passar aquellas duas columnas, que Leonardo e Alberto levantáram no
estreito limite da policia civil, que, imaginando que lhe fugia o
tempo, sem o dar ao doutor, para vir com elle, obrigou a Feliciano
a que se fossem mais cedo a casa do D. Julio, dizendo-lhe pelo
caminho:--Certo que não desejei cousa como alliviar ao doutor do
trabalho d’esta empresa; que, posto que a sua auctoridade culpa o meu
atrevimento, tambem o amor, que tenho ás sciencias, o favorece.--Muito
bem estivera na vossa mão (respondeu elle) por quão boa a tendes para
tudo: porém não desejeis de a tirar da sua; porque até em aquillo, que
eu sei muito melhor que outros, quizera antes ouvir aos que sabem mais,
que escutarem-me elles: e a razão é, que, além de aos antigos estar tão
bem a confiança, como aos mancebos o receio, vou pesando o que lhes
ouço com o que eu tinha para dizer, e faço mais certo juiso de meu
cabedal para outras occasiões. E n’este appetite me parecestes homem
que sabe a historia que ouve contar, que se adianta nos passos d’ella
ao que a vai dizendo, e por mostrar que a sabe, faz perder o gosto ao
que a ouve, e o feitio a quem a relata. Lanço é de habil essa prestesa,
e ferir lume com qualquer golpe; mas de sizudo dissimular as faiscas.
Não vos abataes a todo o passaro, ainda que seja da vossa ralé, que
não haverá quem queira caçar com vosco.--Mas quereis (tornou o amigo)
que me fizesse mar morto, sem levantar ondas quando me vem o vento
tão fresco: muito repugna a agudeza do engenho á paciencia de um
fleugmatico como vós, que não sei dobrar as mãos quando a pélla me vem
pular aos pés; e cedo vereis se tem razão a minha cubiça.--Perto estaes
(disse Feliciano) do desengano, e muito mais perto da casa de D. Julio.
N’esta pratica chegaram a ella, e não muito depois os companheiros,
e como Solino, em entrando, os vio sentados, disse logo:--Todavia
viestes deante para mostrares que ereis os mordomos da festa: e muito
confiados na eloquencia, e auctoridade do doutor, vos parecerá que
tendes a fogaça em casa, e eu cuido o contrario, se eu entrar na lucta,
e vos não valer; que o dia, que se prega de um Santo, é elle o maior
de todos.--Não sei que tendes contra as lettras (disse Leonardo) que,
sendo tão grande amigo de Pindaro, vos picaes sempre contra a sua
profissão.--Dir-vos-hei (respondeu Solino) o d’onde isso nasce; e é
que as lettras não posso negar que são cousa boa, mas assentam as mais
vezes sobre ruim papel; e como é feito de trapos, tenho achado tantos
n’elles, que me aborrecem.--Melhor dissereis trampas, (tornou elle).
Porém no amigo que por vos fizeram?--Ir-se-me todo em lettras (replicou
Solino)--Não é razão (accudiu o doutor) que vos adeanteis tanto
para me tomar a estrada: deixae-me primeiro falar, que eu vos darei
tempo quando me quizeres arguir; que, por mais que se apure a vossa
murmuração, não pode diminuir os quilates e preço das sciencias.
--Pede razão o doutor (disse D. Julio) e porque elle e os mais
desejavam de o ouvir, fizeram silencio; e elle começou d’esta
maneira:--Duas cousas me envergonham n’esta empreza, que a puderam
facilitar em outro sujeito, a clareza manifesta da muita vantagem
que tem a creação das escolas a todas as outras. A segunda poder
mostrar deante com exemplos vivos o que hei de provar com razões menos
sufficientes, e que sempre á sua vista ficarão limitadas. Porém para
accudir á obrigação, em que me puzeram, deixo a que tenho ás lettras,
que era não pôr em disputa, como cousa duvidosa, o seu merecimento,
e a muita differença que faz o estudo d’ellas a todos os outros
exercicios; porque as escolas, e universidades do mundo, que foram
instituidas para o governo e conservação d’elle, são o coração dos
reinos, onde estão fundadas, do qual sáem as operações principaes
para o regimento da vida civil. E se, como diz Cassiodoro, ha tanta
distancia do que alcançou sciencia ao idiota, como de homem ao que
o não é: julgae quanto importe a creação das escolas, onde todas se
aprendem, em differença de outras profissões, em que só por experiencia
e communicação chegam algumas sombras das vivas côres da sabedoria.
