A carta de Carlota Angela tranquillisou-o; não disse tudo--alegrou-o,

deu-lhe um ar radioso de confiança e certeza na dedicação, que momentos

antes lhe incutia o receio da mudança.

O homem é assim.

Parece que o amor sem a desconfiança, a esperança sem a duvida, lhe dá

um socego de espirito que não quadra á sua natureza irrequieta. O pungir

de constante espinho é-lhe um necessario estimulo de vida. Se elle sáe

do coração, é forçoso que fira o orgão de outras paixões. Se o amor

prevalece á ambição de gloria ou de riquezas, satisfaça-se o amor, e a

outra paixão resultará com toda a impetuosidade do arco retezado... Não

se tirem já contra Francisco Salter conclusões que o vago d'aquellas

premissas não auctorisa.

A carta não baixou a temperatura, mas mitigou o rescaldo do amor, a

ancia da incerteza, affrontamento das conjecturas que elle formava

ácerca do destino que o irritado Norberto daria a Carlota, depois da

arrojada ameaça do Candal.

Se a levariam fóra do reino:

Se a casariam violentamente com outro:

Se a encerrariam n'um convento, incommunicavel:

Se a despersuadiriam com razões das que vencem o vulgar das mulheres,

quando o amante as não anima com a sua presença:

Se Carlota seria uma mulher vulgar, susceptivel de succumbir ás

contrariedades.

Tudo isto eram hypotheses atormentadoras; mas a carta respondia a todas.

Carlota estava a salvo da perseguição; sósinha com o seu amor, que

ninguem lhe impugnava; nutrindo-o com saudades na solidão do claustro.

Este convencimento aplacou a vertigem de Mendonça.

A ideia de pedir a baixa pareceu-lhe desnecessaria. O espaçar-se o

casamento para mais tarde afigurou-se-lhe racional e necessario aos seus

deveres de militar, e ao cumprimento dos encargos com que o principe

regente o honorificava.

E, depois, dizia n'elle o ente pensante:

«Não será bem decoroso para mim voltar do Brazil com uma posição tão

acrescida em honras, que ninguem possa notar desigualdade entre mim e a

filha do opulento commerciante?

«Como homem brioso, não deverei eu querer que a propria Carlota me

considere um homem disputado por herdeiras iguaes, ou ainda superiores a

ella?

«Os paes de Carlota, quando eu voltar habilitado para entrar no

valimento dos mais poderosos, e igualar-me a elles, não terão pejo,

vendo-me entrar em sua casa a castigal-os com pedir-lhes, segunda vez, a

filha, sem dote?»

Assim fallava o orgulho do espirito; o coração, porém, patrocinando o

anjo puro, a quem similhantes conjecturas injuriavam, tinha

arrebatamentos de tão sentida queixa, ou clamava com tamanha ternura á

consciencia incorrupta do mancebo, que, mais de uma vez, o amor saiu

victorioso, e o projecto de pedir a baixa readquiriu novos estimulos.

E os sonhos de gloria?

E os respeitos do mundo, que não eram, como hoje, restrictos ao

dinheiro?

E o cortar uma carreira, quando a aurora do seu brilhante dia raiava tão

sem nuvens?

E uma longa vida a viver só das commoções de um amor satisfeito?

E o emparelhar com os mais nobres, quando se tem um nascimento obscuro,

ou se não póde, sem desdouro, proferir o nome do pae, que inverga, não a

farda do general, mas o habito dos monges negros?

Replicava assim o orgulho reagente; e o amor supplicante exorava de

novo; a imagem melancolica de Carlota Angela espelhava-se no coração do

moço; resurgia ovante em toda a sua nobreza e isenção a amorosa alma, e

a tenção de não partir reaccendia-se mais calida e inabalavel.

Assim, pois, chegou Mendonça a submetter o seu requerimento ao despacho

do ministro.

Maior seria o pasmo de D. Rodrigo, se não julgasse o capitão da real

brigada de marinha compromettido na maçonaria, onde se pactuara que a

desobediencia implicaria pena de morte, a ferro ou a veneno como a de

José Anastacio de Figueiredo, em Mafra, á sombra das telhas reaes.

