ajuntar para a conversação, Leonardo e os mais tiveram recados de D.
Julio, em que lhes fazia a saber que chegara doente, e que tinha por
hospede ao prior com outro irmão seu: que receberia de todos grande
mercê em quererem juntar-se aquella noite em sua casa, porque só com
este remedio daria allivio ao mal que trouxera da cidade. Elles, que
(além de a petição ser justa) eram interessados em sua saúde, amigos
e obrigados a o visitarem, ouviram que lhe deviam obedecer. Solino
acompanhou a Leonardo: e não faltaram no caminho murmurações discretas,
nem em o doutor, e os estudantes juizos temerarios. Acharam a D. Julio
na cama, o prior junto a ella, e o irmão, que era homem mancebo, bem
afigurado, e que no trajo vestia mais ao soldado, que ao cortezão.
Sentados todos depois de lhe fazerem cortezia, e comprimentos devidos,
disse Leonardo:--Bem me parece, senhor D. Julio, que estaes já tão
aldeão com a nossa companhia, que vos apalpam os ares da cidade; e que
os regalos d’ella fizeram que o senhor prior se esquecesse d’aquella
sua estalagem tão cheia de vontade para o servir.--Onde vós estaes
(respondeu D. Julio) é a côrte; e a falta d’esta me podia fazer aldeão.
Do senhor prior fazer a troca por esta noite, tive eu a culpa; porque
com esta condição acceitei em terra alheia a sua pousada nas casas do
sr. Alberto seu irmão, a quem tambem obriguei a que me fizesse esta
mercê.--Não me desculpo (accudiu o prior) porque tudo o sr. D. Julio
tomou á sua conta: porém em occasião estaes de haver muitas, em que
mudeis o queixume, fazendo-o antes de minha importunação sobeja, que
d’essa falta: porque vem apostado meu irmão, pelo que lhe contei, a
perder poucas noites d’esta aldeia, em quanto as tiverdes tão boas
como duas que me aconteceram.--Assim (disse o doutor) serão ellas
melhores, porque com vossa presença, autoridade e discrição, e com
favores seus, ficarão melhor assombradas; terá saúde este fidalgo, e
então vos convidaremos para a primeira; que ainda não sabemos de que
vem maltratado.--Do meu achaque (disse elle) tive eu a culpa, que me
entreguei hontem mais, do que era razão, na ceia; porque foi de pescado
e marisco, e doces; e como cresceu com a novidade o appetite, quiz-se
forrar á custa do estomago de quantas vezes nos faltam semelhantes
regalos n’este logar; e certo que tive um accidente muito rijo, e não
podia com o cansaço, que me deixou sem vossa vista, e d’estes senhores;
e por isso me vali do atrevimento do recado.--O allivio (disse o
doutor) é tanto em favor nosso, que, a ser menor o mal, consentiramos
n’elle.--Maiormente (accudiu Solino) se é o que eu cuido, que como
experimentado de ordinario, julgo mais a enfermidade pelo pulso, que
pela informação.--Não parece que vol-o deve offerecer quem a tem tão
boa de vossa malicia, (tornou o fidalgo).--Antes estou tão emendado
em alguma, que vol-o pareceu (replicou Solino) que já não suspeito
senão o que é.--Tarde vos mettestes n’essa recoleta (disse o doutor)
e os que em velhos começam a ser bons, pouco tempo lhes fica para
usarem da virtude.--Não sei logo (lhe respondeu elle) como, sabendo
isso, vos descuidastes tanto, que nunca para uma murmuração vos achei
descalço.--Parece-me (disse D. Julio) que será bom que o mais fraco
aparte esta briga com pedir que me façaes mercê de me dizer em que
se passou hontem entre vós a noite.--Parte (disse Solino) em cuidar
em como passarieis o dia, e na grande falta que nos fizestes; a
outra em dizer como se haviam de contar as historias na conversação;
e n’aquella se disseram duas para negaças, e uma para espantalho;
ficou para continuar a materia de contos graciosos, ditos agudos e
galantes: tereis vós saude logo, e nós com ella gosto para proseguir,
e ouvirão estes senhores o que não cuidaram.--Não me ponhaes vós isso
em dilação (disse o fidalgo) que antes em quanto mal disposto quero,
como dizem, accrescentar esta noite á vida; e se m’a desejaes como
amigo, sabei que n’isto a tenho.--Se como a doente (respondeu Solino)
vos houverem de fazer a vontade, não sei se fôra esta. Com tudo, ao
menos para divertir, comece o doutor; que eu aqui trago as armas, com
que costumo accudir a esta guerra; e cada um diga o seu conto, e conte
o seu dito, encommendando a todos que riam do que eu disser, porque
