--Tudo o que o mano tem póde varrel-o um ligeiro sôpro da desgraça.

Modere a sua soberba, que não o castigue Deus, que abate os soberbos, e

exalta os humildes. E, demais, a casa do Senhor não se abre só para as

meninas pobres. Eu deixei um grande patrimonio quando aqui entrei, e vim

achar uma riqueza incomparavelmente maior do que a que deixei: foi o

esquecimento do mundo, e o amor sempre crescente de outro melhor. Ora,

bem póde ser que sua filha se deixe namorar dos anjos, e rompa com os

amores tranzitorios d'esta vida. Em summa, o que eu lhe digo, meu

cunhado, é que minha sobrinha só póde ser salva pela religião; e eu, se

Deus me achar digna, hei de estender-lhe a mão ao abysmo onde a

lançaram, e encaminhal-a por onde eu vir que ella é menos infeliz. Não

posso mais, estou fatigada e angustiada, adeus.

Norberto de Meirelles enfiou de novo a cara oleosa na pelucia da gola,

sobraçou a enorme bengala encastoada de prata, e saíu do atrio do

mosteiro com as ventas fumegantes.

VIII

_Didone_

... No mai die fiamma impura

Feci l'are fumar per vostro scherno;

Dunque perché congiura

Tutto il ciel contra me, tutto l'inferno?

_Osmida_

Ah! pensa a te non irritar gli Dei...

_Didone_

Che Dei? Son nomi vani,

Son chimere sognatte, ó ingiusti son.

Metastasio. (_Didone._)

Norberto de Meirelles communicou, immediatamente, ao cunhado o

acontecido com a religiosa benedictina, pedindo-lhe conselho para evitar

que a filha se fizesse freira.

O bacharel Sampayo chamou a capitulo os seus vastos expedientes de

perfidia, e conglobou-os n'um, do qual ousou afiançar ao cunhado um

exito feliz.

Chamou pessoa idonea para executal-o, e de Lisboa veio ao Porto um

individuo encarregado da seguinte missão:

Entrou, um dia, no pateo do mosteiro de S. Bento esse homem, e perguntou

na portaria, se lhe seria possivel fazer chegar ás mãos da snr.ª D.

Carlota Angela um bilhetinho de sua mãe.

A porteira respondeu affirmativamente, como era de esperar, recebeu o

bilhete, e entregou-o a Carlota, que saia do côro, onde costumava passar

as manhãs em oração.

Era este o conteúdo do bilhete:

_Uma pessoa quer fallar á snr.ª D. Carlota ácerca de Francisco Salter

de Mendonça; mas deseja estar só com ella em uma grade. A pessoa espera

resposta._

Carlota alvoroçada correu ao locutorio, e exclamou:

--Estou aqui.

O enviado do bacharel aproximou-se, e disse:

--Sou eu que a procuro, minha senhora; mas na esperança de ser demorada

a nossa pratica, pedia o favor de me fallar n'uma grade, porque este

logar é improprio para se tratarem cousas de tamanho segredo.

Carlota olhou em redor de si, viu uma criada com uma chave, e disse com

precipitação:

--Empresta-me a grade por um bocadinho? empresta, por quem é?

--Sim, minha senhora--disse a criada.

Carlota indicou ao homem de Lisboa a grade, e correu a encontral-o.

Não tinha ainda elle terminado as formalidades da cortezia, disse

Carlota impaciente:

--Elle já veio? Está em Lisboa?

Estas perguntas eram feitas a tremer. Carlota, não podendo com a

afflictiva duvida da resposta, apressou-se a interrogal-o assim,

cuidando que a certeza com que perguntava por Mendonça vivo a

desopprimia da suspeita de que elle era morto.

O homem não estava preparado para perguntas tão expeditas. Ficou

perplexo, e esta indecisão deu azo a novas perguntas:

--Traz-me cartas d'elle? dê-m'as...

--Não trago cartas, minha senhora.

