Miragaya. No meio do rio, combinaram entre si desfazer-se do
denunciante, que os importunava lembrando-lhes a promessa de um quinhão
do roubo. A execução foi rapida como o plano. O portuguez foi arrojado
ao rio com algumas pancadas na cabeça; mergulhou, veio á tona da agua,
fincando-se na quilha do barco, á maneira de rémora, pendurou-se n'um
dos bordos, os francezes convergiram para o ponto, os caixões
escorregaram para esse lado, o barco inclinou-se tanto, e o barqueiro
com tal arte ajudou á catastrophe, que se virou o barco: francezes e
caixões tudo se sumiu nos abysmos, salvando-se, apenas, o barqueiro, por
ser grande nadador, e merecer salvar-se como instrumento que foi da
justiça providencial.
Não sabemos ao certo quantos contos de réis o Douro sepultou nos seus
reconcavos. Mais de cem, afóra o dinheiro e caixões do bacharel Sampayo,
se calcula a perda. Os haveres de Norberto de Meirelles estavam todos
alli. Restava-lhe, apenas, a granja do Candal e a casa da rua das
Taipas; mas, o arrozeiro, no mez immediato, tinha que pagar letras, que
os portadores, fiados na segurança do aceitante, não haviam apresentado
no dia do seu vencimento, rogando-lhe, por favor, o conservar em seu
poder os pagamentos até se restabelecer a ordem no giro commercial.
Era, pois, desgraçadissima a posição do pae de Carlota Angela. Via-se
pobre, e sentia-se desfallecido e velho para reconquistar o producto do
trabalho e da astucia, nem sempre legitima, de quarenta annos. Ainda
mesmo que amigos e credores o ajudassem, como de feito ajudariam, esse
balsamo não fecharia a chaga. A pena do seu dinheiro era uma angustia
infernal, que as palavras animadoras da christã e resignada esposa não
alliviavam.
--Deus o deu, Deus o tirou, Norberto,--dizia ella, convidando-o pela
religião á paciencia.
--Vae-te d'aqui com as tuas beatices!--respondia elle--Estamos pobres
por tua causa. Se fosses uma mulher amiga de teu marido e de tua filha,
não dizias onde estava o meu dinheiro, o meu dinheiro, o dinheiro da
minha alma!
E, exclamando assim com vozes que derretiam o coração, chorava como uma
creança o pobre homem, arrepellando as suissas e os cabellos.
Atalhava Rosalia:
--Não te mortifiques, Norbertinho. Eu se disse onde estava o dinheiro
foi para te salvar a ti, porque o tal homem da cara coberta disse-me que
tu estavas preso, e te matariam se eu não dissesse onde estava o
dinheiro.
--Deixasses matar; antes isso, do que ficar assim... sem nada!
--Ainda temos com que viver, meu amigo. Se eramos ricos, as nossas
despezas poucas eram. Faz de conta, Norberto, que o dinheiro está
enterrado onde estava; tanto nos serve elle debaixo da terra, como na
mão dos francezes. Sabes o que se ha de fazer? Tornemos a trabalhar como
quando nos casamos. Para comer e vestir como até aqui sempre hemos de
ter. Aos credores dá-se-lhe alguma cousa do que se deve, e vae-se
pagando o resto aos poucos. A nossa Carlota quer ser freira, e o dote
pequeno é. Eu lh'o arranjarei com as economias que poder fazer. Tenho
algumas joias que se vendem, e pouco faltará para o dote de Carlota. Não
achas que tenho razão, Norbertinho? Ora vamos, tem paciencia, e agradece
ao Senhor em nos ter deixado a vida.
