vaticinios da cunhada, e aceitava de melhor vontade a proposta da filha,
na esperança de a curar da loucura, durante o anno do noviciado, com os
recursos que o cunhado doutor promettia espiritar-lhe, consoante o
andamento do tempo, bom para tudo.
Antes, porém, de diligenciar o contracto do noviciado para a filha,
Norberto de Meirelles mandou-a chamar, e Carlota, admoestada brandamente
por soror Rufina, obedeceu.
--Vamos a ver, menina, que mania é essa de seres freira?--disse elle.
--Isto não é mania, meu pae, é aceitar com reconhecimento a consolação
unica, e a melhor que Deus me dá n'este mundo, com esperanças de outro
melhor.
--Beatices que te metteu na cabeça tua tia... Deixa-te d'isso, Carlota;
o convento é para quem é. Nunca te vi inclinação para este modo de
vida...
--A religião não é modo de vida, meu pae, é regra de vida.
--Não me dês sentenças, menina. Eu bem sei o que digo. Olha que isto
aqui é para sempre. Se professares, não tens remedio, ainda que te
arrependas; é d'aqui p'ra Christo.
--Pois d'aqui para Christo é que eu quero ir, meu pae. Saiba que é
inutil contradizer-me. A força que eu sinto em mim para ser freira é
invencivel. Não me tolha a alegria, se é alegria este santo desejo de
vestir o habito. Os obstaculos podem mortificar-me, mas não mudam o meu
proposito. É escusado embaraçar-me. Offereci-me ao Senhor, quando cuidei
de morrer de dor, pedindo-lhe allivios; senti-os, o Senhor apiedou-se de
mim; é que a misericordia divina me aceita do modo que eu mais digna me
posso fazer de morrer em paz.
--Isto passa-te, Carlota. Como tens de ser noviça um anno, veremos como
se te reviram as ideias.
--Pois sim, meu pae; se eu me não achar com forças de servir a Deus,
dir-lh'o-hei, e sairei do convento.
--É o mais certo, e verás como te ha de parecer bom isto cá de fóra. Tu
és bonita, és rica, és prendada, podes casar...
--Meu pae! por quem é não continue...
--Então que tem isso? Já cá te disseram que o casar é crime? Boa vae
ella! Ainda ha seis mezes que estavas n'outras ideias...
--Se o pae faz gosto em atormentar-me, diga o que lhe parecer, que eu
escuto-o; mas se me tornar a procurar, eu não venho aqui...
--Isso é modo de fallar a teu pae, Carlota! Cá dentro ensina-se a dizer
isso a quem te creou, e trabalha para ti ha trinta annos? Cuidadinho
commigo, menina! Eu tanto tenho de bom como de mau. Se tua tia cuida que
eu sou um mono de palha, engana-se...
--Que mal lhe fez minha tia?
--Que me fez?! Encheu-te essa cabeça de teias de aranha, lá com as suas
arengas do beaterio, e deu-te auso a responderes com poderio a teu pae!
--Eu não o offendi...--atalhou ella, chorando--Pedi-lhe que não fizesse
sangrar uma ferida de que estive á morte... Quem for meu amigo, ha de
querer que eu ache allivio em alguma cousa; se a religião m'o dá,
deixem-me ser freira, e não me fallem em casamentos impossiveis. Ora
aqui está o que eu supplico a meu pae; se isto o offende, perdôe-me; e
se é offendel-o não vir á grade para ouvir palavras que me amarguram,
virei todas as vezes que o pae quizer.
--Está bom; basta de chorar. Vae-se tratar dos arranjos para o teu
noviciado. Deus lhe ponha a virtude, e te guie para o que for melhor. Eu
ainda espero ter-te commigo, alegre e folgazã como eras antes de
conhecer esse homem que...
--Meu pae!
Carlota Angela erguera-se sobresaltada, e Norberto estacou, sopeando a
ira que lhe espertara a vehemencia, um pouco soberba, da filha. A ira
degenerou em um sorriso, cuja versão não acho no meu elucidario de
sorrisos sandios.
O arrozeiro, receioso de _esbarrondar-se_, como elle depois dizia a D.
Rosalia, saiu da grade, onde a filha permaneceu longo tempo enxugando as
lagrimas, para simular socegado o semblante.
Um mez depois, entrava Carlota Angela, com a mestra de noviças e a
cantora, no côro, onde se reunira a communidade.
