Solino foi o primeiro que a noite do outro dia buscou aos amigos

em casa de D. Julio; e elle, e os hospedes lhe agradeceram muito a

diligencia. E o prior (que lhe não era pouco affeiçoado) disse:--Bem

me parece que não fez a edade falta no vosso animo, ainda que as cãs

queiram desacreditar as forças, pois sois o primeiro que acudis á

guerra.--Como esta (respondeu elle) ha de ser em alojamento, primeiro

apparecem as barbacãs, que os soldados.--N’ellas (acudiu Alberto) está

o mais seguro presidio contra os perigos; e tendo eu hoje as vossas da

minha parte, temerei pouco as que tiver contra mim n’esta occasião.--Em

muitas (replicou Solino) me releva mostrar que sou vosso, por dar boa

conta da razão com que de mim faz alguma o sr. D. Julio; que, como

sabe melhor o que se vos deve, me terá por rustico, se não pagar com

esta vassallagem o que mereceis.--Nada haverá (disse D. Julio) que

commigo vos desacredite, mórmente para um cumprimento, segundo agora

vos vi armado para elles.--Pois se vae a falar verdade (tornou elle)

eu vos affirmo que de nenhum inimigo desejo tanto fugir como de um

cumprimento; porém ha alguns, que tomam a um homem como em becco sem

sahida, onde o faz animoso a necessidade; e á minha acudistes vós

agora com essa interlocutoria; que já minha _copia verborum_

ia dando os fios.--Se com esses me armaes a que vol-o gabe (disse

elle) estaes enganado; que me importa poupar o cabedal para outra

occasião.--Bem sabeis vós (tornou elle) que em nenhuma me quero gabado,

antes; praguejado como Adem; porque se é verdade (como diz Pindaro) que

tenho a graça na murmuração, como a cobra a peçonha no rabo; quando

me põem o pé n’elle, sei morder com mais subtileza, que na doçura de

um cumprimento abemolado, de que já a mercê arda tão estylada a puras

sincopas e signalefas que parece tisica, e não sei se, de o estar nas

palavras, o anda agora nas obras dos senhores.--Ruim agouro foi para

uma e outra cousa (disse o prior) escreverem-a sempre em breve letra

por parte: e certo que nenhuma cousa era tão necessaria ás mercês de

agora, como o _mantenha-vos Deus_ do tempo antigo. Porém, se me

não engano, ouço já os vossos aventureiros, que vem falando alto.--Eu

tambem sou com elles (disse Solino) e conheço a Pindaro no riso, que

sempre entra com chocalhada como picadeiro. A esta pratica atalhou a

chegada d’elles, que com mais compridas desculpas do que foi a tardança

se assentaram. E porque Solino tinha um galeote vestido, que trouxera

por razão do frio, lhe disse Pindaro: nem de côrte, nem de milicia vos

vestistes hoje; e não parece razão que em actos tão solemnes venhaes

de caça a casa do sr. D. Julio.--O melhor seria (respondeu Solino) que

me cortasseis vós agora de vestir, pois não tendes boa tesoura; e já

sabeis que as ruins fazem a bôcca torta aos alfaiates. Porém já que

vinheis de côrte para esta casa, onde ha tanta, porque antes de vêr o

meu gabão rieis tão alto d’elle?--Vingado estaes (acudiu Feliciano) e o

certo é que, se faltardes á milicia, nunca vos faltará a malicia.--Se

nos mettermos por ella (disse Leonardo) não ficará tempo para que o

sr. Alberto satisfaça á obrigação de nos ensinar a boa creação, que se

adquire com as armas.--E se eu com as do vosso entendimento (tornou

elle) não soccorrer a minhas faltas, mal me irá n’esta batalha:

porém como as mais das instrucções da policia militar dependem, ou

se parecem com as da côrte, do que d’estas dissestes tão doutamente

me aproveitarei agora, pondo sómente de meu cabedal a differença. E

assim me parece que a creação da milicia leva a todas as outras grandes

vantagens por quatro fundamentos; que cada um d’elles apura mais aos

homens bem nascidos, que o trato da côrte e o exercicio das escolas.

