_Observaçam_, que he aquella percepção ou conhecimento das couzas que
occorrem na vida ordinaria, ou estas couzas sejaõ intellectuais, ou
sejaõ das pessoas, ou das couzas materiais, ou de nos mesmos.
O segundo he pela _Liçam_; pela qual illustramos o nosso entendimento
com que os nossos Mayores aprenderaõ e experimentáraõ, como se nos
valessemos das riquezas que ajuntáraõ nossos antepassados.
O terceyro, pelo _Ensino_ dos Mestres de viva vóz, e naõ por postilas,
nem themas, explicando o que deve inculcar no animo dos discipulos,
perguntando, orando, ás vezes, e arguindo, não por sillogismos, mas em
forma do dialogo.
O quarto pela _Conversaçam_, na qual aprendemos o que outros sabem:
promovemos as forças do nosso entendimento, imitando sem nos
apercebermos o judiciozo, que ouvimos e que admiramos; e com agrado e
amor da Sociedade transformamos o nosso entendimento, naquelle com quem
tratamos.
O quinto pela _Meditaçam_, lendo, escrevendo ou meditando: Neste ultimo
se encerraõ todos os quatro modos assima: e este ultimo he a chave de
todos os referidos: sem reflexaõ, sem h[~u]a attençaõ madura do que
sabemos, nenh[~u]a acção seria regular, nenh[~u]a operaçaõ da alma seria
sem defeito.
Deviamos cultivar a memoria naquella edade, quando he mais vigorosa,
pela observação, lectura, ensino e conversação. A historia seria o
primeiro ensino: e como resulta hum particular gosto saber quando
succedeo tal cousa, e em que _lugar_, d'aqui vem necessidade de estudar
a _Geographia_ e a _Chronologia_.
Mas esta historia não se ha de incluir a quantos Reis teve h[~u]a
Monarchia; quantas vezes foi conquistada, e quantos Reynos conquistou.
Na historia se incluem o conhecimento das couzas naturais, que contem
aquella obra de Plinio Segundo: entramos em hum Cabinete de Couzas
Naturais: ali notamos o globo terrestre e o celeste: ali notamos os
systemas planetarios onde se veem o sitio onde existe o sol, os planetas
e a terra, o lugar das estrellas fixas e o zodiaco; ali vemos de que
modo se movem e em que lugar os vemos; deste modo com a explicaçaõ de um
intelligente Mestre terá o Menino h[~u]a idea clara, o que he a
_Geographia_ e a _Astronomia_.
Neste Cabinete vemos as Aves, os Peyxes, os Animais, os Insectos, as
Arvores, e as Plantas da Affrica, da Asia e da America; e pela mesma
separação vamos notando os Minerais, as Pedras, os marmores, as Pedras
preciosas, os Sais, os Bitumes, os Balsamos, e as differentes terras e
barros; esta he a _Historia Natural_, e como he taõ natural saber para
que servem estas produçoens da _Natureza_, o Mestre lhes dirá as
propriedades e seu uso na Medicina e nas artes mechanicas e liberais.
Lá em hum lugar separado e espaciozo, vé h[~u]a Pompa pneumatica, hum
Telescopio, hum Microscopio, hum prisma, hum modelo de hum moinho de
vento, hum Relogio: mostra o Mestre o uzo destes instrumentos, e de
outros mais ou menos complicados; ali adquirirá o Discipulo as primeiras
idéas das propriedades dos Elementos, da _Optica_, das _Mechanicas_ e da
_Statica_: a curiozidade que he taõ natural á puericia dotada de boa
indole, o incitará a perguntar a cauza d'aquelles effeitos, que ve obrar
por aquelles instrumentos, e ficará informado a não ter por milagres o
que são effeitos da natureza; ficará informado daquelles primeiros
conhecimentos, que lhe serviraõ por toda a vida em qualquer estado que a
fortuna o puzer na Sociedade Civil.
