Depois que os amigos se despediram, os hospedes ficaram gabando a

D. Julio a graça e bom termo de falar, de todos os que entravam

n’aquella conversação; dizendo que em tal aldeia se podiam ensaiar os

que quizessem apparecer na côrte apercebidos, approvando a maneira

que se tinha de discursar sobre cousas tão miudas e tão esquecidas,

sem causa, dos cortezãos. D. Julio lhe relatou algumas materias, de

que tinham tratado aquelles dias, que ao soldado deixaram cobiçoso;

e foram n’esta pratica tomando tantas horas emprestadas ao repouso,

que, para se entregarem d’elle pela manhã, se levantaram da cama

para a mesa: tiveram o doente e os hospedes suas visitas; e quando

veiu a noite, já os amigos estavam juntos em sua casa, com gosto de

Leonardo que o pediu a todos elles. E D. Julio para lhes pagar esta

diligencia no em que elle sabia que mais desejavam a satisfação, lhes

disse:--Não parece razão que á conta da cortezia, com que dissimulaes

commigo, me encerre eu com o que sei que desejaes de ouvir com muito

cuidado. Quero agora acudir aos remoques de Solino, e á curiosidade

dos mais, que lançáram juizos temerarios sobre a minha jornada; e para

que não esconda nenhuma das cousas que passei, a conto deante de tão

abonadas testemunhas. Soube (e não quero dizer que acaso), porque o

procurei de proposito, o dia, em que o sr. prior levava para a cidade

aquella religiosa peregrina; que por ter tantas cousas do céo, deixou

todas as da terra, vencidas com seu despreso, e acanhadas e humildes

com sua formosura. E assim por o acompanhar a elle em obra de tanto

merecimento, como por vêr despedir de todas as pretenções humanas quem

em tantas partes e extremos era divina; e na resolução sua e desengano

vêr o das esperanças, que o desejo podia fundar em sua gentileza:

me fiz encontradiço no caminho, onde me dei por obrigado a chegar

até á cidade, fingindo que alli de novo soubera sua determinação.

Conheceu ella ser eu o mesmo que na fonte da serra a encontrára; e

lembrada e agradecida da cortezia e respeito com que a tratei, sem

saber quem fosse, me pagou com a brandura de seus olhos a alma que

n’elles perdi quando a olhava n’aquelle desvio. Disse-lhe o sr. prior

quem eu era, accrescentando do seu o que agora fico a dever á sua

cortezia: e conhecendo a extrangeira a sua vontade, me fez muitas

mercês e favores pelo caminho; que, a não ser aquelle o derradeiro,

que havia de fazer no mundo, me pudéra eu encher de vaidade para os

não trocar por todos os interesses d’elle. O que n’ella vi foi o que

já me ouvistes; e posto que o decóro e respeito com que a levavam, não

accrescentou graças á sua formosura, lhe dava outro valor differente,

como o engaste de ouro bem lavrado o costuma dar ás pedras finas. Ficou

entregue ao céo com quem se parecia, e os olhos, que alli deixaram

as saudades e desenganos. Não foram estas occasiões de minha doença,

que não costuma a ser tão leve a que d’elles se gera: e assim póde

fazer em mim maiores effeitos a sua lembrança.--Da vossa parte (disse

o prior) tendes contado o que passastes: porém d’aquella extrangeira

pudéra eu dizer muito mais; que só no que lhe ouvi se podia conhecer

quanto estimou o bom termo da vossa cortezia, e muito mais esta segunda

de a acompanhardes.--A primeira de a deixar sem companhia (tornou o

fidalgo) me foi a mim mais custosa. E ainda que diz o rifão antigo,

que _cortezia e falar bem custo pouco, e val muito_, não se

podia dizer pela minha.--Antes sim (disse o soldado) pois vos rendeu

tanto, e vós não mettestes mais cabedal, que dar logar á razão, onde

o não podia ter o appetite. E posto que a cortezia tem muito grande

logar entre os portuguezes, porque no comedimento fazem vantagem a

muitas outras nações; no falar bem, segundo o sentido d’esse rifão,

acham elles a difficuldade; porque dizel-o dos seus proprios naturaes

lhes não custa pouco (que é uma culpa que nos arguem com razão os

extrangeiros) na qual peccamos contra o principal termo da cortezia.

Mas certamente que uma e outra era devida áquella gentil senhora,

de cuja riqueza e estado eu, como fronteiro que fui daquella ilha,

pudéra dar informação; e a vi tão obrigada e desejosa de se mostrar

agradecida ao sr. D. Julio, que excedia o modo da sua brandura e

receio.--Já desejo (disse o doutor) que passemos d’esta romaria; e não

sei eu melhor occasião, que falar em cortezias, assim extrangeiras

como naturaes; que é materia que beta muito bem com as das noites

passadas.--Quem haverá (respondeu Alberto) que não approve a vossa

escolha? que, além de vir a pratica a proposito das que entre nós

se trataram, temos presente o sr. prior, a quem está melhor, que a

todos, o cargo de nos fazer cortezãos por doutrina, assim como o póde

ensinar a todos com o exemplo.--São os meus habitos (disse elle) tão

alheios do estylo cortezão, que estão culpando a vossa inculca, e o

atrevimento que eu desejo tomar para vos obedecer; porém tenho por

menor erro cahir em muitos n’esta empreza, que desobedecer em todas ao

vosso mandado: mas com tal condição, que acudaes vós, por cortezia,

aos descuidos que eu n’ellas fizer, porque então não terei receio de

falar, nem estes senhores pejo ou fastio de me ouvir. E falando em

este nome de _cortezia_, é um vocabulo particular que entre nós

tem a significação mui larga, porque no seu verdadeiro sentido ainda

é mais estreito que o latino, que é _urbanidade_ derivado de

_urbs_, que quer dizer _cidade_; e assim é o comedimento e

bom modo dos que vivem n’ella em differença dos aldeãos; e cortezia

é dos que seguem a côrte, em differença de uns e outros. Porém na

significação generica este nome comprehende estas tres especies de

cortezia: _Ceremonia_, que é a veneração com que tratamos as

cousas sagradas da egreja e dos ministros d’ella, que pertence á côrte

ecclesiastica do papa, dos bispos e dos outros prelados inferiores:

