publica, nos variados delictos que a legislação do reino não previra.
A sentença d'este tribunal era executada no praso de vinte e quatro
horas, sem revista ou appellação.
O bacharel agradecido caiu de joelhos aos pés do duque de Abrantes, que
se dignou levantal-o pela gola da casaca; os copos do faim, porém,
travando-se na fivela do calção, rasgaram-lhe a meia na barriga da
perna, abrindo fenda por onde regorgitou uma almofada supplementar á
tibia descarnada e cortante do atravancado palerma. Riu Junot, e os
fidalgos riram tambem. Sampayo, ligeiramente corrido, arrancou o musculo
de algodão, escorchou-o entre a mão nervuda, e pediu licença para ir
remediar os estragos do espadim, que, no dizer mansinho do conde da Ega
ao fidalgo immediato, só nas pernas postiças do seu dono faria tamanho
estrago.
O juiz do tribunal militar partiu, no dia immediato, para o Porto, onde
era preciso refrear os animos indomados dos portuenses.
Norberto de Meirelles contou de novo a seu cunhado o já dito em longa
carta, que Sampayo não lera, ácerca do noviciado de Carlota.
--Tudo se ha de remediar, que temos muito tempo--disse o bacharel.--Em
ultimo caso, nunca ella ha de alcançar licença regia para a profissão.
Agora, do que se trata, é de me pôres a bom recado estes dois caixões de
prata, que me foram confiados por um meu amigo que emigrou com o
principe para o Brazil. Cuidado com isso, que estão ahi alguns contos de
réis, e eu fiz responsavel a minha honra á entrega d'estes caixões, logo
que o meu amigo volte com o favor de uma amnistia, que trato de lhe
alcançar do meu particularissimo amigo duque de Abrantes.
--E que me diz o doutor a respeito do snr. Junot?--disse Norberto de
Meirelles--Pelos modos, ouvi dizer que elle já está despachado rei de
Portugal!
--Isso tem seus fundamentos, cunhado. Eu e os meus amigos conde da Ega e
Ayres de Saldanha trabalhamos para a sua acclamação.
--Então o cunhado é amigo d'esses governos lá da côrte? Com effeito
sempre lhe digo que o que o doutor não fizer, não o faz o deanho.
Aquella de fazer ir o pintalegrete pela barra fóra, custou carita, mas
fez-se... Andou por oito mil cruzados que eu lhe mandei, doutor!
--E acha muito? Não foi o seu dinheiro que fez o milagre, foi a minha
influencia. Não sei se sabe que Francisco Salter de Mendonça mexia na
côrte os pausinhos, e esteve por um triz a passar por cima do seu
dinheiro e da minha influencia, e vir ao Porto tirar Carlota
judicialmente!...
--Eu o arrenego! Se o berzabum morresse por lá, grande cousa era! Estou
a arreceiar que elle volte antes d'ella professar.
--Não receie, Norberto. O principe não volta mais a Portugal, e o tal
marinha cá estou eu para lhe tolher o desembarque. Cartas d'elle, está
tudo prevenido para que não chegue alguma ás mãos de Carlota, e a esta
hora está elle convencido de que ella casou.
--Homem, essa!... ó doutor, dou-lhe a minha palavra que estou pasmado da
sua agencia! O cunhado é capaz de fazer com que ella esqueça o homem, e
torne para a minha companhia! Faça isso, que lhe dou uma mula arreiada
de novo para o cunhado dar os seus passeios ao Candal.
--Nada de susto, mano. Vossê não sabe o que são mulheres. A rapariga tem
venêtas e caprichos; o acertado é deixal-a barafustar, e ella virá cá
ter ao caminho das outras. De paixão ninguem morre; e, no convento, isso
então digo-lhe eu que nunca se viu. Mulheres juntas dão tanto aos
taramelos em cousas de amor, que lançam o amor pela bôca fóra, em logar
dos figados. Deixe-a lá estar á vontade, e dê-lhe a entender que o seu
maior gosto n'este mundo é vel-a freira. Nada de contradizel-a. Mulheres
e creanças amuadas é deixal-as renhir. Se vossês começam a carpil-a,
então não fico pelo resto.
--Então o doutor não vae lá tirar-lhe a tolice do miolo?!
