ensinariaõ os exercicios corporais, para fortificar o corpo, faze-lo
agil e endurecido ao trabalho e á fadiga que requer a guerra. He
necessario considerar-se em Portugal se acharaõ Officiais Militares, que
ensinem o manejo das _armas_, as _Evoluçoens_ e a _Tactica_: he
necessario ponderar qual sorte de Officiais devem ser preferidos para
ensinar nesta Escola, se os Estrangeyros, se os Nacionais?
Parece que o fim e o principal objecto desta Escola deve ser, «Que a
Nobreza e a Fidalguia fique taõbem instruida, e taõbem morigeradas quo
obedeçaõ ás Leis Patrias, á subordinaçaõ dos Mayores, e que percaõ
aquella idea que devem ser premiados por descenderem de tal ou tal caza:
e que fiquem no habito de pensarem, que só pelo seu merecimento chegaraõ
aos postos e ás honras a que aspira a sua educaçaõ».
Se este for o intento de sua Magestade, ficará facil decidir que devem
ser preferidos os Officiais Militares Estrangeyros aos Nacionais: o
Official Portuguez, que ensinar ou instruir na sua obrigaçaõ hum Menino
Fidalgo, sempre lhe mostrará huma distinçaõ ou sumissaõ, e não se
atreverá a executar com elle, o que pede a disciplina Militar: esta he e
deve ser cega para mandar a Nobreza, ainda da mayor esphera: e deste
modo parece que só os Officiais Militares Estrangeyros podiaõ cabalmente
satisfazer esta taõ essencial parte do ensino que se pretende.
Seis até oito Officiais Mayores, como, por exemplo, hum Mayor, hum
Vice-Mayor, tres ou quatro Capitaens, e outros tantos Tenentes
Estrangeyros seriaõ bastantes; porque o Commandante, ou Tenente del Rey,
a cujo cargo estaria a dita Escola, sendo Official Geral devia ser
Nacional, e dos mesmos educandos podiaõ sahir os Sargentos de numero, de
supra, os Cabos de esquadra, etc. e por muitas consideraçoens que naõ
pertencem aqui, deviaõ ser estes Estrangeiros da Naçaõ Suissa, naõ sendo
obstaculo para este effeito a Religiaõ Protestante que seguem aquelles
Republicanos pela mayor parte.
O dia da quinta feyra seria destinado enteyramente para o exercicio
militar, o _manejo da Espingarda, as Evoluçoens Militares e a Tactica_.
Assima fica proposto que cada companhia constaria de _vinte ou vinte e
quatro_ Educandos, o que se deve entender no principio deste
establecimento; mas podia estenderse este numero até cem em cada
companhia, e poderiaõse completar os Officiais de cada huma dellas, como
Alferes e Tenentes, com Officiais Educandos.
Seria util que o resto dos Mestres, para ensinar todos os exercicios do
corpo, como são _a dansa, a esgrima, montar a cavallo e nadar_, fossem
Portuguezes, com aquellas qualidades necessarias para ensinar; estes
exercicios seriaõ quotidianos e distribuidos no tempo que indicaremos
abayxo, quando tratarmos da instruçaõ nas Lingoas e Sciencias.
Os Mestres para ensinar a _Lingoa Castelhana, Franceza e Ingleza_,
necessariamente deviaõ ser Estrangeiros; e na Escola Militar de Paris os
serventes saõ Alemaens e Italianos, para que, pelo uzo, aprendaõ
aquelles Educandos estas Lingoas, alem do ensino, que tem dos Mestres:
methodo que se devia imitar.
Igualmente seria necessario haver mais Mestres Estrangeiros, para
ensinar as sciencias, ou na Lingoa Franceza, ou na Latina, e mesmo de
Religiaõ Protestante, o que naõ sei, se será bem aceita esta proposta.
Mas considerando que só entre os Alemaens e os Suissos saõ bem
conhecidas a Philosophia Moral, Origem do Direito das Gentes e do Civil,
a Historia Antigua e a Politica dos nossos tempos, ninguem duvidará
escolher os Homens doutos destas Naçoens, para este ensino.