Mas naõ basta para a vida civil ter a memoria enriquecida destes
conhecimentos da Historia Sagrada, Profana, Fabuloza e Natural;
necessitamos para ser exactos _pezarmos_, _midirmos_ e _contarmos_ tudo
aquillo que temos adquirido pela _observaçam_, _lectura_ e _ensino_, &.
A _Arithmetica_, _Algebra_, _Geometria_, _Trigonometria plana_, saõ
necessarias para medirmos as _alturas_, os _comprimentos_, as
_distancias_ e as _profundidades_. Alem desta utilidade, tem estas
Sciencias outro bem necessario á Mocidade: ellas costumaõ a serem
attentivos e exactos no que fazem, a naõ crer de leve, a ficar
convencido pela sua razaõ; instigaõ a seguir e indagar o que he
evidente, ou pelo menos certo, e a descansar, quando se achou a verdade.
Falta ainda a este ensino aquella arte de _dizer_ e _representar_, _por
palavras, e pela escriptura_, o que queremos que outros saibam, e fiquem
persuadidos, tanto pela arte de excitar as payxoens da alma, como pela
perspicuidade, elegancia e urbanidade do discurso.
Esta arte de saber dizer ensina a _Rhetorica_ em Prosa; e em verso a
_Poesia_. Duvidáraõ alguns Mestres da Educação se a Poesia devia entrar
no seu ensino: as razoens seguintes saõ em seu favor. Todos os homens se
determinaõ a afrontar os mayores perigos e os mayores trabalhos, pela
esperança, que tem de descançarem e viverem felizes: alem disso sem
repouzo, naõ pode haver trabalho, nem fadiga por muito tempo; evitariaõ
os homens muitas desgraças se no tempo do descanso, do repouzo e da
tranquilidade, pudessem viver consigo. Quem foi bem instruido na
Mocidade, na historia e na lectura dos bons Poetas, tem esta vantagem
sobre os homens ordinarios, que podem estar sós, e divertirem-se sem
companhia; porque augmentaõ a sua felicidade com o que pensão, ou com a
lectura em que foraõ educados; divertese a fantasia; o juizo aproveita,
e fortificase a virtude: e deste modo evitaõ mil disgostos, mil
desordens, que succedem no curso da vida por naõ poder estar só hum
instante, como vemos fazem aquelles que naõ tiveraõ huma educaçaõ
ingenua, e que vivem pela vontade, e pelo parecer dos outros: o que
Horacio[70] pinta com tanta vivacidade e elegancia. E por esta razão
mostrei eu a necessidade que tinhaõ as Escolas Portuguezas de adoptar o
Poema de Camoens, para educar a Mocidade, como se poderá ver no Prefacio
da ultima ediçaõ feita em Paris. Entraõ nestes estudos intermedios a
Logica e a Metaphysica; porque o seu objecto he de discorrer com methodo
e ordem; ter uma idea clara tanto das palavras e das couzas,
distinguindo e separando o que nellas ha de commum com as outras, e de
particular; estas duas partes da Philosophia se reduzem a ter methodo e
ordem em tudo que se diz e escreve. Naõ se entende aqui por Logica e
Metaphysica, aquella das Escolas; ja se tem por absurdo gastar tres
annos em aprendellas. A Logica e a Metaphysica hoje explicadas por hum
bom Mestre he estudo de quatro meses, se se explicarem os Compendios que
destas sciencias se tem escrito em muitas partes da Europa.
A Physica exprimental entra na mesma classe; e como ja temos na nossa
Lingoa a obra intitulada, _Recreaçam Philosophica_, naõ necessito de
nomear o seu objecto.