--De que diabo me serve a vida! ah! o meu dinheiro, o dinheiro da minha
alma, que tanto me custou! Agora é que os outros me hão de pôr o pé no
pescoço. Como não estarão contentes os invejosos! Foram elles que me
roubaram. Esse homem que trazia o lenço pela cara era algum dos nossos
visinhos, que não podia ver como eu ia medrando! Estou roubado!
levaram-me o meu dinheiro, a minha vida, o meu suor, a minha alma. Agora
matem-me, com trinta milhões de diabos! Quero morrer, antes que me vejam
pobre! vou partir esta cabeça n'uma pedra, e tu fica para ahi a pedir
uma esmola, já que disseste onde estava tudo quanto tinhamos.
N'estas e n'outras lamentações, em que a blasphemia não faltava nunca,
curtiu, no Candal, a empeçonhada existencia o miserando arrozeiro,
durante tres semanas, até que lhe pegou uma febre, e uns frenesis de
energumeno, que o pozeram ás portas do inferno. Salvaram-o algumas
tisanas, e os confortos de dois ou tres amigos compadecidos que, rogados
por D. Rosalia, lhe foram dar esperanças de rehaver com capitaes
emprestados, senão tanto quanto perdera, ao menos mais que o necessario
para viver com decencia e satisfação. A convalescença foi morosa, e
arriscada com recaídas, procedentes de vertigens que advinham depois dos
prantos pelo seu dinheiro.
Voltando ao Porto, logo que o exercito francez saíu, fez uma honrosa
concordata com os seus credores, e retomou as redeas do seu mester,
ajudado pelos amigos e desvelos da mulher, que toda era energia,
actividade, e carinho para fazer esquecer a pobreza a seu marido,
preoccupando-o com a esperança de enriquecer outra vez.
N'aquelle tempo, porém, esta cousa a que hoje, em francez, se chama
_fortuna_, não se alcançava com a rapidez de agora. A perda do proveito
de quarenta annos lidados na vida commercial eram necessarios outros
quarenta annos para restaural-a. Por isso que o caminho de ferro era uma
utopia, e a celeridade do fio electrico um ideal dos contrasensos
impossiveis, a maquina de fazer dinheiro era um mytho, em que se
acreditava porque a moeda corrente era fundida e cunhada; mas nenhum
particular julgava possivel fazer em sua casa dinheiro.
A posição de Norberto era, portanto, relativamente má. Descorçoado para
as labutações do negocio, sufficientemente obtuso para chegar por
devezas e atalhos á estrada que os outros palmilham tarde e a más horas,
o negociante decaído lá sentia em si roer a desconfiança de que não
havia para elle mais readquirir a centena de contos, que tão perto
d'elle estavam encalhados entre as fendas de alguma rocha.
Esta descrença entibiava-lhe o animo, infundindo-lhe uma melancolia
taciturna e lethargica, d'onde não havia nada que o podésse divertir.
Carlota Angela, recolhida ao seu suspirado mosteiro, soube da desgraça
de sua familia. Ergueu as mãos ao Senhor, pedindo-lhe que alliviasse as
mágoas de seus paes, e lhes désse, em troca da riqueza perdida, a
esperança de maior felicidade no céo.
Quando D. Rosalia disse ao marido qual era a supplica incessante de
Carlota, Norberto respondeu:
--Ora! qual céo, nem meio céo! Diz-lhe que peça a Deus que me dê
dinheiro.
XIV
Que ansias, que deseos,
Que trabajos, conxogas, e sudores!...
P. Pedro de Salles. (_Emblemas._)
Quando o corregedor Joaquim Antonio de Sampayo foi suppliciado, o
general Botelho mandou examinar os papeis do jacobino com a esperança de
encontrar algum que justificasse a violenta morte do magistrado, no caso
de lhe serem pedidas contas do estranho feito.
As leis militares não permittiam tal excesso, quando os réos não eram
encontrados com armas na mão defendendo os invasores.
No quartel general de Botelho andava um ajudante de ordens que fora
condiscipulo e amigo de Francisco Salter de Mendonça no collegio
militar. Foi esse o encarregado de examinar os papeis.