O ministro chamou o requerente a uma audiencia secreta, e disse-lhe que

não só lhe negava a baixa, mas até lhe exigia o cumprimento das ordens

regias; que seria mal visto de sua alteza o subdito que tão mal

correspondesse ao regio conceito: que seria degenerado portuguez o que,

no solemne momento de pôr peito em defeza da patria e á remuneração de

patrioticos feitos, se furtasse aos trabalhos e ás glorias: que seria

irrisorio não justificar o requerimento de baixa com mais motivos para

tamanho desconcerto que um pueril amor, que não devia passar de um

incidente de terceira ordem na vida de um homem intelligente, e fadado

para estrondosos destinos: que, finalmente, o valimento se converteria

em castigo, se elle requerente persistisse na disparatada baixa, cuja

concessão lhe grangearia o riso de uns, o odioso de outros, suspeitas

perigosas de muitos, e, mais que tudo, a mal-querença de sua alteza, que

tencionava nomeal-o major da armada, logo que servisse tres mezes no

Brazil.

O remate da allocução era a douradura da pilula. Major da armada! a

aspiração mais vantajosa de tantos, que a não realisavam na velhice!

Voltar, depois de alguns mezes, a Portugal, major da armada,

condecorado, ennobrecido, chamado aos conselhos do soberano, e talvez ao

ministerio!

Mas deixar Carlota no convento, a carinhosa Carlota, amada dois annos,

amada para sempre, votada aos sacrificios, aos desprezos, ás injurias, a

tudo, para lhe merecer a elle a renuncia de glorias que retardavam um

enlace tão suspirado!

Mendonça, na vespera da saida para o Rio de Janeiro, escreveu esta

carta:

«Vê, minha Carlota, que eu choro. A afflicção não me deixa outro

desafogo. Quando receberes esta carta, separam-nos centenares de leguas.

Eu parto ámanhã para o Brazil, obrigado pela minha condição de servo

agaloado. Deram-me o commando de um navio, e mandam-me cumprir serviços

de que eu cobraria esperanças para grandes honras, se a minha gloria

unica não fosses tu, esposa da minha alma. Quiz dar a minha baixa,

requeri, instei, negaram-m'a, e impozeram-me as leis militares. Quiz

dizer-te um adeus por algum tempo; não me consentiram delongas, porque a

corveta _Amazona_ esperava-me quasi aprestada para se fazer á vela.

«Mas eu não parto, Carlota. Comtigo fico, anjo. O meu coração ahi fica,

ahi está pulsando no teu. As lagrimas de saudade que choras, choram-as

tambem os meus olhos. Entre nós, n'esta longa distancia que nos separa,

prende-nos a mesma cadeia de dores, de afflicções, de terriveis

presentimentos. Quando te doer no coração o presagio da minha morte,

sentil-o-hei tambem eu lá, e chamarei por ti no silencio da minha alma,

n'este grito surdo da saudade, que é um despedaçar de todos os

ligamentos da vida.

«Por que choramos nós, Carlota? Invoquemos a razão desvairada pela

angustia; suppliquemos a essa filha de Deus, senão remedio, ao menos

conforto ás nossas dores. Deveremos nós chorar como choram amantes

infelizes? Eu creio que não, minha cara esposa. Se hoje nos dissessem:

«a vossa união ha de realisar-se passados seis mezes, ou ainda um anno»,

teriamos justo motivo para nos rebellarmos contra o destino, contra a

Providencia que nos aproximou tão dignos um do outro?

«Não, Carlota, porque o nosso amor não está ameaçado de alguma sinistra

casualidade que o aniquile ou arrefeça. As distancias são impossiveis

entre duas almas identificadas. Para ti no claustro, para mim na

amplidão dos mares haverá sempre o mesmo santuario de fervente amor, a

mesma acção de graças a Deus, que não quer o infortunio dos que o

confessam e chamam nas suas agonias. As nossas lagrimas ha de a

esperança enxugal-as. A esperança nos acordará dos sonhos tristes. A

saudade, que desalenta e cansa, irá ao futuro pedir sorrisos ás risonhas

imagens da nossa ventura de esposos. Oh! nós não temos razão para chorar

uma separação de alguns mezes, quando nos separamos tão confiados, como

se acabassemos de receber a benção no altar, como se, no derradeiro

abraço, sentissemos entre nossas faces o rosto de um filho.

«Que ridente imagem esta, ó Carlota! que estranho palpitar de coração eu

sinto agora! que delicias nos aguardam para o dia immorredouro da nossa

felicidade!