Estes saõ os conhecimentos preliminarios, para entrar nas Escolas
mayores; e ja estou ouvindo que tantas sciencias confundiraõ o animo dos
meninos e rapazes, que ou ficaraõ estupidos, ou que tudo que aprenderaõ
será taõ superficialmente, que toda esta instruçaõ lhe venha a ser
inutil. Mas Quintiliano ja respondeo a esta difficuldade, e o nosso
Martinho de Mendonça, nos seos _Appontamentos para a Educaçam de hum
Menino Nobre_, livro tantas vezes citado: a difficuldade naõ está na
capacidade dos meninos; toda ella residirá nos Mestres; e se dissipára,
se souberem ensinar com methodo e com ordem; explicando de viva vós hum
compendio de cada sciencia que ensinarem; pondo diante dos olhos, humas
vezes em mappas, outras em taboas chronologicas, outras em modelos e
instrumentos, e com a inspecçaõ das mesmas couzas que ensinarem; deste
modo pergunta(n)do, capacitando o auditorio, e ficando elle mesmo
inteirado que comprehendem, adiantará o seu ensino.
Este modo de ensinar explicando de viva vós, e perguntando pelo
compendio ou compendios da sciencia que aprendem os ouvintes, he o mais
efficaz, para comprehenderem huma materia inteira. Se estivessemos
dentro da salla de hum palacio, naõ veriamos mais que os objectos, onde
se terminava a vista: mas naõ teriamos nenhuma ideia da sua grandeza, da
sua proporçaõ, da sua elevaçaõ; mas se estivessemos fora, postos a huma
certa distancia, e em tal sitio que descubrissemos o frontispicio, a sua
elevaçaõ, contemplando as proporçoens entre o corpo do palacio e das
mais partes, então he que podiamos formar juizo da sua grandeza,
utilidade e magestade; naõ saberiamos aquellas miudezas da distribuiçaõ
dos aposentos, da claridade das gallarias, mas o juizo que formariamos
de todo elle, seria superior ao conhecimento acanhado que teriamos,
ficando dentro.
Assim para compreender á primeira vista huma sciencia, he necessario ver
somente as suas principaes partes: explique o Mestre o que faltar
naquella inspeção que o discipulo observa; e deste modo se evitará
aquella confusaõ que se teme. Fallo com experiencia: hum Menino pode por
dia tomar quatro liçoens de materias differentes com summa utilidade da
sua educaçaõ.
§.
_Em que lugar se haviam de ensinar as sciencias referidas_
Os Grammaticos Gregos e Romanos ensinavaõ na mesma Escola as sciencias
assima: he verdade que naõ tinhaõ tanta difficuldade, como nos temos,
para aprender as Lingoas em que estaõ as sciencias escritas; porque
posto que os Romanos aprendessem a Grega, mais a aprendiaõ pelo
exercicio, havendo tantos Gregos misturados com os Romanos, que por
regras e Diccionarios. Para evitar muita desordem, gastos, bulhas
litterarias, e para proveito da Educaçaõ da Mocidade, seria mui acertado
que nas mesmas Escolas Reaes, onde se aprendem a Lingoa Latina, Grega e
a Rhetorica, se aprendessem as sciencias referidas, que saõ como ja
disse a _Historia Profana e Sagrada_, a _Fabulosa_, com a _Natural_, a
_Geographia_, _Chronologia_, _Astronomia_, a _Arithmetica_, _Algebra_,
_Trigonometria_, _Logica_, _Metaphysica_, e a _Physica Experimental_.
Estas sciencias intermedias ou preparatorias, para se matricularem os
estudantes nas Escolas Mayores, ou Universidade Real, podiaõ ensinarse
nas tres Escolas Reaes do Latim e do Grego, establecidas pelo Alvará de
sua Magestade, em Coimbra, Lisboa e Evora, para ficarem no lugar
daquellas onde se aprendia a Philosophia Escolastica.
Nas mais Escolas do Reyno establecidas nas Cabeças das Comarcas,
bastaria o ensino alem das Lingoas Latina e Grega, os Principios da
Philosophia Moral, a Rhetorica, a Historia e a Geographia.