é vicio, dos que cuidam que tem graça, a desconfiança.--Tambem essa
me parece, (accudiu o doutor) e dando-vos a obediencia por servir ao
senhor D. Julio: A noite, em que nos faltou sua presença, se tocou
n’esta conversação o modo que havia de ter o discreto em contar uma
historia; fugindo muitos vicios, e bordões que os nescios tem n’ellas
introduzidos; e como em dependencia d’esta materia se falou nos
contos galantes, que tem d’ellas muito grande differença; pois elles
não consistem em mais, que em dizer com breves e boas palavras uma
cousa succedida graciosamente. São estes contos de tres maneiras:
uns fundados em descuidos, e desattentos: outros em mera ignorancia:
outros em engano e subtileza. Os primeiros e segundos tem mais graça,
e provocam mais a riso, e constam de menos razões, porque sómente se
conta o caso, dizendo o cortezão com graça propria os erros alheios. Os
terceiros soffrem mais palavras, porque deve o que conta referir como
se houve o discreto com o outro que o era menos, ou que na occasião
ficou mais enganado. E porque n’isto declaram menos as regras, que os
exemplos, diga cada um o seu; que eu, por desimpedir o caminho, quero
que passe por conto o que me aconteceu ha poucos dias:
“Fui a casa de um letrado meu amigo, a quem achei mui colerico, tirando
pelas orelhas ao seu moço, que se desculpava, chorando, que não sabia
de uns oculos, por que perguntava: olhei, e vi que tinha uns no nariz
presos; perguntei-lhe se eram aquelles: o letrado ficou corrido,
porque, tendo-os nos olhos, os não via; e o moço queixoso, porque as
suas orelhas pagavam a pena que as do letrado mereciam.”
--Esse desattento (disse Leonardo) é muito ordinario nos escrivães que
buscarão duas horas na mesa, e nos papeis a penna que trazem na orelha.
Mas para desattento, e descuido: o que n’este logar aconteceu ha muitos
annos a um cortezão que aqui vivia, que tendo uns amores humildes, que
tratava com muito segredo, tinha um relogio de peito que trazia tão
esperto, e bem temperado, que fazia horas quasi a todos os moradores
d’este logar. Desattentou, e estando com elle ao pescoço uma noite em
casa da delinquente, deu o relogio meia noite: e ás escuras manifestou
a toda a visinhança a verdade, que até então escondera dos olhos, e
suspeitas de todos.--Ainda (disse o prior) me parece peor o successo de
um meu conhecido, que em um bairro de pouca visinhança tinha em Lisboa
amores com uma moça que lhe estava já affeiçoada; falava-lhe de noite
de uma janella, e ambos se temiam de outra, d’onde um visinho de parede
em meio os espreitava: por se livrar d’este inconveniente, deu-lhe
a moça ponto para uma noite lhe falar de mais perto, entrando pela
janella, fazendo primeiro certo signal, com que ella havia de accudir.
Buscou elle para isto uma noite chuvosa, e escura, poz sua escada,
subiu; e errando a barreira, foi bater e fazer o signal na janella de
que se vigiavam. Accudiu o visinho, e abrindo-a, viu o namorado seu
erro á candeia; e com o sobresalto d’esta desgraça, cahiu com a escada
e com o segredo na lama.
Festejáram todos o conto com muito riso. E disse Solino:--N’este
mesmo logar conheci um galante, que falava muitas noites de pé da
janella a uma dama, com quem tinha amores; e assim em vendo visinhança
recolhida, e logar quieto, disfarçando-se com os moveis, que para
aquelle mister tinha apparelhados, vigiando todos os portos por onde
podiam contraminar a cautella do seu segredo, se vinha ao posto. Uma
noite, que lhe não coube vez senão perto da madrugada, falando a moça
com elle, sentiu dentro reboliço; e por não ser sentida, pediu-lhe que
se encobrisse com a sombra, e que ella tornaria a lhe fazer signal,
como tudo se aquietasse. Sentou-se elle em uma pedra; e a moça vendo o
negocio mal parado, por desmentir algumas suspeitas se foi lançar na
cama: o galante, que como estava trasnoitado achou branda a em que se
recolhera, adormeceu com tão boa vontade, que já alto dia foi achado
como Leandro na praia de Césto, dormindo com o trajo de outras horas,
espada núa, e rodela mal vestida, sem dar acordo; até que, depois de
estar á vergonha, um amigo o recolheu a casa, e a dama padeceu a esta
conta muitas, que costumam a ser o ganho d’estes empregos.