_Cortezia_, que é a que se tem aos reis, principes, senhores,

titulos e ministros reaes: _Bom ensino_, que é a inclinação,

reverencia e comedimento, que se costuma entre os eguaes, ou sejam de

maior ou de menor qualidade. E deixando de tratar das duas primeiras e

de outras duas, que muitos põem no segundo genero, que é _cortezia

militar_, a que chamam _ordem_, usada nos exercitos, esquadrões

e alojamentos; e a outra _naval_, que se usa nas frotas, armadas

e navegações, porque umas e outras tem regras e leis declaradas,

tratarei sómente do bom ensino. Para o que me parece advertir que da

ceremonia se derivou a cortezia, e d’ella o bom ensino, descendo

por degraus como o mostram os exemplos de uma e outra; que como os

reis e principes se endeosaram com a vaidade, foram tomando muito na

cortezia do que era devido só a Deus; e porque egualmente os inferiores

quizeram parecer-se com os reis, foram tambem contrafazendo os seus

estylos na cortezia, a qual consiste em tres cousas, na moderação, na

inclinação e nas palavras: e trazendo o exemplo de cada uma com seus

principios, a Deus falamos com os joelhos em terra por cerimonia, aos

reis com o esquerdo posto no chão por cortezia, aos eguaes com elle

dobrado, tornando o pé atraz por bom ensino: a Deus beijamos o chão

ou o assento do altar, onde está posto; ao papa o pé; ao rei a mão

(posto que a alguns da gentilidade costumam ainda beijar o joelho).

Entre os eguaes beijamos a mão com que tocamos a sua, e de palavras

as de todos. Nas palavras se quizeram os reis levantar mais com os

titulos divinos: e de _mercê_ e _senhoria_, que era o seu

proprio logar, subiram a _alteza_, que era só de Deus; e depois

a _magestade_; e ainda, se se poderam chamar _divindade_, e

_omnipotencia_, me parece que o fizeram. Aos eguaes tratamos de

_mercê_, como que fomos tomando o que os reis deixaram; e ficou-se

o _vós_, e a brandura d’elle para os amigos, e para os mal

ensinados. _Bom ensino_ é tratamento de homens bem doutrinados,

ou por experiencia da côrte e cidade, ou por ensino de outros que

n’ella viveram. A _inclinação_ consiste em abaixar a cabeça, ou

a descobrir, em dobrar os joelhos ou os pôr em terra, em inclinar a

vista, ou a desviar do com quem se fala. A _moderação_ em se

mostrar mais humilde em beijar primeiro a mão, em dar o melhor logar ao

que fazemos a reverencia, ou, para melhor dizer, em tomar de tudo menos

do que nos cabia. As palavras ellas mesmas declaram quaes são da côrte

na conformidade do proverbio, ou sentença com que começamos, que é

falar bem do terceiro, dizendo o que faça em seu favor, e escutando com

cortezia em quanto ouvimos o que fala: fóra outra cortezia de palavras,

a que chamam _cumprimentos_, de que por ora não determino tratar.

Esta cortezia no exterior differe mui pouco da virtude da humildade, e

tem o mesmo fruito entre os homens da terra, que o Evangelho promette

no céo aos humildes, que é serem levantados; porque tambem para os

vangloriosos e arrogantes é grangearia o bom ensino e comedimento,

porque assim são mais bemquistos, acceitos e respeitados dos menores.

Tem esta virtude da cortezia, ou bom ensino (a quem tambem Marco

Tullio chama _virtude_) quatro escolas principaes, em que se

exercita, que são o _encontro_, a _visita_, a _mesa_ e a

_conversação_: os dois termos, em que se sustenta, são humilhar-se

uma das partes, e a outra querer-se melhorar na humildade; porque

quanto um mais se aproveita d’ella, mais obriga ao outro a se querer

mostrar bem ensinado. No encontro do caminho da visita, ou do passeio,

é a regra entre os eguaes, que o que vem, ou está melhorado de logar,

seja o primeiro na cortezia, assim da fala como do chapéo ou mesura:

como, se vem andando, e o outro está parado, se vem a cavallo, e o

outro está, ou vem a pé; e se ambos andam, e um vem da mão direita, ou

do logar mais alto; e da mesma maneira o que está em terra, casa ou

logar seu, seja o primeiro que accommetta a cortezia.--D’esse termo de

cortezia (disse Leonardo) temos uma historia antiga em Portugal, que

nos póde servir de exemplo e auctoridade para ella. Conta a chronica de

el-rei D. Fernando de Portugal que, quando elle e el-rei D. Henrique

de Castella falaram no Tejo em dois bateis, houve de ambas as partes

duvida em qual d’elles seria o primeiro que falasse; e el-rei de

Castella se resolveu em ser o primeiro por ter Lisboa de cerco, e estar

na guerra de melhor condição que el-rei D. Fernando; sendo assim que,

por ser em terra de Portugal, havia elle de ser o primeiro: e assim

lhe disse: _Mantenha-vos Deus, senhor rei de Portugal_; porque

estes eram os cumprimentos d’aquella boa edade.--O mesmo (acudiu o

doutor) entendia el-rei D. Filippe, o Sabio, quando com tanto excesso

de cortezias recebeu no seu reino a el-rei D. Sebastião seu sobrinho na

jornada de Guadalupe, onde na fala e mesura foi sempre o primeiro, como

eu posso mostrar de uma relação que tenho da mesma jornada: e tambem

se alcança da visita que o infante D. Luiz fez ao imperador Carlos

V quando, dando-lhe a deanteira na entrada de uma porta, o infante,

não se podendo escusar, arremetteu a huma tocha com que ia deante um

creado, porque era de noite, e foi allumiando ao imperador, para tambem

o vencer na cortezia que com elle usára.--O mesmo (disse Feliciano)