--Não, senhor, não vou, é escusado lá ir, e se for é para lhe dizer que
muito me agrada a sua resolução, e, ao mesmo tempo, elogiar com finura a
liberdade do mundo, e pintar-lhe com côres tristes o jugo do convento.
Assim é que se levam as mulheres, snr. Norberto, e, se ellas teem a
soberba de Carlota, então nada de disputar. A astucia manda dizer com
ellas, até as fazer passar á contradicção, porque a harmonia é
impossivel em indoles orgulhosas.
--Oh doutor! o senhor tem uma labia que revira a gente! Homem, eu estou
a dar-lhe razão! Parece-me que o melhor é isso! Está dito! deixemol-a lá
com a mania, e diga-se-lhe que faz muito bem. Vou dizer tudo isso á
minha Rosalia; mas, antes que me esqueça, cunhado, esta cousa de governo
está segura?
--Segurissima.
--É que eu tenho alguns valores, que queria acautelar para o que désse e
viesse.
--Não tenha susto; mas tanto faz ter o seu dinheiro na burra, como
debaixo da terra. Sabe o que ha de fazer? Pegue no seu dinheiro, e nos
meus caixões de prata, e vá enterral-os na adêga do Candal. Eu tenho
mais mêdo á canalha nacional que aos soldados de Napoleão. Quando correu
na capital que s. exc.ª o snr. governador ia dar a Lisboa a saque,
saíram para as praças as turbas da gentalha portugueza, esperando a hora
do assalto. D'estes é que eu tenho mêdo, e por isso sou de parecer que
se acautele o nosso precioso, com summa prudencia. O Candal é bom sitio,
porque fica arredado da estrada. Ponto está que o mano encarregue o
serviço de enterrar os caixões a pessoa fiel, que não denuncie o
escondedouro.
--Não me fio em ninguem, cunhado. Quem ha de enterrar esse todo-nada de
dinheiro que por ahi está, e mais os caixotes de prata, hei de ser eu,
se Deus quizer.
Assentiram n'isto, e, logo no dia immediato, Norberto de Meirelles pôz
mãos á obra, com o auxilio de sua mulher e cunhado. Fez-se o transporte
para o Candal com disfarce. Os caixões sairam de noite, e os
conductores, depondo-os no quinteirão da quinta, não poderiam malsinar o
local do enterro, se alguma vez, feitos com os salteadores, tentassem
esquadrinhal-o.
Norberto de Meirelles, auxiliado por D. Rosalia e o proprietario das
pratas da patriarchal, enterrou os caixotes debaixo da dorna do lagar, e
ficou assim desaffrontado dos sustos que lhe traziam o animo opprimido,
desde que Francisco Salter de Mendonça lhe presagiara um possivel
assalto ao seu dinheiro.
Sampayo, atarefado com o julgamento dos réos processados no tribunal de
que elle era juiz inconfidente, só teve ensejo de visitar Carlota, um
mez depois da sua chegada. Encontrou-a na grade com a mãe, que de
proposito preparara este encontro, porque sua filha houvera mostrado
repugnancia em receber a visita do tio.
O bacharel, conforme com os seus ardis, expostos ao cunhado, começou por
louvar e abençoar a acertada resolução de sua sobrinha, exaltando os
merecimentos de uma boa religiosa, e aconselhando-a com sãs doutrinas
preventivas contra as tentações do demonio, acerrimo inimigo dos votos
claustraes.
Carlota ouviu-o com aprazimento, e D. Rosalia com enfado. A boa senhora
não comprehendia a esperteza de seu irmão, e confrontando-a com a
estupidez de seu marido, dava tanto pela bondade de um como pela do
outro. Foi-lhe á mão com as suas razões cem vezes repetidas á filha.
Chorou copiosamente, pedindo ao irmão que desvanecesse a tenção de
Carlota; e a esta, com ternas supplicas, implorava que saísse do
convento, se não queria cêdo ficar sem mãe.
Carlota respondeu que a perda de sua mãe lhe seria muito sensivel; mas
que estava deliberada a aceitar todas as mortificações que o Senhor lhe
mandasse, com tanto que podesse offerecer o coração espedaçado ajoelhada
no altar, onde jurara votos de eterno sacrificio.
Joaquim Antonio de Sampayo, piscando o olho á irmã, louvava de novo a
devoção de Carlota, e citava-lhe, como para acorçoal-a, quatro exemplos
de santidade no convento de Santa Anna de Lisboa, onde elle almoçava, e
contava os milagres da prata da patriarchal, salvo o ultimo.
