--Pois se elle tem um coração tão bem formado! Esteve mais d

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CARLOTA ANGELA

CARLOTA ANGELA

Romance Original

Por

CAMILLO CASTELLO BRANCO

Terceira Edição

PORTO

Em casa de A. R. da Cruz Coutinho--Editor

Rua dos Caldeireiros, 18 e 20

1874

Typographia do Jornal Do Porto

Rua Ferreira Borges, 31

CARLOTA ANGELA

I

Se a natureza formou uma bella creatura, não póde a fortuna

precipital-a n'um incendio?

Shakspeare. (_Como vós o amaes._)

Cette douce ivresse de l'âme devait être troublée.

Balzac. (_Albert Savarus._)

Norberto de Meirelles e sua mulher D. Rosalia Sampayo, ricos

proprietarios, moradores, em 1806, na rua das Taipas, da cidade do

Porto, viam crescer prodigiosamente os seus cabedaes, e, com elles, uma

filha unica, tão encantadora para os paes como a riqueza com que a iam

enfeitando para seduzir o mais medrado capitalista da terra.

Tolerem-me a singeleza com que se começa a narrativa.

Eu tinha á minha disposição quatro exordios bonitos, que escrevi em

quatro tiras, e rejeitei com desdem.

Era assim o primeiro:

«Diz-me tu, amor, que magos philtros insinuaste no coração da virgem de

olhos negros, que lêda e melancolica, lagrimosa e risonha, te está

enamorando na lua, d'onde lhe sorris em noites calmas de estio, na

floresta, onde lhe cicias palavras nunca ouvidas, na fonte, onde lhe

murmuras a tua linguagem do céo? Que ambrozia inebriante déste á

doudinha que, tão requestada e alheada de brinquedos pueris, se vae, só

e destemida, a buscar-te, por entre myrtos e rosaes, perseguindo-te como

lasciva borboleta de flor em flor, sobre alfombras de verdura, por onde

volitam lucidos phalenos?»

Segundo exordio:

«Á viração da tarde tremulava ligeiramente a folhagem do renque de

alamos que cintavam uma pintoresca vivenda do Candal. Um repuxo de

crystallina limpha trepidava na cascata com soidoso rumor, donosa

musica, ao som da qual se espertam amores em peito virgem, e adormecem

mágoas em coração atribulado. Morbidamente recostada sobre um banco de

cortiça, por onde trepava um jasmineiro em flor, via-se, como engolfada

em alegrias intimas das que o rosto esconde ao invejar de estranhos, uma

graciosissima donzella... etc.»

Terceiro:

«Onde vae este gentil mancebo, tão á pressa e offegante pela calada da

noite, subindo a collina do Candal, em cujo tôpo alveja uma casa, onde

elle parece mandar adiante o coração em cada suspiro que o cansaço lhe

tira do peito arquejante? Que visão alvissima, que fada ou sylpho é esse

que desliza, rapido e volatil, por entre os alamos, e vem ao peitoril do

muro, como a anciada Hero, restaurar o vigor do extenuado Leandro?...

etc.»

Quarto, e ultimo exordio:

«Vou contar-vos uma historia que verifiquei nas fieis narrações de mais

de vinte pessoas vivas. Ides ver até que ponto os paes podem infelicitar

os filhos; até que ponto a missão augusta do segundo creador póde ser

fementida e insidiosa; até que ponto o amor paternal é amor, e d'onde

começa a ser deshumanidade. Se alguma confiança devo ter na justiça

congenial do coração humano, espero carear graça e indulgencia para uma

filha que se rebella primeiro contra um pae, depois contra o falso deus

que lhe impozeram como verdugo de mais alta e temerosa categoria,

arbitro e claviculario das sempiternas moradas do inferno... etc.»

Ahi está o que eu tinha escripto. Tudo rejeitei, contra a opinião de um

congresso de homens de delicado gosto, que votaram por qualquer dos

quatro preludios, chasqueando-me a simpleza com que escrevi o quinto,

acanhado e pêco como historieta sem nervo, nem imaginação.

E, portanto, desde já me desquito com os leitores se no decurso d'este

romance me apodarem de insulso e desimaginoso.

VERDADE, NATURALIDADE, E FIDELIDADE

é a minha divisa, e sel-o-ha emquanto este globo se não reconstruir á

feição do disparate com que uns o alindam e outros o desfeiam.

Quem desde já sentir azias de bôca, deixe isto, e desenfastie-se com as

conservas irritantes da França, e até das nacionaes, que tambem as

temos, curtidas em vasilhas, francezas. Embora travem á hervilhaca, é o

que temos, e o que nos dão os Watteis dos fricassés litterarios, em

menoscabo do classico cozinhado de Domingos Rodrigues.

Atemos o fio, e a graça de Deus nos assista, para que a benevolencia do

leitor se compraza com o alinho desaffectado e lhano d'este conto.

A filha unica de Norberto de Meirelles e D. Rosalia Sampayo chamava-se

Carlota Angela, e tinha dezesete annos, em 1806.

Não era formosa; mas exquisitamente engraçada sim.

Norberto, filho de lavradores transmontanos, era campezino, rustico, e

desageitado; Rosalia, com quanto procedente de progenie já cidadã desde

seu avô, havia muito ainda que desbastar, e quatro gerações não tinham

adelgaçado nada a raça originaria de Covas de Barroso.

Ora, a vergontea de troncos ou cepos taes não podia sair de compleição

tão fina e delicada, como se usa liberalmente com as heroinas dos

romances.

As feições de Carlota eram sêccas e trigueiras; mas a magreza não era de

debilidade ou doença. O ligeiro toque de escarlate nas faces era a

transparencia de sangue rico de toda a seiva dos dezesete annos. Tinha

uma bonita fronte, e abundantes cabellos pretos, que ella enfeitava sem

esmêro, mas com desalinhada graça, conservando-os, até essa idade, em

tres tranças, que um laço de setim encarnado prendia na cintura em duas

roscas. Á custa de importantes admoestações da mãe, Carlota reformou o

penteado, em conformidade com a moda, que era ennastrar trancinhas de

cabellos em dois grandes corações que ladeavam a cabeça, desde o vertice

até ás orelhas, com matiz de lacinhos de varias côres: bonita cousa,

antes da restauração das troixas contemporaneas, restauração, digo,

porque as malas, no cucuruto da cabeça, começavam a decair do gosto em

1806.

O que fazia engraçadissima Carlota eram as espessas sobrancelhas, que

formavam apenas um crescente das duas arcadas ciliares: tão

imperceptivel era a cisura que as estremava na base do nariz. Bem sabem

que olhos costumam ser os que reinam sob tão magnifico docel: grandes, e

negros, entre longas pestanas que, ao mais ligeiro languir das

palpebras, se ajustavam n'um amortecer de tanta volupia, que mais não

podia ser, sem feitiçaria!