aconteceu a uma pessoa de não tanta qualidade, porém de sangue

illustre, que, dando-lhe um titular a deanteira na entrada de uma porta

travessa de uma egreja, elle se voltou a elle com agua benta fazendo o

officio de seu capellão.--Todos esses lances e outros semelhantes são

estratagemas e finezas de cortezia (respondeu o prior) das quaes eu me

não esquecerei no seu logar. E proseguindo a materia, a visita tem tres

termos de cortezia, que são: o _recebimento_, o _assento_

e o _acompanhamento_ da despedida. O _recebimento_ é sahir

o visitado fóra da casa, onde ha de tomar a visita, até á sala,

para na entrada dar a deanteira e melhoria ao que o vem visitar. O

_assento_, dar o seu ao hospede, e tomar outro egual á sua mão

esquerda, sem ser o primeiro que se assente. O _acompanhamento_ da

despedida é sahir com elle até á casa onde o recebeu, tomando sempre

a sua mão esquerda, dando-lhe d’este modo a melhoria na entrada,

logar e passeio.--O descuido dos ignorantes (respondeu Leonardo) tem

pervertido essas regras tão verdadeiras; ou, ao menos, embaraçado

pela sua má correspondencia: porque no receber das visitas ha alguns,

que são como pesos de lagar, que se levantam devagar e se assentam de

pressa: e a um dos taes disse um cortezão: que era bom para testemunho

falso, porque o não levantariam. Outro disse a um titular: que menos

era para senhor que para vassallo; porque nunca se levantaria. Já no

recebimento ha muitos que se ficam atraz dos paus, por não deixarem

a casa só, e assim dão cinco, e fazem o mesmo no acompanhamento da

despedida: a cujo proposito cabe aquelle dito excellente de um senhor

tão illustre por sangue, como por entendimento n’este reino; que

vizitando a um legado do papa vindo de pouco a Lisboa, na despedida

deu com elle mui poucos passos ao sahir da casa; e elle tomando-o pela

mão, o trouxe adeante dizendo: “Para italiano faz V. S. muito pouco

exercicio.” Porém declarae-me se nas vizitas falaes tambem das que se

costumam a fazer a enojados e enfermos: porque serão necessarias outras

regras muito differentes.--Não podia eu (disse o prior) fazer essa

mistura sem grande confusão e enleio. Mas d’ellas e das que se fazem a

donas e donzellas, e outras semelhantes, determino particularmente dar

meu voto debaixo da censura de vosso entendimento; e agora seguindo

a minha determinação: A terceira escola da cortezia é a mesa, em a

qual as regras são muitas; porém muito ordinarias e conhecidas. A

primeira é do assento, a segunda do serviço, a terceira das iguarias,

a quarta das graças depois de comer. O assento, em mesa de muitos, é o

primeiro logar o topo, a que chamam _cabeceira_, que fica á mão

direita dos outros; entendendo que ha de ficar uma das partes da mesa

livre para o serviço dos ministros d’ella: e quando é do menos gente,

sempre o que agasalha toma por cortezia o logar da mão esquerda. No

serviço o primeiro é dar agua ás mãos, em que sempre se ha de preferir

o hospede; e andam n’isto já os servidores tão apurados, que não fica

aos convidados logar mais que de algum leve comprimento. O segundo

(entre os amigos) é o fazer o senhor da casa para cada um dos outros os

pratos, que se hão de dividir na mesa, melhorando ao hospede na escolha

de cada cousa, a que podem chamar _cortezia mimosa_. O comer ha

de ser sem sofreguidão, sem mostra de gula nem demasiado appetite; e

tambem não mostrar uma frieza cheia de fastio, que é desagradecer a

comida e a vontade do que lh’a offerece. O beber seja sem pressa, e

com tento, não levantando o copo nem o pucaro, quando outrem o tem na

bôcca; salvo onde se usar a differente cortezia dos extrangeiros, que

se convidam a beber em um mesmo tempo. O que está á mesa não ha de

falar sempre em quanto os outros comem, nem comer em quanto os outros

falam. E de uma maneira e outra, o que se disser não seja cousa que

possa enojar o estomago ou diminuir o gosto dos convidados. Tambem deve

cada um acabar de comer quando os mais, ainda que lhe tivessem vantagem

na brevidade. As graças pertencem primeiro ao dono da casa; e aos

hospedes a cortezia depois d’ellas; que é uma maneira de agradecimento

cortezão. E posto que pudéra calar estas miudezas por mui sabidas (como

outras que deixo pela mesma razão) tenho alguma de falar n’ellas em

quanto me servem para ao deante.--Antes de ess’outras (acudiu Solino)

me quero eu metter como cebolinha em restea; que, se até agora’não

pescava em tanto fundo, porque a conversação obriga aos costumes, e eu

estou ha tantos annos pelos d’esta aldeia; para as cousas da mesa tenho

feito outro aranzel de cortezia: e posto que n’ella e na humildade

dizem que _abaixo fica quem se não adeanta_, como as cousas de

comer, e de proveito se atravessam com a vaidade d’este estylo, tenho

outra regra mui differente, por que me rejo, registada nos livros dos

rifães e proverbios das velhas, e encommendadas á memoria do meu moço,

com muito cuidado, distincta por _itens_, muito importantes á

quietação, e socego da vida de uma aldeia. Primeiramente: melhorar o

hospede por assento, e a mim no mantimento: dar-lhe nas cortezias o

que a mim nas iguarias: elle o primeiro no prato, e a mim o melhor

boccado: Se fôr pouco o vinho, beba eu deante; que quem leva a primeira

não fica sem ella: Se fôr pouco o pão, tel-o eu na mão, por não pôr

nas da cortezia o que folgo de ter na minha: Não tirar prato de deante

sem vir outro, que m’o alevante: Em quanto outrem apara, fingir que

não vejo a faca: Se os outros falarem muito, dizer, os amens: porque

_ovelha, que bala, boccado perde_. Em quanto tiver fome, zombar

de quem não come: E quando tiver sede, lembral-a a quem não bebe.