--Não?!--atalhou ella com vehemencia e sobresalto.

--Não, snr.ª D. Carlota. Francisco Salter não lhe escreveria, ainda que

podesse...

--Como?! não entendo!... Não escreveria... porque?

--Se a menina serenar um pouco, tomarei a liberdade de historiar-lhe

vagarosamente a vida do homem que lhe mereceu um grande amor, digno,

permitta-me dizer-lh'o, de ser melhor applicado.

--Isso é uma calumnia! isso é mentira!--exclamou Carlota, sem pesar a

gravidade das palavras que ouvira, e das que proferira com exaltada

acrimonia.

--Eu desculpo-a das injurias que me dirige, porque avalio a surpreza

dolorosa, que lhe fazem tão horriveis novas. Queira escutar-me.

Francisco Salter saiu do Porto amando-a, como se ama aos vinte e quatro

annos, com esse amor imprevidente, superficial, e arriscado ás variantes

do coração logo que as tempestades de outras paixões se levantam,

sopradas por um casual encontro com outra mulher. Era um rapaz no comêço

de uma bella carreira, com espiritos ambiciosos, sem bens de fortuna, e

descontente da sua sorte... O desengano devia vir, logo que os olhos da

pessoa, que elle amava, deixassem de influencial-o. Chegou a Lisboa,

onde tinha valiosos amigos e parentes, e onde fora chamado para receber

uma honrosa commissão para o Brazil, com augmento na sua carreira, e

promessas seguras de grandes vantagens.

Francisco Salter de Mendonça rejeitaria a gloria, se o amor fosse de

mais rija tempera; renunciaria um almirantado, se o coração de Carlota

Angela saciasse n'elle a louvavel ambição de se fazer grande por

merecimento proprio. Obedeceu ao orgulho, e partiu para o Brazil, como a

menina sabe. Escreveu-lhe, talvez, uma carta muito saudosa, muito

lamuriante, muito esperançosa; mas... partiu.

No Brazil, foi recebido como era de esperar. Encontrei-o na melhor

sociedade, posto que a melhor sociedade de lá só se faça valiosa pelo

dinheiro. As ricas herdeiras olhavam-o como um rapaz distincto, capitão

da real brigada, bem fallante, gentil, bravo, soberbo de si, e

collocaram-o na posição de escolher.

Vejo que v. s.ª está anciada. Se a continuação da minha visita a

molesta, peço licença, e retiro-me.

--Não... não... queira dizer--balbuciou Carlota, tirando com violencia a

respiração do seio convulsivo.

--Os fumos da vaidade e os da ambição--proseguiu o porta-voz do

bacharel--ennevoaram aos olhos de Mendonça a imagem de Carlota Angela.

Eu, que fora nos primeiros dias seu confidente, sabia que a menina

existia n'este convento; recordei-lhe com pezar o indigno perjurio, e

elle respondia-me que a ausencia era o balsamo maravilhoso das chagas

que o amor fazia. Confesso que me angustiou esta baixa condição de alma!

e muito principalmente depois que vi algumas cartas de v. s.ª,

escriptas emquanto elle fazia a viagem.

Passados mezes, dois ou tres, se tanto, Mendonça dá parte aos seus

amigos de que vae tomar estado com a filha unica de um opulento

negociante, dotada com centenares de contos.

--E casou?--exclama Carlota, lançando com vertiginoso impeto as mãos ás

grades.

--Casou--respondeu o homem, friamente.

Carlota soltou um grito, que não tem outro comparavel na expressão da

angustia humana. Era o ruido agudo do estalar de todos os tecidos do

coração, do rasgarem-se todos os vasos de sangue, do embate dos pulmões

lacerados contra as paredes do peito. E, depois, os dedos recurvos nos

ferros da grade, relaxaram-se, hirtos como os de um cadaver, e o corpo

resvalou da cadeira para o chão com estrondoso baque.