A dona abbadessa empunhando o bago, insignia magestosa da prelazia,
estava no tôpo das duas alas de religiosas, solemnes e magnificas com
suas roçagantes cogúlas. O clarão tremente dos cirios banhava o recinto
de baço esplendor e sombras magestosas.
A tres passos distantes da prelada, que lhe sorria com maternal caricia,
Carlota prostrou-se com a face em; terra.
A humildade com que fizera a reverencia, o subito rompimento das
lagrimas, que a noviça não podera represar, a voz compungida da prelada,
proferindo o _quid petis_, e o soluço tremido de Carlota, respondendo
_misericordiam_... «a misericordia de Deus e a vossa», a terrivel
magestade do silencio, durante as genuflexões da noviça; todos estes
actos, impressivos de religiosa melancolia, tocaram o coração das
religiosas a ponto de correrem lagrimas por todas as faces, no momento
em que a prelada, commovida como todas, disse a Carlota, ainda ajoelhada
ante si: _Surge_, «levanta-te».
A noviça voltou-se com as duas religiosas para o altar-mór, enxugou as
lagrimas emquanto fazia as reverencias do ceremonial, ajoelhou de novo
aos pés da prelada, que proferiu uma breve pratica ácerca das
gravissimas obrigações que a noviça contrahia com o promettido esposo.
Carlota ouviu-a com as mãos erguidas, sem levantar os olhos para o rosto
venerando da abbadessa, onde a graça, ternura e o sorriso da bondade
eram um como suave encarecimento ás virtudes que aconselhava, e estimulo
para merecer no céo o galardão de as praticar.
Carlota lançou de si o sumptuoso vestido, e os enfeites da cabeça. Longa
e farta trança de cabellos negros se desenrolou até á cintura. Uma
freira tomou a tesoura, e de dois golpes lhe cerceou a trança, que depôz
em uma bandeja. A mestra de noviças cingiu-lhe a touca branca, e a
prelada lançou-lhe aos hombros o habito ou mantilha. Carlota, durante
este acto, parecia não sentir, não perceber a profunda e dolorosissima
significação que elle deve ter para a mulher expulsa dos prazeres do
mundo, onde todas as suas esperanças foram cruelmente desmentidas.
Estavam de joelhos todas as religiosas, ella, entre a mestra e a
prelada. As cantoras entoaram o hymno: _Veni, creator spiritus_. Era um
canto melancolico acompanhado a orgão; um mystico e lagrimoso offertorio
da alma atribulada ao supremo consolador das angustias. Cantada a
primeira estrophe, ergueram-se todas, excepto a noviça. Seguiram-se os
versiculos e orações entoadas no côro e no altar-mór. A mestra de
noviciado dissera a Carlota que se levantasse, terminada a ceremonia; a
noviça, porém, continuava ajoelhada com as mãos entrelaçadas sobre o
peito. Recommendaram-lhe de novo que se erguesse, vendo que ella
estremecia, como se já não podesse sustentar a violencia da posição.
Carlota não se erguia, até que lhe deram a mão, e encontraram frias de
neve as d'ella. Fizeram vão esforço para levantal-a, algumas freiras que
a rodearam. Carlota não respondia, apenas respirava; quiz obedecer ao
impulso que lhe davam para erguer-se, mas á pallidez, ao turvamento da
vista, seguiu-se o desmaio.
Soror Rufina, Dorothea, e as outras ergueram o alarido do susto. Na
igreja estava a mãe de Carlota, escondida na sua mantilha, chorando,
recitando Padre-nossos machinalmente, e promettendo a Deus confessar-se
da sua culpa, se era culpa ter occultado a sua filha o engano que o tio
doutor lhe urdira, arranjado com o pae.
Quando, porém, os ais do côro chegaram aos seus ouvidos, com as
exclamações afflictas de Rufina, D. Rosalia saíu da teia de um altar,
veio ás grades do côro de baixo, e rompeu em brados desentoados,
chamando a filha. O capellão-mór, vestido de sobrepeliz, estola e
pluvial, veio lembrar á lamuriante senhora, que a sua gritaria não era
propria da casa de Deus. D. Rosalia replicou, menos commedida, que
queria cá fóra sua filha, viva ou morta. E n'esta altercação estiveram
ella e os capellães, recreando uns e fazendo chorar outros dos
circumstantes, até que soror Rufina e outras freiras vieram á grade do
côro aquietar a mãe de Carlota, dizendo-lhe que o incommodo fôra um
passageiro desmaio.