O primeiro é, que a honra é a fonte de todo o bom ensino, policia,

procedimento e valor; e esta que mais nasce, se cria e conserva na

guerra, que em nenhuma outra parte: e assim os reis, que são o primeiro

logar, d’onde aprendem os seus inferiores, e d’elles passa a doutrina

a todo o vulgo, primeiro os fez a milicia que os tivessem as côrtes:

e o primeiro, que houve no mundo, que foi Nembrot, na guerra tomou o

nome, e assentou com elle o seu imperio em Assyria; e de então todos,

os que por fio de geração não succederam, as armas lhes deram titulo,

corôa, sceptro e senhorio; e depois d’elles o tiveram pelo mesmo modo

os potentados, duques, marquezes, condes, barões e ricos homens, que

nas conquistas, instituições, ou restaurações de reinos, fizeram obras

heroicas: e d’elles passaram a seus descendentes os appellidos, armas,

insignias, senhorios, terras, vassallos, jurisdicções, liberdades,

honras e rendas que engrandecem a nobreza. O segundo fundamento é o

rigor, com que na milicia se conserva a lei da policia, bom termo,

primor e procedimento; porque se commettem muitas vezes ás armas as

faltas e emendas que a estes tocam; e onde o erro é tão arriscado, é

a vigilancia e advertencia muito pontual; e por este respeito andam

os soldados tão vistos nas miudezas e particulares da cortezia, que

nenhum ponto perdem, nem deixam perder. O terceiro é a continuação do

soffrimento, e da paciencia militar, que em tudo se adeanta com grande

differença a pretendentes, creados ministros, no que é com maior risco

da vida, ora seja marchando, ora navegando, ora em alojamento, ora em

campanha, pelas incommodidades de sitios, gasalhados e mantimentos; e

pelas continuas vigilias, que fazem por lei o repouso tão limitado,

como o póde fazer por curiosidade o mais estudioso. O quarto fundamento

é a variedade das terras e provincias que vê, as diversas nações e

gentes com que trata; que é a creação mais importante para o homem

bem nascido, e que na côrte ou nas escolas se não póde adquirir tão

facilmente. E para que, ao menos imitando a ordem do sr. Leonardo, dê

alguma a minhas razões, discursarei com maior brevidade, que satisfação

sobre estes quatro fundamentos, fazendo o principal de minha confiança

no favor que d’elle, e de todos estes senhores espero.--Até o tomar

na graça (acudiu Solino) ambos levastes um mesmo vento, senão quanto

ao sr. Leonardo metteu mais traquetes e cevadeiras: e se isto até

ao fim fôr em arremedados, póde ser que entre eu na musica antes de

muitos dias.--De boa vontade (disse o doutor) vos passarei eu o de

ámanhã.--Não o hei de pedir (respondeu elle) por alvará de renunciação,

que será difficultoso o consentimento d’estes senhores; buscarei logar

vago: e porque me entalei n’este em ruim tempo, o quero deixar ao sr.

