O Historiador Conestagio[76] relatando a desordem e a pobreza em que

estava o Reyno antes da infeliz expedição del Rey Dom Sebastiaõ para

Affrica, diz que nunca Portugal fora taõ feliz, que tivesse hum homem

dotado de tanta capacidade e intelligencia que soubesse governar as

rendas Reais: porque o Cargo de Veador da fazenda se dava sempre por

favor, e para gratificar os Cortezaõs, sem attenderem a nenhum

merecimento; e por essa cauza, não havendo nem cuidado, nem conhecimento

daquelle emprego, que todos os rendimentos se gastavaõ nos sallarios dos

Ministros, nos dos Magistrados, e dos Governadores; que o Estado estava

taõ pobre que os Ecclesiasticos pagáraõ entaõ cento e cincoenta mil

ducados; e os Christaõs novos duzentos e vinte cinco mil, com promessa

que se fossem prezos pela Inquisiçaõ que não seriaõ os seos bens

confiscados.

Do referido se ve a necessidade que tem o Reyno da Educaçaõ da

Fidalguia, não só nas letras humanas, mas taõbem na Politica e nas

Mathematicas, para servir a sua patria, nos cargos da guerra, e nos da

paz; e que por faltar semelhante Educaçaõ, chegaraõ tantas Monarchias na

Europa áquella decadencia desde o anno de 1500, que parece impossivel

relevarse, se não se reformar esta omissaõ taõ consideravel.

§.

_Continua a mesma Materia. Em que lugar devia ser educada a Fidalguia e

Nobreza de Portugal_

Todos reprovaraõ o ensino da Mocidade, que vive em caza de seos Pays, e

que vaõ duas vezes por dia a aprender nas Escolas publicas. Ja vimos

assima que este modo de aprender he o mais prejudicial; e como he

notorio a cada hum, que aprendeo assim, este dano, naõ necessito outra

vez repetir o que mostrei assima.

Milhares de tratados se tem impresso da Educaçaõ domestica, e o mais

excellente, a meu ver, he o de Martinho de Mendoça e Pina, que citei

assima: esta educaçaõ pode fazer hum rapaz hum pio Christaõ; poderá ser

instruido naquelles conhecimentos que dependem da simplez memoria, mas

sempre lhe faltará a emulaçaõ, que eleva o juizo, para se adiantar aos

seos iguais; sempre lhe faltará a imitaçaõ, pelo qual se formaõ as ideas

mais completas das acçoens e das obras dos Mestres e Governadores

publicos, que sempre influem no animo muito mais, do que tudo o que

disser ou obrar o Mestre domestico; deste modo ficará sempre o natural

destes meninos acanhado e encolhido, faltando lhe o trato e o

conhecimento da vida civil; quando acabaõ aquelles estudos domesticos,

ou ficaõ ignorantes, ou nos costumes da vida civil meninos, ou com o

animo depravado: felicidade grande será que não fiquem estragados os

costumes, pela companhia dos Criados e dos Escravos: se os Pays foraõ

taõ cautelozos que evitáraõ este ordinario precipicio, cayem em outro,

taõ contrario ao bem commum, como a perda dos bons costumes, a sua

consciencia e a sua conservaçaõ; ficaõ estupidos, cheyos de vaidade, naõ

conhecem por superior mais que seos Pays, porque não tem a minima idea

da subordinaçaõ que deve ter como Subdito e como Christaõ.

D'esta origem provem que a Nobreza e Fidalguia he hoje empregada nos

cargos e nos governos, quando chega áquella idade, onde começaõ a

descahir as forças, e a constituiçaõ com achaques. Na idade de quinze ou

vinte annos, como a sua educaçaõ foi domestica, tem da vida civil tanto

conhecimento como hum menino: entra, como dizem, no mundo; e á sua

custa, e por muitos annos adquirio alg[~u]a experiencia, e essa lhe

serve de toda a instruçaõ para servir a sua patria: mas não he conhecida

a sua capacidade, que da idade de quarenta annos; entaõ he que o

Soberano o emprega nos cargos publicos, e ás vezes de idade mais

crescida; mas nesta idade ou as forças começaõ a enfraquecer ou a

constituiçaõ; daqui he que os Estados hoje onde a Criaçaõ he domestica

se servem sempre de pessoas a quem falta aquelle vigor, altives,

ambiçaõ, e animo da adolescencia e da idade viril.

