“Na côrte do imperador da Allemanha Oton III, d’este nome, q

[Illustration]

BIBLIOTHECA UNIVERSAL

ANTIGA E MODERNA

CÔRTE NA ALDEIA

E

NOITES DE INVERNO

POR

FRANCISCO RODRIGUES LOBO

VOLUME II

16.ª SERIE--NUMERO 63

[Illustration]

LISBOA

COMPANHIA NACIONAL EDITORA

Successora de DAVID CORAZZI e JUSTINO GUEDES

40--Rua da Atalaya--52

FILIAES: Praça de D. Pedro, 127, 1.º andar, PORTO

38, rua da Quitanda, Rio de Janeiro

1890

LISBOA

TYPOGRAPHIA DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA

_309, Rua da Rosa, 309_

1890

CÔRTE NA ALDEIA

E

NOITES DE INVERNO

DIALOGO IX

DA PRATICA E DISPOSIÇÃO DAS PALAVRAS

(Continuação)

--De maneira (disse D. Julio) que temos averiguado que falar vulgar,

e propriamente, é falar bem: e na verdade, da boa linguagem a

principal parte é a clareza; e o mais d’ella consiste em fugir d’esses

atoleiros. Mas ainda eu tenho por peior de todos o da prolixidade,

de cujas partes se tocou o principal na noite passada.--Ha muitos

homens (proseguiu Leonardo) tão palavrosos, que vos não deixam tomar

carta na conversação; e são tão amigos de levarem um comprimento até

o fundo, que nem com o silencio vos defendeis dos seus; e é vicio, de

que se ha de fugir como de peste da discrição. E já me occorreu por

que razão chamariam aos faladores _paroleiros_, ou _homens de

parola_; que posto que a phrase seja italiana, lhe acho uma mais

secreta galanteria; e é que, como a lingua de Italia é mais copiosa,

ornada, e comprida nas razões; aos que na nossa falam muito, áquella

semelhança chamaram _homens de parola_, como se lhe chamaram

_italianos_.--Boa está a derivação (tornou o fidalgo) porém

vamos á brevidade, que eu me não atrevera a culpar, se agora vos não

ouvira.--Não sou eu o primeiro (respondeu elle) que o disse; que

já o poeta se queixou que quando queria ser breve ficava escuro. E

verdadeiramente a pratica comprida não a comprehende a memoria; e a

mais breve do necessario cega o entendimento; e ha muitos, que, por

abreviarem o que dizem, não declaram o que querem: que posto que a

brevidade seja louvada, e por ella se avantajassem os laconicos na

linguagem dos outros gregos, o cortezão nem ha de dizer as cousas em

tres palavras, nem em trezentas.--Dizeis bem como em tudo (accudiu o

doutor) que ha alguns, que, por quererem atar tudo em um feixe (como

disse o proverbio) desconcertam o que com poucas palavras mais podia

ser bem dito: e muito se me parece esse erro de abreviar com o de

enfeitar as palavras, que é como perder um por carta de menos, outro

por a ter de mais. Posto que o mesmo vicio (proseguiu elle) se tratou

a noite que falámos das cartas, não o deixarei passar agora sem outra

lembrança, porque é um trabalho não sómente escusado, mas odioso,

que a pratica artificiosa embaraça aos que sabem pouco, e não agrada

mais ao discreto, e serve de nevoa para as cousas que se tratam; que

com o ornamento das razões se perde muitas vezes o sentido principal

d’ellas: e é tão culpavel o feitio, que n’isso se perde, como o que as

mulheres usam em desmentir as graças da natureza com fingida formosura,

que nunca aos bem entendidos pode parecer verdadeira. E deixando esta

parte, passemos á principal, e que mais pertence ao discreto, que é não

se descuidar com a confiança; porque ha muitos, que de confiados em sua

sufficiencia, falam por si, e não pesam as palavras com o receio, que

para bem ha de ser sempre a balança d’ellas. E assim hora dizem algumas

pouco decentes á honestidade da conversação; outras, escandalosas a

algum dos ouvintes; outras, que, por serem fóra de tempo, perdem o

logar, e elle na opinião dos que escutam o que com muitos outros tem

alcançado.