Alberto.--Pareceis-me n’elle tão bem (tornou elle) que já me esquecia

de o cobrar; porém, já que me daes licença, o primeiro fundamento é

que a honra se apura e sustenta mais na guerra que na côrte e nas

escolas: este me parece que se prova melhor com uma sentença que diz

que _a boa fama é o patrimonio na milicia_; porque a honra, o

ser, o preço e a riqueza de um soldado, não consiste no appellido de

sua familia, na herança de seus avós, na riqueza e morgado de seu

pae, nem outros juros, tenças e rendas de que tenha esperança; senão

na opinião em que está tido entre os amigos e contrarios, segundo

seu valor e merecimentos. E se é certo que a verdadeira honra não

consiste nas estatuas dos antigos, nem nos pavezes e escudos em que se

conserva a memoria dos principios da nobreza, senão na virtude, valor,

magnanimidade e exforço proprio; só o soldado é filho de suas obras,

e se póde chamar honrado por si mesmo, sem por roubo, emprestimo ou

herança se chamar nobre: porque os que de nascimento o são, e pelas

armas o merecem ser, assim honram a seus passados, melhoram e obrigam

a seus descendentes. E os que de principios humildes chegaram por seu

braço a merecer titulos, grandezas e senhorios, dão felice principio

a sua familia, e tambem a reinos, potentados e casas, que os ficam

em seus successores eternisando, como por maravilhosos exemplos dos

antigos conhecemos; e por experiencia dos modernos se vê cada dia.

