«Se eu morrer, minha querida Carlota, ouso d'aqui já pedir-te o meu

perdão. A memoria de um morto é sagrada. Todas as ingratidões e

villanias desapparecem com o miseravel corpo que os vermes desfazem.

Fica a alma no seio de Deus, ou fóra do céo. Se Deus acolher a minha, de

lá te chamarei; se me repellir este espirito, purificado no fogo da

saudade, errarei em torno de ti, pedindo-te perdão, porque tu és a unica

pessoa que eu offendi n'este mundo. A offensa, minha amiga, está

expiada. Tenho soffrido penas sobrenaturaes. Achei doçura e suavidade no

supplicio, emquanto me considerei algoz da tua felicidade, infame

vendilhão que te troquei por alguns punhados de ouro. Depois, porém, que

expelli em lagrimas a peçonha do coração, ouso dizer a Deus que este

flagello é de mais... esta quéda na sepultura, aberta no caminho de

palmas que eu de lá vira, é um acto da Providencia que assimilha um

escarneo. Não tenho forças nem vista para mais, Carlota. Compaixão, anjo

do céo! Amor... não t'o mereço: seria duplicada infamia pedil-o agora.

Adeus.»

Após uma longa enfermidade, Mendonça esperava alvoroçado o paquebote que

fazia regulares viagens entre Portugal e o Brazil.

O coração afiançava-lhe uma carta, muitas cartas de Carlota; umas

accusando-o, outras absolvendo-o.

O paquebote chegou. Salter teve muitas cartas. Examinou os

sobrescriptos, primeiro com o rosto incendido pelo giro alvorotado do

sangue; depois, á maneira que estremava as cartas, sobreveio o desmaio,

a pallidez do susto; e finalmente o turvamento, a prostração, o cair

alquebrado sobre uma cadeira, com os dedos recurvados na fronte, que

revia suores frios.

Aquietada a angustia, depois de enfurecidos impetos, Salter quiz

escrever, arrojou a penna, e levou as mãos á fronte, como a segurar uma

ideia consoladora.

--Vou a Portugal!--murmurou elle--fujo, deserto, perco-me, mas vou a

Portugal. Carlota está morta, ou atraiçoou-me!

Este projecto foi-lhe um desafôgo n'aquelle dia. Nenhum estorvo se lhe

avultava insuperavel. O governador chamara-o para lhe communicar as

ordens que recebera do governo e entregar-lhe officios do almirantado.

Dava-se pressa do reino ao capitão da real brigada em executar os

trabalhos commettidos, visto que Portugal ia ser compellido a reunir-se

com Napoleão na causa do continente. Era um prognostico da indecorosa

subserviencia com que, alguns mezes depois, a côrte portugueza rompeu

com Inglaterra, para, decorridos poucos dias, lhe pedir auxilio na

vilipendiosa e impolitica fuga.

Não invejamos a gloria do historiador portuguez d'esse tempo, pelas

nauseas e vergonhas que lhe ha de custar a narração exacta do

envilecimento a que descera a terra do marquez de Pombal. Se não fosse o

receio de enjoar o leitor, que lê um romance, cansado de ler livros com

ideias, escrevia agora aqui uns threnos plangentes sobre a patria de D.

João I e D. Manoel. Ainda me tolhe outro mêdo, e vem a ser o de me ver a

braços com difficuldades na resposta aos que me perguntarem se a patria

de D. Fernando I e Affonso VI valia mais em dignidade, primor, e

independencia que a do marido de D. Carlota Joaquina. Questões são estas

que desentoam aphonicamente da indole d'esta escriptura, mais que todas

sujeita a fazer-se ridicula, se dá ares de ser obra de quem sorve uma

conspicua pitada, para julgar depois os reis e os povos.

O que se quer é saber no que pararam os projectos de Francisco Salter de

Mendonça; se desertou, se morreu, ou transigiu com a desgraça.

Nenhuma das hypotheses.