E assim fora, felizmente.
Carlota voltou a si, quando a mãe gritava. Os brados fizeram-a sair do
côro vacillante e alvoroçada. Quizeram encaminhal-a á cella; mas Carlota
sabia que era costume ir a noviça, finalisada a ceremonia, visitar as
doentes.
Foi; e ás mais enfermas pedia que, se o Senhor as chamasse brevemente,
rogassem a Deus que a levasse para si.
XI
Pois ainda não ouvistes de seu valor o maior encomio.
José de Sousa (o cego). (_Obras posthumas._)
Vereis amor da patria... etc.
Camões. (_Lusiadas._)
Junot, a marchas forçadas, esperançoso ainda de obstar á saida da
familia real, ia sobre Lisboa. A regencia desnorteou com a imbecilidade
rara de que era dotada; a classe média, presumindo a tyrannia proxima,
ainda quiz debalde oppôr um dique á invasão; mas a populaça, sedenta de
anarchia, onde sevar temporariamente os vis instinctos, remoinhava,
alegre e enthusiastica, rugindo como o tigre que fareja o sangue.
Joaquim Antonio de Sampayo foi, n'essa época, a preexistencia dos
grandes homens, das summidades estadistas dos ultimos vinte annos.
Avaliando quanto difficil seria acertar com o caminho seguro na
encruzilhada das perspectivas politicas, não preferiu algum, e
aceitou-os todos como conducentes á prosperidade, quando a fortuna,
filha da velhacaria, vem, de puro namorada, emendar as asneiras do seu
predilecto.
Sampayo lamentava com Manique o desamparo em que ficara o reino pela
impolitica e precipitada fuga do principe regente. Incriminava com os
fidalgos a cobardia de similhante desaire para o paiz dos Pachecos e
Albuquerques. Ouvia com acquiescencia os murmurios da nobreza contra a
dynastia bragantina, murmurios timidos, que mais tarde se formularam
n'uma vilipendiosa petição, requerendo ao usurpador um rei da sua
escolha, e nomeadamente o general Junot, que comprara consciencias tão
degeneradas como a do conde da Ega, e do bispo do Porto, Antonio.
Com a classe média, Sampayo bociferava contra os francezes, e promettia
sacrificar nas hecatombas da patria a sua ultima pinga de nobre,
generoso e patriotico sangue. Todavia, exhausto o fôlego das imprecações
retumbantes, e accendida a flamma do heroismo nos peitos burguezes que
se apinhavam nas praças, Sampayo, passando da iracundia ao reflectido
exame das circumstancias, dizia que a sublevação popular seria um
desatino sem proveito, um sacrificio de vidas e fazendas intempestivo e
inglorio para as quinas lusitanas. Sobre isto, vinham os conselhos de
homem que privava no segredo dos destinos de Portugal, conselhos de
paciencia, de resignação, e, mais que tudo, de maxima prudencia na
entrada de Junot.
Relacionado com a plebe, em razão do seu ministerio na intendencia geral
da policia, o antigo advogado da rua de Santa Catharina insinuava-se nos
grupos desordeiros e respondia com impertigamento de oraculo ás
perguntas desconchavadas que lhe faziam. Napoleão, dizia elle que não
era o impio que se dizia. Napoleão, e os seus generaes, não saqueavam as
igrejas, nem arrombavam as portas dos conventos de freiras, nem
violentavam a virtude das donzellas, nem attentavam contra a liberdade
do povo. Pelo contrario--continuava elle, baixando cada vez mais a voz,
e relanceando o olho observador por sobre as physionomias suspeitas que
chegavam de novo--pelo contrario, Napoleão queria mudar a face das
cousas em favor das classes opprimidas, chamando o povo á partilha dos
regalos e direitos que a classe nobre lhes viera usurpando pouco e pouco
através dos seculos. Dito isto, o povo rompia em vivas a Napoleão, e
acclamava general o doutor Sampayo, que se esgueirava surrateiramente
pela primeira brecha que a agitação lhe proporcionasse.
D'alli, ia á intendencia dizer a Manique o fermento que azedava os
rasteiros instinctos da canalha. Alvitrava o emprego da força armada
para dispersar os bandos, com prudencia; e, compungido de patriotica
lastima, deplorava o indiscreto arbitrio dos palacianos que aconselharam
ao principe uma fuga tão calamitosa no instante em que o prestigio da
nacionalidade estava na presença do soberano.