«Animo, minha adorada esposa! Eu careço de imaginar que tens coração

para aceitar, sem fraqueza, esta dor. Preciso alentar-me da tua coragem,

para que o auxilio da razão não esmoreça. Animei-te; mas as lagrimas não

me deixam escrever, nem a ti te deixarão entender estas palavras. Agora

se me cerra em indizivel tortura o coração. Largo a penna, desafógo em

gemidos este aperto de alma, similhante ao impossivel de comparar-se.

Não me venço. Já creio que te perdi. Accuso-me de ingrato por que não

deserto, e calco as leis, e fujo para ti, e te roubo a todo o mundo,

para mendigar comtigo uma esmola em paiz estrangeiro. Eu sou vil, sou

indigno de ti, e rasgarei esta carta, ou ler-t'a-hei de joelhos, para

que tu me perdôes tamanho crime.

«Que digo eu, meu Deus! que penso eu, e que farei da minha vida!

Impossivel, Carlota, impossivel deixar de seguir o meu destino! Agora

mesmo sou chamado á secretaria para receber as ultimas ordens. Este

calix irremediavel ha de ser tragado, ou a deshonra, a perseguição, e o

perder-te... Que horrivel palavra!

«Um juramento, Carlota! Faz-me um juramento, ajoelhada diante de um

crucifixo. Eu não o tenho aqui, mas invoco o testimunho de Deus, porque

o meu coração, quando tu proferires estas palavras, ha de ouvir-t'as, e

recolhel-as. Jura que só sairás do claustro para ser minha esposa; e, se

a morte me colher longe de ti, acabarás ahi teus dias, e nenhum ente

sobre a terra roubará á minha alma a melhor parte que lhe fica no mundo,

esperando que Deus a chame para a acolher ao infinito amor da

bemaventurança.

«Juraste, Carlota? Agora crê que o meu espirito te pediria contas d'esse

juramento, se a perfidia denegrisse a tua alma immaculada.

«Perfida!... tu!... Perdôa-me, anjo do céo, pelas lagrimas que choro,

pelas que tu choras, mais puras, mais angustiosas que as minhas!

«Adeus.....................»

VII

Fiel é Deus, que não soffre termos mais peso do que aquelle com que

podem os nossos, hombros. Delle se devem esperar os verdadeiros

allivios, e nesta fé se acabam os quebrantos.

Fr. Antonio das Chagas. (_Cartas._)

Carlota Angela proferira o juramento, ajoelhada diante de uma cruz;

foram, porém, d'ahi levantal-a os braços de D. Rufina, que, acudindo ao

soluçar dos gemidos, a encontrara esvaida.

Depois que a lançou á cama, a religiosa leu a carta, e disse a uma

noviça que vinha entrando:

--Quando assim se amam duas creaturas, a vontade de Deus está n'esse

amor: tudo que os homens fizerem contra elle é um sacrilegio, é um

attentado contra os designios do Altissimo.

A noviça, depositária dos segredos de Carlota, leu tambem a carta, e foi

sentar-se á cabeceira do leito, encostando ao seio a face desmaiada da

sua amiga.

Os sentidos de Carlota restauraram-se espavoridos. Tremia toda, e fitava

com spasmo e assombro o rosto lagrimoso de Dorothea.

--Chora, chora, Carlotinha--disse a noviça, dando-lhe o exemplo, e

acariciando-a com beijos.

--Se eu podesse chorar...--balbuciou Carlota, encolhendo-se em tremuras

de frio entre os braços de Dorothea.

--E, se elle morresse, não soffrerias mais, menina?!

Carlota fitou-a espantada, e disse com voz rouca pela suffocação:

--Se elle morresse... quem?... pois sabes...

--Sei; li a carta, e tua tia tambem a leu, e chorou. Eu não acho razão

bastante para succumbires assim.

--Eu não succumbo... se succumbisse, estava morta... Ainda vivo; mas,

Dorothea, eu creio que morro, e morro brevemente...

--Arrepende-te, alma de pouca fé!--disse a tia, mostrando a sua nobre

fronte de cabellos brancos, coberta com o magestoso véo negro, por entre

os cortinados do leito--Que fallas ahi em morrer, creança! Vida, muita

vida, e muita confiança em Deus, e esperança em dias melhores, é o que

te ensina esta carta, mulher sem animo. Vamos lel-a de novo: sou eu que

a leio, e veremos se o coração de uma velha sabe melhor que a moça

entender o coração de um mancebo.