Ptolomeu de soldado de uma companhia do exercito de Alexandre, veiu

por seu valor a ser rei do Egypto. Dario e Artaxerxes por esforço e

merecimentos proprios, sendo de mais humilde nascimento, alcançaram o

sceptro e corôa real dos Persas. Valentiniano e Justino imperadores

de Roma, nascendo rusticos e pastores, por o braço vieram a merecer

aquelle supremo titulo da grandeza humana. Viriato e Tamorlão, de

pastores, caçadores e soldados vieram a ser, um imperador dos Scythas,

o outro governador e general dos Luzitanos: e outros mais modernos,

como foi Primislau rei de Bohemia, Francisco Esforcia duque de Milão, e

outros muitos; e na milicia presente de Flandres, França, Allemanha e

Inglaterra, na de Asia, e na do Oriente, e da Nova Hespanha, conheço eu

por vista, e sei por nome, e da fama de muitos soldados, que, sendo de

escuro nascimento, por sua extremada valentia e esforço se fizeram tão

claros e illustres, e como taes tem os cargos importantes, os logares,

honras e vantagens da milicia. De maneira que, pois a honra é uma

universidade, em que se aprendem todos os bons termos, procedimentos e

cortezias; e esta está fundada na milicia, onde entre as armas nasce,

com ellas se ganha, apura e sustenta; n’ella deve estar mais apurado

o fructo de sua disciplina. O segundo fundamento é o rigor com que os

erros contra a policia se castigam na guerra; de que nasce a vigilancia

e cuidado, com que os soldados se disvellam para andarem apontados

até em miudezas, de que na côrte se descuidam os mais advertidos para

a differença que ha, cortando-se á espada o maio que cresce ao que é

pouco cultivado no bom ensino e procedimento; de modo que, mais periga

um homem em uma descortezia ás vezes, que em uma batalha. E assim o

falar composto, o responder brando, o perguntar com tento, o tratar

do ausente, o defender ao amigo, e o falar do contrario, cada cousa

tem na guerra suas leis estabelecidas, em cuja execução se procede com

todo o rigor; o dos particulares d’ellas nasceram os desafios e duellos

tão justamente reprovados na republica catholica, quanto na barbara

opinião antiga bem recebidos, como foi na dos reis de Lombardia, que

reduziram o duello a dezoito casos das leis: o o imperador Frederico

a quatro; e Filippe rei de França a tres: e Frotanio rei de Dacia fez

lei que toda a contenda que havia de ser em juizo, se averiguasse

pelas armas. E como o descuido que o soldado tem na cortezia, a soltura

na palavra, a má correspondencia no procedimento, a liberdade com que

fala do ausente e do contrario, está sujeita a dar satisfação por

um caminho tão breve: qualquer soldado pratico está mais advertido

que o melhor cortezão no bom ensino, respeito e brandura com que ha

de tratar aos homens.--A verdade é (disse o doutor) que os soldados

conversam com toda a brandura e bom termo: e já Platão disse que o bom

soldado devia de ser como o cão; para os domesticos e conhecidos muito

fagueiro; e contra os inimigos arriscado e valente. Porém o duello é

cousa muito mais antiga, e que se não inventou para essas miudezas que

dizeis: porque, conforme a opinião dos legistas, é um combate e batalha

particular de corpo a corpo para provar alguma cousa duvidosa, da qual

o que sahe vencedor se entende que provou o que queria, como o desafio

de Menelau com Paris, de Enéas com Diomédes, de Ajax com Heitor; os

duellos de Lucio Sicinio Dentato, que oito vezes á vista dos dois

exercitos sahiu vencedor; o de Tito Manlio Torquato, e de Lucio Emilio

com o capitão dos Samnitas; de Alexandre Magno com Póro rei da India,

o de Scanderbhec com Zayá, e Tambrá valorosos Persas: o de Roe rei

de Dacia com Hudingo duque de Saxonia: e muitos dos nossos valorosos

Luzitanos em muitas partes do mundo, o de Alvaro Gonçalves Coutinho o

Magrisso em Flandres; o de Alvaro Vasques de Almada conde de Abranches

em França; o de Duarte Brandão cavalleiro da Garrotea em Inglaterra;

o de Gonçalo Ribeiro em Castella; o de D. Francisco de Almeida em

Granada: e muitos outros no Oriente, na Asia e em Barbaria.--Não são

esses (respondeu Alberto) os duellos reprovados de que agora tratei,

que modernamente se usam, e se definem por differente modo, e por todos

com bastantissima causa se defendem; que os de que falaes assim, como

são batalhas singulares de corpo a corpo, se usavam de cento a cento,

vinte a vinte, dez a dez e doze a doze, como foram os portuguezes de

Inglaterra. Duellos, segundo a definição moderna, é um combate de

homens, que despresando as leis, querem averiguar por seu braço o que

toca á sua honra ou opinião, movidos do interesse de a sustentarem,

ou de vangloria, arrogancia, inimisade ou vingança: e d’estes usa na

milicia a furto das leis e generaes, que com muito rigor os castigam:

procedendo todos sobre miudezas e pontos as mais vezes impertinentes,

introduzidos pela bizarria e fonfarria soldadesca, pendendo do que

disse, calou, passou, respondeu, olhou, se gabou? se ficou melhor nas

palavras, se alguma era escura, e ficou mal entendida? sobre perguntas,

declarações, satisfações e respostas, e outras cousas, que, por não

merecerem ser tratadas, antes com razão reprehendidas, deixo de dizer.

Mas a conclusão, para o meu intento, é que na milicia andam as leis

da cortezia, e procedimentos mais ajustadas com a razão, que em outra

parte alguma, por meio d’este rigor, que faz aos que militam levarem

muitas vantagens. O terceiro fundamento é a paciencia e soffrimento

dos soldados, que creados no trabalho, e incommodidade d’aquella vida,

é o maior de todos os estados; trazendo sempre como grilhões o peso

das armas: que se o proverbio diz que _quem traz no dedo o annel

apertado, faz para si voluntaria prizão_, quanto maior o será o

cossolete, o morrião, o pique, o mosquete e o arcabuz, traz isto trazer

o somno registrado pelas leis do tambor, acudir ao seu quarto no melhor

do repouso; e no maior escuro, e geada do inverno, passear á sombra

das nuvens carregadas de agua, sem mais luz que a dos relampagos, e

mais lume que a do murrão; e ter por cama a terra, que de ordinario

serve aos soldados, que se alojam no campo, ou fronteira dos inimigos.

E se d’el-rei D. Affonso Henrique, do condestavel D. Nuno Alvares

Pereira, do condestavel D. Pedro de Menezes, e de outros generaes

portuguezes lêmos, que muitos annos inteiros dormiam as noites sem

despirem a malha, e couraças com que pelejavam de dia: que colxões lhes

podiam servir para tão asperos lençóes, se não fossem as carretas da

artilheria, o espigão dos muros, e o reparo das trincheiras e barbacãs?