No dia seguinte ao da intencionada fuga, o amante de Carlota Angela foi

visitado por um individuo, que disse ser natural do Porto, e ir liquidar

uma herança no Rio de Janeiro.

Mendonça acolheu-o com alegria, suppondo-o portador de carta de Carlota.

Disse o portuense que viera alli dar-lhe uma nova, talvez desagradavel

ao principio, mas estimavel, quando a reflexão desvanecesse os effeitos

da má noticia.

--Que é?--atalhou Mendonça--Estou preparado para o que for.

--Eu conheço Norberto de Meirelles, sou negociante como elle, e sei

todos os passos da sua vida. Soube que v. s.ª lhe pedira a filha em

casamento; soube que lh'a prometteu, para evitar que ella saísse

judicialmente; e tambem soube que elle roeu a corda, como costuma em

muitos outros contractos, quando o doutor Sampayo lhe participou de

Lisboa que v. s.ª era mandado para aqui. É isto verdade, ou não?

--É, pelo menos assim o creio; mas antes de mais nada, queira

responder-me a uma pergunta, para eu o ouvir com socego: D. Carlota

vive?

--Vive, e vive feliz, pois não vive!

--Feliz!... diz o senhor...

--Eu que o digo é porque o sei... Mulheres, meu amigo, mulheres! V. s.ª

espanta-se? Bem se vê que está ainda muito verde, e não conhece o

mundo... Longe da vista, longe do coração. As raparigas d'agora são como

as ventoinhas. Palavriado, e mais palavriado; novellas e mais novellas;

crendices e papagaices; e de tino e juizo nem para mandar cantar um

cego.

--Eu não entendo essa mistura de anexins com que o senhor está

retardando a nova que me traz. Tem a bondade de se explicar com a

possivel clareza?

--Lá vou, snr. Francisco Salter de Mendonça, lá vou; mas será bom que se

previna, se ainda me não adivinhou... A filha do tal snr. Norberto

confirma o dictado de que de ruim arvore, nunca bom fructo.

--Quer dizer que...--interrompeu, coriscando fogo dos olhos, o impetuoso

mancebo.

--O senhor vejo que se enfada... Estou arrependido de cá vir com

similhante...

--Com similhante commissão?!--concluiu Mendonça, erguendo-se em attitude

ameaçadora.

--Commissão!--gaguejou o interlocutor com sensiveis signaes de

surprendido.

--Sim!... diga o resto, quero ouvir o resto; mas depressa.

--V. s.ª está fóra de si!--tornou o atrapalhado homem, lançando a mão

ao chapéo e á bengala--Eu não vim aqui offendel-o, e v. s.ª recebe-me

de um modo que eu não mereço... N'esse caso retiro-me.

Mendonça, sofreando a cólera, tomou-lhe da mão urbanamente o chapéo, e

obrigou-o com branda coacção a sentar-se.

--Desculpe-me este desatino. O senhor, se alguma vez amou, deve

passar-me por esta escandecencia propria de um rapaz ardente, com o

coração ainda intacto d'essas punhaladas que, muito repetidas, chegam a

matar a sensibilidade. Estou de animo frio para escutal-o. Queira v.

s.ª continuar.

--Eu...--disse o portuense, disfarçando ineptamente o sobresalto--eu...

se aqui vim, foi para o desenganar... e mais nada...

--Pois muito lhe agradecerei o desengano, quando o senhor me disser o

engano.

--Pois não adivinhou ainda? O senhor é esperto, segundo ouvi dizer, e já

ha muito que devia entender que a tal menina não o amava.

--Entendi agora--disse serenamente Mendonça com habil artificio.--Mas,

como prova v. s.ª isso?

--Como provo?

--Sim, como prova? Eu creio tanto no amor de Carlota Angela, quanto

reputo v. s.ª um calumniador emquanto me não provar essa espantosa

novidade.

--As provas, n'este caso...

--São difficeis, bem o sei; mas o senhor ha de poder dizer-me: Carlota

não o ama, porque deu esta ou aquella prova de o não amar.