E quanto em todas as mais entradas e sahidas, como são o _lavar

das mãos_, _mesuras_ e _prolfaças_, liberal como nas eiras. E

a verdade é que o verdadeiro cumprimento em que se declaram

os demais, e que serve de lei mental a todos, é: _Todo sou vosso,

tirando fazenda e corpo_. E passando da mesa, seguem logo outras

regras não menos respeitosas, como são: No acudir ao perigo, fingir-se

manco: Na cama pequena, deitar no meio: No logar estreito correr

deante; que quem vem tarde, mal se agasalha: Ribeiro grande, saltar

de traz; que a verdadeira discrição é experimentar na cabeça alheia:

e a mais trilhada parvoice é _não cuidei_.--Não vos desfaçaes

d’essa doutrina (disse Leonardo) que é a melhor regra de viver em paz

sobre a face da terra, que quantas andam nas cartilhas antigas.--Eu

(tornou o prior) não defendo aquella seita aos que a quizerem seguir,

respeitando mais a commodidade que a cortezia. E deixando esta eleição,

a ultima escola é a da conversação; que se entende no passeio, na

roda ou na visita. O passeio, quando é de dois ou tres, voltam com os

rostos sempre eguaes (não virando as costas um ao outro, como costumam

os extrangeiros) e os que recebem em uma volta á mão direita, a dão na

outra aos que trouxeram á esquerda. Se são muitos, ou se dividem no

meio ao voltar para ficarem todos de rosto; ou, se ha logar para isso,

voltam em ala, ficando o primeiro da mão direita o ultimo da esquerda

na volta do passeio: o que entra de novo faz primeiro cortezia aos que

andam n’elle. E elles abrindo-o, lhe devem offerecer no meio o logar

da mão direita; que elle não acceitará, senão o ultimo da esquerda,

por não romper a ala; e porque na volta fica logo com o que na entrada

lhe offerecem. Na roda ou ajuntamento se usa o mesmo; porém é para

advertir a obrigação de cada um, para levantar do chão qualquer cousa

que caia aos companheiros, como são luvas, contas, livro, chapéo,

lenço e outras semelhantes; e, quanto a mim, esta obrigação de acudir

a alçal-a é do visinho da mão direita.--N’isso (respondeu Solino) me

releva pordes taxa certa, pelas cabeçadas que vi dar a muitos que

acudiam juntos a essa cortezia: e tenho-me sempre com o primeiro que

se alevanta; mórmente na roda onde todos os cabos são de palheta.--O

que eu aconselhára (replicou o prior) é que, commettendo um, cessassem

os mais, deixando o cumprimento ao dono da cousa.--Pois não é esse

o termo (disse Leonardo) dos menos delicados na cortezia, assim no

passeio, e roda, como na visita: e não só nas cousas, que cahem a caso,

mas nas que se arremessam, ou com que tiram de proposito. E deixando

o que aconteceu a um cortezão mancebo, que atirando-lhe uma dama, em

castigo de um atrevimento, com um chapim, elle o beijou, e lh’o tornou

a offerecer, e com este lanço a obrigou a d’alli adeante o ter em mais

conta: um principe de sangue real d’este reino, andando á caça de

montaria com um rei d’elle, se lhe adeantou a dar uma lançada em um

porco montez, parecendo-lhe que se lhe mettia em o meio do perigo, por

atalhar algum da vida de seu rei. Porém elle, que era mal soffrido, com

paixão atirou ao principe com a lança: e elle apeando-se a levantou,

e beijando-a lh’a tornou a offerecer; e com isto venceu a colera do

rei, e o obrigou a vergonhoso arrependimento.--Ainda agora (disse

Solino) lhe eu houvera de deixar passar a ira; que _quem se guardou

não errou_: e _á furia de senhor terra em meio_: e posto que

lhe succedeu bem a cura, não houvera eu de provar a mezinha; que com

estes perde o bem fazer a cento por um, que é o que com Deus se ganha.

E porque no passeio se me offereceu uma duvida, pergunto: Quando um

se diverte dos com que vae passeando, e fica carta atraz falando com

alguem que passou e o deteve; ou em outro caso semelhante; que regra

se ha de seguir?--Pararem os outros á vista (respondeu o prior) e

elle, quando tornar, fazer sua cortezia, e entrar no passeio, tomando

o logar mais humilde, como tenho dito.--E se passearem a cavallo

(replicou elle) e a mula de um dos mantenedores se parou a ourinar, e

os companheiros foram adeante, é obrigado o que torna á têa a fazer

cortezia em nome da sua mula?--Isso não (tornou o prior) porque no

primeiro caso a cortezia é uma satisfação da tardança: e o segundo é um

acto de um bruto irracional, que não merece ser desculpado. Com isto

me parece que tenho tocado o que é o cantochão da cortezia, em cujo

contraponto ha cem mil galanterias e extremos, que não cabem em regras

tão limitadas; como tambem o seriam para as cortezias, que consistem

em palavras, a que se não póde pôr limite.--Vós (disse o doutor)

