O fim ostensivo d'esta alçada era punir os perturbadores da segurança

publica, nos variados delictos que a legislação do reino não previra.

A sentença d'este tribunal era executada no praso de vinte e quatro

horas, sem revista ou appellação.

O bacharel agradecido caiu de joelhos aos pés do duque de Abrantes, que

se dignou levantal-o pela gola da casaca; os copos do faim, porém,

travando-se na fivela do calção, rasgaram-lhe a meia na barriga da

perna, abrindo fenda por onde regorgitou uma almofada supplementar á

tibia descarnada e cortante do atravancado palerma. Riu Junot, e os

fidalgos riram tambem. Sampayo, ligeiramente corrido, arrancou o musculo

de algodão, escorchou-o entre a mão nervuda, e pediu licença para ir

remediar os estragos do espadim, que, no dizer mansinho do conde da Ega

ao fidalgo immediato, só nas pernas postiças do seu dono faria tamanho

estrago.

O juiz do tribunal militar partiu, no dia immediato, para o Porto, onde

era preciso refrear os animos indomados dos portuenses.

Norberto de Meirelles contou de novo a seu cunhado o já dito em longa

carta, que Sampayo não lera, ácerca do noviciado de Carlota.

--Tudo se ha de remediar, que temos muito tempo--disse o bacharel.--Em

ultimo caso, nunca ella ha de alcançar licença regia para a profissão.

Agora, do que se trata, é de me pôres a bom recado estes dois caixões de

prata, que me foram confiados por um meu amigo que emigrou com o

principe para o Brazil. Cuidado com isso, que estão ahi alguns contos de

réis, e eu fiz responsavel a minha honra á entrega d'estes caixões, logo

que o meu amigo volte com o favor de uma amnistia, que trato de lhe

alcançar do meu particularissimo amigo duque de Abrantes.

--E que me diz o doutor a respeito do snr. Junot?--disse Norberto de

Meirelles--Pelos modos, ouvi dizer que elle já está despachado rei de

Portugal!

--Isso tem seus fundamentos, cunhado. Eu e os meus amigos conde da Ega e

Ayres de Saldanha trabalhamos para a sua acclamação.

--Então o cunhado é amigo d'esses governos lá da côrte? Com effeito

sempre lhe digo que o que o doutor não fizer, não o faz o deanho.

Aquella de fazer ir o pintalegrete pela barra fóra, custou carita, mas

fez-se... Andou por oito mil cruzados que eu lhe mandei, doutor!

--E acha muito? Não foi o seu dinheiro que fez o milagre, foi a minha

influencia. Não sei se sabe que Francisco Salter de Mendonça mexia na

côrte os pausinhos, e esteve por um triz a passar por cima do seu

dinheiro e da minha influencia, e vir ao Porto tirar Carlota

judicialmente!...

--Eu o arrenego! Se o berzabum morresse por lá, grande cousa era! Estou

a arreceiar que elle volte antes d'ella professar.

--Não receie, Norberto. O principe não volta mais a Portugal, e o tal

marinha cá estou eu para lhe tolher o desembarque. Cartas d'elle, está

tudo prevenido para que não chegue alguma ás mãos de Carlota, e a esta

hora está elle convencido de que ella casou.

--Homem, essa!... ó doutor, dou-lhe a minha palavra que estou pasmado da

sua agencia! O cunhado é capaz de fazer com que ella esqueça o homem, e

torne para a minha companhia! Faça isso, que lhe dou uma mula arreiada

de novo para o cunhado dar os seus passeios ao Candal.

--Nada de susto, mano. Vossê não sabe o que são mulheres. A rapariga tem

venêtas e caprichos; o acertado é deixal-a barafustar, e ella virá cá

ter ao caminho das outras. De paixão ninguem morre; e, no convento, isso

então digo-lhe eu que nunca se viu. Mulheres juntas dão tanto aos

taramelos em cousas de amor, que lançam o amor pela bôca fóra, em logar

dos figados. Deixe-a lá estar á vontade, e dê-lhe a entender que o seu

maior gosto n'este mundo é vel-a freira. Nada de contradizel-a. Mulheres

e creanças amuadas é deixal-as renhir. Se vossês começam a carpil-a,

então não fico pelo resto.

--Então o doutor não vae lá tirar-lhe a tolice do miolo?!