Convem ao Estado que todo o Estudante que aprender Latim e Grego, fique
instruido das obrigaçoens de Christaõ e de Cidadaõ, que fique instruido
na Historia e na Geographia, que entenda a Poesia, e que saiba escrever
ou na Lingoa Latina, ou na sua, com elegancia e propriedade: porque o
Estado naõ somente tem necessidade de Letrados, Jurisconsultos e
Medicos, mas taõbem de _Secretarios_, de _Notarios publicos_, de
_Intendentes_, de _Conselheyros_ e _Assessores_, nos Tribunaes ou
Collegios que devem governar a economia politica e civil do Reyno. Tanto
mais instruidos sahirem estes Estudantes das Escolas referidas, tanto
melhor exercitaraõ os cargos em que seraõ empregados, e occuparaõ o
tempo do descanço com mayor utilidade e satisfaçaõ. Todo o ponto está
que haja Mestres taõ capazes, que saibaõ plantar no animo dos Discipulos
destas Escolas as sementes destas sciencias. Elles mesmos faraõ crecer
estes principios pela sua applicaçaõ, levados do gosto que cauzaõ,
quando se comprehendéraõ clara ou distinctamente.
Se eu naõ fosse obrigado, Illustrissimo Senhor, tratar do Methodo de
ensinar e aprender a Medicina em obra separada, havia de tratar aqui das
Escolas Mayores ou da Universidade, onde se deve ensinar a
Jurisprudencia universal, e a Medicina, a sua forma, o lugar onde se
estableceria, o que nella se devia ensinar com especialidade, e com que
gráos Academicos seriaõ decorados os que tinhaõ estudado com applauzo,
etc. Mas como tratarei da Medicina especialmente, entaõ he que tratarei
da forma dos Estudos da Jurisprudencia; e occuparei agora aquelle espaço
com materia, poderá ser, igualmente util para o serviço da patria que he
tratar da Educaçaõ da Mocidade Nobre.
§.
_Da Educaçam da Fidalguia e dos Fidalgos, que tem Assentamento e Foro na
Caza Real_
Vimos assima que desde o anno de 1500 até o anno de 1570, existio o
mayor luxo que jamais vio Portugal. El Rey Dom Manoel o introduzio na
Corte, e foi o primeiro que se vestio humas vezes á Franceza e outras á
Flamenga; como naõ teve guerra na Europa nem seu Filho, nem seu Bisneto
el Rey Dom Sebastiaõ, com as riquezas do Oriente cahio a Fidalguia no
mayor luxo, e por consequencia naquelle total esquecimento da boa
educaçaõ, que tinha ou no Paço dos Reis antigos, ou em caza de seos
Pays. No tempo del Rey Dom Pedro o Justiceyro, tanto que se sabia no
Paço tinha nascido algum filho a algum Fidalgo, mandava logo el Rey a
sua caza a provisaõ da moradia ou foro, que deyxava em poder da May ou
da Ama que criava o Menino; e nestes tempos se chamavaõ os Reys Pays de
seos Vassallos[71]. Depois crescendo o numero, se ordenou que somente se
uzasse desta graça, com o primogenito; e desta resoluçaõ, veyo a
descahir aquelle amor da patria, porque faltou a boa educaçaõ, que
tinhaõ no Paço todos os filhos dos Fidalgos com moradia.
No tempo del Rey Dom Joaõ o Segundo, lhe representáraõ em Cortes, que
ordenasse se criassem os Fidalgos no Paço, como era costume antigamente:
sinal certo que se educava ali a primeira Mocidade do Reyno. Ja dissemos
assima que a educaçaõ da Nobreza toda se reduzia a fazer o corpo robusto
e fortissimo, o animo ouzado e destemido; alem daquelle agrado que
reynava no galanteo e serviço das Senhoras, naõ deyxavaõ de instruir o
animo com aquelles poucos conhecimentos scientificos que se conheciaõ:
somente na familia do Infante Dom Henrique foi esta educação mais
consideravel, porque sahiraõ muitos do Paço daquelle famozo Principe,
excellentemente instruidos nas Mathematicas e boas letras, como foi o
Grande Albuquerque e Dom João de Castro.