Naõ he novo ensinarem os Protestantes nas Escolas publicas Catholicas: a
Universidade de Padua teve Lentes de Mathematica Protestantes, como foi
M. Herman Suisse, Autor da _Phoronomia_. Em muitos Estados Catholicos de
Alemanha he a practica ordinaria, porque cada Mestre ou Lente se contem
a ensinar unicamente a Sciencia que professa, e como os Educandos seraõ
instruidos cada dia pelos Ecclesiasticos da mesma Escola, e pelos
Mestres Portuguezes ao mesmo tempo, naõ se poderá temer com razaõ, que o
ensino dos Estrangeiros possa prejudicar a Educaçaõ no que toca á
Religiaõ, nem á santidade dos costumes.
As leis da economia interior desta Escola, e a sua exacta observancia,
as instruçoens que cada Mestre havia de receber, quando entrasse no seu
cargo, com juramento de as observar, conforme á sua Religiaõ, seria o
methodo effectivo da boa ordem e da utilidade desta Escola. Porque como
toda ella devia depender immediatamente de S. Magestade, e ficar na
dependencia do Secretario do Estado, por o Governo interior do Reyno,
seria mui facil obviar a qualquer desordem, e executar tudo o que
estivesse decretado.
§.
_Das Lingoas e Sciencias que se deviam ensinar nesta Escola, e em que
tempo?_
Nos cinco dias, vem a saber, secunda feira, terça feira, quarta feira,
sexta feira, e sabado poderiaõ estes Educandos occuparse em vinte
liçoens.
_Cinco_ liçoens de Grammatica da sua propria lingoa; escrevela e compôr
nella com propriedade e elegancia; a lingoa Latina, Castelhana, Franceza
e Ingleza.
_Tres_ liçoens de Arithmetica, Geometria, Algebra, Trigonometria,
Secçoens conicas, etc.
_Tres_ liçoens de Geographia, Historia profana, sagrada, e militar.
_Duas_ ou _tres_ do Risco, Fortificaçaõ, Architectura militar, naval,
civil, com os instrumentos e modelos necessarios para aprender estas
Sciencias.
_Duas_ de Hydrographia, Nautica, com os instrumentos.
_Cinco_ dos exercicios corporaes: dança, esgrimir, manejo da espingarda,
montar a cavallo, e nadar.
Ja se vê que ao passo que os educandos souberem a sua lingoa, a Latina,
e a Franceza, a Geographia, a Chronologia, e os Elementos da Historia,
que devem passar a outras classes onde se ensinaraõ as sciencias que
dependem destes conhecimentos. Alem das referidas necessariamente se
deviaõ ensinar:
A Philosophia Moral por theoria e practíca:
O Direito das Gentes, os Principios do Direito Civil, Politico e Patrio,
que deviaõ ser as nossas Ordenaçoens reformadas, á imitaçaõ daquellas de
Turin publicadas e decretadas por Victor Amadeo no anno de 1721 e 1724:
A Economia Politica do Estado, isto he o conhecimento da Agricultura
universal: a Navigaçaõ, e o Commercio nos Mares conhecidos.
Pode se duvidar com razaõ se todos os educandos devem aprender sem
distinçaõ a Lingoa Latina, e as Sciencias mais elevadas. He certo que
devia haver excepçaõ nesta materia; e conformar o ensino ao genio,
inclinaçaõ e engenho dos educandos; sem embargo desta precauçaõ todos
seriaõ obrigados aprender sem distinçaõ o seguinte:
Saber escrever a sua lingoa com propriedade, e com a mesma fallar a
Castelhana (de que injustamente fazemos pouco cazo), a Franceza, e a
Ingleza.