O primeiro descuido da confiança, e o que fica mais em descredito do

cortezão, é quando entre mulheres principaes usa de algumas palavras

que ou no som ou na materia, offendam a honestidade de seu estado;

culpa, em que cahem muitos confiados, mórmente nas visitas de

desposorios e nascimento de filhos, e em outras semelhantes, em que é

mais necessario ao discreto as redias na mão, porque elle não perca os

estribos e a ellas se não mude a côr. E tambem sou de opinião que antes

fuja de dizer algumas cousas que de lhes mudar o nome, como chamar

ás pernas _sustinentes_ ou _andadeiras_; porque, nomeando

estas partes das mulheres deante d’ellas, não é cortezia.--Parece

(perguntou Pindaro) que nomeando logo as pernas dos homens não será

erro, ainda que seja deante d’ellas?--Não (respondeu elle) porque nas

mulheres é parte occulta, e nos homens manifesta; e o trajo de cada

um ensina esta cortezia: e muitos ha, que, de escrupulosos n’ella dão

em disparates: como me contaram ha pouco de um mestre de grammatica,

que, desculpando-se um discipulo seu que não viéra ao estudo, porque

aquelle dia parira sua mãe, o mandou castigar, dizendo que em publico

não se haviam de falar palavras mal soantes á honestidade. E outros,

que fazem cortezia de mudarem os nomes ás cavalgaduras, e por se

desencontrarem de um _asno_, darão mil rodeios.--N’iso tem elles

muita razão (acudiu D. Julio) porque não vi eu peior azar que esse

encontro. E devia de ser inventada esta maneira de cortezia, por não

nomearem _asno_ deante de algum que o parecesse, por guardar a

advertencia do rifão, _em casa de ladrão não lembrar baraço_:

sendo assim, que nos animaes nojentos, e as sevandijas nomeam por o

seu nome, ainda que isto não usára eu entre donas e damas delicadas, a

quem com menos occasião se enoja o estomago.--Mui bem trazida está essa

lembrança (proseguiu Leonardo) e continuando com as outras, me parece

que o segundo descuido é quando o discreto fala, ou allega latins entre

pessoas que o não sabem, ou que não tem obrigação de o entender, como

são mulheres: ou conta deante d’ellas historias da India, ou de outras

regiões remotas, onde esteve, dizendo as cousas com muitas palavras dos

nomes proprios d’aquellas partes; que ha alguns, que em colhendo na

pratica Ormuz, Malaca ou Sofala, não sabem dar um passo sem palanquins,

bajús, catanas, bois, larins e bazarucos; e outras palavras, que deixam

em jejum o entendimento dos ouvintes, sem os seus por isso ficarem

melhor acreditados. O ultimo descuido e mais perigoso, é que motejando

em materia que possa offender a terceiro, não advirta, antes de falar,

se está na presença a quem toque por sangue ou amizade a offensa que se

faz ao ausente, ainda que seja em materia leve; ou se está alli outro

do mesmo estado de que se murmura, do mesmo cargo, vicio ou costume;

que, não tendo esta vigilancia, lhe poderia nascer da sua graça uma

resposta.--Pois se offereceu (disse D. Julio) falardes em graça, dando

côr de que na murmuração se acha mais certa, estimarei saber que é

o que chamam _sal_ os discretos, que é um termo de falar muito

ordinario entre elles.--A resposta d’isso (tornou Leonardo) está por

conta do doutor, que parecem esquecidos da noite passada: com elle o

haveis de haver; que eu vou já dando fim ao que me cahiu em sorte.--Sou

contente (disse o doutor) de me chamardes por parte n’esta pergunta

do sr. D. Julio por o servir a elle, e dar occasião a Solino de saber

a vantagem que n’isso nos tem a todos. Primeiramente o sal, a quem um

auctor chamou _conducto de todos os outros_, é o que dá sabor, e

faz appetite ao desejo para todos elles.--Muito se parece n’isso com a

fome (acudiu Solino).--Assim é (disse o doutor) porém tem demais que

os conserva e sustenta com sua força; pelos quaes attributos Homero e

Platão chamaram ao sal _divino_: e assim como os mantimentos sem

elle não obrigam a vontade; assim tambem por elle (como disse Plinio)

significamos os effeitos do animo; chamando _homem sem sal_,

pratica sem elle, _riso em sosso_, e ainda _formosura sem

sal_, como escreveu Catullo, de Quincia que pintando-a formosa,

branca e comprida, diz que em toda aquella figura não havia uma pedra

de sal. De maneira que, conforme a este sentido, o sal é uma graça,

e composição da pratica, do rosto ou do movimento do andar, que faz

as pessoas apraziveis. E esta, segundo alguns, particularmente se

declara no que obriga a riso e alegria, com um modo de murmuração leve.

