--Bem esteve o libello (replicou Solino), mas se lhe quereis uns

artigos accumulativos, com a auctoridade d’um auctor moderno, diz elle

que tres cousas deu Deus ao homem de maior estima, que os letrados lhe

tem deitado a perder, que são corpo, fazenda e consciencia: o corpo

os medicos que com suas purgas, xaropes e sangrias, nem a invenção

da polvora foi mais prejudicial que elles para a vida. A fazenda os

legistas, que com demandas, embaraços e conluios a põem cada dia em

passamento, sem haver entre a poeira de suas encontradas opiniões quem

enxergue a verdade: e ainda para si proprios vereis poucos medicos

sãos; e nenhum legista vencer demanda sua. Dos da consciencia não

quero tratar por ser cousa perigosa: mas ha muitos que fazem por esta

parte grande damno. E posto que isto não é culpa das sciencias, senão

dos letrados, elles tiraram a innocencia fóra do couce, e abriram de

par em par as portas á malicia, semeando enganos e hypocrisias, de

que andam mais inçadas as escolas, que de nanteos de fêsto: isto é

quanto á linguagem e aos costumes: que na policia do vestir, a sua

anda fóra do roteiro dos cortezãos; porque o letrado que se quer

trajar galante, como não sabe por uso, segue extremos; porque ou traz

a espada que lhe dá com os cabos nas virilhas, ou tão alta que lhe vem

comer á bôcca; e por fazer addições ao vestir de modo accrescenta de

novo que se conhecem na côrte os estudantes entre os outros homens,

como podengos de agua pela guedelha: e pelo costume do barrete, ou

tiram o chapéo de meio a meio, ou o penduram pela ponta do cairel,

como em tenda de sirgueiro.--Bem sei (disse o prior) que quem vos

agora fôr á mão dará nova materia á vossa habilidade: mas sem embargo

de todas as culpas que arguis aos letrados, que eu agora não trato

de defender, por vos não ajudar a vós e offender a elles, vós sabeis

a differença que elles fazem aos outros homens, que não aprenderam;

pois sem habilidade, exercicio e doutrina não se alcança sabedoria,

de maneira que muitos idiotas não fazem um letrado.--Tambem eu sei

(respondeu Solino) que muitos letrados não fazem um homem cortezão;

e que este ás vezes vence em pouco tempo o que elles trabalharam em

muitos annos: porque além de ser comprido o caminho das sciencias

por preceitos, e breve por exemplos, o cortezão, que o é, põe de sua

parte maior desejo de saber uma cousa que o estudante: e é certo que

alli tem maior força o engenho onde está mais prompta a vontade: e

no que toca aos letrados pudera eu agora trazer um par de historias

em meu favor, que cabiam n’este proposito.--A essas (disse Leonardo)

não faltará logar em nenhum tempo, porém é gastado parte do d’esta

noite: e pois esta foi das lettras, não mettamos contra ellas maior

cabedal.--Agora (acudiu Pindaro) lhe destes jogo, porque lhe parece

que nos perdoou aquellas historias; sendo cousa clara que toda a sua

opinião nasceu de uns principios de grammatica que teve; que, depois de

ferrugentos n’aquella edade, os alimpou com a cinza do borralho d’esta

aldeia para se levantar contra os que sabem; sendo sua murmuração

puras fezes de idiota; e se o virem entre os rusticos do termo falar

latins, notar prégações, aconselhar em demandas, e applicar medicinas

a enfermos, dirão que é manta de retalhos das escolas, e presa-se de

dizer mal do que acredita.--Já parece (respondeu Solino) que tomastes

folego, que estaveis mui mortal: a verdade é que não sois agudo, senão

quando vos dou quatro fios sêccos na minha sufficiencia; e de a eu ter

para tudo, me nasce abranger aonde vós não chegaes; que, segundo a

capacidade dos que aprenderem, aproveita a doutrina dos que ensinam: e

sabei outra cousa, que se não póde chamar sabio o que não conhece os

nescios, e d’estes que nenhum se conhece a si.--_No se maten tales

dos_ (disse Leonardo) deixemos as letras em paz, e a Solino com seu

credito; que são horas de partirmos esta briga, e acabar por hoje a

conversação.--Em todas me é de proveito o vosso favor (disse Pindaro)