Mal tinha revolvido alguns massos de cartas sem importancia, e officios
de serviço publico, uns assignados pelo governador do reino, outros pela
junta governativa, louvando todos a energia e zelo do magistrado, quando
reparou n'um rolo de papeis atados todos com uma guita, sendo a capa
exterior um sobrescripto que dizia: _Ao ill.mo snr. Francisco Salter de
Mendonça.--Rio de Janeiro._
O examinador, espantado de encontrar o nome do seu amigo entre papeis do
defuncto jacobino, receiou que algumas intelligencias desgraçadas e
deshonrosas para Francisco Salter podessem existir com os clubs
revolucionarios. Antes que alguem entrasse no escriptorio, o ajudante de
ordens do general Botelho escondeu o masso de papeis, e ancioso de
curiosidade, não tardou a examinal-os o mais escondidamente que pôde.
Viu uma, outra, e outra até vinte e tantas cartas assignadas por Carlota
Angela. Outras tantas, se mais não eram, assignadas por Francisco
Salter. Quem era esta Carlota Angela? interrogava-se o confuso leitor
das lagrimosas cartas. Como viera esta correspondencia dar á mão do
corregedor de ***? Qual seria o valor occulto de uns papeis que tão
estranhos pareciam ao funccionalismo do magistrado?
O ajudante de ordens, logo que o exercito invasor desalojou do Porto,
foi ao mosteiro de S. Bento da Avè Maria procurar Carlota Angela para
esquadrinhar o mysterio da correspondencia. Não encontrou alguem que o
informasse: no mosteiro tinham apenas ficado uma freira demente, e duas
criadas entrévadas, que apenas souberam dizer que a noviça Carlota
Angela fugira com sua tia para um convento da provincia.
Proseguia em inuteis averiguações o curioso militar, quando a junta
provisoria o nomeou para ir ao Rio de Janeiro dar parte das occorrencias
da infausta invasão, e da derrota fabulosa que os francezes iam
soffrendo na retirada.
O emissario aceitou da melhor vontade a enviatura, esperançoso de
encontrar no Rio de Janeiro o seu amigo da mocidade Francisco Salter de
Mendonça.
Apenas desembarcou, o primeiro official de marinha que lhe saiu ao
encontro foi Salter. Logo alli se aprasaram para uma conferencia de
alguma importancia, depois de entregues ao governo as participações do
reino.
--Que ha de commum entre ti, e um tal Joaquim Antonio de Sampayo, que
foi enforcado no Minho?
--Enforcado!
--Sim, garroteado por jacobino, traidor ao rei e á patria e á santa
religião, como lá se diz. Conhecial-o?
--Perfeitamente. Esse homem era tio de uma mulher que me obriga a
desertar ámanhã, para ir procural-a no Porto.
--Se o teu fim é saber onde ella está, posso dar-te algumas informações.
--Conheces Carlota Angela?!--interrompeu alvorotado o capitão de
marinha.
--Conheço pelas amarguradas cartas que te escrevia.
--Cartas! Quaes?! Eu não recebi cartas algumas de Carlota.
--Se as não recebeste, podes lel-as agora, porque eu sou o portador de
duas duzias d'ellas, que fazem chorar as pedras.
--Como te vieram essas cartas á mão? Dá-m'as.
--Lá vamos; mas primeiro quero que me expliques como estas cartas foram
á mão do tal corregedor enforcado.
--Isso é uma historia longa e atroz. Dá-me as cartas, que eu tudo te
explicarei depois.
--Pois sim: ahi vão as cartas da Carlotinha, mas tenho no outro bolso
outras tantas escriptas á tua dama.
--Por quem?
--Por um nosso condiscipulo do collegio militar, que, segundo se
deprehende do ardor da linguagem, deve amal-a como um louco.
--Quem é elle?
--Um terrivel paralta, que saíu da patria deixando por lá nos mosteiros
noviças apaixonadas.
--Quem? depressa... diz-me o nome d'esse homem.