--Não, senhor, não vou, é escusado lá ir, e se for é para lhe dizer que

muito me agrada a sua resolução, e, ao mesmo tempo, elogiar com finura a

liberdade do mundo, e pintar-lhe com côres tristes o jugo do convento.

Assim é que se levam as mulheres, snr. Norberto, e, se ellas teem a

soberba de Carlota, então nada de disputar. A astucia manda dizer com

ellas, até as fazer passar á contradicção, porque a harmonia é

impossivel em indoles orgulhosas.

--Oh doutor! o senhor tem uma labia que revira a gente! Homem, eu estou

a dar-lhe razão! Parece-me que o melhor é isso! Está dito! deixemol-a lá

com a mania, e diga-se-lhe que faz muito bem. Vou dizer tudo isso á

minha Rosalia; mas, antes que me esqueça, cunhado, esta cousa de governo

está segura?

--Segurissima.

--É que eu tenho alguns valores, que queria acautelar para o que désse e

viesse.

--Não tenha susto; mas tanto faz ter o seu dinheiro na burra, como

debaixo da terra. Sabe o que ha de fazer? Pegue no seu dinheiro, e nos

meus caixões de prata, e vá enterral-os na adêga do Candal. Eu tenho

mais mêdo á canalha nacional que aos soldados de Napoleão. Quando correu

na capital que s. exc.ª o snr. governador ia dar a Lisboa a saque,

saíram para as praças as turbas da gentalha portugueza, esperando a hora

do assalto. D'estes é que eu tenho mêdo, e por isso sou de parecer que

se acautele o nosso precioso, com summa prudencia. O Candal é bom sitio,

porque fica arredado da estrada. Ponto está que o mano encarregue o

serviço de enterrar os caixões a pessoa fiel, que não denuncie o

escondedouro.

--Não me fio em ninguem, cunhado. Quem ha de enterrar esse todo-nada de

dinheiro que por ahi está, e mais os caixotes de prata, hei de ser eu,

se Deus quizer.

Assentiram n'isto, e, logo no dia immediato, Norberto de Meirelles pôz

mãos á obra, com o auxilio de sua mulher e cunhado. Fez-se o transporte

para o Candal com disfarce. Os caixões sairam de noite, e os

conductores, depondo-os no quinteirão da quinta, não poderiam malsinar o

local do enterro, se alguma vez, feitos com os salteadores, tentassem

esquadrinhal-o.

Norberto de Meirelles, auxiliado por D. Rosalia e o proprietario das

pratas da patriarchal, enterrou os caixotes debaixo da dorna do lagar, e

ficou assim desaffrontado dos sustos que lhe traziam o animo opprimido,

desde que Francisco Salter de Mendonça lhe presagiara um possivel

assalto ao seu dinheiro.

Sampayo, atarefado com o julgamento dos réos processados no tribunal de

que elle era juiz inconfidente, só teve ensejo de visitar Carlota, um

mez depois da sua chegada. Encontrou-a na grade com a mãe, que de

proposito preparara este encontro, porque sua filha houvera mostrado

repugnancia em receber a visita do tio.

O bacharel, conforme com os seus ardis, expostos ao cunhado, começou por

louvar e abençoar a acertada resolução de sua sobrinha, exaltando os

merecimentos de uma boa religiosa, e aconselhando-a com sãs doutrinas

preventivas contra as tentações do demonio, acerrimo inimigo dos votos

claustraes.

Carlota ouviu-o com aprazimento, e D. Rosalia com enfado. A boa senhora

não comprehendia a esperteza de seu irmão, e confrontando-a com a

estupidez de seu marido, dava tanto pela bondade de um como pela do

outro. Foi-lhe á mão com as suas razões cem vezes repetidas á filha.

Chorou copiosamente, pedindo ao irmão que desvanecesse a tenção de

Carlota; e a esta, com ternas supplicas, implorava que saísse do

convento, se não queria cêdo ficar sem mãe.

Carlota respondeu que a perda de sua mãe lhe seria muito sensivel; mas

que estava deliberada a aceitar todas as mortificações que o Senhor lhe

mandasse, com tanto que podesse offerecer o coração espedaçado ajoelhada

no altar, onde jurara votos de eterno sacrificio.

Joaquim Antonio de Sampayo, piscando o olho á irmã, louvava de novo a

devoção de Carlota, e citava-lhe, como para acorçoal-a, quatro exemplos

de santidade no convento de Santa Anna de Lisboa, onde elle almoçava, e

contava os milagres da prata da patriarchal, salvo o ultimo.