O homem horrorisou-se um instante da sua obra, e recuou até á porta para

retirar-se; mas a sua missão não estava ainda cumprida. Relampagueou-lhe

uma ideia lucida. Desceu á portaria, e disse que fosse Alguem á grade,

onde se achava desmaiada a snr.ª D. Carlota.

A este tempo já a madre porteira, alarmada pelo estrondo da quéda,

entrava pressurosa na grade, e vendo Carlota no chão, chamou-a a altos

gritos. Houve grande rumor no convento, e entre as muitas pessoas que

desceram á portaria, vinham D. Rufina e a noviça.

O homem de Lisboa permanecia imperturbavel na grade, esperando que o

interrogassem, já depois que Carlota fora transportada, com frouxos

signaes de vida, ao seu quarto, acompanhada de um medico, que a fortuna

trouxera n'esse conflicto.

--Alguma das senhoras é a tia da snr.ª D. Carlota Angela?--perguntou o

homem.

--Sou eu--respondeu a pavida religiosa.

--Concede-me alguns minutos sem testimunhas?

As outras senhoras deixaram só Rufina; o delegado do bacharel proseguiu:

--Essa menina desfalleceu, quando eu lhe noticiei o casamento de

Francisco Salter de Mendonça.

--O casamento?!

--Sim, minha senhora.

--O que geralmente se diz é que morreu.

--Casou, e morreu, dias depois.

--Oh meu Deus!--clamou a freira, levando as mãos ás faces--oh meu Deus,

o que se passa debaixo de vossos olhos! Francisco de Mendonça casou!...

O senhor tem a certeza d'isso?!

--Como quem assistiu ao casamento e á morte. Esta segunda parte é que

sua sobrinha ignora, porque me não deu tempo. Agora convém que v. s.ª

lh'a diga, para que a morte sirva de perdão ao ingrato, e a ingratidão

lhe converta em quasi indifferença a morte. É assim que essa pobre

menina ha de recuperar a tranquillidade que precisa; e eu, que

espontaneamente aqui vim dar-lhe o golpe, que ninguem lhe queria dar,

com o bom proposito de curar a ferida com o proprio sangue d'ella,

retiro-me, delegando em v. s.ª o complemento da minha obra. Minha

senhora, recebo as suas ordens.

Soror Rufina surgira de uma especie de lethargo, depois que o

desconhecido saíra.

Foi ao quarto da sobrinha, e viu-a sentada no leito, com os cotovêlos

fincados nos joelhos, e o rosto entre as mãos. Saíam-lhe das palpebras

os olhos vidrentos e immoveis como os de um cadaver embalsamado. Parecia

não ver alguem, e a respiração das pessoas, que a rodeavam, nem sequer

se ouvia. O olhar de Carlota fazia terror.

A religiosa chamou-a tres vezes, como a mãe delirante chamaria sua filha

morta; o pavor, porém, d'aquelle olhar sem luz nem movimento, parecia

responder-lhe que estava morto o coração que devia ouvil-a. Rufina

abraçou-a vertiginosamente, agitando-a com desespêro: o corpo obedecia

ao impulso, com a inerte obediencia do cadaver, mas os olhos lá estavam

na sua terrivel immobilidade como que seguindo a alma que lhe fugira

arrancada pelas garras de um demonio.

--Que é isto, snr. doutor! está morta minha sobrinha?--bradou a

religiosa ao medico.

--Não está morta, minha senhora; póde estar demente.

Carlota Angela soltou um profundo grito, ergueu-se sobre os joelhos no

leito, travou das tranças com frenetico delirio, deixou caír os braços

semi-mortos, e recaíu no torpor de momentos antes.

Passado o espanto, todos os corações se derramaram alli em lagrimas. Não

sabiam ao certo que immensa angustia era aquella; mas adivinhavam-a.

Todas se voltaram para Jesus crucificado, de joelhos oraram chorando, e

a oração era a mesma em todos os espíritos:

«Se ella está demente, levae-a, Senhor!»

