--Se lhe parece.... o caso não é para menos: quem não tem nada, tanto se

lhe dá como se lhe deu; mas quem lhe custou a ganhar o que tem, pouco ou

muito, quer paz e socego.

--Não se aterre antes de tempo, snr. Norberto,--replicou Mendonça,

sorrindo a Carlota--quando os francezes invadissem Portugal, eu ajudaria

a v. s.ª a defender o que é seu, não só como esposo de sua filha, mas

tambem como seu amigo.

--Isso lá...--regougou o mercieiro--muito obrigado, não me despeço do

favor: mas o senhor é militar, e quando isso for não lhe ha de faltar

por lá que fazer, na guerra do mar.

--Assim aconteceria--tornou Mendonça, enterrando lentamente o estillete

observador--se eu não tencionasse pedir a minha baixa do serviço, para

evitar que as revoluções perturbem a felicidade de minha mulher e a

minha.

--Então que modo de vida queria o senhor ter, se casasse com a minha

Carlota?

--Outro qualquer mais permanente, mais descansado; negociante, por

exemplo.

--E que é dos fundos?

--Fundos?

--Sim, o casco do negocio?

--O casco!... a que chama v. s.ª casco?

--Casco é o cabedal para começar.

--Meu sogro dar-me-hia...

--Dinheiro?! meu amiguinho, está quasi todo empregado em torrões; e eu,

emquanto vivo, não dou nada.

--Mais uma razão--replicou Mendonça, condoido do vexame de Carlota, e

seguro, mais que seguro, do villão caracter do arrozeiro--mais uma razão

para v. s.ª não receiar a invasão dos francezes... Agora tem

logar--proseguiu elle, mudando de ironico para circumspecto e grave--uma

observação que me esqueceu ha dias, quando tive a ventura de pedir-lhe a

snr.ª D. Carlota. Eu, snr. Norberto, pedi sua filha, simplesmente sua

filha; não pedi dinheiro, nem pedirei jámais. Eu conto com recursos

proprios para que ella não sinta falta de commodidades que deixou em

casa de seus paes. O meu patrimonio é a patente que tenho e as bem

fundadas esperanças de me augmentar n'esta carreira. Não me julgue v.

s.ª atido ao dote de sua filha, nem cuide que me affligi com a ameaça

de nada lhe dar emquanto vivo. Póde o snr. Norberto gastar, ou augmentar

o que tem, que sua filha não esperará a morte do pae para poder comprar

mais um vestido. Faça, portanto, justiça ás minhas intenções, e

conceda-me que eu dê liberdade a algumas ideias que me estão inquietando

e magoando.

V. s.ª não procedeu lealmente commigo, quando me deu, sem reparo, sua

filha. Rogo á snr.ª D. Carlota me consinta este desabafo, porque a

clareza, n'este momento, é necessaria a todos nós, e o amor e o decoro

costumam, nas almas nobres, soffrer juntos, quando um d'elles é

offendido... e agora são ambos.

--Eu não entendo o que v. s.ª ahi está a dizer--atalhou Norberto

conscienciosamente.

--O snr. Mendonça...--acudiu Carlota; mas o pejo embargou-lhe a voz.

--Eu queria dizer ao snr. Norberto de Meirelles--tornou Mendonça--que

fez v. s.ª mal em dar uma palavra de que se quer desquitar por meios

menos honestos, e á custa talvez da minha liberdade. A ida de seu

cunhado á capital, e a ordem de eu ir, sem perda de tempo, a Lisboa,

escondem uma trama que eu espero desenredar em oito dias. Se o snr.

Norberto e seu cunhado julgaram que uma intriga basta para aniquilar um

amor de dois annos, uma união de toda a vida já abençoada por Deus, que

vê a pureza das minhas ambições, enganaram-se! Retardar não é destruir.

