--Excellente me pareceu a historia (disse o doutor) e ainda mais

porque nos dá motivo para uma questão, que pode fazer esta noite mais

agradavel, se a estes senhores parecer tão bem o meu voto como a

historia do sr. Alberto. A isso responderam todos que o queriam seguir

e obedecer: e, juntamente gabaram com muita satisfação aquelle exemplo

de cortezia: e pedindo ao doutor que continuasse o que queria dizer,

elle o fez em a maneira seguinte:--Pois são tão grandes os interesses

da cortezia, e com exemplos, e razões tão approvado entre os bem

nascidos o emprego d’ella, parecia-me a proposito esta pergunta, e é:

“Com qual de duas cousas se obriga e grangeia mais o animo dos homens,

se com a liberalidade, se com a cortezia? e os effeitos que cada uma

d’ellas faz para este fim?” Bem pareceu aos amigos a questão: e depois

que a approvaram, accudiu o prior:--Pouca duvida me parece que pode

haver em apartar estas virtudes; porque, a meu parecer, a cortezia

é sómente um effeito da liberalidade: e assim fica correndo melhor a

pergunta d’este outro modo: Qual obriga mais os animos agradecidos, se

o liberal da fazenda, se o que o é na cortezia? Porque a liberalidade

é um habito do animo, que o move a dar aos benemeritos o que está na

mão do liberal, ou pedindo-lh’o outrem, ou offerecendo-o elle: e isto

pode ser dinheiro, cortezia, honra, logar, e outras cousas muitas.--Boa

é essa razão (respondeu elle) porém com os vossos mesmos livros hei

de sustentar a minha; que, conforme define Santo Agostinho, liberal

é o que dá sem obrigação de lei, nem de promessa, e sem esperança de

satisfação do que deu. E Santo Thomaz diz que a liberalidade é uma

virtude, que sabe dispender as riquezas em bom uso. E Aristoteles de

todo desempeça a questão, dizendo que é virtude, que com o dinheiro,

e fazenda se mostra benefica aos homens. E d’este modo não pode a

cortezia ser effeito da liberalidade; que ha muitos cortezãos pouco

liberaes, e alguns liberaes pouco cortezãos.--Posto que me atrevo a

muito (disse Feliciano) hei de dar entre as vossas minha razão com a

de alguns auctores, que chamaram á liberalidade _humanidade_:

porque verdadeiramente as obras de cada uma parecem muito eguaes,

se ellas o não são; porque accudir ao pobre, dar ao benemerito, ser

affavel, brando, e piedoso é humanidade; e os mesmos effeitos obra o

liberal. E se a humanidade é a mesma cousa que a liberalidade, esta é a

cortezia. E não o comprova menos o que escreve Aristoteles quando diz

que a liberalidade pelo affecto se chama _benignidade_, e pelo

effeito _beneficencia_: e vem a ser ambas uma mesma virtude.--Isso

não (tornou o prior) mas diz Santo Agostinho que são companheiras

liberalidade, humanidade, e clemencia. E por esta auctoridade sua,

fundado nas mais razões que me ajudavam, tinha a opinião que o doutor

não consente.--Os exemplos (tornou elle) nos mostrarão o engano; e

a differença descobrirá a verdade. Primeiramente, o liberal, posto

que o seja com a limitação que os auctores escrevem, que é dar ao

necessitado, e benemerito o que ha de mister, sem que haja de sentir em

si a falta do mesmo que deu; todavia fica sem a fazenda, ou dinheiro,

que tem dado; e no que recebe fica viva a obrigação e a divida do que

recebeu: e o cortez nem fica sem a honra que deu, nem o a quem honrou

a fica devendo, sendo digno da mesma cortezia, e mostrando-se a ella

agradecido. Pela mesma maneira tambem a humanidade nem é cortezia,

nem liberalidade; porque ás vezes consiste em perdoar, e não já em

dar, e em compadecer-se de males alheios, sem fazer n’elles despesa

alguma; e em outros actos semelhantes: e d’este modo me parece que está

bastantemente mostrada a differença, para tratarmos agora da que faz o

cortez ao liberal em vencer e obrigar os animos agradecidos.--Parece-me

(disse Leonardo) que da verdade da differença está dito o que baste,

para que já o sr. D. Julio tome á sua conta dizer qual faz mais amavel,

servido, respeitado e famoso a um cortezão, se o fazer cortezias, se

o dispensar riquezas? E quem de cada uma d’estas cousas tem tanto

exercicio, não lhe ha de faltar experiencia para tratar d’ellas com

muitas vantagens.--As que me daes (tornou elle) quizera eu acreditar

e merecer; e n’esta materia me vinha melhor ouvir para aprender,

que falar para me escutarem: mas ainda que fique corrido, quero ser

obediente. E tratando primeiro do liberal, me parece que o pode ser de

duas maneiras; ou liberal por condição, e natureza, ou por prudencia,

e entendimento; que é o que costuma a encher os vasios, e supprir as

faltas d’ella. O liberal por natureza poucas vezes guarda a regra da

vossa definição: porque não sabe negar, nem tratar de escolher; e

mais consiste o acto da sua virtude no que lhe pede, que n’elle que

ha de conceder.--Esses liberaes (disse Solino) são perigosos, e antes

lhes chamara prodigos: porque ás vezes entornam o que haviam de dar,

empregando-o em sujeitos depravados.--Com tudo isso (respondeu Pindaro)

não faltou um auctor grave, que disse que o liberal não é obrigado a

essa escolha: antes que fazer mercês a muitos, ainda que indignos, é

obrigal-os a que as mereçam.--Tambem (replicou elle) quereis dizer

que não será prodigo dando o que ha de mister.--Ao menos (tornou

Pindaro) não direi que deixou de ser liberal: e Pomponio diz que é

proprio do liberal não olhar, nem respeitar a si mesmo, senão aos que

ha de accudir.--Pois a esse (disse Solino) almagrai-o por ladrão,

ou por mentiroso: porque o que dá mais, do que pode, sem respeitar

o que a si se deve, é necessario que furte a outrem para o poder

fazer; e o que promette, ou concede mais do que tem, é forçado mentir

a quem prometteu. De sorte que com estes dois vicios mal pode caber

a virtude.--Eu (proseguiu D. Julio) darei á vossa duvida satisfação,

repugnando um pouco á minha natureza por accudir á doutrina, e verdade

dos escriptores; que pelo meu voto, para dar a quem o merece, se pode

roubar a quem sem merecimentos o possue. E tornando ao meu ponto, o

liberal por natureza quer fazer bem a todos, e não negar a nenhum dos

que lhe pedem; mas temperando com a prudencia a condição, dá segundo o

que tem: escolhe primeiro os que merecem, e o tempo e occasiões, em que

aproveite o que dá. O que é liberal por entendimento, muitas vezes faz

mercancia da liberalidade; e assim, posto que com ella obriga mais, lhe

elevem menos: porque se muitas vezes a emprega nos que merecem quasi

todas, busca os que hão de ser publicos pregoeiros do que deu. D’onde

nasce que ha muitos senhores, que aos benemeritos faltam com as mercês,

pelas empregarem em o chucarreiro que as publique, no espadachim que

as encareça, no farçante que as mostre, no extrangeiro que as passe de

um para outro reino, e ás vezes na dama que as assoalhe. O primeiro se

faz amavel a todos; o segundo famoso a muitos; porém um obriga melhores

animos, e adquire mais certos amigos que o outro; um compra corações,

o outro enganos; porém ambos com a liberalidade prendem a vontade dos

homens. O que se viu na sua miseria favorecido põe facilmente a vida

por quem lhe deu a fazenda; onde ouve falar n’elle, o acredita: onde vê

ir contra sua honra, o defende; na sua presença se humilha; ouvindo o

seu nome, se alegra; e servindo-o se deleita e satisfaz. Para isto

me não pareceu fraco conselho o que um auctor deu em culpa a um

principe nosso. Porém serve aos liberaes por entendimento, e que não tem

riquezas demasiadas para o poderem ser. E a culpa é que dera a muitos,

e que a nenhum dera muito. E se isto no rei foi vicio, a mim me parece

que nos senhores de menor logar é acertada cautella: porque basta que

um tenha recebida uma obra boa para se obrigar a dizer bem de quem lh’a

fez; e com muitas empenhando a muitos, terá a todos por devedores, e

pregoeiros de sua largueza: tirando os de tão má natureza, que com a

peçonha da lingua corrompem o bem que lhe fizeram: que para estes nem

bastam os bens de Cresso, nem a condição de Alexandre.