«El Rey Dom Manoel, como refere Alvaro Ferreyra de Vera[72], aperfeiçoou
os estados dos Ricos Homens e Infançoens, e deu a cada hum em sua Caza
Real o lugar que por sua qualidade merecia, fazendo tres sortes de
gente. No primeiro lugar pôz os Ricos Homens; no segundo os Infançoens;
no terceyro os Plebeos, com esta distinçaõ na moradia: aos Filhos dos
Ricos Homens tomou por _Moços Fidalgos com mil reis_ de Fôro[73] cada
mes, e alqueyre e meyo de cevada por dia; «e daqui os acrescentava a
_Fidalgos Cavalleyros_, sobindolhe a moradia té _quatro mil reis_, o que
era despois de serem armados Cavalleyros, por algum feito honrozo que
faziaõ na guerra. Aos Filhos dos _Infançoens_ tomou por _Moços da
Camara_, com _quatrocentos e seis reis_; e tres quartas de cevada por
dia: e da mesma maneira lhes acrescentava a moradia, que a mayor subia
té _mil e quinhentos reis_ com o titulo de _Cavalleyro Fidalgo_, a que
hoje muitos não querem subir por ficar antes no foro de moços do
serviço, pelas mays entradas que tem na casa e serviço do seu Rey.»
........................................................
«Os Plebeos taõbem admittio no seu serviço, tomando-os por moços da
Estribeira; e daqui os acrescentava a Escudeyros e Cavalleyros razos
(que he Cavalleyros sem Nobreza), e os que queria, que gozassem de
alguns Privilegios se chamavaõ Cavalleyros confirmados: no que havia
muita ordem».
Quem quizer saber o que he a Nobreza Natural e Politica, como se adquire
e como se perde, e outras mais propriedades, que tem a origem dos
titulos em Portugal, poderá ler este excellente Autor, esquecido nos
nossos tempos, e que merecia ser conhecido de todos os Nobres
Portuguezes, para saberem as suas obrigaçoens. Vejase taõbem _Noticias
de Portugal_ de Manoel Severim de Faria, Discurso III, e o _Prologo ás
Memorias Historicas e Genealogicas_ dos Grandes de Portugal por Antonio
Caetano de Sousa. Lisboa 1742.
Do referido se collige que os Reys de Portugal sempre tiveraõ especial
cuidado da Educação da Fidalguia, e que dahi veyo chamaremse _creados_
de caza Real, estendendose este nome por corrupção aos que servem. Em
quanto houve guerras continuadas, em quanto tinhaõ necessidade da
Fidalguia, para guerrear e conquistar, sempre houve a Educaçaõ no Paço:
acabouse aquella urgente necessidade, e achou el Rey Dom Manoel a
proposito de desobrigarse da Educaçaõ, e de pagarlhe huma certa quantia,
como vimos assima, para serem educados em caza de seos Pays. Em quanto
se continuáraõ as Conquistas da India, e a florecente navegaçaõ,
empregavaõ-se neste serviço os Fidalgos, e naõ se apercebia o Estado da
falta da Educaçaõ no Paço: mas no tempo del Rey Dom Joaõ o Terceyro
acabou a Conquista da Affrica, e da India; ja naõ havia mais guerra, que
para conservar o conquistado: e como as riquezas eraõ immensas,
introduziose o luxo na Fidalguia, e ja se apercebia o Estado da falta da
sua Educaçaõ, porque foi o mayor que se conheceo na Europa.