Carlota, saíndo da grade, foi pedir a Deus perdão do odio que tinha a
seu tio. Soror Rufina, confidente d'esta ruim paixão, orou com ella, e
penitenciou-a com o preceito duro de escrever a seu tio uma carta, em
que lhe agradecesse, com humildade e amor, os paternaes conselhos que
lhe dera, e o applauso com que a ajudava a defender-se das instancias de
seus paes.
O bacharel, maravilhado d'esta carta, modificou a sua opinião a respeito
da sobrinha, e planisou uma nova traça para despersuadil-a. Qual ella
fosse, não sabemos nós, porque não houve tempo para executal-a.
Sampayo exerceu as funcções do juizado quatro mezes, e foi despachado
juiz de fóra para uma pingue comarca do Minho. A causa d'esta mudança,
ingrata ao despachado, explicou-a elle como grandemente honrosa para si,
dizendo que a moderação das suas sentenças desagradara ao governo. O
governo, porém, dizia que o venal juiz riscava das denuncias os nomes
que representavam réos dinheirosos, de quem recebia, com maior ou menor
recato, avultosas quantias.
Partiu para a sua comarca o juiz de fóra, recommendando ao cunhado que
vigiasse os caixotes da prata, cujo descaminho viria a ser causa da sua
deshonra. Por essa occasião, entregou-lhe um caixãosinho supplementar
aos outros, que constava de uma duzia ou pouco mais de contos de réis,
de seus ordenados e propinas, e mercês dos beneficios que fizera
caridosamente aos réos absolvidos no terrivel tribunal.
Dispensam-nos de boa vontade a historia sabida dos decorridos successos
que expulsaram os francezes do territorio portuguez. É certo que o juiz
de fóra de ***, Joaquim Antonio de Sampayo, ingrata creatura de Junot,
pôz luminarias quando soube que o exercito francez recuava ao exercito
alliado. Proclamou aos povos comarcãos, chamando ás armas, e incitando
os frades a que prégassem o odio contra Napoleão, e promettessem
indulgencia plenaria, e salvação segura a todos os que morressem na
defeza do seu legitimo principe, e dos augustos fóros da religião
catholica-apostolica-romana.
O bispo do Porto, presidente da junta, e renegado como elle, sympathisou
com as manhas do juiz de fóra, e nomeou-o, provisoriamente, corregedor
da comarca onde estava servindo.
Entra, porém, o general Soult as mal defezas raias do reino, e chega a
Braga a artilheria de Laborde. Sampayo medita seriamente na sua
situação, e, apasiguando os animos das turbas com discursos ácerca da
inutilidade da resistencia, resolve ir ao encontro do general Lorge, que
marchava contra a villa onde elle exercia a suprema auctoridade.
Diz-lhe que intimas relações o prenderam a Junot e Lagarde, exulta com a
volta dos francezes, e faz accender o resto das torcidas das luminarias
á entrada do general francez. As guerrilhas, porém, queriam resistir, e
os chefes emprasavam o corregedor para lhes dar conta da sua apostasia,
mais tarde. Sampayo, arreceiando-se d'aquelles caudilhos, denunciou os
principaes ao seu hospede Lorge, e fez que dois fossem espingardeados
diante da sua aposentadoria, simulando, ao mesmo tempo, amargo pezar de
acontecimento tão funesto.
Retirou o general para occupar outro ponto; mas a pedido do corregedor,
deixou uma numerosa guarnição á terra.
O general Botelho estanciava nas immediações da villa, e investiu com o
presidio, que fugira rechaçado e mal ferido do encontro. Sampayo queria
fugir com elle, sobre o Porto, para onde convergiam os differentes
chefes do exercito invasor. Demorou-se, porém, um quarto de hora,
carregando os bahús da sua bagagem, onde avultavam preciosidades que
soubera esbulhar á comarca sob os mil pretextos faceis ao seu engenho.
Esta demora foi-lhe fatal. Era tarde para fugir. Reflectiu um instante,
em lance tão apertado, e saíu a lume com uma ideia, da qual esperava a
sua salvação.
Mandou tocar immediatamente os sinos das igrejas, foi elle proprio,
bradando vivas ao principe, espertar o animo perplexo dos moradores da
terra, e recrutar garotos para repicarem os sinos.