--Francisco Salter de Mendonça é como elle assigna as lamuriantes
epistolas: eil-as aqui.
Tu me dirás agora se o corregedor era o teu alcayote para a dolorida
noviça.
Salter devorava as palavras da primeira carta de Carlota, sem entender
as ideias. De uma passava a outra, examinando nem elle sabia o quê. O
sangue subiu-lhe á flor do rosto, inflammando-lhe as pupillas
irrequietas. Era uma d'essas alegrias que chegam a doer em seu frenesi.
Ao rubor succedeu a pallidez subita, e o suor da vertigem. Não lhe cabia
o coração no peito, nem bastava ao afogo dos pulmões o ar que aspirava a
profundos haustos. Soltou uma exclamação puxada do intimo da alma, um ai
desafogado, vibrante, e das entranhas como se lhe desentalassem a
garganta quando o laço o fazia já estrebuxar em arrancos de morte.
O condiscipulo estava pasmado d'este conflicto, e tanto se lhe afigurou
respeitavel o jubilo ou a agonia de Salter, que não ousou interromper a
scena muda d'aquelle lance. Salter lançou-se-lhe aos braços, chorando
como uma creança, e proferindo afogadas exclamações, que pareciam os
gemidos que faz soltar uma dor physica incomportavel.
--Então isto é muito mais valioso do que eu suppunha!--disse o ajudante
de ordens--Que feliz eu sou, se vim tirar-te de alguma duvida
tormentosa.
--Trouxeste-me a esperança, a vida, o céo. Estas cartas são d'ella, da
minha esposa.
--Tua esposa? Pois Carlota Angela não é uma noviça?
--Não; é apenas uma secular no mosteiro de S. Bento.
--Não foi isso o que me disseram no convento.
--Pois o que te disseram?!
--Procurei-a para ver se ella me aclarava o mysterio d'essas cartas.
Disse-me uma criada que todas as religiosas tinham fugido aos francezes,
e a noviça Carlota Angela fugira com sua tia freira.
--A noviça! Isso é impossivel!
--Será; mas foi isto o que se me repetiu fóra do convento. Casualmente
me encontrei n'uma casa onde se fallava no grande roubo feito pelos
francezes a um tal Meirelles, rico negociante do Porto, que ficara
pobre. Alguem disse que esse Meirelles era o pae de uma noviça creança,
que já tinha acabado o tempo do noviciado, e se chamava Carlota Angela.
Quiz inquirir mais particularidades que me explicassem as tuas relações
com a tal menina, e nada colhi. Propunha-me procurar directamente
informações do negociante, quando fui encarregado da commissão que
trouxe. Aqui tens o que sei, e o que não sei has de tu sabel-o explicar
melhor do que eu.
--Sei tudo!--exclamou com força e precipitação Mendonça--Sei tudo...
Ámanhã vou para Portugal. Já pedi licença, e não m'a deram. Não importa.