Fora nomeada uma deputação para cumprimentar Junot. Além dos
expressamente enviados pela regencia, Joaquim Antonio de Sampayo
associou-se na deputação com alguns particulares, que se davam pressa em
depôr aos pés do invasor a porção infame do paiz que elles
representavam.
O ajudante do intendente arremedava a lingua franceza, e fazia-se
entender melhor que o deputado da regencia, o tenente-general Martinho
de Sousa e Albuquerque.
Junot, em Sacavem, chamou Sampayo a uma conferencia particular, e
informou-se de cousas que a deputação não elucidava por astucia, ou por
ignorancia da lingua. O certo é que o general francez, maravilhado do
bonapartista, ou da torpeza do informador, julgou-o necessario,
agradeceu-lhe com um aperto de mão os serviços prestados ao reformador
da Europa, e prometteu-lhe acrescental-o, quanto em si coubesse, em
honras e fazenda.
Chegados a Lisboa, as proclamações que circulavam entre a populaça eram
de Sampayo. N'ellas se aquietava o espirito publico, dizendo-se que o
excellentissimo senhor Andoche Junot, heroe de Toulon e de Nazareth, era
o emissario da paz, da ordem, e da prosperidade portugueza; que a
propriedade era sagrada para o exercito do imperador da França; que a
virtude das virgens, e das menos suspeitas d'esse respeitavel estado,
era inviolavel; que ninguem fugisse de suas casas, nem viesse para a rua
fazer assuadas, algazarras, ou outras que taes manifestações de desordem
e descontentamento.
O bacharel Sampayo ajudara, na vespera do embarque da familia real, a
encaixotar as pratas da patriarchal, que deviam acompanhar os reaes
emigrados. A celeridade, porém, do embarque, fez que os quatorze carros
de preciosos objectos ficassem no caes de Belem, e voltassem, com grande
jubilo do cabido, a serem armazenados na sacristia da igreja. Sampayo,
emquanto se encaixavam as riquissimas bandejas, castiçaes, corôas,
lampadas, etc., resistira heroicamente aos assaltos da ladroice, que lhe
estavam segredando o modo de empalmar algumas peças miudas de
preciosissimo trabalho. Pôde sopear a tentação; mas não via, sem grande
mágoa, confiar-se aos caprichos do oceano uma carga tão valiosa. Um tal
ou qual allivio o desopprimiu da sua pena, quando viu ficarem em terra
os carros, e voltarem depois a despejarem a prata sob o tecto protector
da sua igreja. Sampayo, a proposito d'isso, asseverou ás freiras de
Santa Anna, onde almoçava todos os dias, que andava alli milagre
n'aquella reconducção! Não acreditava elle, porém, que o milagre fosse
perfeito e averiguado, emquanto um bom quinhão d'aquella prata não
entrasse em casa d'elle. Convencido do «trabalha, que eu te ajudarei», o
bacharel concorreu quanto em si cabia para que o milagre se completasse.
O processo não deixa de ser engenhoso: «engenho» é a palavra com que a
civilisação, ainda então embryonaria, substituiu a palavra «ladroeira»
dos costumes, das biographias, e das acções humanas, que, por força do
progresso, hão de ir perdendo a nomenclatura aspera e illogica que lhe
davam os gothicos moralistas de carcomida memoria.
O engenhoso Sampayo (diga-se assim de um homem que merece o respeito que
se presta aos contemporaneos, apesar do seu atrazo de meio seculo), o
engenhoso bacharel pediu uma audiencia particular a Junot, e
denunciou-lhe a existencia de quarenta caixões de prata na igreja
patriarchal.
Junot chamou seu cunhado, que por signal se chamava Jufre, e
commetteu-lhe o encargo de sequestrar a prata, associado ao serviçal e
benemerito denunciante.
Os dois, com alguns operarios de confiança de Sampayo, entraram na
igreja, fecharam-se cautelosamente, e arrombaram os caixões, excepto
dois, que não foram inventariados, ou o denunciante se encarregou de os
inventariar em sua casa, para onde foram transportados, ao escurecer.