Eu confio tanto no generoso coração da snr.ª D. Carlota como em mim

proprio; e só o muito amor me podia dar a mim esta franqueza com que

fallo, e a ella a indulgencia com que me ouve accusar o proceder injusto

de seu pae.

--O senhor está a insultar-me!--exclamou Norberto--e demais a mais em

minha casa!

--Eu não insulto, senhor, queixo-me de ter sido ultrajado, e reconheço,

n'esse desabrimento, que é certissima a perfidia com que fui enganado.

Retiro-me, para que v. s.ª não me offenda terceira vez, dizendo-me que

o insulto.

--Pois o melhor é isso--redarguiu Norberto.--O senhor pensava que me

levava á valentona? Eu tambem tenho amigos, e sei o que hei de fazer!...

--Que ha de fazer o pae?--disse Carlota com altivez--O pae não póde

fazer nada.

--Que dizes tu, Carlota?!--trovejou Norberto.

--Digo que não ha forças humanas que me privem de casar com este senhor.

O pae governa no seu dinheiro, e nós nada lhe pedimos. O snr. Mendonça,

se quizesse ser menos generoso com meu pae, estaria já casado commigo,

porque eu o auctorisei a tirar-me de casa por justiça.

Norberto, como todas as indoles abjectas, caira no miseravel da sua

atonia, sob a fulminante coragem de Carlota. Francisco Salter

aproximou-se d'ella, tomou-lhe a mão, como se estivessem sós, e

murmurou:

--A virtude, que Carlota chamou generosidade, continúa. Vou a Lisboa,

porque sou militar, e transgrido a honra e dever não me apresentando.

Mendonça despediu-se de Carlota Angela, que chorava, e de Norberto de

Meirelles, que limpava com o canhão da japona de cotim o suor da brunida

testa.

D. Rosalia faltara a este conflicto, porque, atarefada na cozinha com a

liquidação dos legumes vendidos na manhã d'aquelle dia, não dera fé de

entrar Mendonça.

Carlota Angela, apenas sósinha com seu pae, voltou-lhes as costas, e

saiu da sala.

Norberto ficara de tal modo aturdido com o desembaraço da filha, que

parecia temel-a. Procurou a mulher, e contou-lhe, como elle podia, o

succedido. D. Rosalia benzeu-se tres vezes, e tres vezes levou os braços

em arco á altura da cabeça, acção favorita da grossa matrona, quando

queria exprimir o supremo espanto.

Animando-se mutuamente, entraram no quarto de Carlota, e gritaram ambos

ao mesmo tempo:

--Filha ingrata! nós te amaldiçoamos!

--Para sempre!--disse a solo o snr. Norberto.

--Para sempre!--repetiu D. Rosalia.

--Amaldiçoada!--bradaram em dueto.

--E por que me amaldiçoam?--disse Carlota--que crimes são os meus?

--Ainda perguntas?!--respondeu Norberto, opilando olhos, bochechas,

nariz, e tudo o mais susceptivel de opilação na sua elastica

physionomia--Pois não tiveste o atrevimento de me dizer ainda agora que

eu não podia fazer nada?

--Disse, sim, senhor; disse, porque ha só um meio de me prohibir o

casamento com a pessoa a quem o pae me deu: é matarem-me.

--Isso diz-se a teu pae, rapariga?---bradou a mãe.

--A verdade diz-se aos paes; mentir-lhes é que é crime. Para que hei de

eu dizer que faço a vontade a meu pae, se não sou capaz de cumprir a

minha palavra? Logo que Mendonça voltar de Lisboa, se elle me não

procurar, procuro-o eu. Se elle me quizesse com a mira no dote, faria

todas as diligencias por que me dotassem, ou morreria de paixão por me

não dotarem; felizmente, o homem que Deus me destina é a mim que me ama,

e não ao dinheiro de meus paes; para ser sua mulher basta-me o coração;

pois bem, fique o dinheiro a meu pae, e seja o coração para o homem que

não exige de mim outros thesouros.