Com egual alegria foi recebido este conto, que o do prior: e disse
Leonardo a Feliciano, e a Pindaro, que pois elles tinham dado exemplo
dos contos de descuido, e desattento, a elles ambos tocavam os da
ignorancia.--Não nos guardastes para bom logar (tornou Pindaro) porque
mais convinha aos mancebos contarem descuidos e desattentos dos velhos,
que ignorancias suas: mas para que saibaes que não faltam umas e outras
culpas n’essa edade, me não escuso.
Um homem de melhor parecer e estatura, que entendimento, se apartou
a viver alguns annos longe da cidade em um monte, onde além de tratar
pouco do culto de sua pessoa, com o ar dos matos, o discurso da edade,
e algumas enfermidades que tivera, estava do rosto e das feições mui
dissimilhado; vindo depois com nova occasião a viver á terra, d’onde
sahira, querendo-se vestir, e concertar ao galante, mandou que lhe
comprassem um espelho: fez o creado dilligencia, e não achou nenhum
de que se satisfizesse o amo, tendo provado muitos, ou quasi todos os
que havia: e perguntando-lhe porque os engeitava, respondeu: “Porque
fazem tão mau rosto, e tão avelhantado, que se não pode um homem
de bem vêr a elles; e ha poucos annos que os havia n’esta terra tão
excellentes, que me faziam o rosto como de um anjo.” Riu-se o moço
dizendo entre si: “Mais se desconhece meu amo por ignorante, que por
mal visto; pois ao espelho põe a culpa que tiveram montes, e a edade.”
--Outro (disse Feliciano) tão fraco de animo como de entendimento,
passando em sua casa de uma para outra, com uma porcelana de sangue
que levava para certo effeito, acertou de tropeçar na porta por onde
entrava, e entornou-se-lhe o sangue pelas mãos: e accudindo logo com
ellas ao chapéo, que lhe cahia, encheu a testa de sangue que lhe
corria em gôttas sobre o rosto: um filho, que olhando para elle o viu
ensanguentado, começou com grandes gritos e choros a chamar sua mãe;
a qual, tanto que achou o marido d’aquella maneira, com as mãos nos
cabellos pranteava sua desaventura: elle ouvindo os gritos de todos,
sem saber o que era, cahiu esmorecido na casa, onde podera morrer de
nescio, como outros morrem de mal feridos.
Pareceu muito galante, e provocou a todos riso o conto de Feliciano;
e proseguiu o doutor dizendo:--Os contos da ignorancia tem mais graça,
que os da malicia; e assim dizia um discreto que só a parvoice com
auctoridade era sem sabor; que não pode ser maior galanteria, que um
engeitar ao sirgueiro o chapéo porque não tinha a rosa para deante,
podendo-a elle voltar para onde quizesse: o outro espantar-se muito
de lhe não tingirem umas meias negras de verde, sendo assim que havia
pouco tempo que umas verdes lhe tingiram de negro: e o outro, que para
não perder a chave do cadeado, a metteu dentro na canastra encourada
antes de o fechar; e depois lhe foi necessario quebrar a elle, ou
romper a ella para tirar a chave: e muitas semelhantes, que contar
agora seria infinito.--Ainda (accudiu D. Julio) haveis de dar licença
ao conto de um meu conhecido, que ouvindo falar que havia antipodas,
e que andavam com os pés para os nossos, o não pude persuadir de que
modo podia estar esta gente, sem cahir de cabeça abaixo, andando ás
avessas.--Todos esses (disse Leonardo) são extremados; porém os de
engano, se tem menos occasião de provocar a riso, tem a graça mais viva
na subtileza e malicia; e quando a materia é graciosa, levam a todos
os outros muita vantagem. “Um amigo meu era mui regalado de doces;
e no tempo das flôres e das fructas mandava fazer em sua casa muita
variedade d’elles: uma das creadas, com que se servia, era tão gulosa,
que, em vendo boccados a enxugar, não se aquietava até tomar a sua
ração, que era cercealos a todos como a reales. Desejando o senhor de
saber qual dos seus moços, ou creadas, lhe fazia aquella travessura,
mandou fazer certos boccados com azebre, cobertos de assucar; e, postos
ao sol, deu mais logar á moça, que accudindo ao reclamo, fez seu lanço;
e como logo se quiz aproveitar do ponto, foi tão grande o amargor na
bôcca, que o não poude encobrir: fazendo muitas diligencias, começou
a dar signaes, e a agastar-se: o amo fingindo suspeitas de peçonha,
metteu toda a casa em revolta, e a moça em desconfiança, fazendo-a
beber azeite, e tomar outros defensivos: porém como elle não podia
