflexo do amor divino? O Altissimo não
condemna o coração de minha sobrinha, cheio de um amor que ha de entrar
com a alma na bemaventurança. Eu tenho presenciado n'esta casa affeições
de muitos annos, de longas vidas dedicadas ao amor do coração, sem
comtudo macularem a religiosidade dos deveres. Todo o mundo tem
obrigação de respeitar o amor de minha sobrinha ao homem que ella chorou
dois annos, chorava ainda no instante em que lhe appareceu. Venha, snr.
Mendonça, venha aqui todos os dias, e verá como o tempo amacia os
espinhos que o mortificam. Ha de chegar a esquecer-se das dores que
soffre n'este momento, e a sentir as lagrimas de uma amizade santa e
pura.