Norberto olhava Rosalia, Rosalia olhava Norberto, grotescamente

pasmados. Estranha era para elles a linguagem, o enthusiasmo, a

altiveza, as attitudes de Carlota. Queriam contradictal-a com os

argumentos triviaes de um casamento rico; mas a migalha de bom senso que

tinham ambos, bastava a convencel-os da inutilidade de similhantes

razões. Queriam leval-a pelo terror; mas com tanto mimo a tinham deixado

emancipar-se desde creança, que não sabiam agora com que gestos, com que

palavras, exprimir o agastamento, a admoestação irada, a soberania

paternal.

O coração de Rosalia era bom, e seria ella a protectora do casamento, se

a não tolhessem os prejuizos de classe. A mulher de Norberto cuidava, em

boa consciencia, que sua filha não podia ser feliz, casando sem o

precedente de escripturas de doação, sem a concorrencia de doadores bem

ricos e bem estupidos por parte do noivo. Por mais que ella quizesse

descobrir no official de marinha os encantos que seduziram sua filha, a

tapada creatura o que encontrava era motivo para pasmar cada vez mais.

--Um engarilho de bigode como um chibo...--dizia ella a Carlota, depois

que Norberto se retirara com mêdo de ceder á indignação, que o

enfurecia--um pechibeque que não tem terra, nem leira, nem ramo de

figueira, ó rapariga, que feitiço te fez aquelle patavina? Ha por ahi

tanto rapaz bem azado, com negocio estabelecido, e creditos... se

querias casar, por que o não tinhas dito, que já se tinha escolhido a

flor dos rapazes do Porto? Está ahi o filho do Antonio José da Silva, e

do Joaquim José Guimarães, que por entre os dentes deram a entender a

teu pae que te queriam, e ainda estão solteiros, não tens mais que

fallar... Ó mulher! isso foi enguirimanço do demonio! Por que não casas

tu com um dos outros?

--Perde o tempo, minha mãe--disse Carlota com firmeza.--Esses homens

aborreço-os; o mundo tem para mim um só homem; não vejo, nem quero ver

outro: é Francisco de Mendonça, porque sou d'elle, considero-me já sua

mulher, e...

--Tu que dizes, Carlota!?--bradou apavorada D. Rosalia--És já mulher

d'elle? Pois tu... Credo! tu estás ahi a dizer blasphemias... Ó

desgraçada, pois tu...

--Eu quê! o que está ahi a mãe a fazer uns espantos que não sei a que

vem? Se me julgou culpada de alguma acção indigna de mim, é mais uma

injustiça que faz ao homem que amo. Tenha a segurança de que Mendonça

não me humilha; pelo contrario, eleva-me, ama-me bastante, e é bastante

virtuoso para não querer que a minha consciencia me accuse de alguma

fraqueza.

Oh! ninguem sabe comprehender, como quem ama, uma nobre alma! Tenho eu,

e elle tambem tem a infelicidade de sermos avaliados por pessoas que

adoram o dinheiro sobre todas as cousas, e crêem que fóra do dinheiro

não ha virtudes nem contentamentos. Ó minha mãe, foi uma desgraça

darem-me uma educação differente da que receberam meus paes. Eu vejo as

cousas e as pessoas de um modo diverso. Olho para a riqueza como para um

obstaculo á minha ventura, e não posso deixar de aborrecel-a...

Bem vejo que minha mãe se admira d'esta linguagem, creia que não é falta

de respeito, nem confiança nas minhas fracas forças; é animo que me dá

um amor puro, e digno de mim; é uma força de que eu preciso para

convencer meus paes de que privar-me de casar com Mendonça é o mesmo que

matar-me!

Minha mãe não quer que eu morra, e ha de proteger-me, ha de amollecer o

duro coração de meu pae, ha de lembrar-lhe que o consentimento dado não

póde ser negado sem deshonra para elle, e grandes torturas para mim.