Este expediente era já um destino da desesperação, uma loucura, que
devia ter o resultado que teve. Joaquim Antonio de Sampayo viu-se
rodeado de povo, e este povo pedia a cabeça do corregedor, sobrelevando
á vozeria os gritos da parentela dos caudilhos que tinham sido
espingardeados á ordem do general Lorge.
O chefe das forças portuguezas occorreu n'este momento afflictivo. O
corregedor ajoelhou de mãos erguidas, pedindo-lhe a salvação.
Um do povo, que parecia ser o mais auctorisado, contrariou as supplicas
do corregedor, contando ao general as façanhas. Botelho ouviu com
attenção, e exclamou com serenidade:
--Enforquem-o já, que é o mais seguro.
Mais de um leitor maior de sessenta annos está recordando, n'este
momento, a cabeça de comarca, na provincia do Minho, onde foi enforcado
um corregedor.
Se se lembra, saiba que o fatal triangulo foi erguido para Joaquim
Antonio de Sampayo. Ahi perneou esse homem de grandes espiritos, que
veio cedo de mais para morrer ministro de Estado.
Rezemos-lhe por alma, mas duvide-se do aproveitamento dos suffragios. É
de fé que o thaumaturgo das pratas da patriarchal caiu da forca ao
inferno, onde o tortura a desesperação de ver como cá em cima andam
nedios e honrados alguns que o sobrepujaram em amor da patria, amor do
proximo, e abnegação do alheio.
Joaquim Antonio de Sampayo nascera em 5 de janeiro de 1752. Trapaceara o
direito e a justiça por espaço de trinta annos, nos auditorios do Porto.
Entrara com fortuna próspera na carreira das honras aos cincoenta e seis
annos.
Revelara, ainda que tardio, um espirito sobre-excellente para
engrandecer-se, e reflectir na sua familia as honras merecidas á custa
de infamias necessarias para se ser alguma cousa n'uma terra, onde
Duarte Pacheco e Camões tiveram fome. Mal tinha dado os primeiros passos
propicios, atalhou-o uma morte feia aos 23 de março de 1809.
Piamente cremos que os santos da patriarchal de Lisboa, esbulhados de
seus adornos, lhe urdiram este affrontoso traspasse.
Como quer que seja, homens taes, diz uma epigraphe d'este capitulo, que
os leva o diabo. Levará, não duvido; mas, se lanço os olhos em redor de
mim, afigura-se-me que o diabo leva uns, e traz outros.
XIII
La justicia de Dios espantosa...
Quevedo. (_El sueño del Inferno._)
O noviciado de Carlota Angela terminara em abril de 1808. As licenças
impetradas para a profissão não foram concedidas, porque a
desorganisação em que se achavam as repartições governativas era
impedimento a que se deferissem requerimentos que não importavam ao bem
immediato do Estado.
Norberto de Meirelles folgava com a demora da licença, e o cunhado lá da
comarca onde lhe cortaram a previdente cabeça, socegara-o com a certeza
de que em Lisboa estavam prevenidas as cousas para que a noviça
requeresse sempre em vão a licença indispensavel.
Carlota não se impacientava com as delongas, nem se queixava de seu pae
ou tio: com tanto que a não arrancassem ao claustro, noviça ou professa,
o seu coração estava com o mesmo apêgo entranhado no suave sacrificio á
religião dos infelizes.
Quando a noticia da feia morte de seu tio lhe chegou, levada pela
aterrada mãe, Carlota perdoou-lhe, nos labios e no coração, o mal que
lhe fizera, compensando-lh'o com incessantes suffragios, da virtude dos
quaes, em alma tão apodrentada de velhacadas e perfidias, é licito
duvidar.
Norberto de Meirelles, n'este desgosto de familia, mostrou o grande
porte de seu animo, insufflando em sua mulher espirituaes doutrinas de
paciencia e conforto na vontade do Altissimo. Á socapa, porém, o
arrozeiro esfregava as mãos com jubiloso frenesi, bem sabia elle pelo
quê. Se D. Rosalia lhe perguntava que destino se devia dar aos dois
caixotes de prata, que não eram de seu irmão, Norberto dizia-lhe que
calasse o bico, e não désse á lingua ácerca de taes caixotes, que
ninguem sabia de quem eram. Os escrupulos entravam na consciencia de D.