tendes tratado a materia com muita curiosidade: e posto que fica assás

auctorisada com razões tão verdadeiras, costumes tão approvados, e,

o que mais é, com experiencia vossa; quero eu accrescentar o que li,

mais por me fazer figura no em que vós sois auctor, que por mostrar que

o posso ser em alguma cousa sem favor vosso. E porque me lembra que

na divisão fizestes á inclinação a principal parte d’ella, me pareceu

dizer alguma cousa de sua antiguidade: porque já os Hebreus, Persas,

Gregos e Romanos usaram inclinar a cabeça por cortezia, como contam

Josepho, Plutarco, Eliano e outros auctores graves: e esta reverencia

faziam em signal de humildade, confessando fraqueza, e menos poder

ante aquelle a cujo valor se abatiam: posto que dos Romanos, Alexandre

Severo, successor do Heliogábalo, não consentiu que ninguem lhe fizesse

esta cortezia, havendo-a por lisonja; antes mandava lançar de sua

presença a quem a usava (como escreve Lampridio) dizendo que só a Deus

se devia aquella inclinação. Os de Thebas, se sabiam que algum dos

seus inclinasse a cabeça a pessoa humana, o castigavam rigorosamente:

e esta lei pôz em grande confusão a Ismenias, que elles mandaram por

embaixador a Artaxerxes (como na sua vida o escreve Plutarco) o qual

estando já na sala para falar ao rei, lhe disse um capitão, chamado

Tithraustes, que se não havia de fazer ao rei a inclinação que os

Persas costumavam, que lhe désse a elle o recado, e que faria em seu

nome a embaixada. Elle não querendo fiar de outrem o que lhe fôra

encommendado, entrando a falar ao rei, deixou cahir um annel que trazia

no dedo; e abaixando-se a o levantar, fez a inclinação dos persas sem

poder ser culpado dos Thebanos.--Essa inclinação (disse o prior) de

inclinar a cabeça, dobrar os joelhos, ou pôl-os em terra, e extendendo

o braço para a pessoa, a que queremos venerar, beijar a mão propria,

é ceremonia antiquisima, que só a Deus se fazia; e assim se colhe de

muitos logares da escriptura, como é no livro V dos Reis, capitulo

XIX, no de Job capitulo XXXI, e no Deuteronomio capitulo XVII. O que

tambem alguns gentios usaram, como lêmos em Plinio livro XXVIII,

capitulo II. E d’aqui creio que se derivou este uso, que entre nós ha,

do _beijo as mãos de V. M._--O costume de beijar a mão (respondeu

o doutor) entre os Romanos antigos foi dos escravos a seus senhores.

Mas Plutarco conta que, depois que Catão deu fim á sua milicia,

despedindo-se d’elle os soldados com muitas lagrimas, e extendendo-lhe

as capas e os vestidos por onde passava, lhe beijavam a mão; e d’aqui

começaram os livres a usar esta cortezia; de que logo lançaram mão os

pretendentes para grangearem animos e vontades alheias, como Seneca diz

na Epistola CXVIII. E logo os imperadores modernos mandaram que seus

vassallos lhes beijassem a mão, como escreve Pomponio Leto: e os reis

da Hespanha o puzeram por ordenação, como se vê nas leis de el-rei D.

Affonso nas leis de Castella livro V, titulo XXV, pag. IV. E d’aqui

se derivou o _beijo as mãos de V. M._, que é confessar-se por

escravo ou vassallo d’aquelle, a quem se faz a cortezia.--Essa (acudiu

Solino) me custa a mim bem pouco: porque não gasto n’ella mais que

palavras, e essas com as abreviaturas de agora são já muito menos. O

que me a mim cansa é o tirar o chapéo, que me fazem de despeza as boas

correspondencias de forros, e caireis, a fóra os damnos do feltro; o

que Deus sabe e eu o sinto; e não me pesára saber d’onde teve principio

este mal que padeço.--O chapéo (respondeu o doutor) era entre os

romanos signal de nobreza, e symbolo da liberdade; e quando a queriam

significar, pintavam um chapéo, como se vê nas moedas de Claudio, de

Antonio e de Galba. E assim quando libertavam aos escravos, lhes davam

chapéo, como refere Pierio Valeriano nos seus jeroglificos, livro XL,

onde tambem affirma que os escravos, que se vendiam por maus costumes

e ruins partes que tinham, os punham em almoeda com chapéo na cabeça,

em signal que seu senhor o não queria por escravo, nem se obrivava

a fiar sua má natureza. De sorte que o descobrir um homem a cabeça,

e tirar o chapéo ao outro, é confessar-se por seu escravo; e a esta

cortezia responde a de chamarmos senhores aos eguaes e maiores com que

tratamos, e ainda os inferiores.--Pois eu vos affirmo (disse Solino)

que a muitos tiro o chapéo, de que não quizera parecer escravo; e esses

m’o fazem trazer tal, que parece dos que o são. Comtudo me fizestes

mui grande mercê em me descobrir essa razão e a de outra cousa em que

eu já cansei algumas vezes o pensamento, que era saber o porque os

chucarreiros se cobrem deante dos principes, e, sendo gente tão vil

gosam de tão grande preeminencia; e agora entendo que deve ser por

estarem no andar dos escravos, que se vendem por ter más manhas, que

se vendem com chapéo para serem por elle conhecidos.--Mais me parece a

mim (acudiu D. Julio) que é pelo pouco caso que se faz da sua cortezia;

ou porque se entenda que, assim como tem aquella liberdade, tem outras

para falarem o que não é licito aos homens cortezãos bem disciplinados.

Porém não sei a causa, porque nos esquecemos da cortezia a que chamam

_cumprimentos_, que n’esta edade tem chegado á mór perfeição de

encarecimento que póde ser.--Nisso (disse Feliciano) se acredita ella

muito pouco, e menos os que usam muito d’elles; que á falta de verdades

e de obras, se introduziram no mundo os cumprimentos, que são um

engano desaforado de toda a jurisdicção; conforme ao rifão que diz, que

_palavras de cortezia não obrigam a pessoa_.--Parece-me (tornou D.