Esta é a razão, porque Diogenes buscava um homem entre os que o
pareciam: e o porque disse do que viu estar sentado sobre um penedo
_que estava pedra sobre pedra_. E assim como os metaes, que entre
ellas se criam, sáem brutos, e toscos e desconhecidos, até que por
via da fundição e beneficio da arte tem lustro, preço e merecimentos,
assim a forja, em que se apuram os homens, e se põem nos quilates
com que hão de ter a valia que a este nome se deve, são escolas, nas
quaes da mesma maneira, que por alchimia de cobre se faz ouro, n’ellas
de um idiota, e quasi bruto se faz homem com saber, merecimentos, e
sufficiencia para se avantajar do vulgo. E começando da grammatica
das linguas, que é o primeiro degrau das lettras, ou, como disse um
auctor grave, a primeira porta por que se entra a todas as sciencias,
com cujo beneficio ellas se conservam, e se perpetúa a memoria das
coisas; ainda que, como escreve Quintiliano, tem mais de trabalho, que
de ostentação; é, como diz Izidoro, o fundamento de todas as artes
liberaes, e disciplinas nobres. A esta dividem alguns em artificial,
historica, e propria: que a primeira ensina o concerto, e disposição
das lettras, com que escrevemos; a ortographia, e propriedade das
palavras que falamos; a segunda, e terceira pertencem ao conhecimento
dos logares, e obras dos historiadores, e poetas, e a explicação do
que n’elles por antiguidade, e differença da lingua está escuro e
duvidoso, mórmente nas tres linguas hebraica, grega, latina, das quaes
triumphando a carreira dos annos deixou em muitas edades differença.
Na primeira da hebraica e chaldêa. Na segunda na grega commum, attica,
dorica, laconica, e eloica. A terceira em prisca, latina, romana, e
mixta: e em umas e outras, e na propria de cada um ensina a grammatica
a pronunciação das lettras, o som, e accento diverso das palavras, a
distincção das vogaes, e consoantes, e a ordem de falar com pureza, e
policia. E se este primeiro degrau é tão necessario aos homens, que
parece que sem o conhecimento d’esta arte lhes não é licito abrir os
beiços; que será levantar-se, e subir ao cume mais alto das sciencias,
e disciplinas nobres? O segundo degrau d’esta escada é a logica, arte,
que ensina a distinguir e fazer differença do falso ao verdadeiro, e
do torpe ao honesto; e como o entendimento é causa do obrar, assim o
é ella do entender: é o peso, e balança, em que se conhecem todas as
cousas leves, e pesadas; arte, que não sómente ensina a saber a verdade
de todas as cousas, mas a poder manifestal-a aos que mentem; reduzindo
a dez cabeças, ou predicamentos, toda a variedade de cousas que o mundo
tem, achando o verdadeiro modo de definir a todas ellas, e descobrindo
os generos, especies, differenças, substancias, e accidentes; esta
ensina diversos modos de arguir, provar e sustentar o que concebemos
no entendimento: pelos quaes officios é esta arte tão celebrada, que
Platão, e depois d’elle Santo Agostinho a fizeram parte da philosophia,
dividindo-a em moral, natural e racional. Aristoteles, Scoto, e outros
lhe chamam sciencia, e instrumento de saber: de cujo testemunho, e
verdade se alcança que sem o conhecimento d’ella não pode um homem
falar seguro entre os outros. E posto que ha tão boas disposições
de entendimentos, que naturalmente discorrem, e conhecem sem favor
da doutrina estas miudezas; comtudo sem o favor da arte escurece ás
mais vezes a clareza do engenho. O terceiro logar é da rhetorica,
que ensina a falar bem, e a persuadir aos ouvintes com razões bem
concertadas ao intento do que pratica, não fazendo o fundamento na
verdade do que diz, senão no concerto, e semelhança da razão, com
que obriga, e move. E porque d’esta arte se fala mais diffusamente
n’esta conversação em favor da linguagem portugueza, passarei d’ella
á poesia, arte tão nobre, e desejada, que, trabalhando sempre os
invejosos por escurecer seu preço, lhe não puderam tirar o que hoje
tem na opinião e exercicio dos principaes senhores de Hespanha: e