Aquelle estado era impossivel longo tempo. Durante vinte e quatro horas

succediam-se as syncopes, cada vez mais prolongadas e assustadoras. O

medico, descrido da acção dos antispasmodicos, aconselhou que lhe

fallassem muito na causa d'aquelle accidente, confiado na vitalidade

febril que dão as agonias moraes; e nas lagrimas consecutivas.

Assim o aconselhara; ninguem, todavia, queria encarregar-se de tão cruel

flagellação.

Soror Rufina esperara a saída das incessantes visitas, para, com o

soccorro do céo, executar o duro supplicio de Carlota. O coração

dizia-lhe que tal expediente seria um tormento inutil; mas o medico

ajuntara ao conselho razões que a convenceram.

A sós, Carlota fitou-a com uma turvação de olhar, que deu quebranto á

resolução da freira.

--Se ella está demente, de que serve este triste remedio?!--dizia soror

Rufina--Eu vou verter-lhe fel na chaga do coração, e nem posso ao menos

contar com a intelligencia d'ella para lhe faltar á razão! Se Deus a

chamasse a si, que maior felicidade lhe poderia eu desejar! Minha

filha!--murmurou ella, aconchegando-a ao seio--Tu não me conheces? Sou a

tua boa tia, a melhor das tuas amigas. A tua dor me dóe tambem, Carlota.

É preciso que nos consolemos uma á outra. Diz-me uma palavra só,

anjinho... Conheces a tua tia, menina?

--Se conheço!...--disse com meigo sorriso, Carlota, abraçando-a pelo

pescoço. Rufina estremeceu de alegria, comprimindo com transporte o seio

da sobrinha ao seu, e cobrindo-lhe de lagrimas e beijos a face.

--E és a minha querida filha, pois não és?--proseguiu a freira--É de mim

que esperas allivios d'esta agonia, e amor para toda a vida? Aceitas as

consolações de tua tia, crendo que é ella o instrumento de que a

misericordia de um Deus piedoso se serve?

--Não me falle em Deus!--bradou com impetuosa violencia Carlota Angela.

Rufina tremeu e empallideceu como assombrada de um raio.

--Está douda a infeliz!--disse ella--Agora sim, creio que não ha

valer-lhe! Ó Mãe Santissima, ó Senhor dos Afflictos, levae esta alma

para vós... não consintaes que os labios digam blasphemias, que o

espirito d'esta virtuosa creatura não sente.

--Não me falle em Deus!--repetiu Carlota, esgazeando sinistramente os

olhos--Não ha Deus, nem justiça, nem misericordia. Ha inferno n'este

mundo para os innocentes, para os que, fugindo ao odio humano, se

acolhem ao amparo divino.

--Jesus!--atalhou a religiosa--Que palavras são essas, filha!?

--Eu não merecia esta morte, minha tia. Que fiz eu para morrer assim

desesperada de achar a remuneração de tamanha perfidia?! Abandonada,

esquecida por elle... Que horror!

Carlota Angela tapava o rosto, e arquejava, fugindo impetuosa aos braços

da freira.

--Que horror!--continuava ella, apertando as fontes com as mãos, e

tirando com violencia pela respiração--Trahida por Francisco!... Todo

este amor, a amor de toda a minha vida, calcado, desprezado, ao mesmo

tempo que eu o ia alimentando com lagrimas diante d'aquella cruz, onde

eu cuidei que se encontrava compaixão!...

--E encontra, minha filha; e ainda agora das chagas de Jesus Christo

está correndo o balsamo que te ha de curar, Carlota!

--Curar-me!... A tia não sabe o que eu soffro, não conheceu esta dor,

não sabe que desesperada vae ser a minha agonia! Eu tenho a morte já na

garganta. Era preciso que eu perdesse o juizo para se crer que ha Deus.