Ainda não sei descrever narizes, e por narizes comecei a pintar. O de

Carlota era irregular, talvez, ao contrario dos narizes de passaporte:

era um nariz adunco, longo de mais para aquelle rosto; mas esta

incongruencia, impressionando aos que a viam pela primeira vez, á

segunda, não havia que desdenhar-lhe. Singular e desusada era a bôca.

Cada commissura ou canto dos labios terminava em dois vincos, um

subindo, outro descendo, mas tão pronunciados, que pareciam um

permanente riso sardonico, um não sei quê que fazia desconfiar as

pessoas menos habituadas á sua convivencia.

Carlota era alta e gentil. Não se affectava para ser garbosa, que lhe

sobejava graça e donaire nos naturaes meneios. O braço era incorrecto,

fornido de mais em carnes, e de pelle trigueira; a mão longa e magra; e

o pé proporcional á corpulenta haste.

Já agora, diga-se o porquê do cuidadoso recato em que a filha do snr.

Norberto de Meirelles tinha os braços; não era a grossura do pulso, nem

a pujança carnosa do ante-braço; era uma espessa camada de buço,

lanugem, ou cabello, que a frenetica menina cerceava desde os quatorze

annos, á tesoura, porque as amigas e parentas a aperreavam, chamando-lhe

«pelluda».

Basta de materia: fica-se sabendo que não se trata de uma mulher

formosa; deram-se, porém, os traços principaes de Carlota, e são esses

os que, na maioria dos casos, fascinam, apaixonam e enlouquecem o homem

de trinta annos, gasto de queimar incenso ás bellezas correctas, a cuja

desanimação de commum accordo se chama «lindeza».

Vejamol-a espiritualmente.

Carlota Angela foi creada com descuidado mimo. Seus paes reviam-se

n'ella, desculpavam-lhe todas as perrices, e fariam-a incorregivel, se a

natureza se não corregisse a si propria.

Aos quinze annos, a folgazã menina mudou para triste; de garrula e

traquina que era, fez-se taciturna e indolente. Maneiras de senhora,

conversações com pessoas de idade, onde estavam moças; entremetter-se em

cousas domesticas, a que a não chamavam; desligar-se das companheiras do

collegio, desdenhando a frivolidade de seus passatempos: tal foi a

reforma repentina de Carlota Angela.

Alegravam-se-os paes, felicitando-se por a não terem contrariado em

pequena, contra as admoestações dos parentes, entre os quaes havia um

tio materno, de cuja calva ella mudava o chinó para a cabeça de um gato

maltez, ou em cujos oculos ella bafejava para lh'os embaciar. Esta

victima, no auge da sua angustia prognosticara aos paes de Carlota

grandes dissabores, consequencias funestas da liberdade que davam á

condição ferina da moça.

Depois da mudança inesperada, Norberto e Rosalia, todos os dias, diziam

ao homem dos oculos:

--Vê como se enganou? Ahi a tem agora mais ajuizada e mansa que as

meninas creadas debaixo da disciplina e da palmatoria...

--Veremos...--redarguiu o velho advogado--veremos quando ella tiver uma

vontade opposta á vossa qual das duas é a que vence.

--Vontade opposta á nossa!--replicava Norberto--Isso havia de ter que

ver! Como acha o mano que ella se possa oppor á nossa vontade?

--Facilmente; e para não ir mais longe, ides vós ter uma occasião de a

experimentar.

--Qual?--atalharam ambos.

--Eu vos digo; mas, se Carlota entrar emquanto eu fallo d'ella, fica

para ámanhã o que hoje vos não disser.

--Carlota está no seu quarto a ler, e não vem cá tão cêdo--disse

Rosalia.--Podes fallar á vontade, Joaquim.

--Quando me notastes a mudança rapida de Carlota, fiquei mais admirado

que vós. Entrei a scismar até que ponto se podia aceitar a naturalidade

da transfiguração moral, e vim a suspeitar que a causa estava na

natureza, mas fóra da natureza de Carlota. Ora, eu sei mais do mundo que

vós, haveis de conceder-me isto, e vós tendes mais boa fé que eu: fica

uma cousa pela outra, e acho que a vossa é bem mais agradavel á vida que

a minha.

Sabeis o que me lembrou? Se Carlota estaria namorada.

--Olha que lembrança!--atalhou D. Rosalia.

--Essa é das suas, doutor!--disse Norberto--Está a sonhar... deixe-se

d'isso.

--Seria sonho;--disse o doutor severamente--mas já ágora deixem-me

contar o sonho até ao fim, e guardem para o remate as admirações. N'esta

suspeita, comecei a limpar os oculos para examinar as caras masculinas

que entravam aqui, e não achei alguma duvidosa. As vossas relações são

pouquissimas, e n'essas não ha alguem que possa despertar no coração de

Carlota um sentimento novo. Continuei as minhas averiguações fóra de

casa. Fui ás poucas casas onde vós ieis; segui todos os olhares de

Carlota, e achei-os sempre indistinctos e indifferentes. Descorçoei um

pouco; mas não desisti.

Um dia do anno passado, estavamos nós no Candal, e passeiava eu e ella

sósinhos na estrada. Dizia-me a pequena que tinha lido umas novellas de

cavallarias, de que gostara muito, posto que não acreditasse nas

historias. Contou-me algumas passagens de _Paulo e Virginia_ e de

_Menandro e Laurentina ou os amantes extremosos_, que vós não sabeis o

que é, mas lembrados estareis de me perguntardes se eram livros de boa

moral. Notei que a moça, quando me fallava no amor das damas e

cavalleiros, empregava mais vivacidade do que convinha a uma menina

innocente de sentimentos amorosos. Fiz-lhe algumas perguntas com

intenção de a surprender; mas ella jogava commigo tão habilmente, que

venceria a partida, se eu não tivesse cincoenta e cinco annos, e não

tirasse da habil escapula o mesmo que tiraria, se ella se deixase

apanhar.

N'outro dia estavamos nós sentados no mirante, conversando em cousas que

me não lembram, e vimos apparecer no alto da estrada um cavalleiro.

Olhei casualmente para Carlota, e vi-a córada, e inquieta. Disfarcei o

reparo, e vi-a erguer-se e voltar as costas para o cavalleiro, dando

alguns passos com certo ar de indifferença, e tornou logo, girando entre

os dedos uma flor que cortara.

O cavalleiro passou e cortejou-me: era meu conhecido. Esperei que ella

me perguntasse quem era; nem uma palavra. Perguntei se o conhecia,

ergueu os hombros, e fez com os beiços um gesto, que parecia dizer: «não

sei, nem me importa saber».