bastava para o seu grande valor ser conhecido ter n’ella o fundamento
toda a philosophia, pois Plutarco conta, e Aristoteles confessa que
todos os philosophos, e suas diversas seitas se derivaram das poesias
de Homero: e não só deu principio a ella, mas Prometheu, Lino, Muzeu,
e Orfeu, e esses mesmos, e outros deram fundamento ás deidades, que
os antigos ritos da gentilidade veneravam. E deixando a recommendação
de seus louvores para quem com vivo exemplo pode tratar d’elles,
dizendo de sua perfeição, e grandeza o que eu em tão limitadas horas
não posso dignamente declarar; passarei á mathematica: e, como a parte
principal d’ella, á geometria, arte tão excellente, e tão necessaria
ao cortezão, que favorece todas as boas partes que n’elle se requerem;
e tão natural ao sabio, que Platão tinha na entrada da sua escola um
letreiro que dizia: _não entre n’esta casa homem, que não saiba
geometria_. E Filo Hebreu diz d’ella, que é princeza, e mãe de todas
as disciplinas. E Francisco Patricio na sua republica, soccorro, e
presidio de todas as artes. E Platão escreve d’ella estes louvores, que
levanta o animo, e pensamento ao estudo da verdadeira philosophia, o
que é necessaria para a conquista de todas as disciplinas, favorecendo
a arte militar no formar dos campos, dispôr os esquadrões, recolher
e dividir as companhias, sustentando a cosmographia em suas medidas,
a architectura em suas proporções, a arithmetica, e musica em seus
numeros, e a outras infinitas; medindo em todas ellas as fórmas,
espaços, grandezas, medidas, corpos, pesos, e todas as cousas que
d’elles se compõem; e de medida de agua, vento, terra, nervos, cordas,
e cousas semelhantes, como torres, fortalezas, relogios, moinhos, e
instrumentos de musica; consta de linhas rectas, curvas, flexuosas,
perpendiculares, planas, parallelas, e de angulos, rectilineo,
curvilineo, direito, agudo, e obtuso; finalmente de superficie,
circulo, circumferencia, centro, diametro, e outros nomes, e termos
naturaes d’aquella arte, que na pratica commum parecerão peregrinos, e
de que é bem que o homem cortezão se não ache alheio. Atraz d’esta se
segue sua companheira a astrologia, sciencia tão levantada, que penetra
da terra os segredos das estrellas, tratando do mundo em universal, e
em particular, das espheras, dos orbes, do movimento, e curso d’elles:
das estrellas fixas, e de seus aspectos: da theorica dos planetas:
dos eclypses do sol, e da lua: dos eixos, ou pólos celestes: dos
climas, e hemispherios: de circulos diversos excentricos, epyciclos,
retrogrados, raptos, accéssos, e recéssos, e outros semelhantes: e
de outros muitos movimentos pertencentes aos céos, e ás estrellas,
de cujo curso, e estações de tempos se faz natural juizo das cousas
futuras tocantes á agricultura, e navegação, não admittindo a especie
supersticiosa dos mathematicos, que é a astrologia judiciaria. E
passando d’esta á philosophia, sem cujo conhecimento parece que os
homens não podem alcançar perfeição alguma; é tão levantada, que lhe
chama Santo Izidoro, no II das suas Etymologias, sciencia de todas
as cousas divinas, e humanas, em quanto é possivel ao homem alcançar
d’ellas. E Platão diz que ella é o maior bem, que Deus concedeu aos
homens: porque ella é a lei da vida, a estrada da virtude, a fortaleza
contra os vicios; a fórma das acções humanas, o lume de nossas obras,
a ordem dos pensamentos internos, regra do entendimento, a mestra dos
nossos costumes, e descobridora dos segredos elementares: mas comtudo
não chegou a conhecer a philosophia christã, a qual envolve as tres
virtudes theologaes, cujo proprio officio é o que escuramente Platão
tocou em seus louvores: e finalmente a contemplação de todas as cousas
supremas do céo: e para as da terra ella é a chave que abre os segredos
da natureza: que ensina a viver com disciplina; que destroe os erros,
e aclara a confusão, e trevas do entendimento; une as differenças;