Seja por mim, minha querida mãe, seja boa como tem sido sempre. Tenha dó

da sua filha unica, da filha que nunca lhe desobedeceu, e, se hoje

desobedece, deve ser muito dolorosa a violencia que lhe querem fazer...

Carlota Angela soluçava no seio de D. Rosalia, cujos vasos lacrimaes se

romperam copiosamente.

Eram de bom agouro as lagrimas da enternecida mãe.

As difficuldades, que ella oppunha, eram vencidas por novas supplicas de

Carlota. D. Rosalia acabara por prometter, com o seu silencio, vencer a

resistencia do marido.

Norberto saíra entretanto para o Porto, e fora ao paço do bispo prevenir

a magistratura ecclesiastica contra as diligencias de Francisco Salter

de Mendonça. Alguem o aconselhou que fizesse entrar sua filha n'um

convento, para obviar ao rapto, visto que, dado o passo da fuga, o mais

airoso e honesto era remediar a deshonra irreparavel sem o casamento.

D. Rosalia Sampayo tinha uma irmã freira benedictina, no Porto, senhora

muito reformada, muito rezadeira, e havida em conta de predestinada, lá

dentro, e de religiosa illustrada entre as pessoas das suas relações.

Carlota Angela visitava-a miudas vezes, e entretinha-se longas horas na

grade, e até alguns dias dentro do mosteiro, onde sua tia lhe ensinava

muitas devoções mirificamente salutares, com as quaes Carlota saía

convencida de que, fazendo-as um mez, ganharia indulgencias bastantes

para remir das penas do purgatorio toda a christandade.

A madre Rufina, sem desagradar ao seu director espiritual, frade

carmelita de poucas lettras e muitas virtudes, era uma tolerante

senhora, a quem Carlota confessara a sua inclinação ao official de

marinha, resultando-lhe d'ahi ter de rezar, por conselho da tia, mais

algumas devoções para que a Virgem lhe inspirasse o melhor destino

n'este mundo.

Carlota dizia-lhe que o seu apaixonado era pobre. Madre Rufina replicava

que pobre era quem não tinha a graça de Deus. Carlota redarguiu que

talvez os paes não a dessem a um rapaz sem dote. A benedictina appellava

para a vontade do Altissimo, que fazia tudo pelo melhor. Ora, Carlota

Angela, melhor ou peior avisada, entendia que Deus, na maxima parte dos

actos humanos, e nomeadamente nos casamentos, não punha nem dispunha.

Isto será menos orthodoxo; mas é necessario impor á responsabilidade do

homem, ou do diabo, cousas que por ahi ha que não parecem de Deus.

Norberto de Meirelles foi do paço do bispo ao convento de S. Bento da

Avè Maria, e fez chamar sua cunhada. Contou a desordem em que se achava

sua casa, foi eloquente no seu genero, desafogou a ira abafada em

presença da filha, e terminou dizendo que, o mais tardar no dia

seguinte, Carlota havia de entrar no convento, onde estaria até se lhe

varrer a mania de casar com o tal Pedro-malas-artes.

A madre Rufina respondeu que na casa do Senhor não se recebia ninguem

introduzido á força; que sua sobrinha não estava no caso de aceitar com

prazer o recolher-se a um convento, quando o seu coração propendia e

ligava a outros amores. E concluiu, aconselhando a seu cunhado prudencia

e caridade com as inclinações de Carlota, que, se não eram convenientes

aos olhos do mundo, tambem não eram peccadoras aos olhos de Deus.

E, em resposta ás impertinentes réplicas de Norberto de Meirelles, a

digna esposa do Senhor prometteu chamar sua sobrinha, relatar-lhe as

mágoas de seu pae, tentar demovel-a do seu proposito, e pedir muito,

primeiro, a Maria Santissima que tocasse o coração de Carlota com a

resolução mais conducente ao caminho da virtude n'este mundo, que é o da

salvação no outro.