e mais agora que estava colerico contra meu amigo; que, ainda que o

não pareça no modo com que me encontra, eu o sou seu na verdade com

que o amo, e estimo suas cousas.--Amisade (respondeu elle) quando é

segura não periga, nem quebra em tão pequeno salto; que nem por este

deixaremos de ir juntos para casa. E querendo os mais levantar-se,

começaram alguns a fazer juizo das duas noites passadas com aquella:

porque cada um era interessado na profissão que se seguia, se calaram

deixando a eleição ao voto de quem o tiver desapaixonado, se ha algum

que ao menos na inclinação o não seja á côrte, armas e lettras, de

cujo fructo, se são muitos os queixosos por parte da ventura, nenhum

ha que da sua propria sufficiencia se mostre descontente.--Eu o estou

de mim (disse o doutor) porque esta madrugada determino fazer um

caminho á cidade, em que me hei de deter alguns poucos de dias, e esses

hei de ter de penitencia na falta de tão boas noites: e para isto

peço licença ao sr. D. Julio.--Porque consentir n’essa (respondeu D.

Julio) é obedecer-vos, o faço muito á minha custa, com tal condição,

que volteis com muita brevidade, que sem vós nem podem estas praticas

ir deante, nem deixarei de sentir agora muito mais a falta de vossa

conversação, partindo-se ámanhã, como determina, para a sua egreja o

sr. prior.--D’essa maneira (acudiu Solino) faço conta que se dividiram

os dialogos das noites de inverno, e que ficam servindo esta, e as

passadas de uma primeira parte d’ellas, que se continuará com a vossa

boa vinda; e em tanto se apurarão os entendimentos e a linguagem para

materias e sujeitos mais escolhidos que sejam proveitosos e agradaveis

aos ouvintes.--Em muitas outras cousas (disse Leonardo) soffrêra eu

intervallos, mas n’esta conversação os sinto agora por extremo; por

isso, já que n’ella nos tendes bem acostumados, não tardeis muito.--Até

nos gostos (tornou o doutor) a muita continuação causa fastio; pelo que

os auctores discretos, por não cansarem com elle o juizo dos curiosos,

dividem seus volumes em partes, e essas em capitulos e outras divisões,

que com a novidade e brevidade, facilitem a leitura.--Fazem elles muito

bem (disse Solino) que ha uns livros sem estalagens, tão compridos

como leguas do Alemtejo, que os deixa um homem muitas vezes no signal

da cruz, por se não atrever a os levar de um trago. E tambem os poetas

nas suas comedias, que são mais proprias para recreação e passatempo,

dividiram a obra em actos, a que agora chamam jornadas, e essas

repartiram em scenas; e por divertir da gravidade e decóro das pessoas

introduzidas, inventaram os comicos modernos entremezes e bailes. Não

vos detenhaes muito, e tornaremos ao nosso exercicio com maior desejo e

melhor cuidado.--Eu o terei (respondeu elle) de fazer pouca tardança;

que o interesse me não deixará cahir em descuido, quanto mais esta nova

obrigação em que me pondes.

Dizendo isto se levantou, e os mais o vieram acompanhando, feita

primeiro cortezia ao senhor da casa, e aos hospedes que ficaram

n’ella. Em quanto com a falta daquelles assistentes a houve tambem na

conversação das noites que se seguiram, será justo que descansemos

um pouco da continuação d’este estylo; que se ao gosto dos curiosos

leitores fôr bem acceito, sahirá brevemente á luz outro volume de

dialogos, que espera vêr o successo dos primeiros; pois esta virtude de

escrever não tem no auctor d’elles outro fructo mais, que a satisfação

dos animos affeiçoados a seus escriptos, aos quaes com o trabalho de

suas obras deseja pagar a vontade e opinião com que acreditam.

FIM DA “CÔRTE NA ALDEIA”

ECLOGA

CONTRA O DESPRESO DAS BOAS ARTES

ECLOGA

CONTRA O DESPRESO DAS BOAS ARTES

(=Bieito, Aleixo, Corino.=)

BIEITO

Uma novilha dourada,

Que anda naquella floresta

Com uma estrella na testa

Silva branca e remendada,

Viste, Aleixo, d’onde veio,

Que anda alli sem companhia?