Carlota, saíndo da grade, foi pedir a Deus perdão do odio que tinha a

seu tio. Soror Rufina, confidente d'esta ruim paixão, orou com ella, e

penitenciou-a com o preceito duro de escrever a seu tio uma carta, em

que lhe agradecesse, com humildade e amor, os paternaes conselhos que

lhe dera, e o applauso com que a ajudava a defender-se das instancias de

seus paes.

O bacharel, maravilhado d'esta carta, modificou a sua opinião a respeito

da sobrinha, e planisou uma nova traça para despersuadil-a. Qual ella

fosse, não sabemos nós, porque não houve tempo para executal-a.

Sampayo exerceu as funcções do juizado quatro mezes, e foi despachado

juiz de fóra para uma pingue comarca do Minho. A causa d'esta mudança,

ingrata ao despachado, explicou-a elle como grandemente honrosa para si,

dizendo que a moderação das suas sentenças desagradara ao governo. O

governo, porém, dizia que o venal juiz riscava das denuncias os nomes

que representavam réos dinheirosos, de quem recebia, com maior ou menor

recato, avultosas quantias.

Partiu para a sua comarca o juiz de fóra, recommendando ao cunhado que

vigiasse os caixotes da prata, cujo descaminho viria a ser causa da sua

deshonra. Por essa occasião, entregou-lhe um caixãosinho supplementar

aos outros, que constava de uma duzia ou pouco mais de contos de réis,

de seus ordenados e propinas, e mercês dos beneficios que fizera

caridosamente aos réos absolvidos no terrivel tribunal.

Dispensam-nos de boa vontade a historia sabida dos decorridos successos

que expulsaram os francezes do territorio portuguez. É certo que o juiz

de fóra de ***, Joaquim Antonio de Sampayo, ingrata creatura de Junot,

pôz luminarias quando soube que o exercito francez recuava ao exercito

alliado. Proclamou aos povos comarcãos, chamando ás armas, e incitando

os frades a que prégassem o odio contra Napoleão, e promettessem

indulgencia plenaria, e salvação segura a todos os que morressem na

defeza do seu legitimo principe, e dos augustos fóros da religião

catholica-apostolica-romana.

O bispo do Porto, presidente da junta, e renegado como elle, sympathisou

com as manhas do juiz de fóra, e nomeou-o, provisoriamente, corregedor

da comarca onde estava servindo.

Entra, porém, o general Soult as mal defezas raias do reino, e chega a

Braga a artilheria de Laborde. Sampayo medita seriamente na sua

situação, e, apasiguando os animos das turbas com discursos ácerca da

inutilidade da resistencia, resolve ir ao encontro do general Lorge, que

marchava contra a villa onde elle exercia a suprema auctoridade.

Diz-lhe que intimas relações o prenderam a Junot e Lagarde, exulta com a

volta dos francezes, e faz accender o resto das torcidas das luminarias

á entrada do general francez. As guerrilhas, porém, queriam resistir, e

os chefes emprasavam o corregedor para lhes dar conta da sua apostasia,

mais tarde. Sampayo, arreceiando-se d'aquelles caudilhos, denunciou os

principaes ao seu hospede Lorge, e fez que dois fossem espingardeados

diante da sua aposentadoria, simulando, ao mesmo tempo, amargo pezar de

acontecimento tão funesto.

Retirou o general para occupar outro ponto; mas a pedido do corregedor,

deixou uma numerosa guarnição á terra.

O general Botelho estanciava nas immediações da villa, e investiu com o

presidio, que fugira rechaçado e mal ferido do encontro. Sampayo queria

fugir com elle, sobre o Porto, para onde convergiam os differentes

chefes do exercito invasor. Demorou-se, porém, um quarto de hora,

carregando os bahús da sua bagagem, onde avultavam preciosidades que

soubera esbulhar á comarca sob os mil pretextos faceis ao seu engenho.

Esta demora foi-lhe fatal. Era tarde para fugir. Reflectiu um instante,

em lance tão apertado, e saíu a lume com uma ideia, da qual esperava a

sua salvação.

Mandou tocar immediatamente os sinos das igrejas, foi elle proprio,

bradando vivas ao principe, espertar o animo perplexo dos moradores da

terra, e recrutar garotos para repicarem os sinos.