A constituiçaõ Gothica do Reyno, determinava a Fidalguia serem
guerreyros forçozamente no tempo da guerra; e acabada ella ficarem nas
suas terras, e cuidarem da agricultura; naõ tinhaõ outro intento no
tempo da paz que conservarse vivendo do producto das suas terras; naõ
cultivavaõ para vender nem comerciar com os fructos; e deste costume
vieraõ as nossas Leis das Ordenaçoens, que defendem fazer comercio com
os graõs, vinho e azeite.
Mas tanto que os Reys tiveraõ mays que dar que as terras da Coroa; tanto
que tiveraõ Commendas, Governos e Cargos lucrativos, tanto nas
Conquistas, como no Reyno, logo os Fidalgos começaraõ a cercar os Reys,
e ficarem na Corte; porque pela adulaçaõ, pelo agrado, e pelas artes dos
Cortesoens sabiaõ ganhar as vontades dos Reys, naõ tendo aquellas
occasioens forçozas de obrarem acçoens illustres para serem premiados
por ellas. Isto vemos succedeo no tempo del Rey D. Duarte, quando
ordenou que todo o Fidalgo que naõ tivesse Cargo na Corte, que fosse a
viver nas suas terras.
Logo que todos os Fidalgos fixaraõ a sua assistencia na Corte no tempo
da paz, logo que seos filhos eraõ educados em suas cazas, ja ricas e
poderosas pelas dadivas dos Reys em Commendas, Pensoens, Governos e
Cargos, necessariamente se havia de seguir huma educaçaõ estragada, a
Meninice entregada na maõ das amas e de mulheres commuas, a puericia
entre as maõs dos Criados e dos Escravos; até o tempo del Rey D.
Sebastiaõ poucos sabiaõ mais que ler e escrever; porque ja a Escola do
Infante Dom Henrique estava acabada; e toda a educaçaõ se reduzia a
saber os Mysterios da Fé, porque os seos Mestres sendo Ecclesiasticos e
ignorantes da obrigação de Subdito, de Filho e de Marido, chegavaõ á
idade da adolescencia com o animo depravado, sem humanidade, porque naõ
conheciaõ igual; sem subordinaçaõ, porque eraõ educados por escravas e
escravos; ficava aquelle animo possuido de soberba, vangloria, sem
conhecimento da vida civil, nem com a minima idea do bem commum: assim
degenerou aquella educaçaõ do Paço na qual pelo menos aprendiaõ a
obedecer, na mais insolente tyrania de todos aquelles com quem tratavaõ.
A questaõ agora he somente, se será do Real agrado de S. Magestade
continuar nesta piedosa e utilissima intençaõ, e no cazo que assim
determinasse, ficava a saber que sorte de educaçaõ convinha á Fidalguia
existente? em que lugar devia ser educada? e quais deviaõ ser os
Mestres? Discutirei estes tres pontos com a clareza que me for possivel.
§.
_Que sorte de Educaçam convem á Fidalguia Portugueza, que seja util a si
e á sua Patria?_
Quem melhor conhecer a Constituição do Estado de Portugal actual,
resolveria melhor esta importante questaõ. Tanto quanto eu pude
alcansar, por informaçaõ e por lectura, acho que he Reyno pelo seu
sitio, entre tres Mares, nos quaes navega o comercio de todo o mundo,
totalmente maritimo; bordado, pela sua mayor parte, do Mar Oceano com
oito portos navigaveis, ainda que alguns damnificados, e que com custo e
trabalho podiaõ ser restaurados; que tem Ilhas e Continentes vastissimos
e riquissimos nas tres partes do mundo conhecidas. Que por Tratados e
Allianças de Comercio e boa amizade está ligado com muitas Potencias;
humas que o podem offender por mar, e huma só por terra.