A Geographia, sem a qual naõ saberemos nem ainda a nossa Historia que
deviaõ todos saber, com a de Castella, de França, Inglaterra, e o
principal da Ecclesiastica: pelo menos aquelles _Discursos de l'Histoire
Ecclésiastique_ de _M. l'Abbé de Fleury_.
A Arte de Guerra e da Nautica; esta tambem por practica, embarcandose em
cada viagem de Navios de Guerra para as nossas Colonias alguns destes
educandos.
Todos os Estatutos Militares, e Nauticos; mas naõ superficialmente, como
he máo costume; mas com exactidão e intelligencia.
Todos os exercicios do corpo referidos; e saber arte de conhecer os
cavallos, os seus petrechos, o seu sustento, e tudo que toca ao
Inspector General da Cavallaria; necessaria precaução para ser official
perfeito nesta parte do exercito: do mesmo modo se devia aprender tudo
que pertence a hum navio de guerra: e na Artilharia, e Architectura
Militar.
O que se contem naquelle livrinho, que dissemos assima se está compondo
_tocante ás Obrigaçoens_, que saõ os Principios da Philosophia moral
practica.
No cazo que o juizo de algum educando fosse taõ estupido que não seja
capás de aprender o referido, pelas instruçoens Reais para as Escolas,
devia ser rejeitado desta Escola Real; e como lhe ficassem ainda braços
para manejar huma espingarda, ou para defender o seu posto em hum navio
de guerra, esta seria sua distinaçaõ; servindo de utilissimo monumento
esta piedoza resoluçaõ para o Estado e para esta Escola Real Militar;
que assim sabia tratar os educandos menos habeis.
§.
_Ponderaçam sobre a Lingoa Latina_
Entender e saber a Lingoa Latina com alg[~u]a perfeiçaõ naõ se estima
ordinariamente por qualidade necessaria: mas he notado de má creaçaõ e
he reputado por ignorante, quem a naõ entende; tantos Authores que
escreveraõ era inutil a hum Militar, a hum Capitaõ de Mar, e outros
Cargos publicos, naõ tem outro fundamento mais, do que mostrarem que tem
na sua propria Lingoa todas as Sciencias e Artes escriptas, e que
sabendoa com perfeiçaõ aproveitaõ o tempo em aprendellas, que perdiaõ
certamente em quanto estudavaõ o Latim: mas he engano manifesto. Quem
assim escreve, e assim declama, sabe Lingoa Latina, e naõ se apercebe
que se a naõ soubesse, teria milhares de occasioens de dezejar sabéla.
Notou M. de Voltaire que Louis Quatorze, e M. Colbert seu Secretario de
Estado naõ sabiaõ Latim, e que elles promoveraõ as Sciencias mais que os
Reis, e Ministros que foram doutos; e que M. Colbert, sendo ja Ministro
aprendia esta Lingoa. Carlos Quinto, Henrique Terceyro de França
lamentáraõse muitas vezes que a ignorarem: todos aquelles de quem se
pode esperar tiveraõ boa creaçaõ, saõ reputados saberem latim: porque
todos os Mysterios da nossa Religiaõ, todos os actos Religiosos della
saõ nesta Lingoa, e será couza lamentavel que hum Gentilhomem na Igreja
intenda tanto como o Villaõ, ou h[~u]a criada. No trato do mundo
occorrem mil occazioens de saber Latim, h[~u]a sentença que se dis nesta
Lingoa em conversaçaõ; o titulo de hum livro latinizado, ou em latim;
estando nos Cargos ou civis ou politicos, ou nos da guerra ha milhares
de occazioens onde o Latim he necessario; de outro modo fica o Ministro,
ou o General envergonhado, e confuzo. Para resolver se hum mosso Nobre,
nesta Escola que se propoem, devia aprender o Latim ou naõ, naõ devia
ser aquelle que o sabe. Pelo contrario devia ser hum Gentilhomem, ou
Fidalgo com conhecimentos da vida civil e politica, que o naõ soubesse:
estou certo que o seu voto nesta materia seria pela affirmativa, porque
terá experimentado quanta confuzaõ, vergonha, e mortificaçaõ lhe cauzou
ás vezes não entender o Evangelho, os textos dos Prégadores; os Hymnos,
as Sentenças, e palavras Latinas encadeadas na lectura da Lingoa vulgar,
e sobre tudo na conversaçaõ.
