Dos da primeira especie não tem pouca graça os que dizem sobre os nomes

proprios, como aconteceu a um cortezão, que, perguntando a um amigo

pelo nome de uma dama da côrte, a quem visitavam infinitos galantes,

lhe respondeu que se chamava N. do Valle. Deve ser (tornou elle) o de

Josaphat, segundo a gente que corre para esta parte. Nenhuma me parece

(replicou o outro) que vem a juizo; porque nem ella o tem, nem os que

a buscam.--Esse dito (disse o prior) tem a graça dobrada em ambas as

pessoas: porém um cortezão galante, e de muita idade, visitando a uma

sobrinha sua, que estava desposada com um N. do Carvalhal, homem muito

velho, e senhor de um morgado rico, lhe disse: Sobrinha, o que vos mais

releva é que tireis d’esse tronco algum enxerto, que fique preso; por

isso não vos descuideis; e quando não puder ser de Carvalhal, seja de

Cornicabra. “Todos festejáram muito o dito: e proseguiu Leonardo:--Um

amigo meu tinha uma amiga muito magra e comprida, a que chamavam N.

Quaresma; e queixando-se uma sexta feira de falta de pescado, lhe

disse outro: Quem se atreve a uma Quaresma tão estreita e comprida,

porque receia uma sexta feira? Porque (respondeu elle) tenho a quaresma

por carnal, e a sexta feira por dia de quaresma.--A graça na mudança

das letras, ou accento (disse D. Julio) não é pouco galante; como

aconteceu a um mancebo, que vendo uma moça á janella, que lhe pareceu

bem, sem ter d’ella outra noticia a namorava, mui embebido em sua

gentilesa: passou um amigo, que vendo-o acenar lhe disse: Que quereis

a essa moça? Se ella quizesse (respondeu elle) tomal-a por minha dama.

Cuidei (tornou o outro) que por ama; porque há poucos mezes que pariu.

Tambem por esse caminho me parece gracioso o dito de uma mulher, que

não tratava bem de obras a honra de seu marido, e elle muito mal de

palavras a de toda sua visinhança: era o seu nome d’elle N. Ramos; e

pondo-se um dia em praticas com a mulher, começou a contar com ella

todos os cornudos que havia no seu bairro: a mulher com raiva da sua

má natureza, a cada passo dizia: Erramos marido; tornai a contar, que

falta um. Elle, que entendia mal o remoque, sem se meter na conta, a

tornava a fazer de novo muitas vezes.--Ainda que o dito é mui sabido

(tornou Pindaro) não vem fóra da razão n’este logar; nem se deve negar

tambem a outro, de um cortezão engraçado, que levando-o um alcaide

preso diante de certo julgador, por trazer seda contra a pragmatica;

e allegando que era homem nobre; lhe disse o juiz, que, pois o era,

porque não trazia o que devia?--Antes (respondeu elle) o faço assim,

porque ainda devo tudo o que trago. Sabei, senhor (tornou elle) que

se vos fez a divida maior, pois o tomam por perdido.--Por perdido

(disse elle) m’o poderá tomar seu dono: mas pois vossa mercê o quer

julgar ao alcaide, requeiro que lhe passe com seus encargos.--Outros

ditos ha engraçados a essa similhança (proseguiu o doutor) que só na

mudança dos sentidos das coisas (como já disse) tem a galanteria; como

o que aconteceu ha poucos mezes a uma donzella, que servio seis a uma

Dona mui miseravel de condição, a qual a despediu sem mais galardão,

que um vestido de serguilha, a que chamam cilicio. E perguntando-lhe

uma senhora: Como vos pagou N. o tempo que a servistes? Pagou-me

(respondeu a moça) como um confessor, com este cilicio, e seis mezes

de pão, e agua.” E porque disse que de uns, e outros os melhores

consistiam na graça de uma boa resposta; e quasi todos, os que aqui

se disseram, o parecem, me quero declarar assim com razões, como com

algum exemplo, que as declare. Resposta aguda ha, que como esta, e

outras, que ficam ditas, agradam muito, porem não incluem a brevidade

das que fazem a sentença com as palavras da pergunta. “Um cortezão

fallando de outro, que alcançára por sua valia muitos logares honrados,

e perdera um, em que tinha empenhado todo o seu cabedal, por ser de

humilde geração, perguntava a um amigo: Se N. sempre acertou até

agora em suas pretenções, como n’esta, que mais lhe importava, errou?