E deixando exemplos antigos e modernos, com que posso provar o

muito que póde a liberalidade para atar, vencer e adquirir animos

agradecidos: com tudo me parece que tem muitas vantajens o cortez

ao liberal: e a razão é; que a gente, que se obriga do soccorro do

interesse, é de muito menor condição, que a que se cativa da cortezia;

e quanto é maior ganho ser a esta amavel, que a outra acceito, tanto

vence a cortezia á liberalidade para o effeito que dizemos. O pobre,

o humilde, o necessitado, o perseguido, o homiziado, o vagabundo e o

taful estimam mais vezes a fazenda que lhe dais, que a cortezia que

lhe fazeis: porque o seu ponto não é de honra, senão de interesse. Mas

o honrado, o nobre, o cavalheiro, o cortezão, o brioso, o discreto

e o rico antes quer que o honreis, que não que o enriqueçais. Os

grandes com cortezias roubam os corações dos menores, quando com maior

liberalidade d’ellas os favorecem: porque o animo generoso, posto que

sente muito a estreitesa propria, mais lhe custa o despreso alheio,

por não perder a opinião que de si tem á conta do com que lhe faltou

a fortuna. Contam que um principe hespanhol tinha um creado seu, a

quem queria muito, e de cuja fidelidade confiava mais, conhecendo-o

por verdadeiro, fiel, honrado e brioso: e encarecendo-lhe o principe

a confiança que d’elle tinha, lhe perguntou: N. por que preço me

fizereis uma traição? Ao que elle respondeu: A vós, senhor, por nenhum

preço; mas por um despreso muito me receára de mim mesmo. De outro

ouvi contar que, honrando com favor em publico a um creado seu, a quem

não pagava bem os ordenados de seu serviço, e outras dividas caseiras;

querendo depois o mesmo senhor fazer a conta d’estas obrigações, lhe

respondeu o creado: Vós, senhor, me deveis o com que cuidastes que me

pagaveis; e agora vos devo eu dares-me o que me não promettestes, e o

que eu tinha em maior estimação: por isso fazei livro novo, riscando

as lembranças passadas, que só as presentes o serão na minha memoria,

na qual conheço que vos devo muito. De maneira que o que é nobre, ou

tem partes que o sejam, mais abraça a cortezia que o proveito. E certo

que até aos senhores vãos, e ambiciosos de serem endeosados está melhor

esta liberalidade, que outra alguma: porque é grangearia não só para

ser amado, mas para ser buscado e servido: porque sendo amavel por

ella a todos, cada um o acompanha, o grangea, o louva, o acredita e

deseja de lhe dar quanto tem; porque só tal homem lhe pareça digno de

ter tudo. Tambem declaro que o cortez ha de ter a eleição do liberal,

para não levar a todos por a mesma medida, mas distribuir conforme a

razão os effeitos do dom, que lhe deu a natureza. E tem tal força de

obrigar a cortezia, que não sómente a faz ao que a recebe, senão ainda

aos que a vêem fazer, por satisfação, por imitação, por inveja, e por

outros caminhos. Uma infante n’este reino tinha uma creada de não

muita qualidade, porém de tantas partes, gentileza e discrição, que a

antepunha a muitas que a serviam com melhor foro do que esta tinha,

que era moça da camara. Desejando a senhora grangear-lhe a ventura e

graça dos cortezãos, uma vez que viu a sua casa acompanhada d’elles,

mandou em publico que lhe chamassem aquella creada, nomeando-a; e

que lhe trouxesse papel e escrevaninha. Como isto era officio, que

pertencia ás damas, veiu a moça; e esteve parada com o que trazia,

esperando que o viesse tomar da sua mão quem tinha a cargo de o

offerecer á infante: a qual tornando-a a chamar lhe disse em maneira

que todos ouviram: Chegai; que, ainda que o officio seja de outrem,

não podeis ter por estranho o que mereceis. E em quanto a moça esteve

de joelhos, e a senhora escrevendo, lhe falava com o rosto cheio

de alegria, dizendo-lhe entre outras coisas: O intento, que n’isto

tenho, posto que logo o não saibas, d’aqui a pouco o virás a saber.