Admiramonos hoje quando lemos que Pompeo e Scipião Affricano commandavaõ

exercitos de idade de vinte e hum annos; e que os Romanos dessem os

Cargos de Questor, de Pretor, de Proconsul á Mocidade da Nobreza Romana;

mas o que mais deviamos admirar he que naquella primeira idade obravaõ

acçoens taõ illustres, que se observaõ na historia: na verdade que de

vinte e cinco annos, até trinta ou quarenta, está o corpo mais apto para

obrar as mais elevadas acçoens; e por isso me parece, quando comparo a

Republica Romana com os Reynos dos nossos tempos, que nestes, aquelles

que os servem, todos saõ velhos e decrepitos, e que naquella Republica

todos eraõ Varoens nas armas e velhos no Concelho.

Mas se quizermos saber a cauza desta immensa desigualdade, inquiramos a

Educaçaõ da Nobreza Romana, e logo parará a nossa admiraçaõ. O seu

ensino, no tempo da puericia, se reduzia a Philosophia Moral e trato da

vida, que lhes ensinavaõ os Philosophos; mas esta instruçaõ era

practica; entravaõ no Senado com seos Pays ou Tutores, como ouvintes;

ali ouviaõ practicar o que aprendiaõ em caza; de tal modo que hum Menino

da idade de desasete annos estava instruido na eloquencia, na arte de

saber escrever, porque sabia fallar, nas Leis Patrias, no Sacerdocio,

nas Leis Civis e Politicas, que pela practica aprendiaõ; e vendo diante

de si aquelles Senadores, hum que tinha triumphado, outro que tinha

ganhado hum Reyno, outro que tinha decretado leis como Consul, enchiase

o coraçaõ daquelles illustres objectos, para imitar aquellas acçoens

ordenando, mandando e obrando. Assim vemos que Cesar de desasete annos

orava com tanto applauso, que entrou no cargo do Sacerdocio. Lemos a

Educaçaõ de Marco Aurelio Emperador, que elle mesmo relata logo no

principio das suas obras, que são os pensamentos da sua vida.

Nos nossos tempos el Rey de Danamarca ordenou que em cada Tribunal

assistisse hum certo numero de Moços Nobres, somente para serem

ouvintes, e para aprenderem ali pella practica as Leis Patrias, e o que

he a vida Civil; os Magistrados tem poder de lhes fazerem perguntas de

tempo em tempo para obrigar esta Mocidade a attenderem ao que ouvem. O

mayor proveito que retiraria o Estado desta Educaçaõ, seria que pensasse

e que reflectisse maduramente, e que naõ passasse a vida naquella

variedade, e encadeamento de divertimentos, caças, jogos, dansas, bayles

e outros semelhantes. Nenh[~u]a couza poderia fixar a volatilidade

daquella idade, do que destinala, logo que estivesse instruida, a

assistir nos Tribunaes como ouvintes, e de responderem por escrito ou de

palavra, quando fossem perguntados pellos Magistrados: alem de que lhes

naõ ficaria tanto tempo para empregar naquella vida aérea, se

costumariaõ a pensar e a reflectir, que he a mayor difficuldade que se

encontra naquella idade, e o mayor bem que se pode alcançar na sua

educaçaõ.

Sem que eu o diga, todos veraõ que se se tomarem taes meyos com esta

mocidade, que poderá ser empregada nos cargos e postos do Estado, de

idade de vinte, e de vinte e cinco annos, e que evitaria o Rey no ser

servido, ou por velhos, ou por achacados nos cargos que necessitaõ

vigiar, andar a Cavallo, navegar, inquirir, ver, observar, e despachar.