Alem do referido, que he a nossa Lingoa, acharemos que a Castelhana, a
Italiana, a Franceza, e muita parte da Ingleza, naõ he mais que a Lingoa
Latina, ou corrupta, ou com terminaçoens differentes: como he possivel
que hum Portugues tenha h[~u]a idea distincta, clara e completa destas
palavras: _Conceder_, _sujeitar_, _reservar_, _resolver_, _publicar_,
_exceder_, _promover_, etc., sem saber a Lingoa Latina? Ainda que
aprenda a Grammatica da nossa Lingoa, ainda que venhaõ Bluteaus novos de
Irlanda a fazernos Dicionarios[84], jamais a saberemos bem, sem ter
primeiro aprendido o Latim, e naõ creyo que jamais Portugues sem ella a
escreverá rectamente, apezar das orthographias á Italiana que começaõ a
vogar nas pennas dos Noveleiros e de quem se preza saber antes a Lingoa
Estrangeyra do que a sua propria.
Por estas razoens, parece que he indispensavel que esta Lingoa entre na
educaçaõ da Mocidade Nobre: todo o ponto está que quando a aprenderem
lhes naõ ensinem Grammatica em lugar da Lingoa Latina; a Grammatica ou
se deve ensinar explicando a Lingoa materna, ou depois de saber
mediocremente a Latina; e o primeiro dia que começariaõ a aprender esta,
nesse mesmo começariaõ a traduzir ou algum Evangelho, ou os Proverbios
de Salomaõ, por ser o Latim mais commum, como saõ ordinariamente todas
as versoens, ou interpretaçoens.
§.
_Empregos e Honras com que haviam de sahir os Benemeritos desta Escola_
Chegados os educandos áquelle tempo que podem ter algum emprego fora da
Escola Militar, deviaõ ser empregados conforme o genio, a capacidade, as
forças, e os seos Estudos: o Director dos Estudos daria conta ao
Conselho desta Escola, onde presidiria hum Secretario do Estado, naõ só
do proveito que cada educando adquirira nos seos Estudos, mas que tal e
tal poderia ser util nos Negocios Estrangeyros; outro nos Tribunais
economicos do interior do Reyno; outro no serviço da frota, e outro no
exercito. Antes de serem decorados com Cargos publicos, seria
conveniente, que se exercitassem aquelles destinados a navegar nos
Navios de Guerra expedidos a combater os Corsarios, ou a conduzir as
frotas: outros assistirem em certos Tribunais, e Conselhos, como
ouvintes, outros fazendo campanhas, ou ficando por alguns mezes nas
Praças fronteyras do Reyno; e taõbem algum numero delles no serviço da
Corte; mas sempre com obrigaçaõ de voltar a viver na Escola Militar,
onde deviaõ conservar o seu posto até sahirem empregados nos Cargos
publicos, e com tenças procedidas de alguma Ordem Militar, ou ja
establecida ou que devia establecerse para este fim.
Os Educandos que sayem da Escola Militar de Russia depois de rigurozo
exame no que aprenderaõ, saõ empregados primeiramente no exercito no
posto de Tenentes, de Capitaens, de primeiro e de segundo Mayor: outros
saõ destinados a sirvirem no Collegio dos Negocios Estrangeyros, outros
nos Collegios de Justiça e Rendas Reais. Como naquelle Imperio o
Almirantado tem huma Escola de Nautica, com Pensionarios ou Guardas
Marinhas, todos igualmente Nobres, nenhum Educando da Escola Militar he
empregado no Almirantado.