Morrer assim, e sentir a causa da morte... isto é mais que

barbaridade... o demonio não póde tanto, e um Deus não consentiria

padecimento tamanho... Oh!... quem me apressasse a morte... quem me

désse um veneno... quem me arrancasse do coração esta agonia!... Oh meu

Deus!...--bradou ella, estendendo os braços para o crucifixo.

Soror Rufina correu a tomar a cruz de sobre a commoda, e aproximou-lh'a.

Carlota cravou-lhe os olhos, um momento humedecidos de lagrimas, e

lançou-a de si com um violento gesto de repulsão.

--É mentira tudo isso!--exclamava ella, agitando as mãos com frenesi,

como se a tia teimasse em dar-lhe a cruz--É mentira tudo! não ha Deus,

não ha nada a que uma desgraçada, como eu, possa recorrer! Deus não

consentiria que houvesse um perverso tal como esse homem, nenhuma

miseravel como eu...

--E, se souberes que foi castigado o perverso que te faz soffrer tanto,

Carlota, crês que ha justiça de Deus?

--Castigado!... não ha n'este mundo castigo para tamanha ingratidão...

Elle é feliz a esta hora, nos braços de outra, com os carinhos de outra

mulher, e eu... aqui, nas agonias da morte, sem poder saber que tempo

hão de durar!... Meu Deus, eu morro arrependida de vos ter negado, se me

levardes já...--E tomando a cruz, que beijava fervorosamente,

proseguiu:--Levae-me, Senhor... tirae-me d'este inferno, ou fazei que eu

endoudeça! Se eu sou grande peccadora, dae-me as penas eternas da outra

vida, se lá não ha memoria das amarguras d'este mundo! Dae-me o outro

inferno por este, e eu darei sempre louvores á vossa misericordia!...

Não me escuta!--bradou Carlota com desesperada indignação, querendo

arremessar a cruz.

--Filha!

--Deixe-me acabar, minha tia... Eu não quero esperanças...

esperanças!... em que? Não quero consolações de ninguem... A maldade

d'aquelle homem não me deixa já crer no amor de ninguem... Fujam todos

de mim, que eu sou uma mulher amaldiçoada, sem ter offendido uma só

pessoa... É a maldição de meu pae que chegou ao céo. Fui enganada, tinha

fé n'aquelle homem, estou assim penando, porque o acreditei... É um

castigo maior que o meu delicto! Deus devia perdoar á pobre mulher de

dezoito annos, e castigar o traidor por quem me perdi...

--E castigou.

--Como?

--Chamando-o a contas.

--Diga, diga, minha tia... que é? chamando-o a contas!... pois elle...

--Morreu... pouco tempo depois que perjurou, Carlota. Agora crês que ha

Deus?... crês na justiça divina?

Carlota não ouvia. Os olhos pasmaram, como se a paralysia os ferisse de

subito. Os labios ficaram semiabertos, como se por elles perpassasse a

derradeira expiração. Os braços decairam com mortal quebranto.

A freira abraçara-a, sustendo a cruz entre os dois seios, e invocando

Jesus, e Carlota.

Dorothea entrara, ouvindo os gritos de Rufina. Subira ao leito, clamando

agudos ais, porque julgara morta Carlota.

--Vá ver se está algum medico dentro--disse Rufina.--Mandem-o chamar, a

toda a pressa, se não estiver. Chamem tambem o capellão... Parece-me que

a matei, cuidando que a salvava.

Dorothea saíra, levando o alvoroço e o terror, pelos dormitorios, onde

eccoavam os seus altos gemidos. Soror Rufina, desalentada, enfraquecida

de espirito, e de fé, como aquelles santos de quem o Senhor se queixou,

disse, lavada em lagrimas:

--Meu Deus! são terriveis os vossos juizos, e terriveis as vossas

intenções! Quando a innocencia assim padece, como castigareis o crime?