ALEIXO

Quiçais se derramaria,

Será d’algum gado alheio.

Para nós se vem chegando,

E se eu tenho ainda o meu tino.

A novilha é de Corino,

E o pastor anda-a buscando.

É n’estes pastos extranha,

Veio ha pouco a seu curral,

Acha-se no campo mal,

E foge para a montanha.

BIEITO

E d’onde houve aquella rez.

Que elle poucas vacas cria?

ALEIXO

Ganhou-a n’uma porfia

Nas festas, que Ergasto fez.

Houve então grão desafio

Em lucta, canto, e louvores,

Venceu todos os pastores

Da serra, e d’além do rio.

BIEITO

Muito sabe, mui bem canta,

Muito faz quem se lhe atreve:

Como dança! como é leve!

Que voz tem! como a levanta!

Viu, correu muitas aldeias,

Viveu numa, e n’outra parte;

E com ser só na nossa arte,

Sabe o muito das alheias.

E segundo tenho ouvido,

Já elle houve outro cuidado

Bem longe de guardar gado

Com o nosso trajo, e vestido.

Foi na villa dos melhores:

Mas uma dor bem sentida

Fez que deixasse essa vida,

E buscasse a dos pastores.

Mas ainda quando se eguala

Com o nosso modo aldeão,

D’outra sorte dá razão,

D’outra sorte canta, e fala.

ALEIXO

Digo-te que assim parece;

Que logo na arte, e no geito

Tem uma graça, um respeito,

Que aos pastores nos fallece.

Vêl-o? assoma na ladeira;

Anda o bom pastor sem tino,

Chamo por elle, ah Corino.

BIEITO

Não responde com canceira.

Cá anda a tua estrellada.

Para nós vem, já nos vê:

Façamos que um pouco estê

Com nosco n’esta abrigada.

Que uma hora do seu falar,

E um lanço do seu saber,

Nem é para se perder,

Nem é para se pagar.

CORINO

Deus vos salve: venho morto.

ALEIXO

Senta-te descançarás.

CORINO

Corri todo o valle atraz,

E ainda agora tomei porto.

ALEIXO

Tens a novilha segura;

Descansa e descuida d’ella.

CORINO

Folgo de achal-a, e perdel-a

Já não tenho em má ventura.

Porque é tão grande interesse

O de vossa companhia,

Que de ganho ficaria

Quando de todo a perdesse.

Ha muito que estais aqui?

BIEITO

Já sol fóra nos juntámos,

E até gora não cantámos:

Foi dita esperar por ti.

CORINO

Eu não sei negar-me: agora

Vedes que venho cansado,

Que não me quero rogado:

Cantára, se isto não fôra.

Faz seu officio a edade,

Sou já velho, a voz fallece:

Mas se a vontade merece,

Tendes bem certa a vontade.

BIEITO

Toma alento; então nos dá

O que sem te ouvir não temos;

Que a vaca nós a traremos.

E t’a levaremos lá.

Faze-nos prazer que ouçamos

Aquelle cantar primeiro,

Que te ouvimos no ribeiro

Quando acaso te topamos;

Que mui gabado, e mui raro

Para a coisa de que trata.

CORINO

Canto emfim: que quem dilata

Dizem que quer vender caro.

E pois que em al não mereço,

Quero colher d’isto o fruito.

BIEITO

Tudo o que dizes val muito,

Mas isso só não tem preço.

(_Canta Corino_)

“Aqui nesta montanha,

Aonde este trajo humilde, e despresado

Dos homens não se extranha;

Aonde só com um cajado,

Vence a fortuna um pobre desarmado;

Aonde não tem valia

As mais custosas pedras do Oriente,

E as riquezas que cria

O mar, que ousadamente

Commetteu cubiçosa, e cega gente;

Aqui n’esta rudeza

Só de humildes pastores escolhida,

Aonde a natureza,

Já menos offendida,

Dá doce amparo á desejada vida;

Aqui meu desengano

Góso contente, e minha liberdade,

Livre d’aquelle dano

Da cega vaidade,

Que corrompeu nos homens a vontade;

Aqui de burel grosso

Me vestirei contente, e esquecido

D’aquelle traje nosso

Tão vão, tão mal trazido,

Dos primeiros principios esquecido.

