civis fazem um homem politico, cortez e agradavel aos outros. A
primeira é o trato dos principes, e a communicação das pessoas que
andam junto a elles: n’esta consiste o principal do a que chamamos
_Côrte_, que é conhecimento d’aquelle supremo tribunal da terra,
do rei, ou principe a quem pertence mandar, como a todos os inferiores
obedecer na conformidade das leis, por que se governam. Traz isto o
estado e serviço do mesmo rei, e dos seus, a obediencia, a cortezia,
a inclinação, a mesura, a discrição no falar, a policia no vestir, o
estylo no escrever, a confiança no apparecer, a vigilancia no servir,
a gentileza e bisarria, que para os logares publicos se requer. O
trato do principe no paço, na mesa, no conselho, na caça, nos caminhos
e occasiões, como se grangeam os validos, se visitam os grandes, e
como se hão de haver os cortesãos, para communicar a uns, e outros. O
segundo exercicio é o decóro, e veneração, com que se servem as damas;
e d’este se alcança todo o bom procedimento, e perfeição cortezã, que
pode desejar o homem bem nascido: porque sobreleva muito do serviço
real, e com muitas vantagens faz a um cortezão discreto, cortez,
advertido, galante, airoso, bem trajado, extremado na cortezia, no
dito, na graça, no mote, na historia e galanteria: este o faz ser
bom ginete nas praças, bem visto nas salas, bem ouvido nos saraus,
e bem acreditado nos ajuntamentos. E como o serviço das damas é
o mais apurado exame para se conhecerem sujeitos honrados, ellas
graduam e auctorizam os homens; e do seu voto toma a fama informações
para os fazer grandes na opinião de todos. O terceiro exercicio é a
communicação dos estrangeiros: porque como os que assistem nas côrtes
ou são homens de muito sangue e qualidade, ou de muita prudencia e
valor, ou de muita confiança e riqueza, sempre d’elles se colhe uma
doutrina mui avantajada para o cortezão, que é saber as gentilesas de
outras côrtes, as leis de outros reinos, a belleza e serviço de outras
damas, o estylo de outros reis, e finalmente os costumes e institutos
de outras gentes. Esta variedade deleita e enriquece o entendimento e
a memoria do que é bem nascido. O quarto exercicio é o soffrimento e
diligencia dos pretendentes, que, para tirarem fructo de seus serviços,
acções e requerimentos, se recolhem ao amparo dos grandes, ao favor dos
ministros, á companhia dos criados, e se sujeitam a todos os encontros
e avisos, que padece quem pede, sustentados no doce engano de uma
esperança, que lhes sáe muitas vezes mentirosa. Sobre estas quatro
maneiras de exercicio de côrte poderei discorrer o que baste para vos
enfadar este serão, se o doutor, como costuma, interpozer a auctoridade
de suas lettras na falta de minha sufficiencia, e Solino com addições
de sua graça a der a minhas advertencias.--Essa humildade (tornou elle)
como é demasiada, argue soberba, quando a respeito do doutor não seja
adulação. Vós podeis falar ás duas mãos como em jogo de bola, e buscaes
padrinho! E com tudo isso, se eu vir azas, por onde pegue, direi meu
dito.--Assim o faremos todos (disse o doutor) e com isto proseguiu
Leonardo:--A pessoa real é a cabeça da republica, como escreve
Plutarco; e nenhuma cousa na terra ha sobre ella mais que a lei, a
que deve obedecer; e ella fica sendo lei para todos os inferiores
para a imitação dos costumes e virtudes, que no principe estão mais
certas que em outra pessoa particular, de maneira que fica sendo uma
lição viva e continua, para os que assistem em sua côrte, na religião,
na observancia das leis, na excellencia das virtudes, na reformação