Pois se a sobriedade e temperança é tão gabada nos bons costumes pelos

muitos que d’ella nascem, quem póde ser mais temperado e sobrio que

o soldado, do qual tantas vezes a necessidade é cosinheira, o escudo

ou cossolete a mesa, o morrião o pucaro, e fome a iguaria? E deixando

as famosas, que houve no mundo, de que os auctores escreveram, que

todas couberam em sorte aos soldados; qual se não ha de presumir que

aconteça onde ha muita gente junta, da qual tudo se receia e nada se

fia? E se em alguma gente se conserva o costume dos mantimentos da

primeira edade, que eram fructas das arvores e legumes dos campos,

só na da milicia acontece muitas vezes: não tratando ainda da guerra

naval, que com maiores incommodidades e perigos da vida se exercita;

nem nos cêrcos, onde mais vezes a necessidade da fome a põe em

almoeda. Atraz d’estes extremos de soffrimento se segue a obediencia

militar, que é o esteio em que se sustenta o principal peso da guerra,

devida e guardada pelo mais valoroso soldado ao menor e mais humilde

official do exercito, havendo n’elle tantos, como são general do

exercito, coroneis, capitães, tenentes, governadores, mestre de campo,

sargentos-móres, generaes de infanteria, de cavallaria, capitães de

gente de armas, capitães de cavallos ligeiros, generaes e capitães

de artilheria: fóra os particulares, alferes, sargentos, cabos de

esquadra, e outros officiaes não combatentes, como são provedor geral,

commissario geral, furriel mór, barrachel, thesoureiros, collateraes,

pagadores, e meirinhos, e outros muitos.

E em o que toca ao governo de cada um, nenhum soldado desobedece na

ordem, na estancia, no concerto, no acometter, retirar, assistir,

reconhecer, vigiar, e em todos os mais actos militares: e ainda que

se lhes atravesse deante o rosto da morte, o despresa por acodir á

obediencia de quem tem a seu cargo mandallo. E faltando esta sujeição,

totalmente se destruirão os exercitos, conforme aquella sentença,

que _o maior inimigo, que ha na guerra, é a discordia entre os

proprios soldados_: e assim se perderão muitos campos, e armadas,

por a inconveniencia dos capitães, e a discordia, e desobediencia

dos inferiores. De modo que, por ser esta experiencia tão approvada,

vieram os reis, e generaes, a castigar bons successos, quando fóra da

obediencia, e ordem militar se conseguiram; enjeitando aos vencedores

a ventura, e castigando a ousadia, com que traspassaram a lei da

milicia, como eu vi acontecer algumas vezes. Ha além d’esta outra

obediencia não menos importante nos soldados, que é a do segredo;