N'outro dia, fui eu ao Candal, e no alto das Regadas ouvi tropel de

cavallo, que me seguia, subindo a calçada. Escondi-me na esquina de uma

travessa, e vi passar o cavalleiro: era o mesmo da cortezia. Fui-o

seguindo de longe; e, ao chegar á collina d'onde se avista o mirante,

vi, primeiro, Carlota debruçada sobre o parapeito da varanda, e, depois,

o cavalleiro parado debaixo do mirante.

--Credo!--exclamou D. Rosalia, erguendo-se branca como cêra.

--E esteve até agora calado com isso!--disse Norberto, erguendo-se

tambem.

--Nada de espantos!--respondeu o bacharel, sem se descompor na cadeira,

onde se refestellava, fallando com a sua costumada solemnidade

oratoria.--Logo se diz quem é o homem; mas ha de aqui fazer-se o que eu

aconselhar, senão desconfio muito que minha irmã experimente mais cêdo

do que espera a vontade de Carlota.

Escondi-me alguns segundos, e appareci no momento em que vossa filha

entregava um ramo ao cavalleiro.

Ella deu fé de mim, e sumiu-se; e elle seguiu a estrada, depois que me

viu. Carlota recebeu-me com a certeza de que eu era sufficientemente

cego para a não ter visto: não deu o menor indicio de susto. Convidei-a,

como sempre, a passeiar no jardim, e disse-lhe: «Quando houver alguma

novidade na tua vida, has de contar-m'a, menina. Se ella te parecer tão

agradavel, que a queiras só para ti, não cuides que lhe diminues o

valor, dizendo-m'a. O coração de teu tio ha de sentir o bem do que for

bom para o teu. Ora, conversemos: diz-me lá, Carlota, se sentes alguma

inclinação que não sentias ha um anno, quando os meus oculos e o meu

chinó eram o teu regalo.

--Eu não, meu tio... sinto o que sentia--respondeu ella; mas a

innocencia protestou contra a mentira, mostrando-se no rosto: córou e

gaguejou de um modo que me fez pena e contentamento. Quando assim se

córa, o coração está puro.

Para acudir á vossa impaciencia, dir-vos-hei, em resumo, que obriguei

suavemente Carlota a confessar-me que amava Francisco Salter de

Mendonça.

Já sabeis quem é.

--Eu não!--disse D. Rosalia. E voltando-se para o marido:--E tu?

--Conheço de vista,--respondeu Norberto--é um militar, creio eu...

--Francisco Salter de Mendonça--continuou o doutor Joaquim Antonio de

Sampayo, sorvendo uma pitada pela venta direita, e comprimindo a outra

com o dedo indicador da mão esquerda--é um tenente da brigada real de

marinha, é natural de Lisboa, e está aqui ha dois annos a bordo do

brigue _Audaz_. É um moço que vive do seu soldo, e está por ahi

relacionado com os rapazes nobres da cidade. É o que posso informar

ácerca de Mendonça.

Agora vou responder á pergunta de Norberto. Admirou-se de eu estar

calado com isto? Calei-me, porque receiava muito que alguma imprudencia

vossa irritasse o amor de Carlota. Calei-me, esperando que Mendonça

fosse chamado a Lisboa, e nos deixasse o campo livre para

despersuadirmos Carlota. Ainda assim, fiz tenção de vos avisar, logo que

julgasse necessario empregar medidas promptas. Eu sei que o rapaz

tenciona vir pedir-vos Carlota, e sei tambem que em poder de um meu

collega está um requerimento d'ella para ser tirada por justiça no caso

de que negueis o vosso consentimento.

--Santo nome de Deus! valha-me nossa Senhora!--exclamou, com as mãos na

cabeça, D. Rosalia, emquanto seu marido resfolegava arquejante,

passeiando acceleradamente na sala.

--Não comecem a fazer doudices!--tornou o doutor--Se gritam, se põem

fogo de mais ao pucaro, entorna-se tudo. Aqui ha de fazer-se o que eu

disser; mas mudemos de conversa, que ahi vem Carlota.

II

Os tigres são menos sanhudos contra o homem que o proprio homem.

Phocion. (_Instrucção a Aristias._)

Les parents en effet ont cela de admirable, et je parle des

meilleurs, que vous ne pourrez jamais, ni par plainte, ni par

raison, leur faire comprendre qu'il vient un moment où l'oiseau

essaie ses ailes et quitte son nid; qu'ils n'ont d'autre mission

que de faire et d'elever leur petits jusqu'á l'âge où ils quittent

le nid.

Alphonse Karr. (_Sous les Tilleuls._)

Quaes fossem os conselhos do ornamento dos auditorios portuenses,

teremos occasião de avalial-o opportunamente.

Oito dias depois de planisada a conspiração contra os amores reservados

de Carlota Angela, foi procurado Norberto de Meirelles pelo tenente de

marinha.

Francisco Salter de Mendonça era um rapaz da boa sociedade de Lisboa, um

dos mais distinctos alumnos do collegio de marinha, reformado pelo

intelligente ministro Martinho de Mello e Castro. Tinha dotes corporaes

que o distinguiam, e virtudes que os seus amigos avaliavam como raras.

Amava com verdade Carlota Angela, posto que, no principio, o ser ella

filha unica de um abastado commerciante encarecesse mais o galanteio.

Sentiu, depois, que o seu amor se purgara da ignominia do calculo, até

preferir que fosse pobre Carlota, para que, pobre, se igualasse a elle.

Longo tempo a cortejara sem revelar-lhe as intenções honestas do namoro,

esperando que fosse ella a que o auctorisasse a pedil-a a seus paes.

Certeza tinha elle de que lh'a negavam, porque então, como hoje, um

noivo era pesado na balança do negociante rico, e o contrapeso do

coração não fazia oscillar o fiel. Pedil-a sem predispor o auxilio da

lei invocado por Carlota, nunca Mendonça quizera até ao momento em que

ella prometteu fugir de casa, se seu pae não consentisse.

Traçado o plano, Mendonça, como dissemos, procurou Norberto de

Meirelles, e foi urbanamente recebido. Disse o motivo da sua visita, e

não divisou na physionomia do ricasso o menor signal de espanto, nem

sequer surpreza. Acabou de fallar, e ouviu, com estranho jubilo, a

seguinte resposta:

--Se minha filha é contente com o marido que se lhe offerece, eu não me

opponho a que ella seja sua esposa. Ella que o ama, é que v. s.ª é

digno d'ella.

--Espero--atalhou Mendonça--merecer a v. s.ª o conceito que mereci á

snr.ª D. Carlota.