restitue o governo com ordem; rege as cidades com justiça; e administra
as nações com sabedoria. E repartindo estes attributos seus pelas
cinco partes, em que se divide, physica, ethica, economica, politica,
metaphysica; a primeira trata dos principios naturaes, e movimentos,
quietação, finito, logar, vacuo, tempo, especies de movimento, medidas
do tempo, até chegar ao primeiro e supremo movedor de tudo. A ethica
se emprega na composição dos costumes, e na moderação das paixões
humanas, em que consiste a felicidade da nossa vida. A economica ensina
o governo, e regimento particular da casa, familia, mulher, filhos, e
criados. A politica dá os preceitos á legitima ordem, e governo das
republicas, reinos, e cidades, assim em razão dos que mandam, como dos
que obedecem. A esta chamou Isocrates _alma das cidades_; porque
n’ellas faz o mesmo officio, que a alma em um corpo. E Socrates lhe
chamou _sciencia dos principes_; porque a elles mais, que aos
outros homens, pertence o conhecimento d’ella. A metaphysica trata
das cousas, por altissimas, segregadas de toda a materia sensivel,
e ainda intelligivel do modo que os bons metaphysicos n’esta divina
sciencia praticam. Finalmente considera as fórmas separadas, passando
da contemplação das da natureza á das sobrenaturaes; das corporeas,
das idéas, dos atomos, da materia prima, da introducção das fórmas,
do fado, da eternidade do céo, dos transcendentes, das intelligencias
assistentes ás espheras celestes. De modo, que só nos principios moraes
d’esta sciencia está fundada toda a doutrina da côrte, e da milicia,
que nas noites dos dias atraz se tem mui doutamente praticado. Na
physica que é, como tenho dito, a primeira parte da philosophia, está
fundada a arte da medicina, que assim pelo importante sujeito em que
se emprega, como pelas artes, e sciencias, que lhe ajunta, e encadeia,
é o conhecimento d’ella mui digno do homem sabio, e bem nascido. Esta
se divide em empirica, methodica, dogmatica, ou racional. A primeira é
fundada sómente na experiencia dos remedios, nas virtudes das hervas,
pedras, plantas, e animaes. A segunda considera sómente a substancia
das enfermidades, sem respeitar conjuncção, tempo, logar, região,
edade, natureza, ou habito. A terceira, não despresando a experiencia,
nem a razão dos exemplos d’ella, abraça tambem as naturaes, em que está
fundada a arte. Na ethica politica tiveram principio as nobilissimas
profissões, e sciencias das leis civis, e sagrados canones, e derivadas
d’estas fontes da philosophia, e do direito natural, e divino.
E se, como disse Solon, a republica, que não tinha leis, semelhava
um monstro, que não tinha mais que o parecer humano; assim se pode
imaginar o homem, que não tiver noticia d’ellas, que, por serem tão
importantes ao mundo, endeusaram os antigos todos os inventores
d’ellas, como Saturno, Belo, Minos, Pheaco, Solon, Licurgo, e outros
muitos: e os nossos maiores fizeram leis segundo a differença dos
estados; não umas sós, por que todos se governassem, mas convenientes
ao genero da vida que cada um tomava. E assim os que apartados do
gremio da republica civil se empregam no serviço da egreja, obedecem
ás leis que os summos pontifices, e os concilios dos padres ordenaram,
que são os Canones Sagrados: porém os seculares se governam pelas leis,
e ordenações, que os seus reis fizeram, ou confirmaram; recorrendo em
os casos, a que os particulares não alcançam, ás leis imperiaes dos
romanos, e disposição do direito commum. E de quererem confundir esta
tão necessaria differença os perfidos scismaticos, negando auctoridade
ás leis allumiadas pelo Espirito Santo, na cega confusão das suas,
que fundam em sua depravada liberdade, vivem em escuras trevas:
sendo como disse Tullio as leis vinculo da republica, fundamento, e
segurança da liberdade, e fonte da justiça. E por vos não parecer que
na minha profissão particular me extendo muito, deixo o que d’ellas
pudera dizer, que é infinito, começando dos primeiros legisladores