D. Rufina, sorrindo com fagueira graça, abriu a carta, sentou-se na cama

de Carlota, e acompanhou a leitura com suas glosas, não deixando sem

ellas a menor phrase esperançosa.

A respiração profunda de Carlota, o convulsivo soluçar, o gemido

indomavel que lhe fugia em agudissimos ais, interromperam, muitas vezes,

a leitora. Era então que as consoladoras annotações de Rufina, e o

assentimento da noviça, redobravam de persuasiva eloquencia, capaz de

maravilhar as freiras, que suppozeram sempre estranha á linguagem das

paixões a austera religiosa.

Terminada a leitura, soror Rufina, descontente com o insensivel

resultado das suas consolações, appellou para o influxo sobrehumano da

religião.

--Venham cá ambas,--disse ella--vamos todas tres pedir de joelhos ao

Senhor, que leve e traga a porto de salvamento o nosso Francisco.

--Sim, sim!--exclamou Carlota Angela, saltando do leito, e seguindo-a

com passos vacillantes.

Ajoelharam, e oraram afervoradamente. Seria difficil estremar entre as

tres qual era d'ellas a que pedia a Deus o salvamento do amante: tal era

a devoção de todas.

--Agora respiremos!--disse, terminada a reza, a freira--Has de vel-o,

has de ser sua esposa, minha Carlota.

Nas grandes agonias, qualquer esperança exalta a crença em agouros, em

presagios, em superstições até. Carlota, pensando que sua tia recebera a

suprema graça da revelação, exclamou com alegria e transporte:

--Que foi, minha tia? Disse-lh'o Deus?

--Deus, filha, não falla a creaturas tão peccadoras e indignas como tua

tia; mas consente que se possa contar com os effeitos da sua divina

misericordia. Tudo o que se pede ao Senhor, com humildade e justiça,

consegue-se. E, assim, te repito, Carlota, que Francisco Salter voltará,

será teu marido, e tereis larga remuneração dos soffrimentos que

offerecerdes a Deus em desconto dos contentamentos que sobejam aos

felizes d'este mundo.

Estas palavras soaram tocantes e solemnes como o prophetisar da que a

communidade reverenciava assistida de graça superior. Carlota sentia

alargar-se a golilha de ferro que lhe entalava na garganta o respiro e a

falla. As lagrimas, represadas no coração, rebentaram em torrentes: e o

sangue, que se retivera suspenso, circulava de novo, rosando-lhe a

lividez cadaverica do rosto.

Estava desopprimida; e fora a esposa de Jesus misericordioso que lhe

insuflara alentos. Fora uma freira das que desafiavam o riso dos

incredulos com suas devoções, e austeras impertinencias; fora uma

mulher, das que morreram para o mundo ou o mundo matara, das que se

acolheram a Deus ou Deus tirara do seu inferno em vida, fora essa a que

tirara da cruz, onde expirara o amantissimo redemptor dos homens,

remedio de vida, e esperança para a chaga de um coração de dezesete

annos, ferido de desespêro e morte.

Assim, pois, na cella da rigida religiosa se desafogavam e consolavam

affectos dos que, fóra d'alli, no mundo tolerante e vicioso, são

julgados rebellião contra a vontade paternal, escandalo para filhas

submissas, e peccadora cegueira do coração humano!

Quam inventiva não é a caridade! quam largas bracejam as vergonteas

d'esse tronco evangelico, regado pelas lagrimas d'aquella a quem Jesus

perdoara por ter amado muito!

A desvelada noviça não deixava sósinha Carlota, um instante. Ella e

Rufina revezavam-se ao pé da pensativa menina, que parecia querer

fugir-lhes, já não para se carpir, mas para orar; que, na oração sentia

Carlota outro espirito em si, o murmurio de outros labios supplicantes,

a fervorosa crença de Mendonça inflammar-lhe a fé.

A serenidade viera com a confiança no futuro: do sobresalto, da

afflicção, pouco e pouco socegada, ficara a melancolia suave da

paciencia, essa que só Deus concede aos que á sua misericordia

recorreram na adversidade, e em sua vontade se louvaram.

D. Rosalia visitava a filha miudas vezes, o pae raras; e de breve

demora, porque o silencio de Carlota, que elle julgava desaffeição,

desanimava-o de a ver, e incommodava-o a sós com ella.