dos costumes, na moderação das paixões, na justiça, na clemencia, na
liberalidade, na modestia, na magnanimidade e na constancia. E tanto é
melhor a doutrina do seu exemplo, quanto de mais alto logar ensina a
todos. E posto que houve e ha muitos reis (a que convém mais o nome de
tyrannos) a que sua depravada natureza desvia d’estas condições reaes,
que juntamente com a corôa, e sceptro se lhe communicam: pela maior
parte os reis se sujeitam mais á lei e á razão, que os que, obrigados
de forçoso poder, não podem evitar o castigo de seus erros. E ainda o
mesmo nome e superioridade de rei lhes põem em certo modo condição de
serem os mais perfeitos entre os homens, para os regerem e mandarem;
que para o primeiro se requer muita prudencia, para o segundo grande
auctoridade.--Os reis por eleição (disse o doutor) d’essa maneira o
começaram a ser no mundo; e pela excellencia de suas pessoas alcançavam
o titulo que agora compete aos reis por nascimento. Os Persas não
podiam eleger rei, que não fôsse mui douto na arte magica, como escreve
Tullio no 1.º _de Diviniatione_. Os Médos escolhiam por rei, como
conta Strabo, liv. II, o que aos outros excedia em forças naturaes. Os
Catheos, povo da India, como escreve Deodoro, liv. 17, não subiam á
dignidade real, senão o que em gentilesa e formosura de corpo excedesse
aos mais: e a mesma eleição faziam os de Meroe, como escreve Pomponio
Mela. Os de Libia davam o titulo de rei ao que na velocidade do correr
deixasse atraz a todos. E, como conta Herodoto, os Gordios tinham por
digno do mando e titulo de rei o que fôsse mais grosso o comprido,
e tivesse o pescoço mais levantado, deduzindo da grandeza do corpo
a excellencia do animo, que para exercitar tão grande nome lhe era
necessario: de modo que todos estes e outros povos entendiam que o
ser rei convinha ao homem mais excellente n’aquella parte, que elles
julgavam por melhor de todas, segundo a opinião em que viviam.--Esses
(respondeu Leonardo) imitavam a natureza na superioridade que deu
aos animaes por forças, velocidade e ligeireza. Porém entre os que
são governados por razão, e policia, parece que era devido o nome
de rei ao que no entendimento fizesse vantagem aos outros homens. E
assim Platão chamou bem-aventurada á republica, onde os philosophos
reinassem, ou os principes philosophassem. E Seneca disse que era edade
de ouro a em que os sabios reinaram. E Vegecio, no liv. 1 da Milicia,
escreve que nenhuma cousa convém mais ao rei, que a sabedoria; pelo que
Salomão não pediu a Deus outra cousa para reinar.--É verdade (disse o
doutor) porém os reis, que succedem aos reinos por herança, não podem
ser eguaes no entendimento e prudencia; mas com a dos que por elles
governam vem a alcançar esta perfeição; d’onde nasceu o proverbio
antigo de Atheneo que _o rei tem muitos olhos, e muitas orelhas_,
pois ouve, e vê pelos ministros que governam o seu estado: E como diz
Tullio, se é real cousa mandar, não o é menos escolher doutos e famosos
varões, por quem se governem: e ainda os reis, que foram mais sabios
(ou por este respeito tidos por esses) procuraram ter comsigo os mais
afamados homens de seu tempo, de cujo conselho se valessem. Anthioco
mostrou a Hannibal quanto se presava de favorecer os sabios em sua
côrte. E Theodozio o Magno dizia que o rei quando comia, caminhava,
governava, e se retirava, se não havia de achar sem homens sabios: o
que tambem Lampridio escreve de Marco Aurelio. E d’este conhecimento
nasceu a Dionysio mandar a Lydia a buscar o philosopho Platão: e aos
reis do Egypto mandarem por seus embaixadores buscar o poeta Menandro.