--A prova acho eu que é bastante dizer-lhe que ella, a esta hora, está

casada com outro.

--Essa é realmente a suprema das provas possiveis; mas, se lhe não

custa, conte-me os promenores d'esse casamento. Quem se diz tão

intimamente informado da vida de Norberto de Meirelles deve elucidar

melhor as cousas. Quem é o noivo de Carlota?

--O noivo...--tartamudeou o homem, enfiando de novo.

--É do Porto?

--Sim, senhor, é do Porto.

--Como se chama?

--Chama-se... esquece-me agora... v. s.ª de certo não conhece, ainda

que eu lh'o diga... é um rapaz do commercio, que mora....

--Sim, onde mora? Diga-me a rua, que eu o auxiliarei na recordação do

nome, porque sei os nomes de todos os pretendentes de Carlota. Mora na

rua de?...

--Na rua... de... ora que cabeça esta!... O senhor atrapalhou-me de tal

modo que me fez perder...

--Até a memoria das ruas! é original essa perda! Diga-me mais,

entretanto que lhe não lembra: Onde estava Carlota, quando o senhor saíu

do Porto?

--Onde havia de estar?... Estava em casa... e tinha estado no

convento...

--No convento de...

--No convento, sim, no convento de...

--Tambem perdeu a memoria dos conventos! Descanse, senhor portuense,

tome fôlego, e tranquillise-se, porque receio d'aqui a pouco, que nem do

Porto se lembre. Fallemos de outro assumpto. Como está Norberto de

Meirelles?

--Está bom, não ha mal que lhe chegue...

--Aquelle homem é rijo, sendo tão magro!

--Isso é verdade!

--E sempre tão pallido!

--Parece um defunto.

--Vejo que o senhor até perdeu a memoria do seu amigo Norberto!

Conhece-lhe os intimos segredos domesticos; mas não se recorda que elle

é gordo e vermelho! Estou maravilhado do muito que me conta! E D.

Rosalia continúa a cantar com aquella angelica voz que nós lhe

conhecemos?

O noticiador estava tolhido de mêdo. A esta ultima pergunta fez uma cara

de apiedar as feras. Salter cruzara os braços sobre o peito, cravara os

olhos nos olhos esgazeados do infeliz agente do bacharel Sampayo, e

mandara-o sentar. Á segunda vez, a offerta da cadeira era pouco urbana:

Mendonça pozera-lhe a mão no hombro direito, carregando com força

bastante para aterrar o ensoado hospede, que se julgara em perigo. Este

susto converteu-se em convicção de pancadaria certa, quando Salter

correu a lingueta da chave.

--O senhor treme como todos os miseraveis alugados para uma acção

infame. Não trema--disse Mendonça--que eu não lhe faço mal. Se o não fiz

saltar por aquella janella, quando proferiu com menos respeito o nome de

D. Carlota Angela, agora de certo o acompanharei até á porta da rua.

Mas conte-me a sua vida. Essa presença é inculcadora. O seu trajar é

limpo, e a natureza deu-lhe cara de homem de bem. Que officio tem o

senhor? Vive d'estas emprezas?

Responda com desabafo. Quem o mandou aqui trazer a noticia d'esse

casamento?

--V. s.ª... eu... obrigado pela necessidade...

--Diga; desengasgue-se d'esse nó de vergonha que tem na garganta. O

senhor está entalado! Ora vamos: dizia o senhor--forçado pela

necessidade...

--Deixei-me seduzir por um homem, que me mandou... aqui...

--Esse homem é Joaquim Antonio de Sampayo.

--O mesmo é verdade, é esse...

--Designadamente para o fim de me avisar que a snr.ª D. Carlota casava?

--Sim, senhor.

--E não o ensaiou para representar melhor o seu papel?... O senhor

executou miseravelmente a commissão do seu mandatario, e precisa de uma

leve correcção, para que ninguem mais se fie na sua destreza. O senhor

tem aqui papel e tinteiro. Escreva ahi, com clareza e verdade, o

programma que lhe deu o bacharel Joaquim Antonio de Sampayo.