Deserto. Julguem-me como quizerem; condemnem-me, arcabuzem-me, mas que
eu veja Carlota antes de morrer. Esta mulher é tudo quanto eu tenho na
vida. Se eu não morrer por ella, se me não sacrificar na honra, em tudo
quanto ha mais sagrado na vida, sou um infame sem rehabilitação perante
Deus e a minha consciencia. Se ella está morta, fui eu que a matei, não
foi o malvado que me roubou estas cartas, e privou a desgraçada Carlota
de ver as minhas. Já comprehendes o segredo d'estas cartas? Esse homem
que mataram, solicitou o meu desterro, para obstar ao meu casamento com
a sobrinha. Interceptou a nossa correspondencia com o fim de matar
n'ella o amor com a certeza da ingratidão. Foi elle quem me enviou aqui
um homem com a noticia de que ella se tinha casado. Eu esforço-me ha
seis mezes em vão para conseguir licença de ir a Portugal salvar este
anjo, e curar-me da desesperação que me tem levado ao extremo do
suicidio muitas vezes. Agora creio que perdi Carlota. Quando chegar ao
Porto estará ella já professa. Não importa. Quero vel-a, quero que ella
me veja morrer braçado aos ferros que a separam de mim para sempre. Esta
minha agonia não tem igual n'este mundo, meu amigo. Separam-me duas mil
leguas da mulher que eu poderia salvar, se a visse n'este momento. Por
que a não procuraste tu? por que lhe não mostraste estas cartas, que nos
salvariam ambos? Podias ter-nos feito um bem, que eu te agradeceria de
joelhos, e ella endoudeceria de jubilo... Paciencia... já agora
devorarei todas as torturas da duvida com menos angustia. Ainda tenho
uma esperança... Disseste-me que o pae de Carlota estava pobre. Talvez
que não possa dar-lhe o dote para a profissão, talvez que uma doença
retarde esse terrivel acontecimento. Talvez que Deus se compadeça de nós
ambos, e lhe inspire a esperança de tornar-me a ver. Nunca tive tanta
confiança na misericordia divina. É impossivel que Deus veja com
indifferença o terrivel resultado da profissão. Eu vou arrancal-a do
altar, vou disputal-a a Deus, vou amaldiçoar a religião cruenta que
receber uma mulher que me pertence por um juramento mais sagrado que
todos os votos do claustro.
Não cansou ainda aqui o fôlego da estirada declamação. Salter fallou
horas, e o amigo escutou-o com admiravel paciencia, até que pôde
admoestal-o que não fugisse, nem saísse do Brazil sem licença. Nem ao
menos conseguiu com as mais atiladas razões retardar um dia a deserção.
Já o amigo se offerecia para pedir ao principe regente a licença,
trocando por ella a commenda da torre e espada com que sua magestade o
agraciara, ao ouvir-lhe as novidades prósperas do reino. Salter
rejeitava conselhos e favores. O brigue saía no dia immediato, e não
estava ainda marcada a saída de outro navio. Negarem-lhe a licença era
já um capricho, senão antes uma desconfiança fomentada pelo bacharel
Sampayo. Ao lado do ministro havia alguem que lhe insinuava a suspeita
de ser Mendonça um forçado vassallo do principe, e um jacobino que
Manique soubera desterrar a tempo.
O governo não dera ao capitão de marinha satisfação alguma pelos
arbitrios do capitão-general, durante o tempo que estivera preso. O mais
que fez foi dar-lhe liberdade, reprehendendo-o por ter feito justiça com
suas proprias mãos, sobre um homem que viera ao Rio em commissão de
confiança.
Salter tragou em silencio o novo vilipendio, e protestou, não só
desertar, mas alistar-se no exercito francez, e atirar-se como
desesperado aos braços da morte, na primeira batalha que lhe deparasse a
sua negra fortuna.
Eram, pois, baldadas todas as reflexões do ajudante de ordens.
A bordo do brigue inglez havia ordem para receber um marinheiro
portuguez, e um preto marinheiro tambem. Ao anoitecer d'esse dia
Francisco Salter de Mendonça, e o escravo que lhe assistiu durante a
prisão, vestidos de marinheiros, foram recebidos no brigue. Na manhã do
dia immediato, quando o ajudante de ordens, ancioso de alegria,
procurava Salter para lhe entregar a licença que o principe assignara,
contra as suggestões do ministro, o vaso inglez já tinha saído.
O solicitador da licença foi dizer ao principe que o capitão da armada
não poderá vir beijar a mão de sua magestade antes de sair, porque o
brigue já tinha levantado ancora, quando a licença chegou.
Este expediente fez que Francisco Salter não fosse julgado desertor,
posto que as averiguações feitas pelo ministro contrariassem o
depoimento do generoso amigo, que ficara destruindo a intriga.
O romance deixa de ser impertinente e aborrecido. Vamos entrar nas
scenas tristes e sombrias.