Qual entre a concha amada

A tartaruga tem quieto abrigo,

Não se teme de nada,

E no maior perigo,

Escondida entre si, vive comsigo;

Tal o meu pensamento

Não quero que á ventura o logar deva;

Que não ha mór isento.

Nem que melhor se atreva,

Que o que tudo, que tem, comsigo leva.

Qual cobra na espessura,

Que deixa entre os espinhos esquecida

A velha vestidura,

E d’ella já despida,

Como anguia no mar, renova a vida;

Assim quando me vejo

Que começo a viver n’esta mudança,

Contento meu desejo,

Troco minha esperança,

Não quero mais de enganos, que a lembrança.

A cauta cotovia,

Vendo o ligeiro imigo, o voo nega;

N’elle não se confia,

Com a terra se apega,

Porque ali com as azas não lhe chega.

D’esta arte se defende

O Pastor despresado da ventura,

Que ella sempre pretende

Descer da mór altura

Quem cuida que no alto se assegura.

Da lã d’este meu gado

Coberto escaparei, terei socego;

Que n’ella disfarçado,

Em perigo mais cego,

Escapou do gigante o cauto grego.

E o meu desejo acceso,

Que encontrando a razão mal se empregava,

Ponha em mãos do despreso

Os bens que procurava,

Da liberdade minha, que era escrava.

Adeus doces enganos;

Já parece razão que vos despida,

Viveis ha muitos annos,

Deixae-me agora a vida,

Que, em quanto a vós tivestes, foi perdida.”

BIEITO

Ah! Corino, quem podera

Dizer agora o que sente,

Se, só com te vêr prezente,

A voz não lhe emmudecera.

Confesso que estou culpado,

Mas não só de atrevido:

Mil vezes te tenho ouvido,

E só agora escuitado.

Quem te trouxe entre pastores,

Aonde esta vida t’extranha?

Que póde dar-te a montanha,

Senão rusticos louvores?

Quem não sabe conhecer-te,

Como saberá presar-te?

Mas ainda acertaste em parte,

Pois vinhas para esconder-te.

Não fieis da serra tanto;

Que al vai de vêl-a a sentil-a:

Torna pastor para a villa,

E serás na villa espanto.

Não apouques ao teu muito,

Não vivas n’estas aldeias,

Aonde entre as ramas alheias

Se não conhece o seu fruito.

CORINO

Louvores mal empregados,

Quando as partes são presentes,

Menos deixam de contentes.

Pastor, que de envergonhados.

Porém te affirmo, Bieito,

Que n’estas nossas montanhas

Ás boas partes, e manhas

Se tem ainda algum respeito.

Que eu já na villa tratei

Muitos mezes, muitos annos,

Trouxe d’ella os desenganos,

Com que aos matos me tornei.

Aprendi muito, e bradavam

Os mestres para ensinar-me:

Ensinaram-me a queixar-me,

Porque todos se queixavam.

Depois de ter conhecido

Homens, e o seu proceder,

Aprendi a me esquecer

De quanto tinha aprendido.

Ouvi gabar esta vida,

Este trajo, este cajado;

Busquei-a agora obrigado

Da que já tinha perdida.

Que ainda cá por esta serra

Se ama o saber; se deseja,

Lá não lhe deixa a inveja,

Lugar, em que estê na terra.

Não se tecem já coroas

Para as partes estimadas;

Entre nós de envergonhadas

Se encolhem as artes boas.

Saber, e conhecimento

Fazem já desmerecer;

De sorte, que o não saber

Serve de merecimento.

Assim que é melhor partido,

Ao que busca o que convém,

Enterrar partes se as tem,

E andar dos outros vestido.

BIEITO

Á fé que não dizes mal

Quem m’o disse hora? qual dia?

Que o bem que perde a valia,

Porque entre os homens não val.

Cresce a virtude louvada,

A planta favorecida,

A vontade agradecida,

E a parreira alevantada.

Fui domingo a vêr a lucta,

E outros com grande alvoroço;

Vim encantado d’um moço,

Que alli cantava em disputa.