Norberto não soube responder convenientemente a isto, porque dissera

parte do que o doutor lhe ensinara nas poucas palavras com que embriagou

o radioso genro, e, receioso de que lhe esquecesse o resto, continuou:

--Fique v. s.ª na certeza de que a vontade de minha filha é a minha;

tenho, porém, a pedir-lhe um favor que v. s.ª não recusará ao pae de

Carlota.

--Oh! senhor! que me pedirá v. s.ª, que eu não receba como ordens da

pessoa que prézo desde já como pae?!

--Minha filha faz annos de hoje a um mez, e eu muito desejava que ella

festejasse na minha companhia os seus dezesete annos, ainda solteira.

--Pois não, snr. Meirelles! Exija v. s.ª de mim todos os sacrificios

que se podem humanamente fazer, que eu nunca pagarei o regosijo d'este

momento decisivo para a felicidade de toda a minha vida.

--E v. s.ª--proseguiu o fiel repetidor do bacharel, contentissimo de

não ter trocado uma só palavra, apesar das interrupções do

interlocutor--poderá, se assim lhe aprouver, honrar com a sua presença

os annos de Carlota, que se festejam, ha dezeseis annos, na minha quinta

do Candal.

Esgotara-se o peculio. Norberto fez menção de erguer-se. Salter notou a

grosseria; mas desculpou-a ao pae de Carlota. Retirou-se acompanhado até

ao pateo, honra que tres vezes recusara, mas, á quarta, o negociante

disse que ia para o escriptorio _tratar da labutação dos arrozes que

estavam á descarga_. Isto é que era legitimamente d'elle.

Carlota, emquanto a visita esteve, não obstante o grande espaço que a

distanciava da sala, apurava o ouvido na extrema de um corredor por onde

poderia embuzinar a voz do pae, se elle a engrossasse, como costumava,

nos agastamentos.

Ouvindo rumor de passos na saída, correu ao seu quarto, e sentiu-se

desanimada para receber a visita colerica do pae. Até então dera-lhe o

amor afouteza para responder ás iras paternaes; e a risonha esperança de

permanecer poucas horas em casa, depois da expulsão de Mendonça,

afigurava-se-lhe agora uma tenção criminosa. Era o mêdo que a

transtornava assim; logo, porém, que o sobresalto se desvanecesse, viria

a reacção do amor restituir-lhe o vigor de um proposito, cuja firmeza as

ameaças do pae não abalariam.

Pouco depois, Carlota foi chamada ao quarto da mãe, e achou-a

prazenteira e jovial. O pae entrou após ella, e fingiu o mais lhano e

caricioso semblante. Carlota estava espantada, e não podia crer o que

via.

--Diz-me cá, menina,--disse Norberto--já sabes... ora se sabes!...

--O que, papá?

--Faz-te tolinha, minha serigaita! Arranjaste um marido, sem dizer agua

vae, assim do pé p'ra mão como quem se casa por sua conta e risco...

Carlota baixou os olhos com humildade. Norberto perdeu um pouco do seu

caracter artificial, e proseguiu:

--Ora, sempre tenho uma filha como se quer! Posso-me gabar!... Nem eu

nem tua mãe valemos nada, Carlota! Vê-se um troca-tintas, e não ha mais

que dizer-lhe: Se quer casar commigo, estou aqui ás suas ordens; vá

pedir-me a meu pae, e diga-lhe que me dê o dote que elle me ganhou a

trabalhar trinta annos. Isso é bonito, Carlota?

D. Rosalia pizara rijamente o pé do marido, e conseguira recordar-lhe a

traça combinada com o doutor. Carlota começava a sentir a reacção, ia

erguendo a cabeça abatida para repellir a grosseira invectiva do pae,

quando este, com velhaca subtileza, mudou para brando aspecto a severa

carranca, e proseguiu:

--Emfim, quem casa és tu; o mal e o bem para ti o fazes. Se queres casar

com esse rapaz, casa. Eu disse-lhe o que um bom pae deve dizer.

Consenti, com tanto que a vontade de minha filha seja essa. Que dizes a

isto, Carlota? Estás decidida a casar com o tal snr. Mendonça?

--Visto que meu pae não se oppõe á minha vontade...

--E, se eu não quizesse, casavas do mesmo modo?... Diz lá!

--Se o pae não quizesse, eu havia de pedir-lhe tanto que me deixasse ser

feliz, que o meu bom pae... consentiria...

--Lá isso é verdade...--replicou o negociante, obedecendo á terceira

pizadella da irmã do bacharel--eu o que quero é a tua felicidade... Bem

sabes que sou teu amigo como ninguem, ainda que te pareça que lá o teu

namorado te quer mais que eu... É boa asneira a das raparigas, que

trocam pae e mãe pelo primeiro perna-fina que lhe empisca o olho ao

dote!... (_Quarta pizadella de Rosalia, e mutação de cara e diapasão de

voz em Norberto._) Está dito! Casarás com o homem; mas já agora hão-se

de festejar os teus dezesete annos em casa. Eu já lhe disse a elle que

esperasse um mez, e depois arranja-se isso, e está acabado o negocio. O

rapaz, pelos modos, é pobre; mas o teu dote, se Deus quizer, chegará

para tudo. Estás contente, Carlota?

--Oh meu querido pae!--exclamou ella, beijando-lhe afervoradamente a

mão--eu sabia que era muito meu amigo; mas não esperava tanto da sua boa

alma. Fui má filha em ter guardado este segredo; perdôem-me, por quem

são; é que eu tremia só da ideia de os desgostar, não podendo suffocar o

amor que lhe tenho... a elle...

--Não chores, Carlota, que não tens por que chorar...--disse D. Rosalia.

--Eu choro de contentamento, minha mãe, por ver que a minha ventura é

possivel sem desgostar meus paes... Sou a mulher mais feliz da terra.

Queria que toda a gente soubesse agora os bons paes que o Senhor me deu.

Tomara eu ver o tio Joaquim para o despersuadir de um mau juizo que elle

fazia do meu querido pae, quando, faz agora um anno, me disse que eu não

alcançaria o seu consentimento para casar com Francisco de Mendonça; e

tambem queria abraçal-o, porque respeitou a minha paixão, e nunca mais

me contradisse.

A alegria dava a Carlota uma ousadia enthusiastica, que espantava

Norberto, e tinha semi-aberta a bôca de Rosalia.

--Se a minha mãe conhecesse a nobre alma d'elle!--proseguiu ella--havia

de amal-o tambem.

--Eu?... ora essa! tu és maluca!--atalhou Rosalia, comprehendendo á

lettra a palavra _amal-o_.

--_Maluca!_ porque, minha mãe?

--Pois tu disseste ahi que eu havia de amar o tal homem!