encobrir o riso de a tomar na empreza com aquelle engano, entendeu
ella o que seria; e por remediar sua falta, fingindo estar atribulada,
disse que lhe declarassem se morria, porque havia de deixar culpado
quem a convidara com aquelle doce, por ella não descobrir os que lhe
vira muitas vezes furtar dos taboleiros: e d’este modo remedeou seu
erro, deixando ao amo na mesma duvida que tinha d’antes.”--Um estudante
(disse Feliciano) que entre outros era hospede em casa de um amigo,
jazendo todos na cama, por ser o tempo de verão, elle que era menos
corrido, que engraçado, lhes disse: Não se riam vossas mercês tanto do
meu pé, que apostarei que ha na companhia outro peior: cada um fiado
nos seus, zombava, e sahia á aposta, de maneira que a fizeram que,
se elle o mostrasse, ganharia certo preço, ou perderia outra egual
valia: feita a aposta, tirou elle o pé esquerdo, que tinha escondido,
que por calçar mais dois pontos, que o outro, tinha os dedos em
arcos, tão tortos, e cheios de cravos, e o pé de joanetes, que não
parecia natural: e assim ganhou, com muito riso de todos, o que tinha
apostado.“--Outro estudante do meu tempo (proseguiu Pindaro) passando
parte de uma noite de inverno em casa de um amigo, que morava perto do
rio, choveu tanta agua, e cresceu com tanta furia o Mondego, que lançou
por fóra, e fez ilha das casas do estudante: o hospede esperava que o
convidasse a ficar; e o amigo não tinha essa vontade, porque temia a
roupa de alguns males contagiosos, que d’elle suspeitava: estiveram
assim grande espaço da noite, sem cessar a chuva, até que o senhor da
casa começou a bocejar, e o hospede a se despir: e perguntando-lhe o
amigo para que se despia? respondeu: Que ou para nadar, ou para se
lançar na cama. Vendo-se elle apertado, respondeu: Pois assim é; alli
tendes uma taboa, ou vos salvae nella, ou fazei d’ella cama em que
vos lanceis.”--Esse conto (accudiu Solino) tem o pé em duas raias,
ou parte com dois termos, que consta de dito, e de feito; mas passe
sem sello, por ser vosso.--Signal é (respondeu elle) que vos não deve
direitos. Então gabaram todos os contos, e disse o doutor:--Além
d’estas tres ordens de contos, de que tenho falado, ha outros muito
graciosos, e galantes, que, por serem de descuidos de pessoas, em que
havia em todas as cousas de haver maior cuidado, nem são dignos de
entrar em regra, nem de serem trazidos por exemplo: a geral é que o
desattento, ou a ignorancia d’onde menos se espera, tem maior graça.
Atraz dos contos graciosos se seguem outros de subtileza, como são
furtos, enganos de guerra, outros de medos, phantasmas, esforço,
liberdade, desprezo, largueza, e outros semelhantes, que obrigam mais
a espanto, que a alegria; e posto que se devem todos contar com o
mesmo termo, e linguagem, se devem n’elles usar palavras mais graves
que risonhas.--Não era essa materia (disse D. Julio) para se passar
por ella tão apressadamente; porém já que no fim da noite, em que me
eu apartei, se tratava do sal; parece que sinto menos a falta da que
perdi, com vos achar ainda agora n’esta graça, como dependencia do que
então se falou; que não a pode haver melhor acceita que a dos ditos
agudos e galantes: assim que não havemos de consentir que o doutor se
divirta para outra cousa.--Eu não posso (disse elle) sahir de vosso
gosto; porém a materia não era para tão de repente, nem para tão breve
tempo como se requere que seja o da visita. Porque primeiramente,
_dito_, na significação portugueza tomamos por cousa bem dita,
ou seja grave, como o são as sentenças; ou aguda, e maliciosa, como
o são as de que agora tratamos: e chama-se _dito_, porque dizem
uma só palavra, ou muito poucas muito de entendimento, de graça, ou
de malicia. E deixando a sentença, que terá em outro dia o seu logar,
os ditos agudos consistem em mudar o sentido a uma palavra para dizer
outra cousa, ou em mudar alguma lettra, ou accento á palavra para lhe
dar outro sentido; ou em um som e graça, com que nas mesmas cousas
muda a tenção do que as diz: e de uns e outros os mais engraçados,
e excellentes são os de respostas; porque além de estas serem mais
apressadas, e tão de repente, que tomam entre portas o entendimento;
tem materia sem suspeita nas perguntas.