Os Educandos da Escola Militar de Paris, sayem para ser empregados no
exercito, e tem por premio do seu aproveitamento nos Estudos, os postos
de Tenentes, Capitaens e segundos Mayores: alem disso sahem decorados
com huma Ordem Militar, e huma pensaõ por toda a vida de 30.000 reis,
até 48.000 reis, paga ás vezes pela mesma Escola, e outras á custa da
Ordem Militar que professaõ. Assim somos feitos: Se naõ conservamos a
esperança fundada na honra, no proveito e na distinçaõ glorioza, he
impossivel forçar a nossa natureza a trabalhar, nem a cultivar o
entendimento, sorte de trabalho mais penivel, e que requer mais
constancia, do que o corporal.
§.
_Utilidades que resultariam tanto ao Reyno, como ao Soberano do exacto
exercicio desta Escola Militar, que se propoem._
Tenho mostrado por todo este papel, Illustrissimo Senhor, que o trato e
os costumes de huma Naçaõ provem originalmente daquelles que tem os
Senhores das terras, e os que exercitaõ os Cargos do Estado. Que me
concedaõ que os Generais, os Almirantes, os Magistrados, e todos os
Cargos da Corte sejaõ administrados por homens educados em huma escola,
como a que acabo de propor, estou certo que será hum Reyno bem
governado, com tanto que o Soberano premée e castigue á risca, conforme
as leis decretadas. Isto he facil de conceber: mas se pelo contrario os
mesmos Generais e Cargos da Corte forem administrados por homens
educados em caza de seos Pays (como he hoje costume), onde os Mestres
temem de advirtir e castigar os seos discipulos; onde a Ama ou a Aya, o
Criado e o Page são os Companheyros dos Meninos, os seos Manos, toda a
sua companhia, os seos confidentes em todos os seos dezejos e apetites,
entaõ poderemos julgar que este menino conservará em quanto viver
aquelles pessimos habitos, que adquirio com os seos inferiores: naõ
saberá repartir o tempo para exercitar o seu emprego, para descansar,
nem para dormir: buscará em quanto viver todos os meyos para divertirse,
e jamais considerará occuparse, e muito menos cumprir com a sua
obrigaçaõ.
Os louvaveis effeitos da boa educaçaõ nesta Academia será o primeiro de
_saber regrar cada qual o seu tempo_ em todo o dia: costumados a
levantarse cedo, ficalhes tempo para applicarse e para se divertir
honestamente. Todas aquellas maravilhas que obrou Pedro Primeiro,
Emperador da Russia, acho que não tiveraõ outra origem que saber regrar
o seu tempo. Este raro e grande Principe, era o primeiro homem que se
levantava no seu Imperio, e o primeiro que se deitava a dormir.
Levantavase de veraõ e de inverno ás tres horas da manhãa, ou estivesse
na Corte, ou em campanha, ou viajando; tanto que se levantava estava
presente o Secretario do Cabinete, com as petiçoens e papeis, que
necessitavaõ de despacho; punhase a despachál-as até as quatro ou cinco
horas da manhãa: sahia dali e partia sem ceremonia na carruagem de veraõ
ou de inverno, acompanhado somente de dois Dragoens a cavallo: entrava
no Almirantado, onde já estavaõ lá os Almirantes e os cargos do Conselho
d'aquelle Tribunal; e aquelle que faltava era apontado o sallario
d'aquelle dia, pela primeira vés. Ali prezidia despachando com huma taõ
ordenada actividade que admirava, mesmo áquelles os mais practicos
naquelle cargo. Ali ficava das seis até ás sete da manhãa. Sahia
daquelle Tribunal e chegava ao Senado, que he o Tribunal supremo que
corresponde, me parece, ao nosso Dezembargo do Paço: com a mesma
ordenada exactidão despachava, e as nove horas da manhãa estava já na
sua Corte: onde achava o Gran Chanceller, ou primeiro Secretario de
Estado, com dois mais, que lhe presentavaõ os Negocios Estrangeiros, que
ouvia e despachava: depois deste tempo dava audiencia aos Ministros
Estrangeiros, e a todos os mais que lha pediaõ. Ás onze horas sem falta
jantava ou na Corte ou em caza de algum Grande ou de algum Ministro
Estrangeyro: recolhiase a meyo dia; e até ás tres da tarde, tudo estava
na Corte no mais recatado silencio, porque sempre durmio a sesta. Sahia
ás tres horas a examinar o que se passava no Collegio de Guerra; outras
vezes hia ao Collegio do Commercio e das Minas; outras, a ver as
Fabricas que tinha erigido; outras, a ver as obras publicas que tinha
ordenado; ceava entre as seis e as sete, e ás sete horas da noite se
deitava: apagavaõ-se as luzes na Corte; o silencio era igual ao de hum
Convento: e deste modo conheci eu muitos Senhores Russos, e o
Feld-Marechal Conde de Munnich, que viviaõ do mesmo modo, educados no
serviço daquelle gran Monarcha.