Rosalia; o alheio dizia ella que chorava pelo seu dono. A este e outros
anexins de sã moral replicava Norberto que se alguma vez apparecesse o
dono dos caixões, munido das necessarias provas de ser o dono d'elles,
seria entregue do deposito.
Entretanto que o dono não vinha, o herdeiro do bacharel fechou-se na
adêga da granja do Candal, e exhumou os thesouros enterrados para
conhecer do conteúdo dos caixões. Este exame dizia elle á timida
consorte que era preciso para, munido de um rol, peça por peça, obrigar
o dono a dar uma relação exacta dos objectos.
Tentação diabolica fora aquella! Norberto, vendo a rica baixella do
culto divino contida no primeiro caixão que abriu, tão encantado ficou
do bem lavrado das corôas, dos resplendores, dos calices, das ambulas,
dos thuribulos, das lampadas, das bandejas, e dos ex-votos, tão
encantado, tão edificado, tão preso áquelles mysticos ornatos do templo
do Deus-vivo, que logo alli prometteu á sua consciencia guardar e
venerar aquelles sagrados objectos, de modo que mãos impias de
francezes, de portuguezes afrancezados, e ainda as do dono nunca os
profanassem. Este protesto entendia-se com o primeiro caixão: o segundo
antes de ser aberto, havia o negociante tenção de restituil-o, se o
recheio não fosse tão veneravel e digno da sua devota guarda.
Ora o segundo caixão não era menos tentador: nem mais nem menos os doze
apostolos de prata maciça, com as suas barbas venerabundas a incutirem
seraphico temor e amor! Norberto alçou nos braços um dos apostolos, não
tanto para fazer-lhe oração mental, como para calcular-lhe o peso, e,
aproximadamente, ajuizou doze arrateis, os quaes, multiplicados por
doze, davam cento e quarenta e quatro arrateis de prata. Entendeu
piedosamente o arrozeiro que o segundo caixão era thesouro não menos
credor dos seus desvelos que o primeiro, em razão de conter as imagens
dos doze primeiros santos da religião christã, e n'este presupposto de
bom juizo resolveu recommendar á sua vigilancia a guarda de tão augustas
imagens, que talvez providencialmente vieram enterrar-se na sua adêga,
para se esconderem á perseguição de Bonaparte, bem como os christãos
primitivos se escondiam nas catacumbas para fugirem á perseguição dos
Neros e Trajanos.
A escrupulosa irmã do defuncto bacharel não assistira á exhumação dos
caixões; mas, sabendo dos doze apóstolos, tal ancia lhe entrou de os
ver, que não houve remedio senão desenterral-os de novo.
D. Rosalia ficou encantada dos aspectos magestosos de S. Pedro e S.
Thiago. Quiz que seu marido rezasse emparceirado com ella uma
jaculatoria aos dois santos em particular, e a todos em geral. Norberto
annuiu com a mais fervente uncção, e edificou sua mulher, propondo a
repetição das ditas jaculatorias, para que os bemaventurados discipulos
do divino mestre não permittissem que mãos sacrilegas dos francezes
tocassem nas suas devotas imagens. Lembrou logo alli a snr.ª D. Rosalia
que, passada a guerra, se não apparecesse o dono d'aquelles objectos, se
havia de fazer uma capella na quinta do Candal, para que os santinhos
fossem adorados por toda a gente. Concordou o arrozeiro, enterrando-os
outra vez, e recommendando a sua mulher, que não dissesse a ninguem que
a sua adêga estava tendo as honras de cenaculo.
Estas scenas passavam-se oito dias antes da invasão dos francezes no
Porto.
Á noticia da aproximação de Soult nas trincheiras, Norberto de Meirelles
fechou a casa da rua das Taipas, e foi para o Candal.
D. Carlota Angela, com sua tia e a noviça Dorothea saíram do convento
para o mosteiro de Arouca. D. Rosalia instara para que a seguissem; mas
Carlota vencera a vontade condescendente de sua tia, com lagrimas e
rogos para que não aceitasse asylo que não fosse o de outro mosteiro
menos susceptivel de ser assaltado pelos francezes.