--V. s.ª quer-me perder!... eu sou empregado na intendencia...

--E receia perder o emprego? Homens do seu quilate não se deslocam por

tão pouco. O senhor é um homem necessario ao Estado, e hoje mais que

nunca ao ajudante da intendencia, porque é depositario de um segredo que

o infamaria muito. Ora ande lá; escreva. Como se chama? deixe-me ver o

visto do seu passaporte.

O miserando biltre tirou do bolso uma carteira, e estendeu o braço

tremulo a Mendonça, que proseguiu, relanceando um olhar ao passaporte, e

outro furtivo ao hospede:

--Escreva lá: _Declaro eu Luiz José Godinho..._

A penna não escreve?!

O pallido Godinho é que não escrevia; e, se picara o papel muitas vezes

com o bico da penna, fora o tremor do pulso.

O silencio de Mendonça, esperando a tarda resposta, dera tempo a Godinho

para meditar um lance dos que a desesperação suscitam, quando ha a optar

entre dois perigos certos.

Francisco Salter, senhor de si, e ainda mais do cobarde animo do homem,

não se arreceiava do impetuoso salto que elle deu fóra da cadeira,

lançando mão da grossa bengala.

--Deixe-me sair, quando não, atravesso-o com este estoque!--exclamou o

transfigurado Godinho, desembainhando o longo ferro, e apontando-o ao

ventre de Mendonça.

O que susteve o official de marinha firme no seu posto, foi mais o

espanto que a bravura.

--Então?--bradou o amanuense da policia, livido e tartamudo como se

fosse elle o ameaçado--Abre-me a porta, ou não abre? Olhe que eu passo-o

de um lado ao outro!

Francisco Salter afastara-se; Godinho correra á porta, vendo

desapparecer o adversario; rodara a chave com feliz exito; galgava o

corredor que o devia levar á escada; mas na extremidade d'esse corredor

havia uma porta que se abriu: Godinho estacou um momento diante de

Mendonça, recuou o braço armado para impellir uma estocada porém a ponta

de um faim a duas pollegadas do peito, restaurou-lhe o juizo prudencial,

que perdera, um instante. Restava-lhe um expediente, talvez o mais legal

e propicio de quantos tinha: gritou aqui de el-rei que o matavam, a

berros de possesso, tres vezes, sem tomar fôlego.

--Cala-te, miseravel, que ninguem te mata!--disse Mendonça.

A força accumulara-se-lhe nos pulmões: era um gritar de homem que

estrebuxa quasi esganado.

--Vae escrever o que me disseste, canalha, e depois retira-te em paz.

--Aqui de el-rei que me matam!

--Então salta d'aquella janella abaixo, e diz ao bacharel Sampayo que te

recompense a fractura das pernas!

--Aqui de el-rei que me matam!

Mendonça, repuxando-o pela gola da casaca, arrojou-o para a escada, e

assentou-lhe com o salto da bota um rijo impulso no costado. Godinho

galgou oito degraus com destreza de funambulo, mas do oitavo para baixo

faltou-lhe o equilibrio, e resvalou de costas até ao patamar. Ahi, quiz

erguer-se; mas os musculos intercostaes desobedeceram á velocidade do

espirito. O primeiro amanuense da intendencia soffrera desagradavel

reforma na disposição das costellas: sem embargo, Azais notaria ahi uma

nova compensação: as cordas vocaes augmentaram de rigidez; os aqui de

el-reis eram cada vez mais estridentes.

Os visinhos e passageiros acudiram em tropel. Godinho pedia que o

levantassem e conduzissem a casa do conde dos Arcos, de quem era

hospede.

Hospede do capitão-general!

Isto inquietou Mendonça e desenvolveu a inergia caridosa dos

circumstantes. Qual d'elles mais carinhoso e diligente em saber a

offensa para depôr contra o offensor, porfiavam em conduzil-o nos

braços. Godinho dizia apenas, comprimindo as costellas, rebeldes ao

arquejar doloroso do diaphragma, que puxava por ellas:

--Sejam muito boas testimunhas que o snr. Francisco Salter de Mendonça

me quiz matar, em sua propria casa!