Este expediente era já um destino da desesperação, uma loucura, que

devia ter o resultado que teve. Joaquim Antonio de Sampayo viu-se

rodeado de povo, e este povo pedia a cabeça do corregedor, sobrelevando

á vozeria os gritos da parentela dos caudilhos que tinham sido

espingardeados á ordem do general Lorge.

O chefe das forças portuguezas occorreu n'este momento afflictivo. O

corregedor ajoelhou de mãos erguidas, pedindo-lhe a salvação.

Um do povo, que parecia ser o mais auctorisado, contrariou as supplicas

do corregedor, contando ao general as façanhas. Botelho ouviu com

attenção, e exclamou com serenidade:

--Enforquem-o já, que é o mais seguro.

Mais de um leitor maior de sessenta annos está recordando, n'este

momento, a cabeça de comarca, na provincia do Minho, onde foi enforcado

um corregedor.

Se se lembra, saiba que o fatal triangulo foi erguido para Joaquim

Antonio de Sampayo. Ahi perneou esse homem de grandes espiritos, que

veio cedo de mais para morrer ministro de Estado.

Rezemos-lhe por alma, mas duvide-se do aproveitamento dos suffragios. É

de fé que o thaumaturgo das pratas da patriarchal caiu da forca ao

inferno, onde o tortura a desesperação de ver como cá em cima andam

nedios e honrados alguns que o sobrepujaram em amor da patria, amor do

proximo, e abnegação do alheio.

Joaquim Antonio de Sampayo nascera em 5 de janeiro de 1752. Trapaceara o

direito e a justiça por espaço de trinta annos, nos auditorios do Porto.

Entrara com fortuna próspera na carreira das honras aos cincoenta e seis

annos.

Revelara, ainda que tardio, um espirito sobre-excellente para

engrandecer-se, e reflectir na sua familia as honras merecidas á custa

de infamias necessarias para se ser alguma cousa n'uma terra, onde

Duarte Pacheco e Camões tiveram fome. Mal tinha dado os primeiros passos

propicios, atalhou-o uma morte feia aos 23 de março de 1809.

Piamente cremos que os santos da patriarchal de Lisboa, esbulhados de

seus adornos, lhe urdiram este affrontoso traspasse.

Como quer que seja, homens taes, diz uma epigraphe d'este capitulo, que

os leva o diabo. Levará, não duvido; mas, se lanço os olhos em redor de

mim, afigura-se-me que o diabo leva uns, e traz outros.

XIII

La justicia de Dios espantosa...

Quevedo. (_El sueño del Inferno._)

O noviciado de Carlota Angela terminara em abril de 1808. As licenças

impetradas para a profissão não foram concedidas, porque a

desorganisação em que se achavam as repartições governativas era

impedimento a que se deferissem requerimentos que não importavam ao bem

immediato do Estado.

Norberto de Meirelles folgava com a demora da licença, e o cunhado lá da

comarca onde lhe cortaram a previdente cabeça, socegara-o com a certeza

de que em Lisboa estavam prevenidas as cousas para que a noviça

requeresse sempre em vão a licença indispensavel.

Carlota não se impacientava com as delongas, nem se queixava de seu pae

ou tio: com tanto que a não arrancassem ao claustro, noviça ou professa,

o seu coração estava com o mesmo apêgo entranhado no suave sacrificio á

religião dos infelizes.

Quando a noticia da feia morte de seu tio lhe chegou, levada pela

aterrada mãe, Carlota perdoou-lhe, nos labios e no coração, o mal que

lhe fizera, compensando-lh'o com incessantes suffragios, da virtude dos

quaes, em alma tão apodrentada de velhacadas e perfidias, é licito

duvidar.

Norberto de Meirelles, n'este desgosto de familia, mostrou o grande

porte de seu animo, insufflando em sua mulher espirituaes doutrinas de

paciencia e conforto na vontade do Altissimo. Á socapa, porém, o

arrozeiro esfregava as mãos com jubiloso frenesi, bem sabia elle pelo

quê. Se D. Rosalia lhe perguntava que destino se devia dar aos dois

caixotes de prata, que não eram de seu irmão, Norberto dizia-lhe que

calasse o bico, e não désse á lingua ácerca de taes caixotes, que

ninguem sabia de quem eram. Os escrupulos entravam na consciencia de D.