Julio) que tornamos á sentença, com que se começou a pratica, em quanto

diz que _falar bem val muito, e custa pouco_: o que á letra se

entende dos cumprimentos, pois que custam tão pouco, que ninguem por

elles fica obrigado.--Não digamos mal d’elles (disse Solino) que são a

melhor cousa do mundo, salvo que perderam reputação como as sardinhas,

que, por as haver sempre e custarem baratas, as não estimam; e não

era a materia dos cumprimentos para ficar de fora n’esta occasião.--A

noite (respondeu o doutor) é a que não basta a tanto; e n’esta me não

atrevo eu a vos acompanhar mais: e assim me haveis de dar licença que

me recolha.

Com isto se levantaram todos, e deram boas noites; e, depois de

recolhidos, gastaram em o desejo da que se seguia o mesmo espaço que

d’aquella poupavam; que muitas vezes a recreação dos sentidos vence a

necessidade do repouso que os suspende.

DIALOGO XIII

DO FRUCTO DA LIBERALIDADE E DA CORTEZIA

Tendo Feliciano e seu companheiro por cousa sem duvida que se

havia de tratar a materia dos cumprimentos a noite seguinte; e que

já d’aquella ficavam encetados para se haverem de proseguir; se

aperceberam de exemplos, historias e razões mui escolhidas, com que

lhes pareceu que deixariam a perder de vista os cortezãos velhos, em

cuja mocidade é certo que se usa menos d’esta alquimia de palavras

fóra da tenção mental de quem as offerece. Com este fundamento se

chegaram ao outro dia com muita confiança: e juntos os amigos, disse

o soldado:--Foi para mim tão saborosa a conversação da noite passada,

que até a lembrança d’ella antepuz ao repouso; e sem poder entrar em

o do somno me lembrou uma historia famosa que succedeu a um capitão

nosso portuguez n’aquellas partes do norte, procedida de uma cortezia

sua bem empregada, que lhe rendeu graça com as damas extrangeiras

e naturaes, inveja nos companheiros, e nos contrarios, gloriosa

fama com louvor, e honra da nação portugueza. E como algum dia der

logar o nosso exercicio, a hei de contar n’esta companhia em prova

do muito preço e valor, que tem a cortezia com a gente generosa e

illustre.--Certo (disse o doutor) que será bem errada cousa dilatarmos

esta historia para mais tarde; que, posto que a todo o tempo as

vossas o gastam mui bem aos ouvintes, agora tem ella o seu, e sahe

bafejando á mesma materia que temos entre as mãos, maiormente que,

como seja em favor e honra do nome portuguez, não consentirá o sr.

D. Julio na tardança.--Antes (respondeu elle) se não accudíreis com

tanta pressa, me quizera já queixar da dilação: porque, por a materia,

por a historia, e por ser o sr. Alberto o que a ha de contar, obriga

por mil caminhos o meu desejo; e do d’estes senhores tenho a mesma

opinião.--Não é errada (disse Feliciano) no que pertence á minha

escolha.

E porque todos vieram na mesma vontade, começou o soldado:

“Um capitão portuguez, que nas guerras do Norte com singular esforço

fez seu nome conhecido no mundo, e sua fama immortal na memoria d’elle;

e que não representava menos na presença de sua vista, do que dava a

conhecer a experiencia do valor de seu braço, com as mais partes de

juizo, e galanteria, que pode desejar um cortezão; cessando por razão

da entrada do inverno o exercicio da guerra, escolheu, ou lhe coube

em sorte, para alojar as suas companhias, um districto das terras do

inimigo, que eram aldeias sem defensão. Acertaram estas ser de uma

senhora flamenga, donzella de muita qualidade; a qual vendo o damno sem

reparo, que a seus vassallos se apparelhava, além de com a assistencia

dos Hespanhoes perder o interesse das rendas que colhia, e de que se

sustentava; não sabendo que meio tivesse contra este mal, lhe veiu á

imaginação de com as armas, mais poderosas por brandura, que por rigor,

conquistar a cortezia do capitão, de cuja liberalidade e nobreza estava

bem informada e satisfeita: e fiando de uma donzella, e de um rustico

mensageiro o segredo do que queria, lhe mandou uma carta, que vinha a

comprehender as razões que se seguem:

“Se o valor e grandeza de vosso animo vence a cubiça e crueldade de

inimigo, confiada estou que o não queiraes ser de uma dama illustre,

cujo dote, pelos successos da guerra, poz na vossa mão a ventura: e

pois o ganho de me despojardes d’elle é tão pequeno, que nem basta

para agazalhardes bem os vossos soldados; perdoae antes a essas

fracas aldeias com brandura, havendo que ganhaes com ella o coração

de uma mulher nobre, que em quanto viver vos ficará captiva (trophéo

differente do que se pode esperar de um rustico alojamento), e pois

de quem sois, e da fama que vos abona e engrandece se não espera que

queiraes perseguir a uma dama rendida a vosso nome, dae-me liberdade

para que em o de meus vassallos, para quem a peço, vos offereça os

mantimentos, que ha n’esse pobre senhorio; que então será mais vosso,

quando eu o possuir com o favor e mercê, que de vós espero, etc.”