Dizia a mãe, nos primeiros tempos, que não havia tirar-lhe o sim para o

casamento; mas que ainda era cêdo para descorçoar. Dois mezes depois,

mostrou-se mais docil a pertinacia, e já elle dizia que, na volta de

Mendonça, tudo se faria pelo melhor: é que o ajudante do intendente

geral da policia, por occasião de lhe pedir mais seis mil cruzados,

explicara o saque, dizendo que esta quantia se fazia mister para crear

novos embaraços ao regresso de Salter, logo que a commissão, a que fora,

estivesse cumprida.

Decorreram quatro mezes. Os navios vindos do Rio, já com a nova da

chegada do _Amazonas_, e cartas dos tripulantes, receberam a bordo uma

visita da policia, e entregaram a correspondencia. Entre as cartas havia

uma de grande volume, subscriptada a D. Carlota Angela de Meirelles,

residente no mosteiro de S. Bento da Avè Maria, no Porto.

O bacharel Sampayo deslacrou esta carta, leu oito folhas de papel, e

lançou-as ao brazeiro, aquecendo e esfregando as mãos á lavareda. O

malvado queimara alli o traslado das mais tristes imagens, o desafogo da

mais dorida saudade que ainda apertou coração de homem! O impio não se

amiserara de tantos signaes de lagrimas em que a tinta se apagara! Que

raptos de alegria, e suspiradas consolações aquella carta, que voejava

no ar em faúlas, levaria a Carlota! Que esperanças tão bellas o perverso

queimou com a chamma d'aquelle papel!

Entretanto, Carlota, que contara os dias, e calculara, mil vezes, com

Dorothea, o primeiro em que devia receber novas de Mendonça, mandava

todos os dias de estafeta uma servente para a porta do correio,

esperando a lista, ou interrogando o carteiro. Sempre, em vão! A antiga

dor renascia em cada correio; redobrava a afflicção a cada esperança

frustrada.

Conspiravam em consolal-a Rufina e a noviça, esta com razões mais

carinhosas que persuasivas, aquella confirmando o vaticinio da

felicidade promettida. Os allivios da primeira eram sempre proficuos e

desejados; os da segunda faziam-a proromper em gemidos, que tambem eram

desabafo.

Decorreram tres mezes de afflictivas esperanças, sempre enganadoras para

todas. Nem uma carta, nem duas linhas escriptas no leito da morte!

Carlota Angela tremia de pronunciar uma desconfiança acerba que lhe

trazia o coração em agonias. Soror Rufina rogava incessantemente á

bondade divina que afastasse da sobrinha o temor que a sobresaltava a

ella. Dorothea segredava á freira os seus receios, e esta pedia-lhe

muito encarecidamente que não proferisse uma palavra sobre tal

desconfiança.

Acontecia, porém, que todas suspeitavam o mesmo; a morte de Francisco

Salter.

Carlota receiava que as suas amigas julgassem possivel ter elle morrido;

assentimento tal seria para ella uma especie de evidencia, porque tão

pouco basta para certificar suspeitas entranhadas n'um espirito que a

desgraça fez supersticioso. As outras calavam o presentimento funesto,

cuidando que a matariam.

N'este conflicto, correu no Porto a noticia da morte de Francisco Salter

de Mendonça. Ninguem sabia dizer por onde a noticia viera; os amigos,

porém, do honesto e talentoso official de marinha contavam-se que elle

morrera no Rio de Janeiro, quando a gloria o vinha buscar por uma

carreira esperançosa de grandes destinos.

A noticia chegou ao convento. Souberam-a todas, excepto Carlota Angela.

Rufina caíu doente, e Dorothea denunciava-se á infeliz menina,

evitando-a, quando mais anciosa de compaixão e carinho se sentia

impellida para ella.

As freiras olhavam a pobresinha com mais piedade que nunca; animavam-a

como se quizessem ter parte em seu coração para a salvarem pela amizade,

quando houvessem de revelar-lhe a mortal noticia. Carlota estranhava os

melancolicos olhares, os beijos e caricias de todas, a condolencia terna

com que, as mais afastadas da sua convivencia, a vinham espairecer ao

seu quarto.

Norberto de Meirelles procurara sua filha, n'esses dias em que a noticia

vogava. Soror Rufina estava de cama; recebera primeiro o recado do pae

de Carlota. Esta preparava-se para ir á grade, quando a anciada tia lhe

disse:

--Vou-te aconselhar a desobediencia, minha sobrinha, e Deus me perdôe

por sua immensa bondade. Não vás á grade. Eu tomo sobre mim a

responsabilidade de mais um peccado.