Rosalia; o alheio dizia ella que chorava pelo seu dono. A este e outros

anexins de sã moral replicava Norberto que se alguma vez apparecesse o

dono dos caixões, munido das necessarias provas de ser o dono d'elles,

seria entregue do deposito.

Entretanto que o dono não vinha, o herdeiro do bacharel fechou-se na

adêga da granja do Candal, e exhumou os thesouros enterrados para

conhecer do conteúdo dos caixões. Este exame dizia elle á timida

consorte que era preciso para, munido de um rol, peça por peça, obrigar

o dono a dar uma relação exacta dos objectos.

Tentação diabolica fora aquella! Norberto, vendo a rica baixella do

culto divino contida no primeiro caixão que abriu, tão encantado ficou

do bem lavrado das corôas, dos resplendores, dos calices, das ambulas,

dos thuribulos, das lampadas, das bandejas, e dos ex-votos, tão

encantado, tão edificado, tão preso áquelles mysticos ornatos do templo

do Deus-vivo, que logo alli prometteu á sua consciencia guardar e

venerar aquelles sagrados objectos, de modo que mãos impias de

francezes, de portuguezes afrancezados, e ainda as do dono nunca os

profanassem. Este protesto entendia-se com o primeiro caixão: o segundo

antes de ser aberto, havia o negociante tenção de restituil-o, se o

recheio não fosse tão veneravel e digno da sua devota guarda.

Ora o segundo caixão não era menos tentador: nem mais nem menos os doze

apostolos de prata maciça, com as suas barbas venerabundas a incutirem

seraphico temor e amor! Norberto alçou nos braços um dos apostolos, não

tanto para fazer-lhe oração mental, como para calcular-lhe o peso, e,

aproximadamente, ajuizou doze arrateis, os quaes, multiplicados por

doze, davam cento e quarenta e quatro arrateis de prata. Entendeu

piedosamente o arrozeiro que o segundo caixão era thesouro não menos

credor dos seus desvelos que o primeiro, em razão de conter as imagens

dos doze primeiros santos da religião christã, e n'este presupposto de

bom juizo resolveu recommendar á sua vigilancia a guarda de tão augustas

imagens, que talvez providencialmente vieram enterrar-se na sua adêga,

para se esconderem á perseguição de Bonaparte, bem como os christãos

primitivos se escondiam nas catacumbas para fugirem á perseguição dos

Neros e Trajanos.

A escrupulosa irmã do defuncto bacharel não assistira á exhumação dos

caixões; mas, sabendo dos doze apóstolos, tal ancia lhe entrou de os

ver, que não houve remedio senão desenterral-os de novo.

D. Rosalia ficou encantada dos aspectos magestosos de S. Pedro e S.

Thiago. Quiz que seu marido rezasse emparceirado com ella uma

jaculatoria aos dois santos em particular, e a todos em geral. Norberto

annuiu com a mais fervente uncção, e edificou sua mulher, propondo a

repetição das ditas jaculatorias, para que os bemaventurados discipulos

do divino mestre não permittissem que mãos sacrilegas dos francezes

tocassem nas suas devotas imagens. Lembrou logo alli a snr.ª D. Rosalia

que, passada a guerra, se não apparecesse o dono d'aquelles objectos, se

havia de fazer uma capella na quinta do Candal, para que os santinhos

fossem adorados por toda a gente. Concordou o arrozeiro, enterrando-os

outra vez, e recommendando a sua mulher, que não dissesse a ninguem que

a sua adêga estava tendo as honras de cenaculo.

Estas scenas passavam-se oito dias antes da invasão dos francezes no

Porto.

Á noticia da aproximação de Soult nas trincheiras, Norberto de Meirelles

fechou a casa da rua das Taipas, e foi para o Candal.

D. Carlota Angela, com sua tia e a noviça Dorothea saíram do convento

para o mosteiro de Arouca. D. Rosalia instara para que a seguissem; mas

Carlota vencera a vontade condescendente de sua tia, com lagrimas e

rogos para que não aceitasse asylo que não fosse o de outro mosteiro

menos susceptivel de ser assaltado pelos francezes.