que vence ao maior que se deve aos negocios civis, e cortezãos: este

se usa nos desenhos, intentos, avisos, estratagemas, ciladas, e até

em o dar o nome ordinario da vigia; que tudo se guarda com inviolavel

observancia. Assim que em tudo o soffrimento, e obediencia do soldado,

muitas vezes alcança na guerra mais merecimentos que o seu esforço. E

todas estas leis, costumes, e sujeição fazem a um homem tão apurado,

polido, discreto, amavel, secreto, brando e animoso, que deixa atraz

a todos os que nos outros exercicios se adiantam. O quarto fundamento

é a communicação dos estrangeiros, e a vista de differentes terras, e

provincias, que o fazem sciente, pratico e visto nos costumes, ritos,

e reinos estranhos: porque um exercito se compõe de gente de muitas

nações, que por soldo, irmandade, soccorro, pacto ou visinhança se

ajudam uns aos outros: e assim capitães como soldados, cada um por

competencia, não sómente quer assinalar seu nome, e honrar a sua

nação, mas engrandecer os costumes, gentilezas, trajo, e galas da

sua patria, contando ainda as guerras e empresas de seus naturaes,

as grandesas da sua provincia, e outras miudesas, que nem pela lição

escripta se pode comprehender tão facilmente. Pois a vista, que é só

a que de todo satisfaz o animo, e enriquece o entendimento, ninguem a

tem mais varia que o soldado, ora seja navegando, ora em presidios fóra

de sua patria, aprendendo nas alheias todo o bom termo de proceder,

de obrigar, grangear, servir, e de se ennobrecer, apurando a sua

gentileza, e partes no serviço das damas, sua liberalidade com ellas,

e com os soldados: a policia no seu trajo, e bizarria; a discrição

na sua pratica; e todos os outros costumes, que á vista de tantas

testemunhas exercita, conquistando honra com o esforço, amigos com o

bom procedimento, servidores com a liberalidade, a affeição das damas

com a gentilesa; fama entre os estranhos, nome com seus naturaes,

merecimentos com o rei; que, quando sejam mal galardoados da ventura,

não lhe póde essa tirar o seu verdadeiro preço, que é o louvor que á

virtude se deve. Tambem não é para despresar na discrição do soldado,

antes muito para engrandecer, a relação dos successos, e occasiões,

em que se achou, e contar as coisas d’elles com mais propriedade que

os cortezãos, e escriptores; pintando o campo em ordem, a cabeça do

esquadrão, o rosto, as alas, os lados, e as costas d’elle, o logar das

insignias e bandeiras, e dos instrumentos, artilharia e bagagem, a

guarnição dos mosqueteiros, as mangas dos arcabuzeiros, as companhias

dos alabardeiros, archeiros, bésteiros, escopeteiros, e piqueiros;