Completou-se d'esta arte o milagre, que Sampayo, em beatifico extasi,
agradeceu toda a noite, contemplando uma a uma as formosas e corpulentas
peças que tencionava fundir em baixella de seu serviço, quando melhores
dias de ordem e tranquillidade fossem concedidos ao desgraçado Portugal,
que elle continuava a prantear com as freirinhas de Santa Anna.
Dera-se, entretanto, o costumado reviramento na opinião da plebe.
Junot não sabia, não podia, nem devia esconder as suas intenções
usurpadoras.
A bandeira franceza fora arvorada no castello de S. Jorge. As armas
reaes do arsenal foram picadas. Do parapeito do seu camarote abaixo,
Junot desenrolara as aguias vencedoras. As costas populares, n'uma
desordem do Terreiro do Paço, tinham sido apalpadas pelas cronhas
francezas. Nove portuguezes tinham sido espingardeados nas Caldas.
Dissolvida, em summa, a regencia, fora inaugurado o governo de Napoleão.
A populaça, portanto, bramia, e sobretudo, porque a sua força era nulla,
o seu poder desprezado, a sua fome e sêde cada vez mais insaciavel pela
careza dos generos. Havia um só meio de entreter-lhe as sanhas, ou
captar-lhe as sympathias: era quebrar os poucos esteios da ordem,
defendidos ainda pelas armas francezas, era facilitar o saque por meio
da anarchia.
A plebe, quando lobrigava Sampayo, cercava-o, pedindo-lhe conta das
promessas que elle fizera. O expedito bacharel desfazia-se dos
importunos, recommendando-lhes paciencia, e esperança nos serenos dias
que se haviam de seguir á crise indispensavel n'uma instituição de
principios novos, creada expressamente para o bem geral.
O povo ouvia-o com escarneo, e apupava-o, quando elle abria com os
hombros passagem para escapar-se.
Uma vez, porém, passava o bacharel na rua da Amendoeira, onde, por esses
tempos, se arruava a escoria das meretrizes, e se abandoavam os
condignos hospedes. Conheceram-o, e fizeram-lhe assuada.
Um gaiato de maus figados, instigado pela celeuma, saltou ao costado do
bacharel, e enterrou-lhe, com retumbante penantada, o chapéo até aos
queixos. A gargalhada publica victoriou o garoto, incitando-o a maiores
emprezas, e aguçando o estimulo dos emulos. Outro gaiato, cioso dos
applausos, capeava-o pela frente com um lenço vermelho de uma meretriz,
emquanto um terceiro, um quarto e um quinto lhe achatavam o chapéo, que
já não podia restaurar o antigo prumo. Uma alcouceira lançava-lhe ao
tiracollo uma restea esbrugada de alhos, emquanto outra lhe mettia na
portinhola da casaca, uma couve lombarda. Esta por um tubo de lata lhe
assoprava feijões á cara, emquanto outra lhe pendurava um rabo-leva de
papel na casaca, ou lhe esguichava fetidas aspersões com a seringa
carnavalesca.
Sampayo gritava por soccorro. Alguns soldados portuguezes e hespanhoes,
que por alli estanciavam, mantinham a neutralidade, ou riam á socapa do
infeliz gêbo. O bacharel, vendo passar uma guarda de soldados francezes,
bradou ao commandante, dizendo-lhe em francez que era victima da
canalha, porque adorava Napoleão.
O francez varejou com a espada as costas dos gaiatos; porém, as
rameiras, o povo, os gaiatos, animados pelos soldados portuguezes e
hespanhoes, fizeram menção de apedrejar os francezes. Travou-se uma
sanguinolenta desordem, á qual Sampayo deveu a evasiva.
A cólera não lhe deu respiro, até entrar no palacio de Junot. Queixou-se
amargamente, dizendo que os amigos da França eram as primeiras victimas
dos inimigos do imperador, n'um paiz de que Junot brevemente seria o
monarcha.
O governador de Portugal enviou Sampayo ao intendente geral da policia
Lagarde, com especial recommendação, e poderes discricionarios.
Dos soldados portuguezes, alguns foram lançados na enxovia, outros
deportados, e as meretrizes da rua da Amendoeira, rua Suja, e
immediatas, depois de rapadas á navalha, e vergastadas no pateo da
intendencia, foram desterradas para o Alemtejo.
Parece-nos opportuna n'este logar essa pagina ridicula da biographia de
um homem, que merecia ter mais ampla chronica, em vista do tragico
desfecho que no proximo capitulo se dirá.