Fora como o morder da vibora entranhada o pungir de alma que vibrou em

dolorosissimo tremor o corpo todo da religiosa. Era a consciencia, que

recebia em si o fel da injuria que os labios cuspiram; mas não passara

d'elles. A apavorada freira, livida como o sacrilego aterrado pelo

remorso, ouviu um murmurio, que lhe recrudesceu o pavor. Era Carlota que

lhe dizia:

--Oremos pela alma do infeliz.

Correu ao leito, correram as religiosas que entraram com Dorothea. Viram

Carlota Angela com as mãos erguidas, e a face coberta de lagrimas.

Ergueram tambem as mãos, choraram tambem, ajoelharam, vendo Rufina de

joelhos.

--É um Padre nosso e uma Avè Maria por alma de Francisco--balbuciou

Carlota, soluçando, com inexprimivel afflicção.

O medico entrava n'esse conflicto, e presenciando as lagrimas de

Carlota, fez um gesto afirmativo. Dorothea interrogou-o com anciado

olhar. O medico, entreabrindo ligeiramente os labios com um sorriso,

queria dizer:

--Está salva.

IX

Mon Dieu! comme il est difficile

De courre avec de l'argent!

Théophile de Veau.

Trocando com vontade pouco experta,

Por incerta fortuna esta mais certa.

C. Pereira de Castro. (_Lisboa edificada._)

Francisco Salter de Mendonça, de Lisboa ao Rio de Janeiro escrevera um

diario, em que mais se accusava a si de ingrato que aos seus cavillosos

protectores de crueis. A saudade era encruada pelo arrependimento.

Ao passo que o horizonte da patria se perdia nas orlas do mar, o

atribulado mancebo já não sentia da esperança o conforto que o alentava

no instante da partida. Afigurava-se-lhe um sonho horroroso estar elle

tão longe, cada vez mais longe, de Carlota Angela. Ideiava e desfiava

todas as consequencias que podia trazer a sua formal rejeição do encargo

e da patente.

«Se me prendessem,--escrevera elle no diario--que maior prova podia eu

dar a Carlota de que a minha liberdade, longe d'ella, seria o meu

supremo captiveiro?

«Preso debaixo do céo em que ella vive, teria a liberdade de

escrever-lhe, de animal-a, de a ver talvez um dia chegar lacrimosa aos

ferros do meu carcere, e encher-m'o de quantas alegrias podem elevar uma

alma nobre sobre astucias de miseraveis tyrannos.

«Seria grande mágoa para ella a minha prisão, a minha baixa, a minha

quéda irremediavel no principio da vida? Oh! de certo era; mas essa dor

desvanecel-a-hia a convicção de ser tão amada, tão preterida á gloria, á

honra e aos sorrisos da fortuna!

«Por que não lhe dei eu o nobre orgulho de me sacrificar, de me abater

aos olhos de todo o mundo, com tanto que me engrandecesse aos olhos

d'ella, d'ella, para quem eu queria honras, glorias, corôas, mundos,

tudo grande, tudo sublime, e tudo pequeno em confronto do coração que

lhe dei?!

«E, depois, a minha prisão seria de pouco tempo, porque os meus parentes

são poderosos, e o dinheiro do pae de Carlota exhaurir-se-hia ao mesmo

tempo que o coração de sua filha seria mil vezes multiplicado em apêgo,

em gratidão, em ternura, e coragem para affrontar commigo os obstaculos.

«Mas nem talvez eu chegasse a ser preso. Julgar-me-hia o governo em

demasia castigado com a baixa, com a desconsideração e com o desprezo.

Toda a gente me olharia como se olha um homem pobre, e de mais a mais

rebelde ao serviço da patria. Que importava isso? Carlota Angela seria o

meu talisman; as riquezas brotariam de seu coração inesgotavel; todos me

invejariam ao pé d'ella; apontar-nos-hiam como modelos de affeição, e de

honra na affeição, que tão rara se encontra. Com o tempo, eu seria

chamado a merecer o premio de calcar a intriga, e o nosso pão na

opulencia não seria mais doce que o pão da pobreza.