--Pois se elle tem um coração tão bem formado! Esteve mais de um anno

sem me dizer que queria ser meu esposo, para que eu não pensasse que

elle namorava a minha riqueza. Foi preciso dizer-lhe eu que a minha

maior ambição n'este mundo era fazel-o senhor do meu coração para toda a

vida. Quando eu disse isto, até chorava de alegria elle!...

--Está bom, está bom, estamos decididos--disse Norberto, receiando que

os diques da ira se esboroassem.--Logo que o tio doutor venha de Lisboa

trata-se d'isto. Ámanhã vamos para o Candal. Lá é escusado andar com

fallatorios do mirante para a estrada. Cá não se usa as noivas andarem a

namoriscar á surdina. Já se sabe que elle ha de ser teu marido; o tio

doutor quando vier, ha de convidal-o para nossa casa, e então

conversarão á sua vontade.

Norberto saíu com as faces incendiadas, como se a raiva abafada

respirasse por ellas. D. Rosalia, porém, menos firme no fingimento,

apenas o marido saiu, começou a pingar dos olhos umas lagrimas baças e

granulosas como camarinhas.

Carlota acudiu a enxugar-lh'as com meiguice, consolando-a com a

esperança de viverem sempre juntos, como até então. Rosalia, se a boa fé

nos não engana, chorava com pena da filha, por ver que todo aquelle

contentamento se havia de mudar em amargura, se não falhasse o

estratagema do doutor.

Deixal-a chorar, que o seio de Carlota parece alargar-se ao pulsar

vehemente do coração. Essa immensa alegria, que lhe deram, leal ou

traiçoeira, ha de produzir a bemaventurança ou o inferno d'aquella

familia.

Carlota tem a alma briosa e amante de mais para transigir com a

perfidia.

A obediencia filial, mascara de corrupção com que algumas donzellas se

disfarçam para abjurarem sem pejo ligações _inconvenientes_, é uma

«virtude» dos nossos dias, importada... da America. Em 1806 não havia

d'isso cá.

III

Tu me matas, meu pae! Quem tal pensara?

Eu beijo a mão que o golpe me prepara.

Marqueza de Alorna.

A traça do bacharel Joaquim Antonio de Sampayo era afastar Mendonça de

Portugal, repentinamente.

Aconselhara elle a mentira, para evitar o escandalo de um rapto, ou a

saida judiciaria de Carlota.

Ausentar Mendonça para alguma das colonias, ou para os estados

barbarescos, sob pretexto de guerra á pirataria, que infestava então o

Mediterraneo; e prolongar essa ausencia até dissuadir Carlota,

cortando-lhe os meios de se escreverem, era a trapaça do habil

jurisconsulto. Norberto, pasmado de tamanho ardil, fez tão estremado

conceito do doutor que, no expandir-se da sua admiração, exclamou:

--Ó cunhado! vossê é homem de todos os diabos! Quem sabe, sabe!

--Mas, Norberto,--disse o doutor--sabe que sem dinheiro nada se faz?

--Saque o que quizer, cunhado!

--Eu tenho talvez de comprar muito caro o pretexto para a saída de

Mendonça. Não sei se me verei a braços com os protectores e parentes

d'elle na côrte, e as nossas armas são o dinheiro.

--Pois é dizer o que quer. O doutor leva ordem franca; não poupe

dinheiro, e ponha-me o homem fóra da nação.

Assim armado com o invencivel dinheiro, o tio de Carlota Angela chegou a

Lisboa, em fins de 1806, levando cartas de apresentação para o ministro

da marinha, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, para D. Catharina Balsemão, e

para o intendente geral da policia, Diogo Ignacio de Pina Manique.

A materia que então mais se discutia era a demencia do principe regente,

causada por soffrimentos dos que tornam ridiculo um marido, ainda que o

motivo seja mais para compaixão que riso. Fallava-se na morte violenta

de José Anastacio, em Mafra, empeçonhado por ter sido o espia e delator

da conspiração urdida contra o principe, em Arroios, n'uma casa da

condessa de Alorna, que emigrara para Inglaterra, descoberta a

conjuração. Os rumores surdos contra os pedreiros-livres indicavam os

individuos suspeitos, mórmente depois que o escriptor publico Hippolyto

da Costa fugira dos carceres da inquisição, que lhe foram abertos pelo

braço poderoso da maçonaria. Hippolyto, auctor, depois, do _Correio

Braziliense_, devia a liberdade á embriaguez dos guardas e á astucia

d'elle; convinha, porém, ao governo simular-se assustado do poder da

maçonaria para encruar contra os suspeitos a sanha da plebe. É, porém,

certo que a maçonaria, em Portugal, entrara em 1797, com os emigrados

francezes, e podera a muito custo implantar-se n'uma pequena sociedade

ou loja denominada _Fortaleza_, quasi desconhecida e despercebida até

1806. Só depois que o ministro do reino entregou á inquisição um

pedreiro-livre, e o impio fugiu do carcere do Rocio, levando nos canos

das botas os «Regimentos da Inquisição» reformados pelo marquez de

Pombal, dos quaes publicou, em ar de zombaria, curiosos extractos no

jornal que, depois, redigiu em Londres--só depois desses nescios mêdos e

estupidas perseguições do governo, sempre providenciaes para acordar os

povos do lethargo, é que a sociedade maçonica em Portugal se radicou,

floresceu, e deu fructos bons e maus. (Os de hoje apodrecem todos antes

de madurar.)

A questão dos pedreiros-livres revirou os projectos do bacharel

portuense. Nova ideia lhe acudiu, quando principiava a mortifical-o o

receio de não poder supplantar um frade benedictino bem aparentado, que

se dizia ser pae de Francisco Salter de Mendonça. Essa ideia era

denunciar o tenente de marinha como encarregado de fundar no Porto uma

loja maçonica, para o que tratava de intimidade com Jeronymo José

Rodrigues, arcediago de Barroso, o primeiro liberal que teve a cidade

eterna, antes de pregoar-se a liberdade em Portugal.

Francisco Salter de Mendonça conhecia o arcediago, era sua visita,

sympathisava com as suas doutrinas politicas, e deixara-se eivar do

espirito de vaga novidade que os principios de liberalismo balbuciavam

ainda então confusamente. Não era, todavia, pedreiro-livre, porque

venerava o frade que o adiantara na carreira das armas, e queria cumprir

o juramento que fizera, nas mãos do monge, de jámais se associar á seita

dos inimigos de Deus, com quanto conhecesse a inepcia dos pharisaicos

amigos do altar.