XII
Nous en avons les preuves irrécusables sous nos propres yeux.
Volney. (_Leçons d'Histoire._)
Eis-aqui como o diabo os leva para o inferno sem appellação nem
aggravo.
S. S. da S. e Silva. (_Governo do mundo em secco._)
Junot recebera do imperador a graça de duque de Abrantes. Felicitaram-o
as corporações civis e militares, e muitos particulares da alta nobreza,
mercancia que o francez fizera sem blandicias nem razões de Estado
persuasivas. A consciencia d'estes miseraveis transigira com o renegar
tradições, nome, patria, pudor, e honra, logo que as palavras
«contribuição e confisco» os ameaçou de expiarem na dureza das nobres
privações a repleção estomacal de seculos. O conde da Ega, Ayres de
Saldanha, o bispo do Porto, o principal Miranda, e outros que mais
avultam na veniaga torpe, são uma parcella no rebanho das ovelhas
tinhosas, immoladas na sua dignidade aos pés do soldado aventureiro, que
lhes cuspira na cara o preço das almas, e nas quinas portuguezas a
affronta d'elles.
Emquanto estes, envilecidos como nunca fora nação usurpada, pediam a
Napoleão um rei francez, e nomeadamente Junot I para a terra de D. João
I e D. Manoel; emquanto os fidalgos de sangue phenicio, carthaginez,
suevo e godo, sem mescla do judaico, requeriam a Junot os empregos
desamparados por outros fidalgos, que acompanharam o regente para o
Brazil, aterrados de pavor, e, como elle, acocorados ao pé das velhas
açafatas de D. Maria I; quem eram os portuguezes de consciencia e
esforço n'esta nação desmembrada, n'esta metropole de tamanha parte do
mundo, offerecida pelos netos dos que a conquistaram a um soldado
francez?
Alguns ergueram a fronte, sem o ferrete da venda, por entre a turba dos
nobres, que a devassidão herdada enfraquecera e deixara caír no tremedal
d'onde o historiador severo ha de buscal-os para os inscrever no livro
dos paroxismos vergonhosos da raça de piratas, que pouco tempo logrou o
fructo dos seus flagicios.
Esses, que levantaram o rosto sem mancha, para saudar no throno
reerguido o degenerado neto do Mestre da Aviz, eram uma classe menos
timida que a do vulgacho, a mais quieta na sua obscuridade, a que fora,
nos dois ultimos seculos, pouco e pouco espoliada dos seus antigos fóros
municipaes, a classe média, emfim, cuja importancia na cidade
delimitava-se a engrossar a veia da thesouro.
Foram esses homens, robustos de seiva e espiritos nacionaes, os unicos
que se concatenaram em reacção, surda e tenacissima na oppressão, contra
os tyrannos; foram esses os tributarios liberaes de fazenda e sangue á
restauração duvidosa do throno, que lhes pediu, depois, com que reparar
o antigo fausto; foram, para tudo dizer de um traço, foram elles os que
nunca esmoreceram no resgate da terra captiva do Encelado, que quizera
abarcar o mundo entre as duas extremidades da sua espada invencivel,
salpicada com o sangue de nações poderosas.
O bacharel Joaquim Antonio de Sampayo (é de quem o leitor supercilioso
quer que se lhe falle, e da melhor vontade me dispensa de reflexões
impertinentes, que me manda pôr de conserva para quando escrever um
livro serio, grave, e reflectido, que ninguem ha de comprar): o bacharel
Joaquim Antonio de Sampayo vestiu-se á côrte, de chapéo armado, espadim,
meia de seda, e fivelas de prata. Disseram que estas fivelas tinham
pertencido a um santo da patriarchal: isto parece-nos calumnia.
Folheamos, e esgaravatamos o agiologio europeu, e não deparamos santo
contemporaneo das fivelas. O historiador veridico rejeita, como Tacito
na biographia dos grandes scelerados de Roma, as toardas de phantasia
para infamar caracteres onde sobejam crimes provados para a execração
universal. Desculpem a intumecencia do estylo, que a materia não é tanto
de sóco, como á primeira vista parece.
O duque de Abrantes recebeu affavelmente o bacharel, e, na presença dos
fidalgos, que estendiam já a mão soberba ao ajudante do ex-intendente
Manique, entregou-lhe a nomeação de juiz para um tribunal especial
militar, creado no Porto por decreto de 9 de maio de 1808.