«Que fiz eu, homem vil, homem sem alma?

«Mascarei-me com as palavras «honra e dever», e estou deshonrado perante

Carlota! Impuz-lhe um juramento de morrer minha escrava, fiz que ella me

adjudicasse a sua vida, apontei-lhe o claustro como seu eterno carcere,

e não tive valor para me deixar perseguir por amor d'ella!

«Ó coração duro, que assim te deshonraste com tão baixo egoismo!

«Tu choravas, quando lhe escreveste um adeus, mas essas lagrimas pôde

enxugal-as a razão, tão villã como tu! Mentias n'esse pranto, abjecto,

avarento, que te sentiste sobresalteado de orgulho e alegria, quando as

dragonas de major da armada te deslumbraram a duas mil leguas distantes

de Carlota.

«Não sou digno de mais a ver, sem córar de vergonha, não! Se ella me não

escrever, se rasgar e pizar e cuspir as minhas cartas, eu devo ter o

cynismo de tragar a affronta, já que tive a villania de a merecer.»

A estas paginas da consciencia opprimida, succediam-se outras de

lagrimosa ternura. Nunca a saudade se exprimira com mais contrição de

alma, com mais doridos afagos á imagem querida que os recebe chorosa,

com devaneios de mais poesia amarga, d'essa que só sabem desentranhar do

coração os que sentem voluptuosa dor em despedaçal-o.

Francisco Salter atravessara o Atlantico sem um amigo, sem um ouvido

attento onde contasse, com attrição de penitente, as saudades e

pungimentos que o laceravam.

Eram bellas as noites, era de magia o céo estrellado, as luas-cheias no

mar parece que recolhem de mais perto, n'aquella vasta solidão, as

confidencias do amante, dando-se como espelho, para que, a milhares de

leguas, a contemplativa amada veja n'ella os olhos do que a pranteia.

Mendonça, porém, angustiava-se mais com esse espectaculo, só donoso de

extasis, e dulcissimo de espirituaes colloquios para amantes felizes.

E escreveu assim:

«O desgraçado não supporta as alegrias dos homens, nem as da natureza.

Se a sua alma está de luto, cubra-se de negro tudo que o cerca. Se sulca

os mares, refervam as vagas batidas pelo látego da tormenta; forre-se de

nuvens torvas o céo, rebôem em turbilhões, prenhes de coriscos; rua o

ultimo mastro lascado pelo raio, e espumem contra a derradeira táboa do

naufragado as fauces do dragão que abre um abysmo em cada resfôlego.

«O amanhecer não tem cantares, nem a tarde murmurios, nem a solidão

arroubamentos para esse que a natureza repelliu de si, como leproso,

chagado no coração, contagioso de pestilencial desesperança.

«Eu subi ha pouco á tolda, e vi a lua, que oito dias antes me vira no

Candal, ao pé de Carlota. Não pude fital-a. Os meus olhos caíram sobre o

dorso do mar, bem perto do navio, onde não chegava a refulgencia da lua.

Alli estive fascinado, n'aquelle ponto negro. Similhava-se-me a um

tumulo, e o fremir da onda quebrada na quilha soava-me como um gemido de

mulher que eu lançasse áquelle abysmo...

«E fugi, meu Deus, fugi, porque me não déstes um raio de esperança.

«Ó Carlota, Carlota, matar-te-hia eu?!»

Este fragmento de uma pagina, transcripto ao acaso, sirva para avaliar

que afflictivo tranzito lhe foram os cincoenta dias de viagem.

No desembarque, Francisco Salter de Mendonça sentiu vergar o corpo ás

commoções da alma. Adoeceu, e, na ardor da febre, escreveu a Carlota

essa longa carta com que o bacharel Sampayo espertou o lume do seu

fogão. Eram estas as ultimas linhas da carta:

* * * * *

Carlota Angela · 第 4 / 11 段