Foi assim; que, vendo os cortezãos o caso que a infante d’ella fazia,

um de muita qualidade a pediu para sua esposa, e se casou com ella,

movendo-se de vêr aquella cortezia, para o que um copioso dote o não

obrigára.--Extremamente provastes vossa tenção (disse o doutor) e me

parece certo que essa é a verdade, que se ha de ter n’esta materia

da cortezia: porque não póde a vileza do interesse egualar-se com a

nobreza e magnanimidade da honra.--Galante coisa é (arguiu Solino)

quereres vós temperar todas as panellas, e falar sempre á vontade

ao senhor D. Julio, o qual n’esta occasião acudiu por si, para nos

culpar a nós: porém elle e vós me dareis licença para que tire á luz

uns embargos, que tenho a essa resolução; em os quaes entendo provar

que só a liberalidade, no dispender faz amaveis aos liberaes, e aos

devedores cativos. E se dizeis que não são estes os nobres; ouvi aos

poetas que subiram mais a corda, dizendo que dadivas venciam homens,

e obrigavam Deuses: e o rifão diz, que quebram pedras. Boa cousa é a

cortezia, mas nenhuma comparação tem com a liberalidade. Falaes-me em

quem dá o seu para soccorrer a outrem, no que soccorre ao aperto, á

falta, á occasião, e á necessidade: que coisa poz aos homens entre as

estrellas, se não o saberem dar? que só isto leva após si os homens, as

feras, os animaes e as aves. O outro Plafon andava o seu nome no bico

dos passaros pelos outeiros, e coruchéos da cidade de Ephezo, porque

sustentava á sua custa as mesmas aves. E vós quereis que o outro, que

não lança agua a pintos, só com uma inclinação dobrada, uma mesura

rebatida, e umas palavras doces leve as lampas a um liberal? E além

d’isto, como póde ser que obrigue e ganhe mais o que emprega menos?

e que vença o cortez com uma barretada o que mereceu um liberal com

obra tão custosa, como é dispender fazenda? Alexandre, Tito, Fabio,

Flaminio, Tullo Hostilio, e outros similhantes, não deixaram assombrado

o mundo com sua grandesa, e vencido o tempo com sua fama por cortezes,

senão por liberaes: porque a cortezia não satisfaz mais que a vaidade;

e a largueza acode ao principal da vida. E de mim confesso, como povo,

que antes quero um descortez liberal, que um cortezão miseravel: porque

esses cameleões da cortezia, que se sustentam com os ares d’ella, não

são tão firmes como cuidais; nem ás vezes falam de fartos; e póde

ser que não enjeitáram os comprimentos de contado, e que renunciaram

facilmente os da urbanidade cortezã.--Não falta na companhia (disse

Leonardo) quem queira defender a vossa parte, e a do liberal: porém

uma duvida tenho, e é que esses, que de maior liberalidade fizeram

extremos no mundo, todos eram prodigos como Alexandre, Tito, e

outros similhantes.--Na dignidade real (disse D. Julio) cabem todas

as grandezas sem a limitação com que tratamos d’esta virtude; que

Alexandre dava cidades, e talentos, sem que esses lhe pudessem fazer

falta: o que nos menores tem muita differença; porque o modo n’elles

sustenta a virtude para que (como diz S. Jeronymo) com a muita

liberalidade não pereça a liberalidade: e nos reis e monarcas a tenção

acredita a obra, se é feita de arrogancia, e benignidade; porque o

liberal sempre acha desculpa para haver de fazer mercês como Alexandre,

que a Perilo se desculpa, conformando-se com quem era para não culpar

a demasia do que lhe dava: e a Xenocrates, que lhe diz que não lhe são

necessarios os cincoenta talentos que lhe manda, responde que, se tem

amigos, para elles os ha mister, pois a elle não bastaram as riquezas

de Dario para os que tinha. E pelo contrario Antigono, a quem Diogenes

pedia um talento, se escuzou dizendo que pedia muito para philozopho;

e pedindo-lhe um dinheiro, disse que era pouco para dar um rei. De

maneira, que o que o avaro busca para negar, acha o generoso para

fazer mercês, que, conforme ao que diz Marco Tullio, são grilhões da

liberdade dos homens. E porque é tarde, me dai por desobrigado d’estes.

Com isto se levantáram todos; e Pindaro, e Feliciano o fizeram

assás descontentes com a magua dos seus conceitos mal logrados; que

quando, depois de escolhidos, não vem a lume, deixam o entendimento

arrependido, a memoria queixosa, e a vontade offendida.