Norberto saiu pouco contrito, e notou que sua cunhada gosava uma

reputação usurpada. O homem achava aquelles principios irreconciliaveis

com a santidade de que D. Rosalia fazia o panegyrico, todos os dias. Não

obstante, a irritação moderou-se-lhe, na esperança de que, em ultimo

refugio, seu cunhado doutor faria em Lisboa, com o dinheiro, o que a

violencia não conseguisse cá.

A freira pediu ao capellão do mosteiro que lhe acompanhasse sua

sobrinha; e teve com ella o seguinte dialogo, quasi textual dos

apontamentos de Carlota Angela, que devemos á confidencia de uma sua

amiga, de quem logo fallaremos:

--Teu pae, menina, esteve aqui hontem, e fez-me pena. Pediu-me que te

despersuadisse do amor a...

--Pediu-lhe um impossivel, minha tia--interrompeu Carlota.

--Nada é impossivel a Deus, minha sobrinha.

--Deus escuta-se na consciencia, e a consciencia não me condemna o

coração.

--Mas que te diz ella sobre os deveres de uma filha?

--Diz que tenho satisfeito a todos aquelles em que correspondo aos

deveres de pae.

--Não sejas tão absoluta nas tuas respostas, Carlota. A desobediencia é

um crime.

--E o suicidio, minha tia?

--O suicidio é o maior dos crimes, porque é o desprezo do divino remedio

nas dores passageiras d'esta vida.

--Pois creia que obedecer é morrer; se obedeço, se retiro o meu amor...

retirar, meu Deus! eu disse uma loucura! eu não posso retirar o meu amor

a Francisco; o mais que posso é mentir; mas essa mentira custa-me a

morte... é o suicidio, e mais ainda... é um assassinio, porque eu mato o

homem que me é tudo n'esta vida...

Carlota rompeu n'um alto soluçar de lagrimas, que fez chorar a

religiosa.

--É escusado--disse esta, após um longo intervallo de silencio, cortado

de suspiros--é escusado combater a tua paixão. Eu pedi tanto ao Senhor,

em communidade, com algumas santinhas d'esta casa, que te mudasse a

tenção, que já agora não posso duvidar que o céo abençôa a tua união com

esse mancebo. Já não te reprehendo, nem dissuado, minha sobrinha.

Faremos com tua mãe o que não podérmos fazer com o espirito teimoso de

teu pae. Enternece-a com as tuas lagrimas, menina; esperta-lhe a

compaixão de que está cheio um coração maternal.

--Já o consegui; minha mãe chorou commigo, e prometteu alcançar de meu

pae o consentimento que elle já tinha dado.

--Já tinha dado?! a quem?

--A Francisco Salter, quando me foi pedir.

--E depois? desdisse-se!...

--Quando consentiu, foi para dar tempo a meu tio de nos urdir uma

traição. Francisco partiu hontem para Lisboa, chamado a toda a pressa. O

plano é talvez demoral-o lá; mas de que serve a má fé de meu pae, e as

astucias de meu tio? Cá está o meu coração para vencer tudo. Cêdo ou

tarde, Francisco voltará, e depois... e depois, se tanto for necessario,

fujo de casa.

--Santo nome de Jesus! não digas tal desatino, que offendes a Deus. O

teu amor, se tal fizesses, deixaria de ser um sentimento honesto, minha

sobrinha. Ha nódoas que nunca se lavam, e intenções boas que deixam

sempre uma face má voltada para os juizos severos do mundo. Já agora,

filha, esgota todo o teu calix de fel para que se não diga que achaste

doçura no crime. Eu entrei de vinte e dois annos n'esta casa, estou cá

ha vinte e seis, e ainda me recordo do que era o mundo lá de fóra, e o

que lá não aprendi ensinaram-me cá pessoas que entraram para aqui

sangrando ainda das chagas que receberam lá.