Pareceme que vistos os notaveis inconvenientes da Educaçaõ domestica, e

das Escolas ordinarias, que naõ fica outro modo para educar a Nobreza e

a Fidalguia, do que aprender em Sociedade, ou em Collegios; e como naõ

he couza nova hoje em Europa esta sorte de ensino, com o titulo de

_Corpo de Cadetes_, ou Escola Militar, ou Collegio dos Nobres, atrevome

a propor á minha Patria esta sorte de Collegios, naõ somente pella summa

utilidade que tirará desta Educaçaõ a Nobreza, mas sobre tudo, o Estado

e todo o povo.

§.

_O que sam as Escolas Militares_

He huma Escola Militar hum Corpo de Guarda, onde os Soldados saõ os

meninos e moços Nobres ou Fidalgos: estes saõ os que fazem as

sintinellas e as rondas dentro da Escola: ali se exercitaõ na Arte

Militar; e toda ella he governada por esta disciplina; e aquelle tempo

que os Soldados nos Corpos de Guarda consomem a jugar, a fumar tabaco, e

a zombar, occupaõ os moços Nobres destas Escolas nos estudos ingenuos,

que saõ aquelles que servem para servir e mandar na sua Patria.

No anno 1731, o Feld-Marechal ou Capitaõ General Conde de Munnich no

serviço do Imperio da Russia, sendo obrigado buscar Officiais Majores

por toda a Europa pella falta que delles havia em Russia, propôs á

Imperatriz Anna Juanowna hum Collegio Militar ou Escola para se educarem

nella _quatrocentos_ meninos ou moços Nobres, destinados a servir nos

exercitos e nos Cargos civis. Esta Escola se abrio naquelle tempo, e

continua ainda hoje, e com tanta utilidade daquelle Imperio que desde o

anno 1740, rarissimo he o Official Estrangeyro que se acha alistado no

serviço daquelle Imperio.

Foi facil a este Grande General achar estudantes para entrarem naquella

Escola; porque por huma ley de Pedro Primeiro, Emperador daquelle

Imperio no anno 1707, todos os filhos dos Nobres chegados a idade de

_treze annos_ saõ obrigados virem assentar praça na Vedoria de Guerra,

ou na Vedoria da Marinha, Ley que se observa ainda inviolavelmente: e

tanto que huma vez está este menino matriculado naquellas vedorias naõ

pode entrar em Convento algum de Frades, sem licença especial do

Soberano: (porque em Russia nenhum Nobre entra no Estado de clerigo, por

serem estes tirados somente das familias do povo). Por Director desta

Escola ficou o mesmo Conde de Munnich, que procurou todos os Officiais

Militares das tropas de Prussia e os Mestres para as Sciencias, e

Lingoas, de toda a Alemanha, e dos Cantoens Suissos.

No anno 1742 pouco mais ou menos, S. Majestade Imperial a Rainha de

Hungria, ou por lembrarse do projecto do Duque de Lorena assima

referido, ou pela sua alta intelligencia, instituio em Viena de Austria

o Collegio Thereziano para o mesmo fim, mas mui poucos aprovárão a

Escola dos Jesuitas por Mestres, e que se admitissem nelle Pensionarios;

e por esta cauza, ou pela pouca disposiçaõ, naõ se tem visto atégora

daquelle magnifico instituto aquella utilidade que se esperava.

No anno 1751 se estabeleceo em Paris a Escola Real Militar: a sua

instituiçaõ he para educarse nella quinhentos Gentis homens a custa

Real; os Militares saõ os Mestres para ensinar a arte da guerra, e os

seculares Homens de Lettras as artes e as sciencias: mas como na

_Encyclopedia_ impressa em Paris, se acha h[~u]a exacta descripção desta

famoza Escola no articulo _École Militaire, tome cinquième_, naõ

necessito entrar aqui em mayor explicação; e só farei algumas

observaçoens sobre o que se podia imitar de louvavel em Portugal desta

instituição.