Respondeu o outro: foi por baixo.” “A outro, que vivera muito tempo na

privança de um senhor com grande prosperidade, vendo-o depois um amigo

em estado miseravel, lhe perguntou: Como de tanta altura descestes

da graça de N. a esta miseria? Ao que elle respondeu: Cahi.”--Ainda

(disse o irmão do prior) que em querer dar minha razão seja atrevido,

a profissão de soldado me desculpa; entre os quaes até a temeridade

é digna de louvor. Mas em Flandres, onde andei na milicia hespanhola

alguns annos, acudiam muitos doutores catholicos, e outros scismaticos

encobertos, a umas conclusões, que havia em uma cidade pequena, de

theologia: certos frades de S. Francisco, aos quaes não davam logar

suas enfermidades para poderem caminhar a pé, iam em asnos. Passando

por elles alguns do outro bando em mulas muito luzidas, e auctorisadas;

um d’estes por motejar aos menores, lhes perguntou: Aonde vão os

asnos? Respondeu um frade velho: Nas mulas: e com uzar da agudeza, na

sua mesma pergunta os envergonhou, mudando o sentido a uma palavra

d’ella. Gabaram todos o dito, e o commedimento do novo companheiro;

e continuou o doutor:--Temos tratado dos contos graciosos, e ditos

agudos, e galantes, com exemplos muito a proposito da sua differença;

fica para dizer o como na pratica se deve usar d’elles; e posto que

me tirava d’este trabalho o conhecimento que tenho da sufficiencia

dos que estão presentes, como eu n’esta materia aponto as regras mais

para as aprender, que para me seguirem, é necessario tocar ao menos

o que d’ella me parece: e assim como dizem que muito ensina o que

bem pergunta, assim se póde dizer que muito aprende o que deante dos

mestres ensina. Os contos e ditos galantes devem ser na conversação

como os passamanes, e guarnições nos vestidos, que não pareça que

cortaram a seda para ellas, senão que cahiram bem, e botaram com a

côr da seda, ou do panno, sobre que os puzeram; porque ha alguns, que

querem trazer o seu conto a remo, quando lhe não dão vento os com

que pratica; e ainda que com outras coisas lhe cortem o fio, torna

a teia, e o faz comer requentado, tirando-lhe o gosto e graça que

podia ter, se cahira a caso e a proposito, que é quando se falla na

materia da que elle trata; ou quando se contou outro similhante. E se

convém muita advertencia e decóro para os dizer, outra maior se requer

para os ouvir; porque ha muitos tão sôfregos do conto ou dito, que

sabem, que, em ouvindo começar a outrem, ou se lhe adiantam, ou vão

ajudando a versos como se fora psalmo: o que a mim me parece notavel

erro; porque, posto que a um homem lhe pareça que contará aquillo

mesmo, que ouve, com mais graça, e melhor termo, se não ha de fiar de

si, nem sobre essa certesa se querer melhorar do que o conta; antes

ouvir, e festejar com o mesmo applauso, como se fora a primeira vez

que o ouvisse, porque muitas vezes é prudencia fingirem algumas coisas

ignorancia.--Agora vos digo (accudiu Solino) que não se deve pouco a

quem sabe passar essa dor sem dar signaes d’ella; porque, saber um

homem o que o outro conta ás vezes mal e sujamente, e estar feito

pedra, é peior que darem-lho com uma na cabeça; e cuidei que só aos

prégadores lhes era concedido esse privilegio, por fallarem sem lhes

haver outrem de responder: porém haveis de consentir que haja n’isso

uma excepção; e é que quando algum disser o conto, ou dito com algum

erro, o possa emendar e advertir o que o viu passar, ou esteve presente

quando succedeu.--Em tal caso (respondeu o doutor) piedosamente o

consentirei, se o que conta, ou lhe tirar a graça principal, ou errar

as pessoas e o sujeito. Tambem não sou de opinião que, se um homem

souber muitos contos ou ditos de uma mesma materia, em que fallou,

os traga todos ao terreiro, como jogador que levou rufa de um metal;