Conduziram-o uns, e ficaram outros, em grupo, á porta de Mendonça, e

defronte das janellas, contando aos que passavam a tentativa de

assassinio perpetrada pelo official de marinha.

Luiz José Godinho trouxera da intendencia carta de apresentação ao conde

dos Arcos, e outras confidenciaes, sobre negocios do Estado. O

governador hospedara-o com distincção, julgando-o digno da hospedagem

pela confiança que apparentava merecer a Manique, e conhecimento, que

tinha, da causa mysteriosa por que Francisco Salter devia, a todo o

custo, ser retido no Rio de Janeiro, sob qualquer pretexto.

Uma hora depois d'este successo, cujas consequencias não surprenderam o

imprudente moço, o capitão da real brigada foi chamado á presença do

governador, e interrogado ácerca dos motivos que lhe dera Luiz José

Godinho para tamanha ferocidade, em sua propria casa, que deve ser asylo

sagrado até para inimigos, quando se é cavalheiro. Mendonça, enfadado

pelo ar supercilioso do interrogatorio, respondeu que fosse inquirido em

sua presença o offendido, que era essa a praxe da lei.

O governador espinhou-se, e mandou recolher á cadeia o official, para

ser entregue aos juizes do crime.

Francisco Salter de Mendonça não grangeara amigos nem protectores no Rio

de Janeiro. O seu viver fora intimo e só, fóra do serviço. Entretinha-o,

na soledade, a amargura.

A justiça ouviu com sobrecenho a defeza do joven official, e achou a

justificação inferior ao delicto. Godinho negava ter confessado o

embuste para que viera commissionado pelo ajudante do intendente geral

da policia. Os magistrados, porém, convictos de que o offendido era

pessoa bemquista de Manique, patrono de alguns, e amigo de outros,

negaram ao preso, em ultimo recurso, o direito de se defender de um

estoque.

Mendonça escreveu para o reino; mas Godinho voltara, são e correcto das

costellas, no paquebote em que vinham as cartas: quem as viu e queimou

foi o bacharel Sampayo.

A situação do amante de Carlota Angela era extremamente infeliz.

Ao cabo de quatro mezes de carcere, sem novas do reino, nem absolvição

da culpa, perdera o animo e a esperança.

Já lhe não era lenitivo o escrever no seu diario, porque a dor, ao

encadeiar-se na desesperação, seu derradeiro elo, quebrou no coração as

cordas onde soava o gemido.

Depois veio a furia, que contorce e despedaça, o impotente raivar contra

os homens e contra Deus, a tentação do suicidio, combatida pela imagem

de Carlota, mas de novo irritada, a cada navio que chegava, sem uma nova

d'ella.

Mendonça tinha um amigo. Era um escravo alugado que o servia, um negro

que lhe passava os alimentos, e chorava encostado aos ferros, porque não

sabia consolal-o.

Era o preto quem lhe trazia as cartas dos amigos do reino, ignorantes da

sua prisão, e implorava aos juizes a liberdade do preso; alcançando

apenas para si repellões desprezadores e, muitas vezes vergoadas de

chibata sobre as lagrimas.

O escravo offerecera-se a Mendonça para vir a Portugal com cartas. Esta

vinda seria uma fuga, porque o dono do preto, sem um deposito

equivalente ao valor da cousa, não consentiria a sua saida, e Mendonça,

desprovido de meios para a sua subsistencia, não podia garantir com

dinheiro a volta do escravo...

Conspirava tudo contra o desamparado moço. O proprietario do negro,

receioso de perder o aluguer, visto que Mendonça lhe não pagara um mez,

chamou a si o escravo. Francisco vendeu o que podia merecer o preço

mensal do seu unico amigo, e continuou a ver, perto de si, aquelles

olhos reluzentes de lagrimas, lagrimas que lhe faziam bem ao coração,

porque o mais desgraçado dos homens é o que não tem sequer por si o

olhar compadecido de um cão.