XV
Crescei, mágoas, crescei, e crescei, dores;
Quebrai o vagaroso e triste fio
Que alonga a cruel Parca...
Ferreira. (_Eleg. 5.ª_)
As freiras dispersas recolheram ao seu convento da Avè Maria, um mez
depois da entrada do exercito anglo-luso no Porto.
Carlota Angela acompanhara sua tia, com quanto jubilo podia caber-lhe no
ambito da alma. Considerando a grandeza das penas que a flagellavam, só
á religião deve conceder-se o mystico poder de allivios, e alegrias para
a pobre, que tão infeliz era, e mais infeliz seria, se não tivesse a
táboa da religião em naufragio tão procelloso.
Apenas entrou no convento, quiz ver seus paes, dizendo que talvez elles,
na desgraça, precisassem de que lhes fallasse a linguagem da paciencia,
e da esperança nas riquezas do céo. D. Rosalia, foi chorar ao pé da
filha, e retirou-se consolada. Norberto de Meirelles contou-lhe tres
vezes a horrivel historia do roubo, e chorou outras tantas lagrimas como
punhos. Acudia Carlota com as uncções piedosas da paciencia,
promettendo-lhe alcançar de Deus com orações e penitencias a
prosperidade do negocio que seu pae recomeçara. O arrozeiro dava como
impossivel a restauração dos haveres perdidos, e afiançava que não
viveria muito tempo, porque a paixão do seu peculio, adquirido com tanta
honra e trabalho, o levaria á cova. No tocante ao auxilio que os santos
podiam dar-lhe para repôr o seu commercio no antigo pé, Norberto era um
iconoclasta requintado; não fiava nada dos santos, nem das jaculatorias,
antiphonas, e responsos de sua filha.
Teimoso e cabeçudo como um philosopho, argumentava contra a religião,
allegando em favor da sua heratica parvidade que se houvesse céo e
inferno não estava elle arrozeiro sem o seu peculio, porque tinha sido
sempre bom christão, e fora roubado por hereges.
Este argumento não é de certo o mais stolido que se tem envidado contra
a religião christã, por parte da philosophia; d'onde se conclue que
detraz de qualquer balcão se póde erguer um Ario, um Luthero, um
Calvino, um Voltaire de tamancos, e arrojar ao seio da sociedade uma
bomba recheiada de argumentos incendiarios como aquelle.
Assim como nós não sabemos que responder de repente ao atheismo de
Norberto de Meirelles, Carlota Angela não se nos avantajava em
promptidão de dialectica theologica, do que resultou sair o pae duas ou
tres vezes, da grade incredulo como entrara.
Uma vez lhe disse elle que perdesse a esperança de ser freira, porque
não tinha dote, nem pedia emprestados cinco mil cruzados para empatar
n'um modo de vida que não rendia sequer o juro da lei.
Carlota sabia de mais as circumstancias de seu pae, quando esta esperada
revelação lhe foi feita. Serena e carinhosa, como sempre o fora, desde
que a desgraça entrara em sua casa, respondeu-lhe que não tivesse elle
cuidado com a sua profissão, porque a prelada a recebia pela prenda da
musica, em que ella estudava continuamente, e a tia Rufina lhe fazia as
pequenas despezas necessarias para a profissão.
Estavam as cousas n'este pé, quando Antonio José da Silva, mercador de
pannos que foi na rua das Flores, pessoa a todos os respeitos digna de
larga chronica (como de feito a teve na Filha do arcediago) e um dos
maiores credores de Norberto, se apresentou pedindo em casamento Carlota
Angela, estipulando as seguintes clausulas:
1.ª Pagaria todas as dividas do sogro, e adiantaria dez contos de réis
para casco de novo negocio, a juro de quatro e meio por cento.