DIALOGO XIV

DA CRIAÇÃO DA CÔRTE

Porque todas as cousas de novo na primeira vista contentam mais, e

com maior razão a quem vive na aldeia, em a qual a continuação das

que se offerecem de ordinario deleitam pouco quando não enfastiam

muito: estavam os amigos tão affeiçoados ao irmão do prior pela sua

arte, e bom modo de falar e proceder, que vieram ao dia seguinte muito

alvoroçados a o buscar nas horas costumadas, offerecendo-lhe cada um

por seu caminho aquelle desejo, a que elle por todos se sabia mostrar

muito obrigado. Depois de darem fim aos cumprimentos, que levam

sempre a vanguarda n’estas batalhas, lhes disse Pindaro:--Posto que o

natural de cada um é a principal parte que o favorece, para em todos

os exercicios se melhorar na communicação dos outros homens; nenhuma

escola me parece melhor para os bem nascidos, que a milicia. E ainda

que me não ensinasse a experiencia esta verdade, claramente a conheço

no exemplo de muitos soldados, com que me achei em occasiões; e sobre

todos do senhor Alberto, que parece um exemplar, e espelho, em que se

pode vêr um perfeito homem de guerra, e de côrte, pelo que de ambas

colheu, aperfeiçoando a doutrina d’ellas com a clareza do seu engenho

e a disposição, e vantagem de seu entendimento.--Eu desejo merecer

(respondeu elle) a boa opinião, com que me honraes deante d’estes

senhores, e logo a pago mal com a desacreditar tanto á vista d’elles:

pelo que me era necessario accudir a essa falta com nova desculpa,

dizendo que ha olhos que de argueiros se pagam; e que mais favorece um

engano, que muitas verdades, porque bastava no vosso ter ventura para a

alcançar em tão honrada conversação. Porém devo attribuir aos louvores

da milicia os de que me fazeis mercê; e d’elles, como soldado, tirarei

a minha parte; ainda que tendes tantas, que, quando o sejaes n’esta

competencia, terão as lettras muita vantagem ás armas.--Não são de

pouca estima os cumprimentos (accudiu Leonardo) se continuar com estes

principios o discurso que se pode fazer sobre a differença da creação

da côrte, da milicia, e das universidades, que são os tres exercicios

nobres, em que os homens se occupam, apuram e engrandecem; e n’elles

se pode gastar a noite com muita satisfação dos presentes, pois assim

pode cada um saber muitas cousas das que convém ao particular de sua

profissão.--Entendo (disse D. Julio) que escolhestes bem, e que vos

cabe o primeiro logar para tratar da côrte: ao senhor Alberto o segundo

para dizer da milicia: ao doutor Livio o terceiro para falar das

universidades. E se eu n’este voto parecer atrevido, confiança me deu a

liberdade da nossa conversação, e o costume dos mais. “Todos approvaram

a escolha de Leonardo, e a repartição de D. Julio. Porém Solino não

ficou tão satisfeito que se calasse, antes disse para D. Julio:--Vós,

por vos forrardes do trabalho, fintastes os outros. E posto que não se

pode ir contra eleição tão acertada, se o ensino da côrte se houver

de pintar pela tempera velha, e tratar sómente do canto chão, de seus

estilos, e gentilezas, ninguem dará melhor conta d’isto que o senhor

Leonardo; porque se achou no paço ainda em tempo que eramos troianos, e

viu luzir o que agora está cheio de ferrugem. Mas se houver de falar ao

moderno, em que é tudo de outra freguezia, receio que lhe fique muito

por dizer.--O mesmo receio tenho eu (tornou Leonardo) porém não são

os males e bens da côrte tão pouco antigos como vos parece; que já no

meu tempo havia os mesmos queixumes de agora: porém ha tanto que dizer

d’ella, que de necessidade hão de passar muitos pela malha a quem vive

ha muitos annos n’este desvio, e que no remanso do descuido da vida

afogou todas as lembranças d’ella; e assim houvera o senhor D. Julio de

passar esta obrigação a outrem que dê melhor conta d’ella.--Não faço

eu as minhas tão erradas (respondeu elle) que vos desobrigue.” A isto

ajudaram todos os presentes; e Leonardo começou d’esta maneira:

Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume II) · 第 5 / 9 段