O tio de Carlota apresentou-se a D. Catharina de Balsemão, ouviu-lhe

dois sonetos, applaudiu-lh'os até chorar de terno enthusiasmo, e disse,

depois, o fim a que ia. Pintou com negras côres o roer profundo do

cancro da maçonaria no seio da sociedade; lastimou a inevitavel quéda

dos fóros e prerogativas da classe nobre, se a média se incorporasse

para desarreigar a arvore de seculos; disse que a maçonaria fizera

Silla, e Robespierre, e Bonaparte; ajuntou outras muitas tolices em

linguagem garrafal, até incendiar a combustivel D. Catharina, que logo

alli lhe deu carta de mui especial recommendação para Manique.

O intendente ouviu com attenção e mêdo o bacharel. Soube que Francisco

Salter de Mendonça, mancommunado com o arcediago de Barroso e outros,

tratava de fundar uma loja maçonica no Porto, convencendo os timidos

«com a sua eloquencia revolucionaria, e promettendo aos illusos a

restauração dos direitos dos povos, victimados que fossem os reis e os

grandes. Acrescentava o bacharel que Salter de Mendonça traduzia e

espalhava os escriptos mais incendiarios dos revolucionarios francezes

em 1791, e propalava que Portugal não podia ser feliz sem mandar um rei

de companhia a Luiz XVI.

Manique estava tranzido! O orador, electrisado com o pasmo do ouvinte,

entrara na sua hora feliz. As imagens mais ensanguentadas, as metaphoras

mais patibulares, os tropos mais coriscantes acudiam-lhe com trovejante

iracundia. Digna de melhor destino, a furia oratoria do lettrado do

Porto conseguira mais que o desejado. Manique susteve-lhe a torrente,

promettendo providencias promptas, e acabou por lhe pedir que ficasse na

intendencia exercendo o logar do ajudante, assassinado em Mafra, José

Anastacio.

Aqui é que o bacharel se achou superior a si mesmo, e deu um mental

adeus ao safado tostão dos conselhos, que raros clientes lhe levavam, no

Porto, ao seu obscuro escriptorio da rua de Santa Catharina.

Confiado na sua estrella, o nomeado ajudante do intendente geral da

policia perguntou ao chefe o que tencionava s. exc.ª fazer a Francisco

Salter. Manique respondeu que o faria conduzir preso a Lisboa, e do

Limoeiro passaria para a inquisição.

--Se v. exc.ª me permitte uma reflexão...--disse o bacharel.

--Diga lá, que eu respeito muito o seu parecer.

--Com o devido respeito e humildade que se deve aos atilados juizos de

v. exc.ª, peço licença para observar que convem obrar com mansidão e

parcimonia, para impedir que uma seita perseguida faça proselytos. Eu

vou, com o maior respeito, lembrar a v. exc.ª trinta e tantos casos da

historia, dos quaes se vê quão imprudente e perigoso é empregar o

cauterio á borbulha que muitas vezes resolve sem medicamento, e quasi

sempre lavra quando a fazem sangrar. Começarei primeiro pela seita

lutherana, a qual seita lutherana...

--Tem a bondade de não exemplificar...--atalhou o intendente, que

detestava cordialmente as novidades tanto em politica como em

historia--Que entende o senhor que se deve fazer? Desprezar? Deixar

rebentar o volcão? Então de que me servem as tristes novas que me

trouxe?!

--Desprezar, não, exc.mo snr.! Que faz o habil agricultor ao galho

sêcco da sua arvore? Corta-o, separa-o das vergonteas vivazes, mas não o

lança á estrada, para que o passageiro o leve como cousa sem dono, nem o

desfaz com o machado como objecto sem utilidade. Leva-o para casa,

lança-o na lareira, e aquece-se a elle. Façamos a applicação: Francisco

Salter é o membro contaminado e damninho: cumpre decepal-o, para que não

empeçonhe os outros; cumpre aproveital-o, a fim de que os inimigos da

ordem se não aproveitem d'elle; cumpre empregal-o em serviço da patria;

mas seja onde as suas tendencias revolucionarias não catechisem

incautos. Mendonça é tenente; promova-se a capitão, e (permitta-me v.

exc.ª o arrojo de dar o meu parecer com a franqueza propria de um

portuguez, homem de bem) seja sem perda de tempo enviado como

commandante do primeiro vaso que sair para o Brazil, dispondo de modo a

sua expedição, que elle só volte á metrópole passados annos. Esta é a

minha humilde opinião.

O bacharel concluiu, dobrando o pescoço até bater com a barba no peito.

Manique redarguiu debilmente em opposição aos principios fabianos do

bacharel. Sampayo replicou, pedindo sempre mil perdões da audacia, e

alfim superou o chefe, fortalecendo-se com a difficuldade de provar a

denuncia, visto que as testimunhas presenciaes das arengas

revolucionarias de Mendonça não jurariam contra elle.

N'esse dia expediu-se ordem para recolher a Lisboa o tenente da corveta

_Audaz_, Francisco Salter de Mendonça, no praso de oito dias.

Aprestou-se um brigue, que devia, dois dias depois da chegada do

official, fazer-se á vela para o Rio de Janeiro, capitaneado por Salter,

promovido a capitão.

O ajudante do intendente geral da policia, escrevendo a seu cunhado

Norberto de Meirelles, dizia:

«_Tenho luctado com enormes difficuldades. Saquei seis mil cruzados, e

venci as primeiras; as outras hão de vencer-se... etc._»

D'onde se infere que o agente de Norberto de Meirelles estimara em seis

mil cruzados as duas arripiadas arengas á celebre poetiza e ao

intendente geral da policia.

IV

_Salada_

¡Ai! ¡no me dejes nunca!

_Aden_

¿Yo dejarte?

¿Y para qué, y porque?! tu mi querida!

¿Ni como, aunc quisiera abandonarte

Juntos tu y yo lanzados en la vida?

Espronceda. (_El diablo mundo._)

Fazia tristeza e saudade a formosa lua de uma noite de agosto n'aquelles

olorosos jardins do Candal.

Era meia noite, e a viração do mar bafejava mansamente as copas dos

arvoredos, que circuitavam a sombria casa de Norberto de Meirelles, o

qual, a essa hora, resonava mais alto que todos os sêres vivos da

natureza em roda.

De mansinho rodou a porta que abria para o jardim. Um vulto deslizou por

entre os myrtos e japoneiras, até ganhar o mirante erguido n'um angulo

do jardim.

--Esperaste muito?--disse ella a Francisco Salter, que lhe saira de sob

a ramagem sombria dos chorões debruçados no muro--Tem paciencia, meu

amigo. Minha mãe deitou-se ha meia hora; não sei que ar de inquieta

alegria ella tinha hoje, que lhe não chegava o somno...

--Seria tão viva a alegria d'ella, como é viva a amargura que me não

deixara dormir a mim?