O capitão, que, além do valoroso animo que tinha, sabia conhecer o

muito que em semelhantes lanços se ganhava; lendo a carta se alegrou

por extremo, como quem achara occasião de se mostrar gentil-homem a tão

illustre e discreta senhora: e traçando primeiro o como melhor poderia

responder com effeito a seus rogos; mandando vestir o rustico que

trouxe a carta, e fazendo-se-lhe o agazalho e tratamento que, por quem

o mandava, lhe era devido, sem respeitar a incommodidade do que para os

seus não tinha, respondeu em maneira semelhante:

“Ainda as armas me não deram maior gloria que esta ventura: porque

tenho por tão grande a de vos servir, que estimára em menos dominar um

grande senhorio da terra, que ficar agora por guarda e defensor das

vossas, as quaes tomo tanto á minha conta, que não sómente lhe tirarei

a oppressão dos soldados que lhe causavam receio, mas farei que nenhuns

outros lhe possam fazer offensa. Perdei, senhora, o cuidado d’ella; e

crêde que saberei estimar o vosso dote mais que a propria vida. E se á

custa d’ella quizerdes conquistar bens da fortuna, que egualem o preço

das graças que vos deu a natureza, elle será mais copioso, e eu não

ficarei menos satisfeito. Por as mercês, que me offereceis, vos beijo

as mãos; porém n’ellas as renuncio; porque mais quero parecer a estes

companheiros contrario vencido, que amigo obrigado.”

Não se satisfez o capitão com responder tanto a gosto d’aquella dama;