2.ª Compraria a quinta do Candal, já traspassada para pagamento de
dividas, e daria o usofructo d'ella a seus sogros, reservando para si a
hortaliça necessaria ao consumo da casa, dois gigos de maçã camoeza, dez
alqueires de feijão branco, e os pastios necessarios para quatro
cevados.
_Item._ Daria aos paes de Carlota paga e quitação das quantias que lhe
estivessem devendo no acto de se lavrarem as escripturas de casamento.
_Item._ Sua mulher iria viver na rua das Flores, e não tornaria a ir aos
_balancés_ por onde costumava andar em solteira, nem trajaria vestidos
como as fidalgas, nem andaria de corpo bem feito sem mantilha, quando
fosse á missa, ou désse, aos domingos de tarde, um passeio até Campanhã,
ou Valbom.
Estes artigos depôl-os sobre a mesa Antonio José da Silva, em seguida á
proposta de casamento, a que Norberto, embrutecido pela fortuna de
similhante proposta, respondeu logo que o negocio se havia de arranjar.
E sem perda de tempo, entrou o arrozeiro no pateo de S. Bento com uma
cara tão festiva e gozosa, que deu nos olhos á madre porteira.
Mandou chamar a filha, e rompeu assim o dialogo, com assomos de boçal
jucundidade:
--Estamos outra vez ricos, rapariga!
--Ricos?!
--Sim, ricos! alegra-te, Carlota.
--Pois que foi, meu pae? Appareceu-lhe o seu dinheiro?
--Quem dera isso! É cá outra cousa, menina! Estamos ricos, porque tu
vaes ser muito rica.
--Eu!? De que maneira?
--O Antonio da rua das Flores pediu-te em casamento.
Carlota engasgou-se, quando soltava uma palavra ou exclamação
imperceptivel.
--Não conheces o Antonio José da Silva? Aquelle rapaz que está podre de
rico? aquelle que herdou a casa do patrão, aqui ha tres annos? Ora essa!
não conheces?!
--Não conheço, nem quero conhecer, meu pae.
--Tu que dizes, Carlota!? Pois tu não queres casar com elle?!
--Não, senhor.
--Ó pobretaina de uma figa! pois tu vês que não tens nada, que teus paes
estão pobres como Job, e não queres valer aos auctores de teus dias?
--Não, meu pae, eu dou a minha vida aos auctores d'ella, se a quizerem;
mas o coração, que já dei a Deus, não póde ser de mais alguem. O pae não
é tão innocente como parece. Devia suppôr que a minha resposta era esta.
Quando entrei n'esta casa, disse-lhe francamente as minhas tenções. Como
ellas não estavam dependentes dos thesouros de meu pae, a perda d'esses
thesouros não as alterou na minima cousa. Sou a mesma que era, e
brevemente serei o que já não posso deixar de ser: uma freira pobre sem
precisão de ser rica, com muito mais do que me é necessario para ir
amparando a minha curta vida no serviço de Deus, e na penitencia dos
meus peccados, e dos peccados alheios.
--Não quero sermões, com mil diabos! vociferou o arrozeiro, batendo um
retumbante punhado sobre a banqueta--Não venho ouvir prédicas! És minha
filha, e has de fazer o que eu quizer. Não te dou o consentimento para
seres freira!
--Paciencia: sel-o-hei na intenção; mas não sairei do convento.
--Has de sair por justiça.
--Morta, póde ser.
--Viva, e muito viva, eu t'o juro por esta luz que nos alumia!
--Não jure, pae, que se engana. Ninguem será capaz de me arrancar com
vida para fóra d'esta casa. Quando eu não tiver forças com que me
agarrar a estes ferros, nada se me dá que me levem para fóra, porque a
minha alma já terá subido d'aqui á presença de Deus.
--Conta-me lônas, que eu te ensinarei. Filha maldita, que viste teu pae
pobre e desgraçado, e não lhe valeste! Filha cruel, eu te amaldiçôo em
nome do Padre, e do Filho, e do Espirito Santo. _Amen._