Por esta razão Frontino Filosofo foi tão grande pessoa na côrte do
imperador Antonino; e Dion Sofista na de Trajano; Euripides na de
Archelau rei de Macedonia; e outros muitos, que não bastara esta noite
para os contar. E assim, como tendes mostrado, sempre a pessoa real é
uma lição viva que por si, e seus sabios, e ministros está ensinando
a todos os inferiores. Além do que o mesmo rei, por necessidade, e
quasi por força, ha de ser nos costumes mais puro que todos os seus,
por viver mais registradamente que elles, constrangido de sua mesma
dignidade; o que mostra bem Xenofonte na disputa de Hieron tyranno
com Symonides sobre a vida regia, e particular: e tambem as mesmas
leis os obrigam mais a elles, que aos particulares. Os reis do Egypto,
como conta Diodoro Siculo, por lei não podiam beber mais que uma certa
medida mui limitada, de que não passavam, porque com algum excesso
não fizessem desordens. Os Athenienses, segundo affirma Alexandre de
Alexandro liv. 3, tinham lei, que condemnava á morte o rei, que com o
demasiado vinho se alienasse. Os Indios, de que escreve Atheneo, cujo
rei davam em guarda a certo numero de donzellas, ordenaram que, se
algumas d’aquellas o achasse com vinho demasiado fóra de seu juizo,
e o matasse, esta fôsse desposada com o successor, a quem vinha o
reino. Os Macinenses, como o seu rei fazia algum erro no governo, não
lhe davam de comer aquelle dia. Os Persas faziam ao seu rei estar
escondido no interior das casas, para nem vêr mulheres, nem ser muito
tratado dos homens, como conta Herodoto liv. 3. De maneira que por
razão, lei e força os principes são mais observantes das leis divinas,
e humanas, mais sobrios, temperados, recolhidos e honestos. Além de
que, sendo menos vistos, são mais respeitados, como ensina Aristoteles
no livro _do Mundo_, em que conta do rei de Persia, que estava
encerrado em um castello com tres muros, e que se não mostrava senão
a poucos de seus amigos: como tambem dá a entender a Escriptura,
falando da prerogativa dos sete sabios da Persia, que viam ao seu rei,
e que cada dia tinha novas de todo o seu imperio.--Deixados (disse
Leonardo) esses exemplos tão antigos, e costumes tão louvaveis e
excellentes da gentilidade; os principes por creação, e natureza são
mais benignos, liberaes, magnanimos, justos, animosos e verdadeiros,
que os outros homens, e dotados pela maior parte d’aquellas virtudes,
a que por excellencia chamamos reaes. E como é proprio dos homens de
bom nascimento e inclinação aspirarem ás cousas mais altas, e desejarem
vantagem e melhoria dos outros; tendo diante de si, e no alto da vista
um espelho tão claro como é o seu principe, a elle se estão vestindo e
enfeitando d’ellas; primeiro e melhor os que o vêem de mais perto; e
depois os que por communicação d’estes participam da mesma doutrina.
Ao rei por assistencia lhe ficam mais perto os favorecidos, e officiaes
de sua casa, que os grandes, e titulares. Porém estes, como primeiros
por dignidade, se preferem a todos. D’estes se aprende o logar que
tem na casa real, nas côrtes, nas jornadas, na guerra e em outras
occasiões: a familia de que são, o appellido que tem: se os seus
titulos são de juro, se de mercê: e os bens que tem de patrimonio, e da
corôa: logo o que toca aos officios maiores do rei, em que occasiões
não faltam, e nas em que precedem uns a outros: e assim os filhamentos,
e moradias do mordomo mór: as entradas do porteiro mór: os pertos
do camareiro mór: as praças, provimentos, e penas do monteiro mór:
as aves, e ministros do caçador mór: as capitanias do guarda mór:
os potros, e jaezes do estribeiro mór: os privilegios do almotacé
mór: as vias do correio mór: e os particulares dos mais officios da
côrte; assim os ecclesiasticos de capellão mór, e esmoler, e deão;
os da guerra, como condestavel, alferes mór, almirante, marechal, e
meirinho mór.--Não era fóra de proposito (accudiu D. Julio) tratar
mais miudamente de cada um d’estes cargos, e das obrigações e origem