--Amargura! Que tens, Francisco?

--Não te fallou por mim o meu bilhete d'esta tarde?

--O teu bilhete?... não... Dizias-me que era indispensavel fallares-me

hoje... Não traduzi amargura n'isto... Cuidei que era uma saudade feliz

e serena como a minha...

--Oh! não, minha querida, é uma saudade que me despedaça... é a saudade

que...

--Como?! que linguagem é essa, Francisco! Não me tens agora aqui?! não

sou eu tua para sempre?!

--Sei que serás, Carlota, sei... mas eu preciso que chores commigo para

me ser menos amarga a minha dor... É forçoso que nos separemos por

alguns dias... mezes... annos...

--Jesus! que nos separemos?! Onde vaes tu?

--Sou chamado immediatamente a Lisboa.

--A Lisboa!... para que és tu chamado a Lisboa, Francisco?

--Não sei... é uma ordem terminante do ministro.

--Oh meu Deus!... que lembrança terrivel!--exclamou com vehemencia

Carlota--É impossivel! é impossivel!

--Impossivel o que?

--Nem te quero dizer a horrivel ideia que tive agora...

--Diz, Carlota... vejamos se se encontram duas ideias horriveis.

--Pois tambem suspeitas?... que te lembra, meu amigo?... diz, diz, se

tambem julgas possivel...

--Tambem suspeito que a ida de teu tio a Lisboa...

--Sim, sim, é isso que me lembrou; mas não creias, porque meu tio é um

bom homem. Ha muito que elle dizia que iria a Lisboa requerer um

emprego. É ao que foi; mas... é verdade que...

--Não receies atormentar-me, Carlota; diz tudo que te faz desconfiar...

--É que hoje recebeu-se carta de meu tio, conheci a lettra do

sobrescripto, quiz abril-a innocentemente, e meu pae tirou-me a carta da

mão com grande sobresalto, dizendo que não era boa creação ler as cartas

de outro. Eu disse-lhe que era uma curiosidade filha do desejo de saber

como meu tio passava; e o pae voltou-me as costas, e eu bem vi que elle

estava muito inquieto... mas...

--Duvidas ainda, Carlota, que teu tio foi agenciar a minha saida do

Porto! Duvidas que não foi traiçoeiro o consentimento de teu pae, sem ao

menos me perguntar que familia ou haveres são os meus?

--Isso é horrivel, meu amigo! não me convenças d'essa traição, que me

matas! Elles não podem separar-nos, não! O que a morte póde fazer não o

farão elles. Juro-t'o pela minha alma e por tudo quanto ha sagrado...

--Não jures, Carlota; eu sei o que és para mim; vale mais essa tua

afflicção, que todos os juramentos. Por quem és, não chores assim, meu

querido anjo. Aqui o terrivel mal que nos ameaça é a saudade, a

incerteza não. Se a nossa ventura vier mais tarde do que esperavamos,

resignemo-nos, vençamos a desgraça com a esperança. Teu pae porque será

contra mim? porque eu sou pobre? pois bem, Carlota, irás pobre para a

companhia de teu marido. O meu pão chega para ti, e bastará para mim a

felicidade de t'o alcançar á custa de honrado trabalho. Não aceitaremos

uma moeda de cobre dos cofres de teu pae... Bem basta que esse dinheiro

tenha sido o nosso algoz para o não querermos comnosco. Pobre é que eu

te quero, e, se teu pae me não diz tão depressa que eras minha, ouviria

da minha bôca uma renuncia formal do teu grande dote... Coragem, minha

amiga. Eu vou a Lisboa, conheço logo a causa da minha chamada, desfaço

as intrigas, se ellas lá me esperam, empenho em nosso favor amigos e

parentes, que tenho alguns valiosos ao pé dos ministros. Voltarei para

convencer teu pae de que eu reputei verdadeira a sua palavra, e me

envergonhei por elle, suppondo necessario chamar a lei em nossa ajuda.

Entrarei em tua casa, e dir-te-hei: Vem ser minha esposa! E tu sairás,

pois não, minha Carlota?

--Sim, sim, sairei; e por que não ha de ser já?!

--Já?!

--Sim, leva-me comtigo; não me deixes entregue a esta gente que me quer

matar. Coméço a odial-os, e não poderei mais vel-os sem rancor. Leva-me,

Francisco... Aceita-me assim pobre, e verás que te levo a maior riqueza

d'este mundo, um coração onde eu tenho o segredo de fazer a nossa

felicidade na pobreza. Não me respondes?

--Queria responder-te de joelhos, Carlota! Tu és um anjo, és um bem que

eu não mereço a Deus, e receio desagradar-lhe se faço soffrer teus paes,

que, de certo, te devem amar muito, e cuidam que te fazem bem,

separando-te de mim. Eu se fosse pae, e pae de uma filha assim,

dal-a-hia ao primeiro que m'a viesse pedir, sem me mostrar virtudes

dignas d'ella? Não diria a esse homem perfidamente que sim, para depois

praticar a villania de o afastar, matando-lhe o coração a punhaladas

traiçoeiras... não mostraria ao amante de minha filha o céo, para depois

o despenhar no inferno; mas... custar-me-hia muito a dizer-lhe: Ahi te

dou o thesouro que tive no coração dezesete annos, que guardei para me

dar alegria nas amarguras da velhice... leva-o, e deixa-me só com a

minha saudade irremediavel!... Não, Carlota, é cêdo ainda para dares a

teus paes esse desgosto. O teu amor ensina-me a ser nobre. Ha um amor

que faz tyrannos e crueis; mas esse amor não é o meu. Sou generoso para

todo o mundo, e para os teus mais que para outrem. Ninguem dirá que

calculei com os cem mil cruzados de teu pae, quando eu tiver uma casa

que te offereça, á hora do dia, na presença de quantos quizerem ver como

um homem pobre serve um pobre jantar a sua mulher. Fica, minha querida

Carlota, fica em tua casa. Nós exageramos o infortunio. É proprio do

muito amor que nos temos; mas saibamos empregar as armas da razão para

vencer uma desgraça imaginária. Vou a Lisboa, ouço o que me querem,

volto com licença aqui, apresento-me a teu pae no dia dos teus annos, e

no seguinte venho pedir-lhe o cumprimento da sua palavra. Á palavra

_não_, encontro-te ao meu lado... e depois, venham todas as potencias do

inferno contra nós.

--Francisco!--murmurou Carlota, despeitada--tu não me amas... porque não

receias perder-me.