Estes limitados conhecimentos determinaraõ logo a quem pensar na
conservaçaõ da nossa Monarchia, que necessita de Officiais de Mar e
Terra; isto he, de hum exercito, e de h[~u]a frota. He certo que só
entre a Nobreza se achaõ as pessoas mais aptas para exercitar estes
Cargos; e naõ necessito aqui de amontoar lugares communs para provar o
que todos sabem por experiencia. Mas ao mesmo tempo todos assentaraõ que
a Educaçaõ que se deve dar á Nobreza e á Fidalguia Portugueza, deve
proporcionar-se á necessidade e ao estado actual da sua patria.
Antes que se usasse da polvora, e que se fortificassem as Prazas pelas
Leis da Geometria e Trigonometria, naõ necessitava o General do
exercicio das Mathematicas e de alguãs partes da Physica: a força, o
animo ouzado e a valentia ja naõ saõ bastantes para vencer, como quando
faziamos a guerra expulsando os Mouros da patria. A Arte da guerra hoje
he sciencia fundada em principios que se aprendem e devem aprender,
antes que se veja o inimigo: necessita de estudo, de applicaçaõ, de
attençaõ e reflexaõ; que o Guerreyro tome a penna e saiba taõbem
calcular e escrever, como he obrigado combater com a espada e com o
espontaõ: o verdadeyro Guerreyro he hoje hum misto de homem de letras e
de soldado. Deste modo adquirio nos nossos tempos immortal fama o
Marechal de Saxe, e por este caminho vai com igual gloria el Rey da
Prussia.
Mas hum Almirante, ou hum Capitaõ de Mar e Guerra naõ somente deve ter
toda a instruçaõ de que necessita hum General, mas ainda aquella de
mandar no mar: naõ somente necessita da instruçaõ das Mathematicas,
Astronomia e Sciencia Nautica, mas de muitos e muitos conhecimentos
politicos para comprir os seos importantes Cargos. Deste modo necessitaõ
os que haõ de governar hum Regimento, ou hum Exercito, hum Navio de
Guerra, ou huma armada, ter tal educaçaõ, que sejaõ capazes de obrarem
acçoens illustres, e de as escrever, como fez Xenophonte, Cesar, e o
Marechal de Saxe nos nossos tempos, e outros muitos dignos destes
importantes Cargos.
No tempo de Philippe Quarto presentáraõ ao Conde Duque de Olivares hum
retrato do Estado Politico de Castella, e das Cauzas da sua
decadencia[74]: e huma das principais que allega, se reduz á seguinte
discussaõ; que a Cauza da decadencia daquella Monarchia foi que o valor
e a força não fora conduzida nem ajudada pela sciencia, nem pela arte;
que confiandosse na riqueza da Monarchia, que desprezáraõ os Tratados de
Allianças: e que nas Embayxadas empregavaõ os Senhores mais authorizados
e ricos, sem attenção alguma da sua capacidade; que tomavaõ por
Secretarios aquelles homens que estavaõ de antes ao seu serviço, ou
debayxo da sua protecção, sem dependencia alguma da Corte, e ignorantes
dos negocios politicos; que deste modo, tudo o que se tratou com as
Potencias Estrangeyras, foi com prejuizo do Reyno, como se experimenta
nos Tratados de paz, e de comercio, e nos regramentos dos Correyos, e
outras estipulaçoens publicas: que semelhantes Secretarios deviaõ ser
educados conforme pedia o seu emprego; porque estes saõ aquelles que
põem em ordem os despachos, e tudo aquillo que o Embayxador ou o Enviado
considera ou nota ser necessario sahir da Secretaria; e que do bem
ordenado, ou bem escrito, he que depende mui frequentemente o feliz
successo.
O Duque de Lorena, Generalissimo dos Exercitos do Emperador
Leopoldo[75], reprezentou a este Monarcha que naõ podia subsistir
aquelle Imperio por falta da Educaçaõ da Nobreza, sendo incapaz de
servir os Cargos publicos, ou na guerra ou em tempo de paz; e que para
occorrer á total ruina do Estado, que propunha huma Escola que se devia
erigir a propozito para satisfazer esta necessidade.