mas que deixe logar aos outros, e não queira ganhar o de todos, nem

fazer a conversação só comsigo.--Parece-me (disse Solino) que vos

ficou por tratar uma especie de ditos graciosos, que muitas vezes não

tem o peior logar na galanteria da conversação. E porque, ficando

fóra das vossas regras, os podem tomar d’aqui adeante por perdidos, a

mim me releva por o meu particular saber o como o discreto se ha de

haver n’elles; que são os de similhanças, a que commummente chamam

_apódos_; que, se são bem appropriados, dão sal á pratica, e gosto

aos ouvintes.--Tendes muita razão (respondeu elle) que ainda que deixei

de fóra outros muitos por os metter nas regras dos que nomeei, que a

esses estava mais obrigado de trazer a exemplo, e ao menos considerar

que se não hão de buscar de proposito, que seria fazer da graça

chocarrice; antes hão de ser trazidos tanto a caso, que sejam mettidos

na pratica como translações d’ella, fugindo de alguns, que escandalizem

em pouco, ou em muito, a parte de que se trata; e seja exemplo de como

Pindaro comparou as minhas casas, que, por serem pequenas, muitas,

e bem guarnecidas, lhes chamou _gavetas de escriptorio_.--E

Solino (accudiu Pindaro) disse que fizereis aquelle estojo para vos

recolherdes na velhice.--Não tenho eu por menos galante (disse elle) o

que, vendo a gelozia de Solino com cinco, ou seis meninas com habitos

de freiras de S. Francisco, lhe chamou _capoeira de rolas_. E a

um moço do Licenciado, que aqui anda muito pequeno e magro, com uma

espada muito comprida, _frangão espetado_.--Mais me parece (disse

Solino) esse moço _cabos da espada_, que homem com ella. Mas a

uma moça muito louca, a que todos sabemos o nome, que tem o rosto da

côr dos cabellos, e ainda com uns mantéos engommados de azul, chamou

um galante _porcelana de ovos doces_.--A essa, disse (D. Julio)

chamaram tambem pampilho, e rosto de alambre. Porém, se nos houvermos

de espalhar n’estas similhanças, e passarem de mão em mão, não haverá

quem nos desapegue da materia.--Antes me parecia a mim (disse Solino)

que assim dos contos galantes, ditos engraçados, e apódos rizonhos,

se ordenasse que em uma d’estas noites, tomando um proposito, cada um

contasse a elle o seu conto, e dissesse o seu dito; e seria um modo

extremado para se tirar outro novo alivio de caminhantes, com melhor

traça que o primeiro.--Fique a vosso cargo essa (tornou Leonardo) para

outro dia; e agora não demos má noite ao doente, nem aos hospedes ruim

agazalho.--Este (disse o prior) é o melhor, que podia pintar o meu

desejo; e suspeito que por vingança fizestes a noite mais breve: mas o

que d’ella perder, determino cobrar na de amanhã, porque a obrigação,

que tenho, de obedecer ao senhor D. Julio me faz esquecer até as de meu

estado. E se a do outro dia não fora de domingo, ainda n’ella gosara

o interesse de mercês suas, e das honras vossas.--Com esse (respondeu

Leonardo) de havermos de ter ao senhor Alberto, e a vós por mais espaço

n’este logar, dissimularei o queixume, que de ambos tinha.--Da minha

culpa (tornou Alberto) darei toda a satisfação; porque nem pelas do

prior, nem por sua conta, hei de perder a honra, e mercê d’essa vontade.

N’isto se começaram os mais a levantar. E perguntando a D. Julio

se estava melhorado do seu achaque, respondeu que não sentia outra

pena n’aquelle tempo mais, que o que perdera de tão boa conversação;

dando-se por mui obrigado do favor da visita, que, posto que aos

illustres se deve em tudo respeito, obediencia, e cortezia, nenhum a

sabe melhor estimar, que o generoso.

DIALOGO XII

DAS CORTEZIAS

Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume II) · 第 3 / 9 段