O exercito invasor derramou-se pelo Porto, no cevo do saque e da
carnagem. As portas da casa da rua das Taipas, malsinada aos francezes
como bem recheiada, não resistiram ao machado. Pouco lá havia que
saciasse a cubiça dos salteadores. O denunciante esteve em perigo de ser
acutilado, por lhes ter feito perder tempo em arrombar as portas para
saque tão mesquinho. Ora, o denunciante era um visinho de Norberto, seu
inimigo, e capaz de dar um olho para que arrancassem os dois ao
arrozeiro. Disse elle aos francezes que o seguissem além do rio, e elle
lhes promettia boa presa, porque as immensas riquezas do negociante
deviam estar na quinta.
Seguiram-o os francezes, promettendo-lhe repartir com elle da presa, ou
tirar-lhe a alma e os figados, se os enganasse, ou levasse a alguma
emboscada.
Ao avisinharem-se do Candal, deram rebate as espias de Norberto de
Meirelles. Calou-lhe na alma o mêdo, que amarellece a cara de gemma de
ovo, tapa os respiros do pulmão e promove a desordem dos intestinos
todos. D. Rosalia caíu de cocoras, e entrou a bater os queixos como em
maleitas, e a resmungar fragmentos da Salvè-rainha e do Padre-nosso.
Dois criados da quinta, que, momentos antes, tinham estado renovando a
escorva das clavinas, e apostando a qual d'elles mataria mais francezes,
apenas avistaram os penachos de dez ou doze d'aquelles, que, segundo os
seus projectos homicidas, deviam ser levados a murro, deram a fugir por
aquelles pinhaes, como envergonhados de se baterem com tão poucos
francezes. Chamava-os com desesperados berros Norberto, emquanto elles
podiam ouvil-o; mas não houve gritos nem promessas que os volvessem ao
posto da honra.
O negociante travou do braço da mulher, para que o seguisse, fiando a
salvação na fuga. D. Rosalia ainda se ergueu; mas vacillaram-lhe as
pernas frouxas, e recaíu, dizendo que morria, e queria alli morrer. O
arrozeiro cuidou que a movia, assustando-a com a ideia de que os
francezes a matariam, se ella não confessasse o escondrijo do dinheiro.
A pobre mulher, petrificada de terror, não respondia a taes estimulos, e
recalcitrava na pertinacia de se deixar matar.
Emquanto ella murmurava um acto de contrição, preparando-se para morrer
o mais catholicamente que podesse, Norberto de Meirelles seguiu a pista
dos criados, pela porta travessa da quinta, com o intuito de alarmar a
freguezia, tocando a rebate a sineta da proxima capella.
Os francezes arrombaram a primeira porta, e outras menos robustas, até
entrarem no quarto onde estava D. Rosalia de mãos erguidas, pedindo
misericordia. Um da malta, com o rosto coberto por um lenço, disse-lhe
em claro e chão portuguez que lhe não fariam mal a ella nem ao marido,
se lhe dissesse onde estava escondido o dinheiro. D. Rosalia respondeu
que não sabia. A um signal convencionado do interprete, dois refles
ameaçadores ladearam o pescoço da moribunda senhora. O homem da cara
coberta admoestou-a de novo, pedindo aos francezes que suspendessem a
morte por alguns momentos. Rosalia, revalidando tres vezes a condição de
que não matariam seu homem, disse que o dinheiro estava enterrado na
adêga; mas que tambem lá estavam dois caixões de prata, e esses pedia
que não levassem, porque não eram d'ella. Feito o juramento de
respeitarem, não os caixões, mas a vida dos depositarios, levaram em
braços D. Rosalia á adêga, para a fazerem apontar o local onde convinha
cavar.
Meia hora depois, corriam contra a quinta de Norberto de Meirelles, mais
de duzentos homens da freguezia, reunidos pelo toque guerreiro da
sineta, afóra os fugitivos do Porto, que tinham atravessado a ponte,
horas antes de lhe serem abertos os alçapões. Quando entraram na casa,
com grandes alaridos e descargas, encontraram D. Rosalia á porta da
adêga, prostrada n'um desmaio. Norberto adivinhou o successo horroroso.
Entrou, foi direito ao tonel protector do escondrijo, achou a terra
revolvida, levou as mãos á cabeça, soltou um grito cavernoso, e foi
bater com as costas nos tampos sonoros do tonel. «Roubado! roubado!»
exclamava elle, emquanto a multidão compadecida se derramava pelos
aditos da quinta, procurando os francezes, e outros tratavam de
restituir á vida a mulher do negociante, que parecia morta.