Em Dinamarca, em Suecia e em Prussia, se instituraõ e conservaõ Escolas

Militares Semelhantes, instituidas depois de poucos annos; e não fallo

da Escola Real de Madrid, porque parece que a sua destinaçaõ naõ he para

que os seos Estudantes sirvaõ o Estado.

Parece que Portugal está hoje quazi obrigado, naõ só a fundar huma

Escola Militar, mas de preferila a todos os establecimentos litterarios,

que sustenta com taõ excessivos gastos. O que se ensina e tem ensinado

atégora nelles, he para chegar a ser Sacerdote e Jurisconsulto; e como

já vimos assima, naõ tem a Nobreza ensino algum para servir a sua

patria, em tempos de paz nem da guerra. Proporei aqui o que achar mais

necessario, para establecer esta Escola; e no cazo que seja acceite o

meu trabalho e o dezejo da execução, supprirei as omissoens, que de

proposito cometo por naõ ser porlixo com a mayor exactidaõ, se me for

ordenado.

§.

_Propoemse huma Escola Real Portugueza, para ser nella educada a Nobreza

e a Fidalguia_

ECONOMIA INTERIOR

Quando se comprehender o intento com que se propoem esta Escola, poderá

ser que se louve a sorte da economia interior que ha de servir para

conseguilo. He educar subditos amantes da Patria, obedientes ás Leis, e

ao seu Rey; intelligentes para mandar, e virtuozos para serem uteis a

si, e a todos com quem devem tratar.

Será facil conceber a quem estiver inteyrado deste intento, que esta

Escola Real deve ficar affastada tanto da Corte, que nem Estudantes nem

os Mestres estejaõ distrahidos pellas visitas dos parentes e amigos, e

muito menos pellos divertimentos de huma capital. Seria facil acharse

edificio já feito, ou dois ou tres edificios, juntos, reparados, e

concertados para se establecer esta escola; deyxando para melhor

occasiaõ fazer hum aproposito, ou occupar algum que prezentar o acazo.

1.^o Que naõ habitaria dentro d'este edificio Governador, Mestre, ou

outro qualquer empregado no serviço desta Escola, sem _ser cazado_.

2.^o Que naõ seria permitido a nenhum estudante ter criado em

particular.

3.^o Que para o serviço dos mesmos Estudantes, quer dizer, barrer os

seos quartos, alimpallos, fazerlhe a cama, e outros serviços domesticos,

haveria huma molher de idade de cincoenta annos para diante, destinada a

servir a cada cinco, de tal modo que nenhum destes Educandos se

considerasse que tinha criado ou criada em particular[77].

4.^o Todos os quartos, salas, camaras, tanto do Governador, Officiais,

Mestres, como dos educandos, seriaõ adornados da mesma sorte de alfayas

sem distinção de pessoa[78], e todas ellas deviaõ ser feitas no Reyno.

5.^o Tudo o que servisse de alimento e de bebida nesta Escola Real devia

ser produçaõ do Reyno, e dos dominios de S. Magestade, como taõbem tudo

aquillo que vestissem, calçassem; ainda mesmo as espingardas, espadas,

bandoleyras, e tudo que servisse no manejo, e na cozinha[79].

6.^o Como estes educandos haviaõ de estar alistados em companhias cada

huã de _vinte, ou vinte e quatro_, governadas pella disciplina militar,

ja se ve que devem vestirse com uniformes; e do mesmo modo os Officiais,

e Inspectores, cada qual com distinçaõ do seu gráo[80].

7.^o Todos estes educandos deviaõ comer em communidade, e não serlhe

permitido nenhuma sorte de alimento no seu quarto[81].

8.^o De sol nacido até sol posto, sempre haverá huma companhia de

educandos de Guarda: seraõ os que estaraõ de sintinella dentro do

edificio nos lugares que o Commandante achar aproposito. E como para a

guarda de todo o edificio deve haver huma companhia de Soldados tirada

do regimento da guarniçaõ mais chegada, estes seraõ os que estaraõ de

sintinella ás portas de entrada e sahida dia e noyte.