d’elles, e de outros menores, que agora com differentes nomes se
accrescentaram no serviço real de Hespanha.--A esse desejo (tornou
elle) satisfarei eu em outra noite; que agora nem da obrigação, que
tomei, me atrevo a sahir com minha honra.--Com essa promessa (replicou
D. Julio) eu fico contente, e vós podeis ir adeante.--Faço-o (disse
Leonardo) por me desobrigar mais depressa. E falando dos privados e
favorecidos do principe, tambem são dos mestres principaes que ensinam
a viver os particulares, assim no adquirir a graça do senhor, como em a
sustentar, usar d’ella, avalial-a, e encarecel-a aos cortezãos: porque
assim como a privança é vidrenta e perigosa, assim os meios, por que se
conserva, são muito subtis, e delicados: e posto que o eleger privado
está na vontade do senhor, a diligencia faz n’esta parte muitas vezes
o officio da natureza; que se, conforme a sentença de um sabio, _a
semelhança é raiz da affeição_, tambem _a diligencia é mãe da boa
ventura_. Os reis é cousa muito antiga e certa terem privados: e a
Providencia Divina o ordenou assim para o remedio de muitos, e allivio
da pessoa real: quando elles são varões de valor, justiça, e bondade,
como para este officio se requerem (que de outro modo seria cahir
peçonha na fonte, de que bebe todo o povo, como escreveu discretamente
o nosso bom portuguez Francisco de Sá de Miranda) a estes se inclina de
ordinario, ou por semelhança de partes, ou satisfação d’ellas, com uma
natural sympathia, que concilia este amor. Se o principe é affeiçoado
a armas, se a amores, se a gentilezas, se a forças, se a caça, ou a
montaria, se a musica, ou a poesia, ou outras artes, e disciplinas,
contentam-lhe os que tem essas mesmas partes, ou se inclinam a ellas.
E assim o que entra n’esta pretenção, que é dos que andam mais perto
do serviço do principe, o primeiro, que estuda, é a sua natureza,
inclinação, e costume, para se ajustar, ou avizinhar com o seu gosto,
e se fingir aquelle que lhe convém ser para o contentar: e porque os
homens até a seus proprios defeitos são affeiçoados, maiormente os
principes, a quem chega mais tarde o desengano d’elles, até n’estes
o imita o que sabe grangear a sua vontade; como ouvi contar de um
favorecido de Filippe rei de Macedonia, que se fingia coxo de uma
perna, porque el-rei o era de outra; outro se finge curto da vista,
outro indisposto, e outro se faz pallido e descorado, achando que o rei
tem os mesmos accidentes: no andar, no falar, no olhar, no vestir, e
em todas as acções o imita; aprende a arte, o jogo, o exercicio em que
o rei se occupa, para que, sendo n’elle extremado, seja muitas vezes
escolhido, e faça degraus á sua pretenção; entristece-se, e se alegra
segundo ao mesmo rei a que grangea. E ainda passam adeante como a
Carizosopho, privado de Dionysio, que estando o rei em conversação com
alguns da côrte, e movendo-se entre elles grande riso, o favorecido,
que estava apartado d’elles, se começou a rir desentoadamente: e
perguntando-lhe Dionysio de que se ria, respondeu, que porque imaginava
que as cousas, de que o via rir, seriam de gosto. Se entende que no
jogo o principe se alegra com ganhar, deixa-se perder; se estima ser
gabado, busca rodeios para que, sem parecer de proposito, trate de
seus louvores. E de um ouvi eu contar que as mesmas historias, que ao
principe ouvia, das cousas de seu gosto, e das gentilezas, e esforço de
sua mocidade, lh’as tornava d’ahi a tempos a referir, dizendo que as
ouvira de outras pessoas; encarecendo-as, accrescentando-as, e pondo
de casa o que movesse a mais gosto, e vangloria o mesmo Principe. Não
faltar na continuação de sua presença (como Aristipo Cyreneo) que nem
á necessaria deixava ir a Dionysio sem o acompanhar. E quando com
estas, e outras diligencias alcança a graça do rei, é outro novo, e
maior trabalho sustental-a; que é o cuidado com que todos os privados
se desvelam, porque não comem com gosto, não bebem com quietação, não