E, voltando-se para a criada, mandou dizer a Norberto que sua filha não

podia fallar-lhe; mas esperasse alguns minutos, que alguem iria em logar

d'ella.

--E por que é isso, minha tia?!--perguntou a sobrinha admirada.

--Porque sim, minha filha. Receio que elle te venha fallar...--continuou

balbuciante--em cousas desagradaveis.

E, sentando-se no leito, a febricitante religiosa, ajudada de Carlota,

vestiu-se, e foi á grade encostada a Dorothea.

--Então a pequena que tem?--perguntou Norberto.

--Está doente.

--Já lhe chegou a noticia! Que tenha paciencia. Deus tudo faz pelo

melhor...

--Tambem digo o mesmo--atalhou Rufina.--E o mano agora que lhe quer?

Consolal-a?

--Quero dizer-lhe que é preciso mudar de rumo, e tirar o sentido do

homem que morreu.

--Isso ha de dizer-se-lhe por outras palavras menos terminantes.

--Isso lá é bom p'rá mana; eu cá digo as cousas como sei.

--Pois sim; mas consinta que eu a disponha para o golpe, e depois tudo

se lhe dirá com prudencia e caridade.

--Pois ella ainda não sabe que morreu o homem?!

--Não, mano; se a noticia fosse alegre, tinha-se-lhe dito; mas eu não

acho necessario dar-se-lhe uma nova que a póde matar.

--Qual matar, nem meio matar!--replicou o brutal arrozeiro, tregeitando

com os beiços carnudos um gesto de incredulidade--Pobre de quem morre,

diz o dictado. Ainda é de bom tempo, cunhada. Isto de raparigas

namoradas, são como as viuvas: choramigam oito dias, e ficam frescas

como se não fosse nada com ellas.

--Está enganado. Pergunte a minha irmã, que tem coração de esposa e de

mãe, se isso assim é. Estou bem convencida que ella fará um diverso

juizo do soffrimento de Carlota. Emfim, mano, eu ergui-me da cama para

vir aqui, e estou a tremer de frio e febre. Conceda que eu me retire,

pedindo-lhe pelo divino amor de Deus que deixe ao meu cuidado revelar a

noticia á desgraçada Carlota. O mais difficultoso é curar depois a

ferida, se o golpe não for de morte: confio em Maria Santissima que não

será.

--Pois então adeus--tornou Norberto, puxando para as orelhas a gola do

capote de quartos.--Arranje cá isso do melhor modo, e diga-lhe que venha

cá p'ra fóra, a ver se ella se tenta com algum de tres noivos, o qual

melhor, que eu trago na mira. Se eu a quizesse casar com um morgado da

provincia, fidalgo, e senhor de casa com capella, já me fallaram para

isso; mas, a fallar a verdade, o que eu quero é homem de negocio, ou

filho de negociante com dote á vista; não faço bem, cunhada?

--O mano lá sabe o que lhe convem; mas nunca faça calculos sem contar

com a vontade de Carlota. Parece-me que lhe posso asseverar que ella não

sairá mais d'este convento. Perdeu um esposo; mas o esposo verdadeiro, o

esposo das almas angustiadas está cá dentro; é Jesus Christo, o unico

bem que ha de entrar no coração espedaçado de Carlota, e cural-o com a

esperança de encontrar na bemaventurança o primeiro que perdeu.

--Pois Carlota ha de ser freira?!--interrompeu com impetuosa grita

Norberto, derrubando a gola do capote, que era de mais na cara afogueada

pela ingrata nova.

--O mano faz um espanto--redarguiu mansamente Rufina--como se eu lhe

dissesse que sua filha havia de praticar um crime!...

--É que eu não quero!...--redarguiu elle, batendo um troante murro na

banqueta.

--O mano não quer; mas a sua vontade agora vae encontrar outra vontade

sem comparação mais poderosa: é a vontade omnipotente do Senhor, que

move os mundos e os corações. Não me disse, ha pouco, que Deus tudo

fazia pelo melhor? Pois bem, póde ser que a divina vontade quizesse para

as suas eternas nupcias a que havia de ser esposa de outro, que Deus

chamou a si.

--Veremos como isso ha de ser. Em todo o caso eu quero minha filha cá

para fóra. Não a creei para freira, tenho muito que lhe deixar.

Carlota Angela · 第 3 / 11 段