Este foi todo o segredo daquelle Emperador, para obrar em trinta e seys
annos que reynou; que parece, pelas incriveis couzas que fes, que viveo
duzentos. Em saber distribuir e aproveitarse do tempo, consistio todo
este artificio, que só com a educaçaõ masculina se aprende.
Se consultarmos os monumentos da Historia, acharemos que a gloria e
augmento dos Reynos naõ lhes veyo dos numerozos exercitos, nem das
riquezas; acharemos que foraõ illustres pela Educaçaõ dos seos Monarchas
e dos seos Subditos. Relata Diodoro de Sicilia[85], que o Pay de
Sesostris, Rey do Egypto, vendo que lhe nacera hum filho ordenou que
todos os Meninos que naceraõ no mesmo dia, fossem creados e educados com
tanto cuidado e doutrina, que viessem capazes de serem Companheyros e
Mestres por habito e companhia do Principe; e que este viera taõ
excellente e taõ admiravel, pelas virtudes daquelles Companheyros, que
naõ só na Mocidade conquistára as Arabias, mas em idade avançada, sendo
ja Rey conquistára desde a India até o Mar Negro. Excellente modo de
educar os Principes, pela companhia dos iguais na idade, nas
inclinaçoens, e divertimentos, e seriaõ bem aventurados os nossos
tempos, se esta sorte de ensino resuscitasse nelles.
Á Educaçaõ que teve el Rey Dom Dinis devemos tanta gloria como alcançou
o Reyno em ser povoado, rico, potente e respeitado; el Rey D. Duarte taõ
cheyo de virtudes, como vexado por disgraças, sendo educado por sua May
a Raynha Dona Phelipa, mostrou quanto as Mays podem contribuir para a
felicidade dos filhos. O poder a que chegou França no tempo de Luis
Quatorze, e gloria que conserva ainda, teve origem na boa educaçaõ de
Henrique o Quarto e do seu Ministro o Duque de Sully; ambos nascidos de
Pais Protestantes, ambos educados austeramente, com Mestres excellentes
nas sciencias e nos costumes, formaraõ o animo deste Rey e deste seu
privado, que toda a sua vida foi hum modelo da ordem nos negocios e na
applicaçaõ. O Duque de Sully sendo de huma familia taõ Nobre naõ era a
pessoa para administrar as Rendas Reais, porque estes cargos andáraõ
sempre exercitados pelos Rendeyros da Fazenda Real: mas a necessidade em
que se achava Henrique Quarto pedia hum amigo para remediála, e naõ
achou outro que o duque de Sully, o qual naõ reparando bayxarse para
levantar o seu Rey, com o Reyno, dezempenhou o Estado, ajuntou
thezouros, destruio os inimigos, resuscitou a agricultura do Reyno que
estava perdida, introduzio o comercio, e instituio a cultura das sedas,
e fabricas destas e das lans. Que se leam as Memorias[86] deste grande
Ministro, e então ficaraõ todos persuadidos que o segredo de adquirir
immortal fama nos postos e nos cargos com utilidade publica, consiste na
distribuiçaõ do tempo, na ordem da vida e regra de viver; o que sómente
se aprende na primeira idade, como habito que fica por toda a vida.