Dos pastores mais gabados

Tinha á roda mais de mil,

Que ao som do seu rabil

Estavam como enlevados.

Perguntei, vendo occasião,

Onde, e que gado guardava,

Entre nós? que eu n’isto dava

Primeira fé de affeição.

Eis quando alli se murmura,

Que se ia d’estas aldeias

A buscar terras alheias,

Ou buscar n’ellas ventura.

Engeitou-lhe a natureza

O bem de seu natural;

Então sustenta-se mal

A arte onde se despresa.

CORINO

As hervas que os gados pascem,

E as flôres que os olhos vem,

Mais poderes do sol tem,

Que não da terra onde nascem.

O grão, que na varzea cresce,

Com humidade arrebenta:

O sol cria, o chão sustenta,

Levanta-se e reverdece.

O enxerto já crescido

Com o sol, e agua accommodada,

Se cae sobre elle a geada,

Secca-se murcho, encolhido.

O bom natural é parte,

Que o despreso desanima:

Como a cousa não se estima,

Não podes d’ella prezar-te.

Vi eu d’isto uma pintura

Com arte e modo extremado;

E se inda estou bem lembrado,

Tinha ella esta figura:

Um mancebo que encaminha

Vôar com desejo acceso,

D’uma mão atado um peso,

Na outra umas azas tinha;

Uma livre, outra sujeita,

E dizia a lettra assim:

Se esta pésa contra mim,

Est’outra que me aproveita?

Quanto melhor parecera

Valer menos tudo o mais,

E que ás partes naturaes

A mão, e o favor se déra!

Em que se hão de conhecer

Os homens, se n’isto não?

Que em forças vence o leão,

E outro animal qualquer.

Nas partes que o mundo présa,

Quantas feras vão deante,

No corpo, gesto e semblante

Nas forças, na ligeiresa?

Só no saber as vencemos,

Com elle as senhoreamos;

E quantos n’isto encontramos,

Que nos vencem, não soffremos.

D’isto, em que o mundo se pôz,

Nasce já que os animaes

No que eram tão deseguaes,

Nos podem vencer a nós.

Não posso ter soffrimento

N’esta queixa, e não me val;

Que acanha um baixo metal

A um subido entendimento.

Os homens como pintura

Falam só com o que apparece:

Cada um monta e merece

Pelas mostras da figura.

Dizem que já n’outra edade

Falaram os animaes,

(E eu creio que por signaes

Inda hoje falam verdade).

Ouvi cantar como então

Se fez valente, e temido

Um vil jumento escondido

Nos despojos de um leão.

Emquanto de longe o viam

Os outros, fugiam d’elle;

Eram milagres da pelle

Do rei, a que elles temiam.

Quiz falar, buscou seus damnos,

Que os outros com raiva crúa

Fazem pagar pela sua

Da outra pelle os enganos.

Quantos ha na nossa aldeia

Leões e lobos fingidos,

Que houveram de andar despidos,

Se não fôra a pelle alheia!

Sem sabor, sem consciencia

Andam com ella entre nós,

Conhecem-os pela voz,

Honram-os pela apparencia.

BIEITO

O bom tempo é já perdido;

N’este de agora, em que estamos,

Taes somos, que nos mostramos

Ou no tracto, ou no vestido.

Vendem-se as mostras de fóra;

Al era no tempo antigo;

Deus dê repouso a Rodrigo,

D’isso canta, e d’isto chora.

Eram tempos deseguaes,

Tratava a sorte melhor;

Se ás partes davam louvor,

Não lhe negavam o mais.

Se Franco cantava bem,

Era por isso estimado:

E hoje quiçaes que é culpado

Por essa parte que tem.

CORINO

Muitos annos ha que dura

O queixume em toda a parte,

De vêr que não póde a arte

Vencer em tudo a ventura.

Mas se houve alguns queixosos

N’esses bons tempos passados,

Quantos houve levantados?

Quantos houve venturosos?

Com muitos provára o dito;

Mas calo-os, porque em respeito

Contar poucos é defeito,

E todos fora infinito.

Não demos culpa á edade

Com tudo que é desacerto:

Temos a causa mais perto,

Porque é nossa enfermidade.