--Perdôo-te a injustiça, Carlota... Diz o que te não vem do coração,

diz, minha amiga, que eu até das injurias, se de ti me vierem, tirarei

provas de que me amas muito, e crês que te amo. Ha dois annos a amar-te

assim! Ha dois annos a respeitar-te como irmã, acarinhando-te como

esposa! Ha dois annos a viver de uma esperança, que só ás tuas palavras

se afoutou a dizer que existia! O homem que assim pensou não podia hoje

aceitar a tua fuga, sem tu me dizeres que é preciso roubar-te para te

merecer. Oh! isso nunca tu m'o dirás, anjo do céo, porque então pouco

apreço daria eu á alma que não tem a intrepidez de dizer «sou livre».

Carlota soluçava com a face apoiada na pilastra da varanda, e os olhos

fitos no céo. O aperto de coração que a suffocava era mais que o

exprimivel e imaginavel. Essas angustias soffrem-se; mas não deixam

reminiscencias aos que as devoraram. São como as agonias do naufragado,

que não preenchera ainda a conta dos seus dias, e quiz em vão contar aos

que o salvaram a suprema afflicção do afogamento. Para as torturas de um

adeus, entre duas almas animadas por um só espiraculo de vida, sei eu

que ha na lingua humana uma palavra, uma só: INFERNO. Isso é peior que o

morrer, porque na morte ha o esquecer graduado por cada estalar de fio

que nos atava aos poucos bens d'este mundo: ha o extremo dom do arbitro

das vidas--a resignação sem lucta, o luzir da estrella esperançosa que

se ergue detraz do tumulo, o recordar-se dos anceios para Deus, quando

as brilhantes illusões da terra se convertiam n'um como tenue vapor de

incenso que nos prendia aos olhos lagrimosos até o vermos entrar no céo.

Mas o adeus de Carlota Angela a Francisco de Mendonça!... Essas

derradeiras palavras, que já não eram mais que um longo gemido,

convulso, suffocado, a cada impeto dos dois corações que rasgavam os

peitos para se juntarem!........................................

Linda expirava a noite. Raiava a aurora, empallidecendo as estrellas.

Uma aureola de frouxa luz cintava os horizontes. Na extrema orla do mar

enrubesciam-se as aguas, e calava-se o rumorejar da vaga, como para

ouvir o hymno matinal dos madrugadores alados.

Era um formoso amanhecer aquelle! Tão donoso, tão alegre, tão radiante

tudo, só tu, Carlota, com os olhos na collina onde viste o derradeiro

adeus do amante, e a mão no seio como a suster a vida que te foge,

perguntas á tua razão se tamanha angustia não é um sonho! Acorda,

martyr, que o teu dia de desgraça amanheceu, e será longo!

V

Sai se o vulto de meu corpo

Mas ei non.

Cá ós çocos vos fica morto

O coraçon.

Egas Moniz Coelho. (?)

... Si notre affection est traversée; si elle rencontre des

obstacles, elle réagit, et cette réaction, impétueuse, convulsive,

comme celle de tout ressort agitée et comprimée, nous porte á des

mouvemens desordonnés, par conséquent accompagnés de souffrance.

Notre affection, alors, devient _passion_. Et comme les obstacles

qui l'irritent ne peuvent jamais être placés que par les intérêts

d'autres personnes, elle nous anime d'une violente _haine_ contre

ces personnes si offensives, si importunes; elle change notre

douceur en brusquerie, notre générosité en sentimens odieux.

Azais. (_Précis du systême universel._)

Francisco Salter foi, n'aquelle mesmo dia, ao Candal offerecer a

Norberto de Meirelles os seus serviços em Lisboa, onde era chamado

pressurosamente.

O negociante não tinha pratica ou habilidade bastante para simular no

rosto a surpreza ou o descontentamento da inesperada ausencia do genro

apalavrado. Manifestou, em toda a expressiva estupidez com que a

providencia dos grosseiros velhacos lhe dotara a physionomia, a alegria

damnada que lhe não cabia no bojo do peito. Mendonça evidenciou as suas

suspeitas, e arrependeu-se de não ter convertido em peçonha toda aquella

alegria, aceitando a fuga de Carlota, horas antes.

--Desejava despedir-me das senhoras--disse Mendonça.

--Minha mulher--tartamudeou o negociante--foi á missa, e mais a menina,

a uma capellinha á Bandeira, senão com todo o gosto...

Mendonça, quando entrara o portão da quinta, vira Carlota através de uma

vidraça. Carlota, pé ante pé, viera, a occultas da mãe, avisinhar-se da

sala, com o sentido de, caso o pae a não chamasse, entrar na sala onde

Mendonça estava, como de passagem para outra, e fingir-se surprendida do

encontro.

Foi o que ella fez ao tempo em que o negociante acabava de improvisar

uma missa na capella da Bandeira.

--Ai!--exclamou ella--estavam aqui!...

--Acabava eu de pedir licença ao snr. Meirelles--disse Mendonça,

sorrindo ironicamente--para offerecer a v. s.ª e a sua mãe o meu

prestimo em Lisboa, para onde parto hoje ás quatro horas da tarde.

O arrozeiro, em pé, com os braços estendidos ao longo dos flancos

abdominaes, abria e fechava as mãos, como um idiota: não sabia fazer

outra gesticulação mais parva, quando a sua inepcia fosse tal que se lhe

fechassem todas as evasivas de uma posição falsa.

--O snr. Norberto--proseguiu Francisco Salter, cedendo ao prazer de

affrontar a mentira do villão diante da propria filha--disse-me que v.

s.ª e sua mãe estavam na Bandeira ouvindo missa, e eu... retirava-me...

Carlota encarou o velho, e viu um tregeitar de olhos, que a obrigou a

baixar os d'ella, por vergonha de si e de seu pae. Salter teve dó de

ambos, e mudou de conversação.

--Não sei que motivos imprevistos me chamam a Lisboa; talvez as ameaças

de uma nova invasão hespanhola, ou bem póde ser que se tema um

definitivo assalto da França...

--Pois virão cá esses herejes de Napoleão?!--exclamou o negociante, já

transfigurado pelo susto dos francezes, mal incomparavelmente maior,

que destruiu o vexame em que o deixou a apparição da filha.

--Póde ser que venham, snr. Norberto, responder ao desafio que lhes

mandamos pelos nossos soldados do Roussillon, quando a França liquidava

as suas contas com a Hespanha.

Norberto não o entendeu; mas redarguiu:

--Se elles cá vem, é contar que não deixam nada; diz que mettem a saque

tudo quanto topam, pois não mettem?

--É possivel; mas v. s.ª previna-se, escondendo o seu precioso aqui no

Candal, por exemplo, onde de certo os francezes não virão. Ahi está o

inconveniente de ser rico. Já o snr. Norberto está a soffrer com o mêdo

de que o obriguem a uma contribuição...

Carlota Angela · 第 1 / 11 段