Carlota, eu hoje não te fallo a linguagem que me ouviste até aos

quatorze annos. Conheço o teu coração, e acompanhei-lhe o

desenvolvimento mais de perto que teus paes. Tua mãe não te podia

entender, porque tua mãe saiu aos quinze annos da companhia de um tio

abbade para casar com um homem capaz de lhe abafar a intelligencia, se

ella a tivesse. Teu pae é um honrado commerciante, tem sabido augmentar

os seus haveres com a mira de te deixar muito rica, e não entende nada

de coração.

Já vês, minha querida sobrinha, que teus paes ignoram a sua culpa, e não

fazem mais do que julgam ser o melhor para a tua felicidade. Não os

desgostes emquanto for compativel a obediencia com os affectos

invenciveis da tua alma. Teu pae quer que te recolhas a este convento.

Se vieres, se quizeres vir para a minha companhia, não preciso dizer-te

que as tuas acções hão de ser aferidas pelos deveres de uma menina

recolhida n'esta casa. D'aqui diligenciaremos o teu casamento com esse

sujeito; mas as nossas diligencias hão de cooperar todas sobre o animo

de teu pae, até obtermos o consentimento, esquecendo-nos de que elle

procedeu mal, negando o que uma vez tinha concedido. Agora, pensa,

Carlota.

--Tenho pensado.

--Queres, ou não queres entrar no convento?

--Quero sim, minha tia; hoje mesmo, se é possivel.

--É, que eu tenho ainda licença para tu poderes entrar; mas é preciso

que teu pae o saiba.

Carlota Angela desceu acceleradamente as escadas que conduziam da grade

para a portaria. Ia banhada de lagrimas. Ao abrir-se a porta, com o seu

tristonho ranger nos gonzos, Carlota estremeceu, e apoiou a face, como

esvaîda, no cunhal do muro.

--Vem, menina,--disse do interior a madre Rufina.

Carlota Angela pôz o pé no limiar, e exclamou, estendendo os braços para

a madre porteira:

--Disse-me agora o coração que era para sempre!... Que é isto que eu

sinto, meu Deus!

--Se é Deus que t'o faz sentir, minha sobrinha, louvemol-o todas pelo

bello presagio que te inspirou.

A porta fechou-se. Carlota, rodeada de freiras, e nos braços de todas,

soltou um ai que parecia um grito desentranhado do coração.

VI

Qui amans egens ingressus est princeps in amoris vias,

Superavit oerumnis is suis oerumnas Herculis.

Plauto. (_Persa._)

O demonio da ambição...

A. Herculano. (_Monge de Cister._)

Francisco Salter de Mendonça, logo que chegou a Lisboa, procurou o

ministro da marinha, e encontrou-o, contra as suas presumpções, bem

encarado e affavel.

D. Rodrigo de Sousa Coutinho era um astuto politico, sabia conhecer os

parvos pavores do intendente geral da policia, e amava bastante a pasta

para contrariar as suggestões do principe regente, que tremia dos

pedreiros-livres, quando não tremia das conspirações da filha de Carlos

IV.

Ainda assim, o ministro, protector affeiçoado de Salter de Mendonça, e

particular amigo do frade progenitor, que valia muito com Mellos e

Ficalhos, houve-se astutamente na recepção do official de marinha,

mostrando-lhe a ordem do dia, em que era promovido a capitão-tenente, e

dando-lhe os emboras da escolha acertada que o principe regente fizera

dos seus talentos e energia, para, com mais dois officiaes, o enviar ao

Brazil a correr com o apresto de uma esquadra, que as prevenções da

guerra demandavam.

Este gracioso acolhimento desfez, ao primeiro intuito, as suspeitas de

Mendonça. A intriga era incompativel com a mercê do posto, e a honraria

do encargo. A reflexão, porém, sobreveio ao juizo da primeira impressão,

e Salter, recordando o que se passara no Candal, creu de novo que o

bacharel promovera o seu desterro, simulada com a mascara do favor.