9.^o A nenhum destes educandos seria permitido entrar no quarto ou

camara dos seos collegas; nem dos Officiais de guerra, Mestres, ou

Officiais de economia sub pena de rigoroza prizão.

10.^o Ao tenente del Rey, ou Commandante d'esta Escola Real, Intendente

Director dos Estudos, Officiais de Guerra, e Mestres, e outros Officiais

economicos lhes seria dada a cada hum sua particular instruçaõ para

exercitarem o seu cargo.

11.^o Naõ seria permitido aos Mestres, nem aos Officiais de Guerra

castigar com castigo corporal: só poderiaõ mandar prender; e dar por

escrito a falta, ou culpa do educando ao Conselho economico da Escola,

que se teria huma, ou duas vezes por semana, no qual se determinaria o

castigo. O Mayor que sente a Nobreza hé a _deshonra_: o ser condenado a

naõ frequentar as classes: o estar de pé em parada sem espada, e sem

espingarda á vista dos Mestres e de seos iguais, serviria da mais

efficas correçaõ[82]. Vejase a dita Encyclopedia tom. V, no lugar citado

assima.

§.

_Em que idade deviam entrar os Educandos na Escola Real Militar?_

Se os educandos entrassem nesta Escola na unica intençaõ de sahirem

instruidos nas lingoas e nas sciencias, nenhum deveria entrar antes da

idade de _doze_, ou _quatorze_ annos. Mas o intento principal he que seu

animo saya destas escolas taõbem informado na virtude, no amor da

Patria, e na obediencia ás Leis; que pella imitação da boa companhia, e

pella practica das boas acçoens, fiquem instruidos nestas taõ

importantes obrigaçoens: pelo que bem poderaõ entrar os educandos desde

a idade de _oito_ ou _nove_ annos, e se fosse possivel ainda mais cedo

pellas razoens seguintes.

Tanto que as riquezas da Affrica e do Oriente entraraõ em Portugal, logo

começou a mostrarse o luxo nos vestidos, comidas, e mais commodidades

estrangeiras; começou a esfriarse o amor das familias, e por ultimo da

Patria. El Rey Dom João o Terceyro, foi o ultimo Rei que foi criado com

ama Nobre; e ja seos Filhos, nem seu Neto el Rey D. Sebastiaõ, tiveraõ

amas mais que da classe plebea: indicio certo que as Senhoras naõ

criavaõ ja seos filhos, como nos tempos anteriores. Introduziose este

destruitivo costume da raça humana, do amor filial e dos bons costumes;

e a pezar de tanto sermaõ, missoens, e practicas espirituais, nenhuma

Senhora quer sacrificar a sua formozura á criaçaõ de seos filhos, que

hão de ser a cauza da felicidade, ou dos infortunios do resto da sua

vida. Seria loucura persuadir o que ninguem quer abraçar[83].

§.

_Consequencias por nam criarem as Mays seos filhos_

Tem para si estas Mays, que naõ criaõ, que conservaraõ por mais tempo a

formozura, e que dilataraõ a vida com mais vigor e forças, e que

perderiaõ a sua boa constituiçaõ, criando por dezoito mezes ou dois

annos. Mas he engano manifesto; e o contrario se sabe pela experiencia,

e pela boa Physica.