Que estes desprezos que vemos,

Do bom saber, da boa arte,

Não se usa em toda a parte,

Que al na terra onde nascemos.

Nas outras ainda se présa;

(E não sei se diga mais)

Nós, e os nossos naturaes

Somos de má natureza.

Queremos grão mal ao bem,

(Se isto se póde dizer)

Sómente pelo querer

A quem o merece, e tem.

Verás um pastor, dotado

De mil graças excellentes,

Andar entre as nossas gentes

Assim como homiziado.

Descontente, e mal vestido,

De encolhido não se atreve;

E assim como o homem, que deve,

Sempre só, sempre escondido.

E a causa, que lhe sobeja,

Porque traz em companhia

Saber, que é mercadoria,

Que deve muito á inveja.

Coitado do passarinho,

Que nasceu no valle escuso,

Aonde nem canta por uso,

Nem ha quem lhe saiba o ninho.

Coitado do que nasceu

N’esta nossa terra ingrata,

Que tão mal conhece e trata

Bens da sorte, e dons do céo.

Que o mais honrado, e mais dino

Pelas partes naturaes,

Não lhe serve de ser mais,

Senão de ser mais mofino.

Sempre cae, sempre periga:

No que ama, no que procura

Faz-lhe acintes a ventura,

Que é declarada inimiga.

De tudo lhe nega o fruito:

Se com pouco se sustenta,

É-lhe do pouco avarenta;

E se de muito, é de muito.

Agua, Fogo, Terra e Ar,

Sol, Estrellas, Austro e Norte,

Tudo lhe negára a sorte,

Se lh’o pudéra negar.

E os homens por condição,

Ao que devem mór corôa,

Se lhe vem vir sorte boa,

Vão-lhe mil vezes á mão.

E qualquer que a causa seja,

É bem baixo o fundamento

Ou de fraco entendimento,

Ou de mui forçosa inveja.

Vão mil por este caminho

De erros qu’eu contar não posso:

Pesa-nos do bem que é nosso,

Quando o vêmos n’um vizinho.

Ouvir qualquer extrangeiro

Falar de seus naturaes,

Dá d’elles tão bons signaes,

Que o não tem por verdadeiro.

Falem-vos n’um natural,

Dizeis faltas que não tem:

Mente o outro para bem;

Nós mentimos para mal.

Deixemos para outra dia

Os queixumes, que é já hora;

Que a meu pesar deixo agora

A elles, e a companhia.

ALEIXO

Da tua é para sentir

A perda: mas bens não duram,

Porque os muitos, que os procuram,

Os tem affeito a fugir.

Comtigo iremos andando,

Que isto tambem foi partido:

E pois o valle é comprido,

Bem podemos ir cantando.

Que eu quero da minha parte

Mostrar que na voz me atrevo:

E se não pago o que devo,

Mostro que não sei pagar-te.

CORINO

Tu farás como eu presumo,

Que é como o melhor da aldeia;

ALEIXO

Ante ti quem não receia?

Quanto mais eu, que o costumo.

Vamos, qu’eu quero ir deante:

Por este caminho estreito

Torna a novilha, Bieito.

CORINO

Chega manso, não se espante.

FIM DO SEGUNDO VOLUME

INDICE

DIALOGO IX--Da pratica e disposição das palavras 3

DIALOGO X--Da maneira de contar historias na conversação 9

DIALOGO XI--Dos contos, e ditos graciosos e agudos na conversação 24

DIALOGO XII--Das cortezias 37

DIALOGO XIII--Do fructo da liberalidade e da cortezia 49

DIALOGO XIV--Da creação da côrte 63

Dialogo XV--Da creação na milicia 79

DIALOGO XVI--Da creação das escolas 90

Ecloga contra o despreso das boas artes 107

=NOTAS DO EDITOR=

Os erros tipográficos evidentes foram corrigidos.

A pontuação, a hifenização e a ortografia foram tornadas

consistentes quando uma preferência predominante foi encontrada no

texto original; caso contrário, não foram alterados.

As aspas irregulares foram corrigidas quando a mudança era evidente e,

caso contrário, foram deixadas de acordo com o original.

Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume II) · 第 9 / 9 段