até o estado presente, em que esta profissão está tão levantada, e
ennobrecida. E só pela reformação do imperador Justiniano estão em seus
volumes escriptas doze mil e setecentas e sete leis, tiradas de muitas
mais que confusamente estavam nos livros romanos derramadas. E subindo
da metaphysica á divina theologia, fundada sobre a verdade evangelica,
se apura um homem, e chega ao mais alto a que se pode levantar o
entendimento humano. Esta se divide em escolastica, e escriptura: a
primeira é a que com argumentos fortes, razões demonstrativas, e provas
invenciveis, disputa contra os hereges, e infieis, em todos os dogmas
importantes á verdade da Fé Catholica Romana: como é da Trindade, e
Omnipotencia de Deus, da presença divina, da predestinação, do livre
arbitrio, da graça, da justificação, da gloria; do peccado, das penas,
do logar do Purgatorio, dos Sacramentos, e dos Artigos de nossa
Fé. A Escriptura consiste na interpretação, e exposição da Sagrada
Escriptura, segundo os quatro principaes sentidos d’ella, que são
literal, moral, tropologico, e anagogico: com cuja noticia dada aos
homens por meios da sciencia, como antes foi dada por revelação aos
prophetas, apostolos, e santos padres, não só dão perfeição ao sabio,
mas o fazem parecer uma semelhança de Deus na terra. E supposta esta
grandeza das sciencias, com cujo lume fica tão claro o entendimento
humano como tenho dito, que outra cousa é universidade, que uma côrte
especulativa, em a qual se sabe o que nas dos reis se executa; onde
á vista dos doutores prudentes, na lição dos mestres escolhidos, na
communicação dos nobres bem acostumados, na conversação modesta dos
religiosos, está o nobre em uma continua lição de policia, tendo por
palmatoria de seus erros a vergonha de os commetter á vista de tantos
censores d’elles; ajudando a advertencia de lhes fugir a curiosidade
com que se espreitam, e a liberdade com que se reprehendem: pois a
entrada nas escolas, a assistencia nas aulas, qualquer pequeno descuido
se rebate com os pés dos que n’ellas assistem, obrigando a todos á
compostura do rosto, á quietação do corpo, á modestia do trajo, á
pontualidade na cortezia, ao cuidado no falar, e não se querer algum
fazer singular entre os outros. Tem as escolas além d’estes um bem,
que favorece esta opinião, e é que de ordinario os que as buscam,
ou são filhos segundos, e terceiros da nobreza do reino, que por
instituições dos morgados de seus avós ficaram sem heranças, e procuram
alcançar a sua pelas lettras; ou são filhos dos homens honrados, e
ricos d’elle, que os podem sustentar com commodidade, nos estudos; ou
religiosos escolhidos nas suas provincias, por de mais habilidade,
e confiança para as lettras, e assim fica sendo a gente mais creada
do reino; differença, que não pode haver na côrte, e na milicia. E á
vista de tantas vantagens, sem tratar de outras particularidades menos
importantes, me parece que tenho mostrado o quanto seja mais, que todos
os outros exercicios, proveitoso o das lettras, pedindo por a dignidade
d’ellas ao prior, e a Pindaro, e Feliciano, que tomem á sua conta
aperfeiçoar o que eu não soube dizer, pois o exemplo de suas partes é
a mais legitima prova de minhas razões.--As vossas (respondeu o prior)
menos dão logar a glosas, que a invejas; e se essa me deixara dizer
os louvores que vos devo, renovára no vosso sujeito os das escolas,
pois n’ellas nos mostrastes o que sois, que é um mappa de todas as
sciencias, tão perfeito, distincto, e intelligivel, que parece que as
pode medir qualquer rasoado entendimento; porque recolhidas em vós
como em proprio centro estão na sua altura.--Esta vantagem (accudiu
Feliciano) tem os que sabem perfeitamente, que não é só para si, mas
para ensinarem aos com que falam. Certo estava eu que o doutor sabia
de tudo o que disse, não só os termos, e fundamentos, mas ainda o mais
difficultoso, e substancial de todas as artes, e sciencias: mas o