A nova de ter sido adjunto ao intendente Manique o tio de Carlota Angela

revalidou a desconfiança.

Mendonça apresentou-se ao ministro, e pediu licença para tornar ao

Porto, onde o chamavam compromissos, do coração em que a sua palavra de

honra se achava empenhada. D. Rodrigo objectou com a necessidade urgente

da partida no praso fixo de quatro dias; discorreu profusamente ácerca

da primazia dos deveres de portuguez em confronto com os particulares do

coração; e encareceu o azedume com que sua alteza, o principe regente»

veria posporem-se negocios do estado ás allianças amorosas de um subdito

que lhe merecera tão relevante prova de real confiança.

Instava, por outra parte, o frade benedictino, e a parentella illustre

do frade, vaticinando ao capitão-tenente um almirantado em poucos annos

de serviço.

Para estes prophetas de glorias ensurdecera Mendonça.

O coração accusava-o de ingrato e vil, se a cabeça se deixava

instantaneamente desvairar com as vanglorias da fama. A imagem chorosa

de Carlota Angela apparecia-lhe como um estimulo de honra, se o fraco

espirito humano inclinava ouvidos aos embaimentos da consideração, do

renome, e dos altos destinos a que o conduzia uma boa estrella.

Mendonça, quando as felicitações de amigos e invejosos pareciam já

galardoal-o das bizarrias previstas, meditava rejeitar não só o novo

posto e a commissão mais valiosa que elle, mas tambem a patente que já

tinha. O tempo urgia, e os aprestos para a saída acceleravam-se com

extraordinaria diligencia. O capitão da real brigada deliberou pedir a

sua baixa, ou, caso lh'a negassem, dar parte de doente. N'este proposito

estava, quando recebeu uma carta de Carlota Angela, datada no convento

de S. Bento da Avè Maria.

Carlota contava-lhe miudamente os successos que a levaram ao convento; o

patrocinio que encontrara em sua tia, as esperanças que esta lhe dava de

docilisar a pertinacia do pae; o contentamento que ella sentia em

esperar no remanso d'aquelle santo asylo o esposo querido; a liberdade

que estava gosando alli de pensar no seu anjo, alli, onde ninguem

tentava desvanecer-lh'o do coração; em resumo, Carlota dizia-lhe que

estava prevenida contra todas as borrascas, assegurando-o de que só

saíria do mosteiro para ser esposa do predilecto da sua alma. Não

ajuntaremos ao conciso extracto da longa carta as meiguices de amorosa

uncção, os enternecidos deliquios da saudade, os azedumes e dulcidão

d'esse agrodoce espinho, que rasga o seio ao mesmo tempo que o balsamo

da esperança allivia a dor, cicatrizando a chaga. Essa carta era o que

devia ser uma carta de Carlota Angela: a alma inteira, no que a alma

n'uma virgem tem de communicativo ao coração estranho, se estranho póde

dizer-se o coração amigo que se sente e escuta dentro do nosso.

Francisco Salter era formado d'este barro humano, contra o qual se tem

vociferado e estampado muita satyra.

A mais suave maledicencia, querendo poupar a natureza humana ás querelas

e libellos da philosophia rixosa, diz que o homem é um mysterio.

A theologia christã, para desencarregar o supremo artifice do desaire da

sua obra, diz que o homem é um ente degenerado da sua primitiva

puridade.

Em boa paz com theologos e philosophos, a mim se me afigura que o homem

é um composto de grandeza e pequenez, uma dualidade de gigante e pygmeu.

Mendonça tinha uma unica macula na sua excellente natureza: era a

imperfeição, era a falha do grande brilhante, que o leitor, de animo

frio e vista clara, vae ver commigo.

Carlota Angela · 第 2 / 11 段