O exercito invasor derramou-se pelo Porto, no cevo do saque e da

carnagem. As portas da casa da rua das Taipas, malsinada aos francezes

como bem recheiada, não resistiram ao machado. Pouco lá havia que

saciasse a cubiça dos salteadores. O denunciante esteve em perigo de ser

acutilado, por lhes ter feito perder tempo em arrombar as portas para

saque tão mesquinho. Ora, o denunciante era um visinho de Norberto, seu

inimigo, e capaz de dar um olho para que arrancassem os dois ao

arrozeiro. Disse elle aos francezes que o seguissem além do rio, e elle

lhes promettia boa presa, porque as immensas riquezas do negociante

deviam estar na quinta.

Seguiram-o os francezes, promettendo-lhe repartir com elle da presa, ou

tirar-lhe a alma e os figados, se os enganasse, ou levasse a alguma

emboscada.

Ao avisinharem-se do Candal, deram rebate as espias de Norberto de

Meirelles. Calou-lhe na alma o mêdo, que amarellece a cara de gemma de

ovo, tapa os respiros do pulmão e promove a desordem dos intestinos

todos. D. Rosalia caíu de cocoras, e entrou a bater os queixos como em

maleitas, e a resmungar fragmentos da Salvè-rainha e do Padre-nosso.

Dois criados da quinta, que, momentos antes, tinham estado renovando a

escorva das clavinas, e apostando a qual d'elles mataria mais francezes,

apenas avistaram os penachos de dez ou doze d'aquelles, que, segundo os

seus projectos homicidas, deviam ser levados a murro, deram a fugir por

aquelles pinhaes, como envergonhados de se baterem com tão poucos

francezes. Chamava-os com desesperados berros Norberto, emquanto elles

podiam ouvil-o; mas não houve gritos nem promessas que os volvessem ao

posto da honra.

O negociante travou do braço da mulher, para que o seguisse, fiando a

salvação na fuga. D. Rosalia ainda se ergueu; mas vacillaram-lhe as

pernas frouxas, e recaíu, dizendo que morria, e queria alli morrer. O

arrozeiro cuidou que a movia, assustando-a com a ideia de que os

francezes a matariam, se ella não confessasse o escondrijo do dinheiro.

A pobre mulher, petrificada de terror, não respondia a taes estimulos, e

recalcitrava na pertinacia de se deixar matar.

Emquanto ella murmurava um acto de contrição, preparando-se para morrer

o mais catholicamente que podesse, Norberto de Meirelles seguiu a pista

dos criados, pela porta travessa da quinta, com o intuito de alarmar a

freguezia, tocando a rebate a sineta da proxima capella.

Os francezes arrombaram a primeira porta, e outras menos robustas, até

entrarem no quarto onde estava D. Rosalia de mãos erguidas, pedindo

misericordia. Um da malta, com o rosto coberto por um lenço, disse-lhe

em claro e chão portuguez que lhe não fariam mal a ella nem ao marido,

se lhe dissesse onde estava escondido o dinheiro. D. Rosalia respondeu

que não sabia. A um signal convencionado do interprete, dois refles

ameaçadores ladearam o pescoço da moribunda senhora. O homem da cara

coberta admoestou-a de novo, pedindo aos francezes que suspendessem a

morte por alguns momentos. Rosalia, revalidando tres vezes a condição de

que não matariam seu homem, disse que o dinheiro estava enterrado na

adêga; mas que tambem lá estavam dois caixões de prata, e esses pedia

que não levassem, porque não eram d'ella. Feito o juramento de

respeitarem, não os caixões, mas a vida dos depositarios, levaram em

braços D. Rosalia á adêga, para a fazerem apontar o local onde convinha

cavar.

Meia hora depois, corriam contra a quinta de Norberto de Meirelles, mais

de duzentos homens da freguezia, reunidos pelo toque guerreiro da

sineta, afóra os fugitivos do Porto, que tinham atravessado a ponte,

horas antes de lhe serem abertos os alçapões. Quando entraram na casa,

com grandes alaridos e descargas, encontraram D. Rosalia á porta da

adêga, prostrada n'um desmaio. Norberto adivinhou o successo horroroso.

Entrou, foi direito ao tonel protector do escondrijo, achou a terra

revolvida, levou as mãos á cabeça, soltou um grito cavernoso, e foi

bater com as costas nos tampos sonoros do tonel. «Roubado! roubado!»

exclamava elle, emquanto a multidão compadecida se derramava pelos

aditos da quinta, procurando os francezes, e outros tratavam de

restituir á vida a mulher do negociante, que parecia morta.

Carlota Angela · 第 7 / 11 段