dormem com descanço, não vivem sem receio. E entre outras advertencias
me parecem muito principaes, e excellentes as que aponta o bispo de
Mondonhedo no seu _Aviso de Privados_: convém a saber, que o
favorecido não descubra ao principe tudo o que cuida; que lhe não
mostre tudo o que tem; que não tome tudo o que deseja; que não diga
tudo o que sabe; que não faça tudo o que pode; que não negoceie
para si, nem para outrem fora de tempo; e que em todos se incline e
favoreça a parte justa, para que com conhecida sem razão não arrisque
o logar de sua privança. Atraz d’isto se seguem os ciumes de seus
competidores, o cuidado de os apartar da vista, e da communicação do
principe: e ainda os de que mais se receie, trabalhar de os ausentar
da côrte com despachos, dadivas e mercês do mesmo senhor, dourando com
ellas a pirola de sua dissimulada tenção. Para o que é notavel exemplo
o de uma historia que conta o cardeal Navarro no seu tratado _da
Murmuração_, de um Fr. Francisco de Mendania seu natural, muito
aceito ao imperador Carlos V; ao qual senhor privado, que se receava de
sua valia, persuadiu com grandes louvores do frade que seria de muita
importancia nas Indias Occidentaes para converter a gentilidade por
sua admiravel doutrina, e bom modo de persuadir: e d’esta maneira com
capa de amigo o fez prover com o bispado de Nicaragua, desterrando-o
da vista, e lembrança do Imperador, e d’ahi a poucos mezes da propria
vida. Outro valido, que não teve este meio para deitar da côrte um
gentil-homem, que alcançava graça com o rei, e que nenhum cargo quiz
acceitar fora de sua vista, espreitando occasião de uma enfermidade
sua, se falou com o medico que o curava, e fez que o persuadisse que
viviria mui pouco, se assistisse n’aquelle logar, onde a côrte estava,
por ser muito contrario a seus achaques. Elle vendo que se atravessava
a vida com a privança, procurou de proposito o que antes enjeitara mil
vezes, e se sahiu da presença do principe, deixando ao privado livre
de ciumes. Tambem importa muito que o favorecido, depois de estar na
graça do senhor se lhe não queira egualar, ou adeantar por opinião
em alguma parte, de que elle se preze; nem mostrar-se mais discreto,
mais valente, mais bem visto, mais airoso, mais acceito a damas, e em
outras partes semelhantes; que é cousa, que os reis soffrem muito mal.
El-rei D. João o II, e el-rei D. Sebastião não queriam que em fôrças,
e valor se lhe egualasse nenhum vassallo, como se collige de muitas
historias suas; e el-rei D. Manuel no entendimento: o que tambem se
prova d’aquella historia, referida de Antonio Peres, que lhe succedeu
ao mesmo rei com o conde de Sortelha D. Luiz da Silveira, a quem mandou
que fizesse uma carta para o papa sobre certa materia de importancia,
dizendo que elle faria outra minuta para de ambas escolherem a mais
acertada: succedeu que, trazendo o conde a sua a el-rei, pareceu tão
bem, que não lhe quiz mostrar a que fizera, e assignou a do conde:
elle descontente d’este successo se foi a casa, e fez uma pratica a
seus filhos, dizendo que cada um buscasse sua vida; porque já el-rei
tinha entendido que sabia mais que elle. Assim que o mais alto logar da
privança se sustenta com os maiores extremos da humildade em respeito
do mesmo senhor; porém para os de fora lhe é necessaria uma ostentação,
e ufania, que mereça mais seus poderes, e quebre os animos que podiam
ter com elle competencia, para se não atreverem a capitular seus
erros, e a contrastar sua valia. E abreviando esta materia, por ser
mui larga, se aprende tambem dos cortezãos, assim dos ministros, como
dos continuos da côrte, aos quaes pela communicação dos superiores, e
exemplo do principe convém serem modestos, sobrios no comer, cortezes
no tratar, discretos no falar, polidos no vestir, honrados no gastar,
bem creados no conversar, e amaveis a todo o genero de pessoa: e tem
mais d’estas partes os que por creação da meninice tomaram este leite,
como são os filhos dos que no mesmo serviço gastaram a vida. Esta é a