Entretanto o escravo ideiara o arrojo de vir a Portugal, fugindo.

Trabalhava na difficil execução d'essa traça, quando a escuna

_Guerra-voador_ chegou ao Rio de Janeiro com a nova de que o principe

regente saíra de Portugal para estabelecer a côrte n'aquelle porto.

Foi o escravo quem primeiro levou esta nova ao carcere.

Francisco Salter apertou a mão do negro e disse:

--Seremos ambos livres, meu amigo.

X

Não ha coração sem amor; ou seja a Deus ou seja ao mundo, ha de

amar quem tem coração.

Fr. Antonio das Chagas. (_Obras espirituaes._)

Vêde agora se ainda persistis em vossa pretenção, porque, se este

modo de viver vos não contentar, tendes liberdade para ficardes no

estado em que até agora vivestes.

(_Ceremonial da congregação dos monges negros._)

E Carlota Angela?

Não dorme ainda o suspirado somno da morte sob a lagem humilde do

claustro. Vive a vida que faz compaixão, e, nas pessoas que amam, excita

o piedoso desejo de a verem alar-se para um mundo melhor.

Creram-a moribunda em frequentes accessos: Rufina, Dorothea, e todas as

religiosas de S. Bento lhe deram o beijo da despedida, na face

cadaverica, muitas vezes. Se, por instantes, tibio clarão de vida lhe

retingia o rosto, é que a labareda da febre ahi vinha emprestar-lhe uma

reanimação convulsa, á qual succedia o esvaîmento, com o suor frio do

traspasse.

As orações eram contínuas. A communidade ia do quarto de Carlota para o

côro, e do côro tornava ao quarto em ancias e esperanças que o fervor da

oração lhe dera.

De uma vez, encontraram-a tranquilla, risonha e desopprimida. Uma a uma,

Carlota chamou-as á beira do leito, apertando-lhes a mão, e murmurando

uma palavra inintelligivel.

Ás que choravam pedia que a não lastimassem, porque ella estava

consolada com a esperança de descansar. Ás mais idosas, e veneraveis por

sua santa vida, supplicava que a protegessem com os seus merecimentos,

pedindo ao Senhor que lhe descontasse nas da outra as penas d'esta vida.

Perguntava pela mãe, mas, se lhe fallavam do pae, se lhe diziam que elle

vinha todos os dias saber d'ella, Carlota franzia a testa, e dava sustos

de crescimento febril.

Soror Rufina esperava que ella lhe fallasse de Francisco Salter;

Dorothea, a carinhosa noviça, aventurava algumas palavras allusivas;

Carlota, porém, nunca permittiu á primeira, com o seu silencio, proferir

tal nome; e á segunda, debulhando-se em lagrimas, fazia com a mão um

signal de não poder ouvil-a.

Uma tarde, as duas meninas passeiavam no pomar: era a primeira vez que a

filha de Norberto de Meirelles saía do seu quarto.

--Quando professas tu, menina?--disse Carlota.

--D'aqui a tres mezes.

--Já? Vens a ser freira, mais velha do que eu nove mezes; mas ainda

temos tres mezes de companheiras de noviciado.

--Pois queres professar, Carlota?!

--Quero, Dorothea, quero; se me não valesse essa esperança, estava

morta. Já agora, o que me resta n'este mundo é o bem de me julgar perto

de outro: d'aqui até lá, quero estar vestida com a minha mortalha,

pedindo ao Senhor que... dê o céo...

Carlota, entalada por subitos soluços, não proseguiu.

--Diz, minha amiga... tu não me dizes tudo--acudiu Dorothea, abraçando-a

com estremecido amor--ias fallar n'elle?... por que foges de me dizer

que ainda o amas no céo?!