mas ordenou juntamente que, quando tivesse a carta, lhe chegassem as

novas do que por a sua fazia; e para isto escreveu a um capitão, que

alli perto se alojára; do qual tendo licença, se foi para elle com os

seus soldados, aos quaes com regalos, vantagens, favores, e cortezias

ia satisfazendo a falta do alojamento que deixaram. Soube isto a dama,

cujo nome era Floriza; e vencida do primor da obra, e das palavras

da carta do Luzitano, o começou a amar por informações que cada hora

lhe trazia a sua fama; que estas costumam a ser mais favorecidas,

que as da presença. Esta desejava ella de vêr extranhamente; porém a

difficuldade de contrario lh’a fazia impossivel. Accommetteu por vezes

fazer-lhe presentes, a que elle nunca deu logar; antes n’aquelles,

que libertára, havia poucas pessoas que não experimentassem favores

e boas obras do capitão, todo o tempo, que durou a visinhança do

seu alojamento. Passado o inverno, tornaram a continuar as guerras

d’aquella fronteira, muito mais intricadas e perigosas, que as que

haviam precedido: e como n’ellas o capitão buscava sempre as occasiões

de maior risco; porque o seu esforço o punha sobre o animo dos mais

guerreiros; na defensão de um posto, que lhe quiz ganhar o inimigo,

ficou elle mui mal ferido, porém o contrario desbaratado, e com muitos

soldados menos. Chegou a fama do successo á agradecida senhora, que o

sentiu por extremo; e desejosa de fazer algum, com que manifestasse a

pena que tinha de seu damno, determinou de (com salvo conducto) passar

ao campo contrario a o visitar: e havida a licença, sem levar comsigo

mais que duas creadas, atravessou em um coche o arraial. Sendo d’isto

avisado o capitão, preveniu os seus soldados para com bellicas alegrias

receberem e festejarem a sua chegada. E mandando entrar algumas

companhias de guarda, lh’a fizeram a ella com grinaldas de fogo sobre

os morriões, e com bombas em os piques, que parece que ardiam até a

empunhadura da manopla; e outros foguetes e invenções de polvora muito

apraziveis. Sahiu ella do coche á porta da tenda do capitão, vestida

de uma téla verde, semeada de borboletas de ouro, que lhe estava muito

bem; porque dava graça á neve do seu rosto, que com a afronta d’aquelle

atrevimento se enchera de rosas encarnadas; os olhos tão alegres, que

parece que se vinham rindo das estrellas, como os cabellos o poderam

fazer do sol, se elle já não estivera escondido de pura inveja. Sobre

elles trazia uma rede de prata, cujos laços se rematavam com perolas

á maneira de camarinhas; e da parte esquerda tres plumas altas, uma

branca e duas encarnadas, presas a um camafeu: sobre os pensamentos das

orelhas rosas de flôres perfiladas de ouro, e pendurado em cada uma um

Cupido, que quebrava o arco sobre um diamante; no pescoço uma volta

pequena com pontas de aljofares muito miudos, e uma gargantilha de uns

passarinhos de ouro com os peitos de esmeraldas. As creadas vestiam

de setim amarello gualde, com guarnição de prata. O Portuguez, posto

que não quizera mostrar descuido no que convinha para se entender, que

no ornamento militar, e cortezão da sua pessoa, e tenda não faltava,

como estava ferido, e incapaz de se valer das galas; converteu tudo

em pavilhão rico, armação custosa, e trophéos de armas, que faziam a

tenda muito agradavel, e auctorisada. D’alli com grande acatamento e

inclinação, e com os olhos cheios de alvoroço festejou a boa chegada

da formosa e discreta Floriza, que com as palavras accrescentou

infinitas graças á sua formosura. Durou a visita grande espaço com

mil finezas, e extremos de cortezia. E posto que o capitão com as

feridas estava desfigurado, representava no brio e modo de seu parecer

a gentileza de sua pessoa, sem a desculpa, que uns olhos affeiçoados

offerecem com a parte offendida. A dama se lhe rendeu de maneira,

que o mostrava na vista, empregando na sua muitas vezes os olhos. E

por não ter mais tempo, suspensos os que esperavam vêr o successo da

visita, lhe deu fim com nova graça: e voltando por onde viera, achou a

mesma guarnição, e ordem nos soldados, que quando entrára. Logo entre

elles e nos mais do exercito se praticou a causa d’aquelle excesso e

novo extremo de cortezia, havendo que a que o capitão tinha com ella

usado o merecia. Porém não fez termo aqui o seu desejo; que depois de

ausente, mandando por muitas vezes a visital-o na convalescença das

feridas com que o vira, já de todo livre d’ellas, lhe escreveu Floriza,

dizendo que, pois o vira em tal estado, e n’elle lhe parecera tão bem

a sua gentileza, lhe pedia um retrato seu, tirado no campo em que elle

fôra mais gentil-homem, e se contentára mais de suas partes. Elle, que

em nada perdia o cuidado de se mostrar cortez, se mandou retratar no

estado em que recebera a sua visita: e n’este lhe mandou o retrato,

escrevendo-lhe que, só quando merecera a ventura de a vêr, se tivera

por galhardo, e gentil-homem; e que não sómente n’aquella occasião,

mas em todas as mais, que se lhe representasse aquelle bem, seria de

si contente, e satisfeito. E tambem procurou logo ter da mesma senhora

outro retrato no mesmo trajo, com que o viera visitar, tirado por o

natural, com muito artificio, sem ella ter noticia d’esta diligencia,

senão depois que era manifesto que o capitão o tinha na sua tenda

mui venerado. E sobre um e outro se tratavam de recados com muitas

gentilezas e cortezias, com a fama das quaes se accrescentou tanto a

formosura e discrição de Floriza, que d’alli adeante era mais conhecida

e requestada assim dos nobres do exercito, como dos senhores comarcãos,

com que as suas terras avisinhavam. Sobre todos os mais entrou nesta

affeição um gentil soldado filho do conde de Hieme, fidalgo, de cujo

esforço, brio, e gentileza havia no campo geralmente muita satisfação,

e em muitos soldados nobres não menor inveja. Este se determinou que

na primeira occasião, que houvesse de assalto, havia de fazer mais

do possivel por se encontrar, e provar as armas com o hespanhol, a

quem Floriza mostrava tão declarada affeição. Porém como esta escolha

havia de ser da sorte, e não da sua vontade, succedeu que a primeira

occasião, que houve, de poderem vir ás armas, foi sobre o contrario

querer ganhar um posto para se entrincheirar n’elle, e fazer sombra

a uma mina secreta, que para seus intentos ordenava. Foi revelado

este ao general; e com um dissimulado apercebimento tomou ás mãos os

inimigos, entre os quaes captivou o gentil soldado, que se desejava

assignalar n’aquella fronteira escurecendo a fama do Luzitano, a quem

invejava. Elle, que já sabia d’aquella pretenção, fez muita diligencia

para que ficasse depositado em seu poder; o que alcançou facilmente.

E tratando-o logo com termos de excessiva brandura, e affabilidade, o

tinha mais como hospede mimoso, que como preso vencido. De sorte que

enleado elle lhe perguntou a causa, porque lhe fazia tantas mercês,

podendo-o tratar como seu escravo, e ao menos do modo que o costumam

fazer os capitães aos mais vencidos. “Eu (lhe disse o portuguez) vos

trato como companheiro, por saber que, fóra da obrigação de Marte, nas

de Cupido servimos ambos a um senhor: e sei que ainda n’esta egualdade

me tendes muita vantagem, porque alcançaes na presença o premio de

vossos extremos; e eu ausente faço só emprego de meus desejos; e por

esta via me podera obrigar a inveja a má tenção, que em vós já fez o

ciume. Porém como da senhora Floriza não pretendo mais, que ser ella

amada, e servida como merece; e sei de vossa qualidade, e valor que

sois digno sujeito da sua formosura, como a cousa já sua vos quiz

antes offerecer a casa, que o campo: n’esta estareis servido, não como

mereceis, e eu desejo, mas á medida das incommodidades da malicia, de

que já tendes experiencia.” Não sómente espantado, mas corrido ficou

o illustre mancebo do bom termo e gentileza do capitão: e pondo os

olhos n’elle com o animo mais affeiçoado, que o com que partira do

arraial, lhe disse: “Tão alcançado estou do meu engano, quão vencido

e obrigado de vossa cortezia: e já, senhor, não desejarei liberdade

d’esta prisão mais, que para ser mais vosso quando fôr meu: e agora

vejo quão bem adivinhava o meu receio em me fazer que temesse a vossa

competencia, só por o que a vossa fama lhe descobria; mas agora, pelo

que sei da presença, não só confessarei o muito que ella acredita, mas

que deve ainda muito mais ao vosso valor, e d’elle serei eu a mais fiel

testemunha ante a senhora Floriza.” Eu, “senhor soldado (respondeu

elle) no serviço d’esta senhora não pretendo mais, que, conhecendo-a

por tal, não faltar a seu credito, honra, e satisfação, e conhecer ella

de mim, junto com esta verdade, que não sou ingrato á mercê que me

faz. E muito melhor satisfaço a esta obrigação em lhe gabar o muito

que vos deve, e o quão acertada será a sua eleição, escolhendo-vos

por esposo, que em me mostrar competidor com vossos pensamentos. Com

este presupposto podeis usar da minha vontade, e companhia sem receio,

nem ciume. E se vós tiverdes confiança, e ella me der licença que

eu seja terceiro de se effeituar esta pretenção, d’aqui prometto de

fazer extremos por facilitar brevemente o meio de vossa liberdade.”

O soldado cada hora mais vencido, e devedor a tão bom procedimento,

se lhe lançava aos pés, sem saber cousa que respondesse n’este mesmo

intento. Tratou logo de sua soltura; a qual se fez brevemente com todos

os mais, que n’aquella occasião ficaram presos; trocando-se por outros

hespanhoes, que tambem havia no campo contrario. Por elle e em seu

favor escreveu á formosa e agradecida Floriza, que com esta fineza de

nova cortezia dobrou sua affeição: e vendo que elle era o que lhe havia

escolhido tal esposo, o acceitou por esse, ficando ambos unidos em

aquella fiel amisade do cortez Lusitano, que sempre conservaram, posto

que nos limites de contrario a respeito de seu rei; que estes são os

poderes da cortezia, que não só vence e obriga os mais barbaros animos

do mundo, mas faz concordia e firme liança em corações tão inimigos.

Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume II) · 第 4 / 9 段