primeira escola, em que os homens aprendem o que pertence á profissão
de homem de côrte.--O segundo exercicio (disse o prior) me parece que
é o mesmo que tendes mostrado, advertindo mais algumas poucas cousas
que são particulares do serviço das damas. O decóro e primor, com que
ellas se tratam (respondeu Leonardo) n’este reino, principalmente
as que assistem no paço, parece que em certo modo conserva aquella
preeminencia, que os egypcios lhe deram, que com o exemplo do bom
governo de Isis reinavam as mulheres, porque em presença, e ausencia
os cortezãos as nomeiam por senhoras, se lhes descobrem, e ajoelham
como a deusas, lhes fazem festas, jogos, justas, e torneios como a
Deidades, estão pendurados de seus favores, e respostas, como de
oraculos; as acompanham como a cousas sagradas; se vestem, ornam e
enfeitam pelas agradar; se desvelam pelas servir; se apuram, para as
merecer, no esforço, na gentileza, na galantaria, no dito discreto,
no escripto avisado, no mote galante, na endecha subtil, no soneto
conceituoso; por ellas se ensaiam para o sarau, no dançar, no falar,
no acompanhar, e no offerecer; por ellas se apressam nas occasiões, de
jornadas, de creados, e librés, galas, e ginetes; por ellas continuam
e passeiam á vista das janellas, atravessam as salas á sua conta,
e rodeiam o terreiro do paço mil vezes por seu gosto; por ellas se
offerecem a todo o perigo: porque qual é, que um servidor de damas não
ache facil por amor d’ellas? que palavras diz? que extremos receia? que
esquivanças não soffre? que riquezas estima? que chimeras não finge?
que occasiões não busca? vela de noite, não descança de dia, não se
entristece com a pena, não desconfia com o desengano, não faz conta de
aggravos, nem estima desprezos, não cura de vinganças, e emfim tudo é
veneração e humildade, com que as engrandece. E d’esta escola de seu
serviço (como no principio disse) sahem os homens tão apurados no que
convém á honra, primor, e discrição, que se não pode esperar d’elle
vilania em nenhuma cousa. E porque falta a Portugal ha tantos esta
creação, tem tão pouca muitos filhos dos illustres do reino, que livres
d’este aprazivel, e honrado senhorio, ficaram no de sua vontade.
E posto que a minha era dilatar mais esta materia, nem pela edade,
nem pela confiança tenho licença.--Essa vos deram todos facilmente
(disse então o irmão do prior) e eu de melhor vontade a procurara
para com as damas honrar, e engrandecer as armas: contento-me porém
que vos hei de ter presente para as duvidas, e perguntas, que se me
podem offerecer.--Em tudo (respondeu elle) estaes vós tão avantajado,
que mais podeis mover duvidas para me envergonhar, que para saberes
alguma cousa de novo; e assim de corrido, e de corrida me passo ao
terceiro exercicio da communicação dos extrangeiros, da qual se não
alcança menos doutrina, que de todos os exercicios cortezãos. Quatro
generos de gente extranha costuma a assistir nas côrtes dos principes.
A primeira reis, principes, e senhores, e homiziados, que por alguma
occasião vem a acolher-se a seu amparo, ou por adversa fortuna ficam
debaixo de seu senhorio. O segundo são embaixadores, com os nobres e
ministras, que os acompanham. O terceiro gentis-homens, que vem a saber
a grandeza dos reinos extranhos. O quarto mercadores, que por razão do
commercio e correspondencia vem a assentar nas praças principaes do
mundo, que são as mais das vezes onde os reis assistem. E todas estas
quatro condições de gente são de muita importancia para se colher
d’ella muito fructo. Primeiramente facil é de julgar a varia noticia
de costumes e condições de gentes e dos ritos e leis de provincias,
que os cortezãos portuguezes alcançaram com a vinda de tantos reis e
principes extrangeiros, assim infieis, como catholicos, á côrte d’este
reino, quantos reis, e senhores da Barbaria, da Ethiopia, e de outras
partes da Africa, da India, de Maluco, e de Japão, e de outras remotas