dispondo nos combates cada uma d’estas coisas em razão, e termo

militar. E egualmente no assalto, ou defensão, ou fortalesa, saber dos

fortes os bastiões, torres, muralhas, ameias, barbacans, parapeitos,

corredores, bombardeiras, séteiras, torreões, baluartes, terraplenos,

platafórmas, trincheiras, praça de baluartes, respiradouros,

casamata, rebelins, vias secretas, porta mestra, porta falsa, ponte

levadissa, cavas, minas, fóssos, reparos, contrafortes, contraminas

e contrareparos, e outros nomes, e serviço de coisas, em que só os

experimentados nas armas podem falar propriamente: pelo que tenho o

exercicio d’ellas por mais excellente para o homem bem nascido, que

todos os outros.--Vós (disse Solino) canonisastes hoje aos soldados, e

engrandecestes sobre todas a vossa profissão. E são tão boas as razões

com que o fizestes, que se assim foram os seus costumes d’elles, não

vos podia ninguem contradizer; nem eu o fizera agora, se tratáreis do

que todos vemos em vossa pessoa; mas pela differença de outras, com que

eu tratei, correndo tantos lares, e estalagens, como João de espera

em Deus, haveis-me de dar licença que mostre o avesso a essa pintura,

e diga que a milicia um é homicidio commum, uma escola de todos os

vadios, e ociosos do mundo. E os soldados não são outra coisa, que

soldados pagos, e armados em damno da republica, roubadores de honras,

ladrões de fazendas, blasfemos, jogadores, insolentes, espadachins,

matadores, rufiães, adulteros, sacrilegos, incestuosos, e perjuros, e

cheios de todos os mais vicios, e maldades abominaveis, considerados na

liberdade soldadesca, e em sujeitos tão perdidos, como o são os mais

dos que se lançam por o caminho da milicia; de sorte que, se alguns

saem tão bem doutrinados como vós, os mais são tão differentes, que

desmerecem vossos louvores.--Bem sei (respondeu Alberto) que não posso

provar commigo o que tenho dito dos soldados; mas podéra allegar com

outros, que me fazem grandes vantagens; e com ellas me desobrigaram,

se os tivera presentes, ou dos que aqui o estão foram conhecidos: e

tambem é coisa clara que vos não faltarão muitos, com que proveis o

que dissestes: porém fallo dos soldados honrados, que são os termos em

que se deve tratar do fructo da sua profissão.--Pouca razão (acodio

o doutor) mostrou Solino no seu arguir: porque primeiramente, a arte

militar é muito approvada para a conservação da republica; e já

Platão disse que era n’ellas tão necessaria como a agricultura; e os

erros dos viciosos, e depravados não podem desacreditar a profissão,

nem tirar merecimento aos bem disciplinados, e generosos: que se

houvermos de fazer essa consideração em todos os exercicios, nenhum

ha sem egual desconto: porque se no da côrte, em que falou Leonardo

tão discretamente, quizermos escolher os perdidos, acharemos que são

mais que os aproveitados; e o mesmo proverbio declara que são a maior

parte, em quanto diz que a côrte é para privados, e para homens mal

acostumados; e o mesmo, e peior acontece nas escolas. De maneira que

a boa creação da milicia se deve entender sómente nos bem creados,

a quem a honra obriga a que se queiram avantajar do vulgo; e não em

os que fazem d’ella tão pouco cabedal, que empregam o de seu animo,

e saber em cousas indignas de homens bem nascidos, occupando-os em

latrocinios, forças, traições, maldades, enganos, e infamias.--Não me

péza (disse Solino) senão porque me gabáram de valente quando aqui

cheguei, para me não dar por vencido de duas razões tão fracas como

as vossas; e com tudo me hei de calar até vos colher em um duello,

em que eu escolha as armas, que vos não hão de valer as de quantos

bachareis degolaram o mundo.--Guardae-lhe (disse D. Julio) esse animo

vingativo para ámanhã, e virá mais a tempo.--Não já para mim (lhe

tornou Solino) porque tem da sua parte muito favor, não sómente o de

Solino, pelo que lhe importa, mas de Pindaro que tem estillada a quinta

essencia dos louvores escolasticos, e não ha travessa, nem beco sem

sahida nas lettras, de que não possa fazer um mappa mui copioso.--E

achaes (tornou D. Julio) que é isso mau para letrado?--Antes o tenho

por muito bom (disse Solino), prazerá a Deus que virá elle a saber ao

que agora cheira, e assim o espero: que, posto que estes estudantes

mancebos entornam ás vezes tudo no caminho, elle foi sempre pelo mais

acertado.--Tambem a mim me parece agora (acodiu Alberto) acabar o meu

discurso na vossa differença: para o que peço a estes senhores que me

hajam por desobrigado de ir por diante.--Se estivera em mim (respondeu

Leonardo) o poder obrigar-vos a dizer mais, como está o gosto, e desejo

de vos ouvir, não sei se vos deixara despedir tão de pressa: porem deve

ser tarde; porque já o era quando aqui viemos, por uma occupação que

me deteve mais do que queria.--Não me parece a mim (disse D. Julio)

que é tarde, nem entendi que estava tanto no fim a nossa pratica, que

não podesse fazer algumas perguntas, como costumo, de algumas miudezas

que o sr. Alberto passou por muito visto n’ellas, como eram alguns

particulares, e differenças na ordem da infanteria, e cavallaria, e

muitas da milicia naval.--Porque essas cousas tocavam menos ao meu

intento (respondeu elle) passei tanto por ellas: mas quando outro dia

tiveres gosto de ouvil-as, terei eu muito pouco trabalho em as relatar.

N’este tempo, porque os mais estavam já levantados, se despediram. E

Solino se foi pendurando em palavras de galanteria com o doutor com

tanta graça, que desejaram os companheiros poderem fazer o caminho mais

comprido; que, por muito que o seja, a boa conversação o faz parecer

breve, e desejado.

DIALOGO XVI

DA CREAÇÃO DAS ESCOLAS

Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume II) · 第 7 / 9 段