praticar dellas de modo, que eu as entendesse, é graça de seu saber,
e não sufficiencia do meu engenho.--Tambem essa sua submissão (disse
Leonardo) é grande prova dos merecimentos de vossa habilidade, que
a essa nada ficaria escuro, senão o que por culpa de quem falasse
estivera confuso: porém em mim se vêem mais os poderes do doutor,
que o posso agora parecer no que lhe ouvi.--A isto (accudiu Solino)
_todos dizem amen, amen, sinò D. Sancho que calla_. Pindaro
está descontente, pois que emudeceu: se o deixarem, elle vos fará
guerra.--Para que a quereis commigo (respondeu Pindaro) se as razões
e a occupação da noite é do doutor? a elle podeis contradizer; que
para o que calla não servem argumentos.--Bem sei (replicou elle)
onde estão os páus; mas quizera costear a bolla por este rodeio, que
todos os lettrados sois como cerejas, que se vem após uma todas as
outras.--Ahi não ha cousa boa sem contradicção (disse D. Julio) ouçamos
as de Solino, e veremos quem tem lebre.--E por vós correrdes esta (lhe
disse elle) metteis os cães na mouta, e quereis (como dizem) tirar
a sardinha com a mão do gato: na vossa tendes a faca, e o queijo,
cortae, que não falta por onde: que eu não tenho nenhuma cousa
contra o doutor, salvo se elle me deixar com os outros do seu
gráu que o não merecem; que eu farei um _A_, _B_, _C_, por onde á
primeira vista lhe conheçam logo as lettras.--Já desde hontem (disse
o doutor) os tendes ameaçado; e eu consenti no desafio: não sei agora
a causa, porque o temeis.--Porque (disse elle) tendes no campo muitos
padrinhos da vossa parte, que o são minhas n’esta demanda. Porém
dae-me licença, que em boa paz vá botando a rasoura a esses louvores
das sciencias que accogulastes; e sabereis que de cento não ha um
lettrado, que não traga cascavél, por onde lhe conheçaes a altura em
que anda como furão; e se o tirardes do bairro de sua profissão, se
perde na metade da hora do dia, como em bêcco sem sahida: para o que
eu tenho um astrolabio excellente, que me deu a experiencia em penhor
do serviço de alguns annos sem galardão, que ainda o tempo me deve.
Primeiramente, como o vós virdes falar por _secundum quid_ e
metter a _materia prima_, e dividir _em abstracto_, accudindo
a um _ergo_, e a _fortiori_, assentae-m’o por logico: mas se
vos falar em _superficie plana_, e _figura quadrilatera_,
_corpo rotundo_, _semicirculos_, e outras semelhantes cousas,
entendei que é geómetra, se o ha no mundo. Se vos disser dos _nervos
opticos, dos meatos, intestinos, veias mezeraicas, palpitações,
sufocações, apoplexias, ophtalmias_, matriculae-m’o na medicina:
se vos desandar com uns pontinhos das regras de direito, que são os
anexins dos juris-consultos, e falar em _ad rem, e jus in re, e em
liti pendente, e in rei veritatem, in foro exteriori_, e outros
verbos d’esta linhagem, não escapa de jurista. Ora os theologos, que
pela preeminencia, e grandeza de sua profissão tem logar apartado aos
dois lanços se alevantam da conversação com a materia dos anjos, e
dos auxilios, e outras, em que vos deixam o entendimento em jejum,
sem darem um bordo á commum, e civil conversação dos cortezãos. Pois
se qualquer d’estes, que digo, acerta de ser official de grammatica,
além de debruar tudo de versos de Ovidio, e de sentenças de Plauto e
de Terencio, por levar o portuguez arrastro até o fazer latim,
fala por _septe_, _docto_, _scripto_, e _benigno_. De maneira
que para bem, e conservação da lingua portugueza, e para se não
corromper de todo, me parecia que se houveram de arruar os lettrados;
que receio, se se misturam, que em poucos annos nos achemos em uma
certa Babylonia.--Não cuidei (disse o doutor) que estaveis hoje tão
venial; a isso chamam morder na capa: esperava eu que viesseis com
algum libello mais rigoroso contra os lettrados; que essas palavras,
que se lhes pegam dos termos das mesmas sciencias, não são defeituosas,
ainda que não sejam vulgares; porque muitas vezes significam mais
propriamente que as outras.