partes do mundo; e que cousa apurou mais a côrte d’el-rei D. João o I,
que a vinda a ella do duque de Alencastre irmão d’el-rei Richarte de
Inglaterra, a cujo respeito houveram os doze portuguezes em Londres
aquella celebrada victoria em favor das damas? Pois os mais homiziados
e queixosos, que se ampararam á sombra do principe, pela maior parte
são homens de valor, sangue, e esforço. Os embaixadores, do que
d’elles temos dito, se collige o de quanta importancia sejam para dar
exemplo. Os gentis-homens, que por curiosidade vem a saber o estilo
e gentilezas de côrtes extranhas, esta mesma diligencia os acredita;
e além d’isto é de presumir que tenham visto, ouvido e sabido muito
de reinos alheios: de modo, que de uns e de outros se colhe grande
doutrina para a conversação civil, e perfeição do homem bem nascido;
porque cada um conta da côrte, trajo, modo, e estilo do seu reino, a
maneira de reger, governar, julgar, tratar, e peleijar da sua nação:
d’elles se aprende as excellencias particulares, e os defeitos das
provincias, e de que as suas gentes são mais notadas: como a gentileza
de França, a furia de Inglaterra, a fortaleza de Allemanha, o siso de
Lombardia, as cautelas de Toscana, a fidelidade de Milão, a presumpção
de Esclavonia, a conta e trato de Genova, a destreza de Bretanha, a
caridade de Borgonha, a continencia de Picardia, a justiça de Veneza,
a magnanimidade de Roma: e logo a crueldade de Hungria, a infidelidade
de Turquia, a lisonja de Grecia, as zombarias de Piemonte, a luxuria
de Catalunha, e a golodice de Barbaria. Pois dos mercadores se não
colhe tambem pequeno fructo: porque, deixando o que pertence á conta,
peso, medida, correspondencia, confiança, credito, verdade e razão, se
alcança do commercio das provincias o que falta em muitas partes; e as
em que ha todas as cousas, que por via dos mercadores se communicam, e
os portos, caminhos, e escalas de todo o mundo: por elles se conhecem
as pedras finas, drogas, roupas, e materiaes de medicinas da India
Oriental; as pedras, aljofar, porcelanas, e alcatifas da China; o ouro
de Sofala; como no Occidente de Dalmacia, e Germania; e na França
o celebrado de Tolosa: a prata de Nova Hespanha, e de Saxonia, e
Sardenha: o metal de Corintho, e Chipre: o estanho, cobre, e arame de
Flandres, e Inglaterra: o ferro, aço, e chumbo de Cantabria e Sicilia:
o marfim da India, Brazil, e Ethiopia: as lãs de Bretanha, Calabria,
Calcedonia, e França: o algodão, cheiros, e myrrha de Arabia, Pancaia,
e Assyria: as télas e sedas de Persia: o alabastro de Napoles: as
martas, e arminhos de Polonia, e Moscovia: o papel e vidros de Veneza:
o assucar de India, Brazil, e ilhas de Portugal: o coral de India e
Marselha: courames, madeiras, vinhos, e trigo das ilhas do Oceano, que
pertencem á conquista dos portuguezes: e muitas outras cousas, que
querer agora contar fôra infinito; e por o não parecer este discurso,
tratarei brevemente de quatro exercicios dos pretendentes da côrte:
materia mui larga, que pedia mais tempo, e muito importante a todos,
porque do seu cuidado, diligencia e soffrimento se pode colher uma
lição universal para todo o estado, e condição de pessoa, pois nenhuma
ha a que não seja necessario desvelar-se, negocear e soffrer para
effeito de dar alcance ao que deseja. E como n’este tempo os homens
estão já desenganados de quão pouco valem merecimentos, que (por elles
o não serem) vieram a chamar valia ás adherencias; e lhes tem mostrado
a experiencia a verdade d’aquelle rifão, que _cada um dança segundo
os amigos que tem na salla_; e que só põe em pé os serviços quem
os arrima a boa parede, por mais arrastados que andassem na opinião
da gente. Já nenhum pretendente discreto faz tanto cabedal d’elles
como de ministros que o ouçam, creados que o admittam, amigos que o
lembrem, ricos que o abonem, terceiros que o cheguem, e peitas que o
despachem. Para o que o avisado, depois de fazer o signal da cruz á sua
pretenção, primeiro sabe os que valem com o principe, depois d’isto