A molher que pario, e que naõ cria o seo parto, em pouco tempo vem a

conceber de novo: a prenhés de nove mezes he huma enfermidade, que

enfraquece mais o corpo do que criar aos peitos por anno e meyo: e como

concebem antes que as partes da geraçaõ adquirissem pelo repouzo a sua

natural consistencia, succede que estas Senhoras abortaõ mais

frequentemente: enfermidade taõ consideravel, que muitas ou perdem a

vida, ou ficaõ achacadas, perdendo em poucos annos o idolo da sua

belleza, ficando frustradas do seu intento, e expostas a viverem por

toda a vida a mil desgostos e pezares. A molher que cria o seu parto

fortifica o seu corpo; porque a natureza inclinandose a lançar para os

peitos muita parte dos alimentos, nesse mesmo tempo as partes da geraçaõ

se alimpaõ dos humores que estiveraõ detidos por nove mezes, e

alimpandosse cada dia adquirem o seu vigor natural; e deste modo a

molher que cria o seu parto, e que o sustenta só com o seu leite por hum

anno, naõ concebe, que difficilmente; se concebem de antes, he por que

naõ daõ leite na quantidade necessaria, temendo estas Mays e Amas

enfraquecerse, o que he engano manifesto.

Este o mal que cauza ás Mays naõ criarem seos filhos, vejamos agora os

danos a que estaõ expostos os partos viventes e ainda os mais vivazes. A

molher que concebeo dentro do anno em que pario, naõ deu tempo para que

as partes da geração adquirissem aquelle vigor natural, que lhe he

natural: a prole concebida naõ terá tanto espaço para se estender;

ficará mais fraco, porque o lugar onde vai crescendo está relaxado, e

fatigado pela prenhés, e parto antecedente: daqui he que sahirá á luz

com menos vigor e com menos esforço para crescer. E será esta a causa

que nos nossos seculos a especie humana he mais piquena e mais fraca,

que nos seculos anteriores? pelo menos parece ser huma cauza desta

pequenhés.

Atégora os danos que sofrem as Mais e os seos partos no corpo; mas os

mais consideraveis e lamentaveis saõ aquelles que se imprimem no animo

das crianças criadas por amas. Se foramos nacidos para viver nos

desertos da Affrica, ou nos bosques da America, pouco importava que as

amas imprimissem no nosso animo aquellas ideas de terror, de feitiços,

de feiticeyras, de duendes, de crueldade, e de vingança; mas somos

nacidos em sociedade civil, e christãa; aquellas ideas que nos daõ as

amas saõ destrutivas de tudo o que devemos crer, e obrar: ficaõ aquellas

crianças expostas ao ensino de molheres ignorantes, superstiziozas; saõ

os primeyros Mestres da lingoa, dos dezejos, dos apetites, e das

payxoens depravadas. Chegou o menino a fallar, ja esta cercado de duas

ou tres molheres, mais ignorantes, mais superstiziozas, do que a ama;

por que estas saõ mais velhas, e sabem mais destruir aquella primeira

intelligencia do menino; chega a idade de caminhar, ja tem seu mocinho,

ordinariamente escravo, e como foraõ pelas Mays criados por taes amas, e

velhas, saõ os terceyros Mestres até a idade de seis ou sete annos: e se

o máo exemplo do Pay e da May póem o sello a esta educaçaõ fica o menino

embebido nestes detestaveis principios, que mui difficilmente os

milhores Mestres podem arrancar aquelles vicios pelo discurso da idade

pueril.