Dizia Socrates, que era couza notavel que havendo Mestres, e Escolas
para aprender tudo o que era necessario para ser rico, considerado, e
auctorizado, que só naõ conhecia huma onde os homens e os meninos fossem
a aprender a ser bons. Eu sem tantos conhecimentos, e com menor virtude
acho que em Portugal terá a Nobreza e a Fidalguia Mestres a milhares que
lhes ensinem as lingoas, dançar, esgrimir, montar a cavallo, e sobre
tudo as Genealogias, mas naõ posso considerar que haja hum, que lhes
ensine que he _obrigado a obedecer_ aos Magistrados, e a todos aquelles
empregados no serviço do Estado, como sejaõ seos Mayores; naõ posso
considerar que possa a Fidalguia perder aquella soberba com que nace, e
aquella independencia, do que em huma Escola Militar, governada pella
_disciplina Militar_, que naõ conhece outra Genealogia, nem Sangue Real,
do que o cargo e o merecimento. Se esta mocidade desde a idade de nove
ou dés annos estiver costumada ser mandada, e posta em prizaõ por hum
Tenente, ou Capitaõ nobre, ou naõ Nobre; se for castigada por ter
insultado o seu Mestre, ou h[~u]a criada ou servente da dita Escola,
perderá aquelle habito que contrahio em caza em companhia das Ayas, e
dos creados graves, e queyra Deos, que não fosse contrahido com
domesticos de esfera mais inferior?
Esta disciplina Militar, esta ordem, e saber repartir o seu tempo, se
espalharia por todas as tropas, e por toda a armada, porque ja dissemos
que todos os subalternos imitaõ os vicios, ou as virtudes, o trato, e o
modo de viver dos superiores. Que Escolas temos no Reyno onde a
Fidalguia na primeyra idade possa aprender a _moderar_ as suas payxoens?
a ser constante nas adversidades, e nos perigos? Felis seria a Corte que
constasse dos que forão assim educados! As Leis teriaõ vigor, porque os
Subditos as executariaõ; e estando autorizados, as observariaõ;
conhecendo interiormente terem superior, e que saõ nacidos Subditos. Em
que Escola se aprende hoje no Reyno amar a sua Patria? naõ consiste este
amor perder a vida por ella, atacando hum Corsario, ou subindo por
h[~u]a brecha; a gloria que redunda destas acçoens, recompensa bem o
perigo: este amor consiste em serlhe util, e em augmentar por todos os
meyos a sua conservaçaõ, e a sua grandeza: ama a sua Patria o Senhor de
terras, que as faz ferteis, que multiplica por cazamentos as aldeas,
contribuindo com o seu, e com as suas terras a sustentar estes Subditos,
e os que haõ de vir desta uniaõ: ama a sua Patria aquelle que podendo
comprar hum vestido de pano de Inglaterra o manda fazer de covilhãa;
estes saõ os Patriotas, e aquelles que conhecem no que consiste a sua
conservaçaõ, e a sua ruina. Sómente na Escola proposta se poderaõ
adquirir estes conhecimentos, e adquirir estes habitos virtuozos.
Admiramonos da temeridade del Rey Dom Sebastiaõ, naõ só por expor-se
cotidianamente aos perigos mais iminentes, mas de passar a Affrica como
hum aventureyro; accuzamos, ainda que com razaõ seos Mestres os
Jesuitas, e sobre todos Pedro Gonsalves da Camara, e naõ accuzamos os
costumes estragados, e a ignorancia da Fidalguia daquelles tempos. E
nenhum incentivo mayor teraõ jamais os Nossos Reys para cuidarem da
severa educaçaõ da sua Fidalguia do que a catastrophe do referido Rey;
porque he certo que se fosse como pedia o seu nacimento, que naõ cahiria
o Reyno naquelle taõ lamentavel abatimento.