os que tem logar e entrada com os privados: logo conhecer os creados
mais mimosos; em sabendo a sala do valido, tomal-a de empreitada, ser
continuo no passeio d’ella; onde a todos a primeira cortezia, e a
mais humilde seja a sua; o riso sempre na bôca, os offerecimentos na
lingua, os olhos no seu intento; dar o melhor logar a todos, porque
acaso não falte a algum que pode ser em seu favor; não se aparte da
vista do que grangea; faça-se encontradiço onde o veja; na egreja tomar
o logar da porta; na salla a sahida; no acompanhamento o deanteiro,
para parar onde fique tomando os olhos do privado, para que assim, ou
com a continuação mereça, ou com a importunação o despache: usar do
trajo limpo, mas não custoso: o comer leve, mas concertado, porque
arguem moderação com gravidade: o falar sempre á vontade do ministro,
dizendo os amens a todas suas orações, mostrar-se ao favor humilde, á
representação agradavel, á esperança contente, ao desengano confiado:
falar a todos no seu negocio, porque muitas vezes acerta com um, de
que elle não esperava abrir caminho a seu despacho; saber dos que
tiveram os outros, e valer-se da queixa dos mal galardoados, para que,
antepondo-lhe os seus merecimentos, approve a justiça e favor, que
lhes fizeram. E no que toca á moderação das paixões naturaes, ninguem
as traz mais registadas que o pretendente; porque dos cinco sentidos
e tres potencias usa d’esta maneira. Vê tudo, e olha pouco; vigia,
porque, como dizem, _a quem vela tudo se lhe revela_; mas com os
olhos no que procura dissimula o que vê, ouve, e não escuta: e assim as
más respostas dos ministros cançados, ou insolentes não o escandalisam,
antes lhe mostra alegria fazendo do escandalo materia de agradecimento;
cheira de longe o que receia; e dissimula, fingindo confiança no que
merece: apalpa, e tenta todos os meios de seu remedio, e finge-se
ignorante a tudo o que releva; põe o gosto no de quem o favorece,
para não fazer mais que o que lhe contente: a memoria occupa-se em
relatar seus serviços, e obrigações fingidas, por vêr se assim as
pode ter verdadeiras: esquece-se do entendimento para não sentir, e
para tambem com elles obedecer; porque o que pretende é muitas vezes
prudencia fingir ignorancia, accommodar a vontade com a sua em um
voluntario e forçoso captiveiro; a d’aqui nasce que os que pretendem
vivem em pobreza, porque não podem ter proprio emquanto dependem de
favores alheios; em obediencia, porque a tem com tanta sujeição, que,
se ao senhor deseja parecer creado, ao creado quer parecer escravo, e
ao amigo, e parente servidor; fazendo-se com todos os ventos para o
contentar; em castidade, porque a sua inquietação e cuidado não dão
logar aos de amor, que se criam em pensamentos ociosos, que além do
pretendente ser humilde, liberal, cortez, paciente, discreto, comedido,
sombrio, advertido; casto, diligente, e temperado, a sua cortezia é
mais apurada, a sua discrição mais advertida, a sua liberalidade mais
prodiga, a sua offerta mais timida, a sua queixa mais moderada, a sua
paciencia mais humilde, o seu louvor mais encarecido, a sua voz mais
baixa, a sua razão melhor encaminhada. Emfim é ornado de todas as
partes boas, de que se pode prezar o homem bem nascido quando as tenha
por natureza, e costume, como os pretendentes as fingem e guardam por
necessidade. Com isto me deveis haver por desobrigado do cargo, que
me déstes; e posto que as horas, que são passadas da noite, culpam a
minha tardança, a materia a pedia; ainda que o desejo de não enfadar me
aconselhasse outra cousa.--Tendes dito todas tão bem (respondeu elle)
que a pratica, e a noite pareceu breve. Com isso vamos a descançar
para na guerra de ámanhã entrarmos mais esforçados.--N’essa me dou já
por vencido (disse elle).--E eu por atalhado (accudiu Roberto) e todos
se despediram com os olhos n’aquella côrte pintada, que ainda com as
sombras da verdadeira enganava os sentidos.
DIALOGO XV
DA CREAÇÃO NA MILICIA