Será impossivel introduzirse a boa educaçaõ na Fidalguia Portugueza em

quanto naõ houver hum Collegio, ou Recolhimento, quero diser huma Escola

com clauzura para se educarem ali as meninas Fidalgas desde a mais tenra

idade; porque por ultimo as Maens, e o sexo femenino saõ os primeyros

Mestres do nosso; todas as primeyras ideas que temos, provem da criaçaõ

que temos das mays, amas, e ayas; e se estas forem bem educadas nos

conhecimentos da verdadeyra Religiaõ, da vida civil, e das nossas

obrigaçoens, reduzindo todo o ensino destas meninas Fidalgas á

Geographia, á Historia sagrada e profana, e ao trabalho de maõs

senhoril, que se emprega no risco, bordar, pintar, e estofar, naõ

perderiaõ tanto tempo em ler novellas amorozas, versos, que nem todos

saõ sagrados: e em outros passatempos, onde o animo naõ só se dissipa,

mas ás vezes se corrompe; mas o peyor desta vida assi empregada he que

se communica aos filhos, aos irmaõs, e aos maridos. Daqui vem, que sendo

na mesma Naçaõ, da mesma familia, e da mesma caza, estaõ introduzidas

duas sortes de lingoa, ou modos de fallar, a conversaçaõ que se deve ter

com as senhoras, não ha de ser sobre materia grave, séria; estas

conversaçoens judiciosas ficaõ reservadas para algum velho, ou para

algum notado de extravagante: e assim succede que ficaõ as Senhoras por

toda a vida (ordinariamente) meninas no modo de pensar; e com taõ

miseraveis principios vem ellas, as suas amas, as suas ayas, e donas, a

serem os Mestres daquelles destinados a servir os Reis.

Naõ me acuze V. Illustrissima, que sahi fora do intento que lhe prometi.

Achei que tratar da educaçaõ que devïaõ ter meninas Nobres e Fidalgas

merecia a mayor attençaõ porque por ultimo vem a ser os primeyros

Mestres de seos filhos, irmaõns e maridos. V. Illustrissima sabe muito

melhor do que eu, aquelles monumentos que temos na Historia Romana, e

taõbem na nossa, de tantas Mays que por criarem e ensinarem seos filhos

foraõ os que salvaraõ a Patria, e a illustraraõ: houve em Roma muitas

Cornelias, como em Portugal muitas Phelipas de Vilhena. Mas naquelle

tempo ainda o luxo ou a dissoluçaõ naõ se tinha apoderado do animo

Portugues, porque as riquezas naõ eraõ taõ apetecidas. A connexaõ que

tem a educaçaõ da Mocidade Nobre que prometi a V. Illustrissima, me

obriga a ponderar, se não seria mais util para a conservaçaõ e augmento

da Religiaõ Catholica, transformarse tantos Conventos de Freyras e das

Ordens, principalmente Militares sem exercicio algum da sua destinaçaõ,

nestes establecimentos que proponho, tanto para a Mocidade Nobre

Masculina, como Femenina? Com o exemplo das educandas, ou _Filles de

Saint Cyr_, fundaçaõ perto de Versailles, e com o da Escola Real

Militar, se poderiaõ fundar no Reyno outros ainda mais ventajozos, para

a mesma Nobreza, e para conservaçaõ e augmento da Religiaõ e do Reyno.

Mas espero ainda ver nos meos dias establecimentos semelhantes em tudo,

ou em parte, que satisfaçaõ todo o meu dezejo.

§.

_Dos Mestres da Escola Real Militar, para a Arte da Guerra e das

Sciencias_

Ainda que na _Encyclopedia_ citada, no articulo _Escola Militar_ se

contem o que devem aprender os Educandos da Escola Militar, julguei

aproposito aplicar o que contem de util á Escola proposta em Portugal;

sendo essa a razão, que me move a notar o que se deve seguir ou evitar,

deyxando para os que a dirigirem entrar nas particularidades do ensino,

que só com a experiencia e com o tempo se pode fixar h[~u]a Ley

constante e universal; bem entendido que subsistaõ as mesmas

circunstancias.

O primeyro e quotidiano ensino desta Escola deve ser a _Religião_, para

comprirmos a õbrigaçaõ de Christaõ: esta Escola devia considerarse como

h[~u]a Parrochia debayxo da Jurisdiçaõ immediata do Ordinario que

presentaria o Parrhoco e hum ou dois Vigarios, naõ só para administrar

os Sacramentos, mas para instruir nos Domingos e dias de Festa na

Religiaõ: mas sem Novenas, Irmandades, Confrarias, e outras

Instituiçoens, que naõ saõ essenciais á Religiaõ Catholica: este mesmo

Parrhoco e Vigarios, ja se sabe que inculcaraõ naõ só o que saõ

obrigados a ensinar, mas a serem os milhores Subditos, porque saõ os

mais bem premiados do Estado.

Cartas sobre a educação da mocidade · 第 11 / 14 段