--Fugia de t'o dizer, Dorothea, porque o teu coração não póde avaliar

que amor era este que perdôa a um ingrato, e daria a vida para o

restituir ao amor de outra infeliz que o amou e o perdeu como eu o amei

e perdi. Mais desgraçada que eu ha uma só pessoa: é a mulher que o

adorava; e mais desgraçado que ella e que eu, é elle, o infeliz, a quem

tão pouco tempo o Senhor deixou gosar a mulher que o mereceu mais digna

do que eu fui, e não teria, talvez, um pae que a aviltasse aos olhos

d'elle.

--Como o teu coração é bom, Carlota!

--Bom? quem sabe! desgraçado, sim, ou diz antes, Dorothea, que já não é

coração; só sinto a minha alma, só sinto este desejo do céo; recordo

quanto amei, quanto soffri, e tudo aceito, e o mais que soffrer, com o

contentamento de uma penitente.

--Pois verás que ainda havemos de ter dias de alegria, Carlota!

Adopta-me como tua irmã; viveremos tão queridas e juntas, fallaremos

tanto do que sentirmos triste ou agradavel, que chegaremos a gosar a

existencia...

--Não penses isso, minha amiga... Eu não quero dar-te quinhão das minhas

amarguras. O meu curto viver ha de ser muito oppressivo para as pessoas

que me estimarem. Muitas vezes te fugirei, porque o chorar de uma

infeliz, como eu, precisa ser desafogado, sósinho, e aos pés de Deus.

Alegria? jámais, jámais, Dorothea... Bemdito seja o Senhor, que me dá

esta casa para acostumar a minha alma a adoral-o, e me deu aqui exemplos

de virtude, sem os quaes, fóra do convento, tinha-me tirado a vida n'um

d'aquelles frenesis de que tremo com a lembrança.

Estas palavras foram ditas com serena melancolia; porém decorrido breve

intervallo de silencio, Carlota rompeu em gemidos, lançando-se ao seio

de Dorothea.

--Que tens, Carlota? Ainda agora estavas tão socegada!...

--O que em cinco mezes se tem passado!--soluçou ella--Morto! é possivel

que elle já não viva!... que eu esteja aqui, eu, meu Deus, eu que o

adorava até á perdição! e pôde elle abandonar-me, esquecer-se da pobre

Carlota! Isto não póde ser, Dorothea!... eu nunca o vi morto nos meus

delirios, nunca, nunca o vi senão como na ultima vez que lhe fallei,

jurando-me um amor eterno... Será isto uma falsidade? Será meu pae que

prefere matar-me!? Diz, Dorothea, não te parece muito possivel esta

crueldade!

--Póde ser, Carlota!... quem sabe?! Olha, filha, tudo se ha de saber com

o tempo... Tem esperança, sim?

--Nenhuma!--replicou ella, caíndo da instantanea exaltação--não tenho

esperança nenhuma! Se elle vivesse escrevia-me. É certo, é horrivelmente

certo que não vive, que me desamparou, que foi castigado com a morte por

ter assassinado uma amiga que se perderia por elle... Está tudo acabado,

tudo, meu Deus, menos este peso de vida com que já não posso...

Carlota Angela recolheu-se taciturna ao seu quarto, e escreveu a sua mãe

uma breve carta, em que lhe pedia o consentimento de seus paes, e as

licenças necessarias para entrar no noviciado.

D. Rosalia quiz procurar Carlota; Norberto de Meirelles, receiando que

sua mulher deixasse escapar algum ligeiro indicio de viver Francisco

Salter, encarregou-se da resposta. Estas suspeitas fundavam-se nas

querelas continuadas em que andavam, por causa de Carlota. D. Rosalia,

algumas vezes, reprovara o zelo de seu irmão, e dureza do marido,

mórmente depois que a freira lhe vaticinara a morte de Carlota.

Norberto, escarnecendo, com lerdo desdem, o prognostico, impunha

grosseiramente a D. Rosalia o calar-se, até ver em que paravam os taes

fanicos da rapariga.

Carlota Angela · 第 5 / 11 段