D’onde Seneca disse que o sal da conversação dos amigos não havia de

ter dentes: e assim como os mantimentos que tem mais sal, fazem maior

sede a quem os come; assim a conversação que tem mais d’elle, é mais

appetitosa e desejada dos ouvintes: e como sem sal todas as iguarias

são semsabores e desgostosas, assim a pratica onde a sua graça

falta, é puro fastio. Porém, quanto a mim, o que da tenção d’estes

auctores convém mais com o seu modo de falar, _sal_ quer dizer

_graça_, que é o contrario da frieza e semsaboria: e dizemos do

gracioso que é salgado; e do bemdito que tem muito sal, e do que o

não é, que não tem nenhum.--Porque razão (perguntou Feliciano) sendo

o sal cousa tão excellente, os egypcios não queriam usar d’elle em

nenhum mantimento, e até o amassavam sem sal, tendo-o por inimigo?--Os

egypcios o faziam (respondeu elle) por lhes parecer que observavam

n’isso a castidade, attribuindo á virtude do sal a fecundidade e o

appetite carnal, por razão do calor, a cujo respeito fingiram os poetas

que Venus nascera do sal, que é da espuma marinha; e alguns naturaes

disseram que só com comerem e usarem muito do sal, concebiam alguns

animaes. Outro auctor diz que os egypcios o faziam por sobriedade e

abstinencia, tirando o sabor e gosto ás iguarias, em lhe não deitarem

sal: mas a verdade é que, se elles o tinham por inimigo da vida, não

ha cousa n’ella mais saborosa: porque as duas cousas que a sustentam,

como escreveu um auctor grave, são sal e sol: e ainda depois da morte

o sal conserva os corpos sem corrupção e os sustenta inteiros sem

deixar apartar os membros da sua compostura: por as quaes propriedades

o fizeram os antigos symbolo da amizade (como diz Pierio Valeriano nos

seus jeroglificos) que ella, assim como o sal, tempera todas as cousas

da vida entre os humanos. E a primeira cousa que se punha aos amigos na

mesa era o sal; costume que ainda agora se usa, posto que se não saiba

em muitas partes a razão d’elle; nem a porque se enojam e enfadam os

hospedes, de se derramar o sal pela meza; que n’este nosso reino querem

fazer particular agouro dos Mendoças, sendo a causa geral: porque lhes

parecia aos antigos que se apartava e perdia a amizade, entornando-se

o sal, que na mesa fazia a figura d’ella. E á semelhança tinham por

boa sorte derramar-se o vinho, que, como era symbolo da alegria e

contentamento, desejavam que entre todos se espalhasse. Com isto tenho

dito do sal o que me perguntastes, posto que, para lhe dar mais

solidos louvores, o pudéra levar á Escriptura Sagrada, onde não

só significa _confederação_ e _amizade_, mas por elle se entende a

doutrina evangelica; e aos mesmos apostolos e prégadores d’ella chama

Christo _sal_. E pois para falar d’este tomei mais tempo do que

quizera, é bem que vos deixe livre este, que fica, para que todos

nos aproveitemos de vos ouvir.--Pouco pudéra eu dizer (respondeu

Leonardo) se não fosse acostado á vossa erudição e auctoridade. E

do sal me não fica outra cousa que advertir mais, que haver-se de

maneira com elle o cortezão que não seja a pratica toda de graças, nem

sem ella: se não uma certa liga, com que se componha o galante e o

sizudo, que é uma differença, que sempre fiz do engraçado ao gracioso;

porém como isto ha de ser em conformidade das materias, occasiões e

pessoas com que se pratica, não posso dar a isso regra ordenada. Fica

além d’isto que advertir ao discreto a mecanica geral dos termos,

e nomes dos principaes instrumentos com que se exercitam as artes

mais nobres, como a pintura, esculptura, architectura, arithmetica,

astrologia e musica: saber as peças e os nomes d’ellas, com que se

arma um cavalleiro: as que pertencem ao jaez e arreio de um cavallo:

os logares, ordens e disposição de um esquadrão formado: o maneio

militar de uma galé bogante: os nomes de um edificio bem fabricado,

e de uma fortaleza bem guarnecida: saber a côr e o nome a todas as

pedras de valia: os quilates do ouro; o peso dos metaes, a melhoria

d’elles; e outras cousas semelhantes a estas, que, como andam sempre

na praça ordinaria da conversação, não é justo que faltem ao discreto

palavras, com que mostre que tem conhecimento de todas. Com estas

lembranças me hei por despedido d’esta materia, posto que fiquem de

fóra algumas cousas d’ella, como são contos, historias e novellas dos

cortezãos, e agudeza de ditos; que cada uma pedia mais compridas horas

de pratica: porém com a minha voz tenho a todos cançados, sem eu ficar

ocioso.--O das historias (disse Pindaro) podeis vós, senhor, dilatar,

mas não vos escusareis de as dizer, mórmente quando pela inculca,

que de mim fizestes, me importa mais que a todos saber o particular

d’ellas.--Fiquem essas guardadas para ámanhã (disse Solino) e se

temeis que até então se damnem, obrigae ao doutor que do muito sal,

que aqui lançou, á minha conta deite n’ellas algum.--Boa lembrança

foi (acudiu o doutor) eu confesso a culpa de não applicar o que disse

á vossa graça e galantaria, que é o sal com que vos convidei, e que a

todas as praticas d’esta nossa conversação faz parecer agradaveis e

saborosas a todo o entendimento.--Vós, senhor doutor, replicou elle, me

tendes feito um saleiro com vossos louvores; e com a vangloria d’elles

não me tenho por seguro no assento de qualquer logar.--Se entornardes

o sal (acudiu Pindaro) não será a primeira vez que déstes má conta

da amizade.--De confiado na minha (tornou elle) falaes contra o que

entendeis d’ella, que mais se acredita nas obras que nas palavras.--A

verdade é (disse Leonardo) que sois bom amigo, ainda que com muito sal;

e que sem encarecimento vos podiam chamar o mesmo nome.--Ainda (disse

elle) me haveis aqui de converter em sal.--Antes (acudiu Pindaro) no

que disse Marco Varrão que o sal era a alma do porco; e eu sei, e todos

da vossa graça, e ninguem dará fé que tenhaes alma.--Essa (tornou

Solino) está agora no purgatorio de vos ouvir: e porque estes senhores

já com uns bocejos dissimulados dão signaes de que tem necessidade de

repouso, fique a demasia para ámanhã.

Todos então se levantaram mostrando que ainda o faziam com pouca

vontade, porque nas praticas de gosto primeiro cansam os sentidos, que

os desejos.

DIALOGO X

DA MANEIRA DE CONTAR HISTORIAS NA CONVERSAÇÃO

Depois que os amigos se apartaram, e D. Julio se recolheu a casa para

repousar, achou n’ella uma occasião de desasocego, que lhe fez perder

o somno. Porque lhe trouxe novas um creado, a que tinha encommendada

a diligencia, que o prior se partia na manhã seguinte para a cidade,

acompanhando aquella formosa peregrina para o recolhimento da clausura

a que de tão longe estava affeiçoada: e como elle o ficou tanto de

sua vista, e corrido comsigo mesmo dos poucos extremos, que por ella

fizera, determinou com a occasião de caçador (que já fôra principio

d’aquella ventura) fazer-se encontradiço no caminho, e acompanhar

ao prior até o fim da jornada: para o que tirou a luz aos melhores

concertos de campo que tinha, e o vestido e galas mais louçãs, com

que podia apparecer n’aquelle disfarce, usando o mesmo nos creados

que levava. Ao outro dia pôz em execução este pensamento: e deixando

para seu tempo o successo que teve, os da conversação o não souberam

todo aquelle dia: e quando veiu a noite, que o acharam menos, houve

quem désse novas de como o encontrára n’aquella empreza; e com esta

occasião começaram a pratica, e disse o doutor:--Sempre ouvi que os

cuidados de amor em peitos generosos sahem com seus extremos ao longe;

e que então se forçam quando os outros sugeitos desconfiam. Aquelles

encarecimentos de meu amigo D. Julio, aquelle silencio e segredo,

aquelle respeito de cortezia tão encolhido, parece que apanhava pedras

para melhor tempo; e n’este costuma a fazer seus lanços este diabinho

do amor, porque tem outros da sua parte, á conta de estorvarem seu bom

proposito.--Segundo isso (disse Solino) receiaes que a que engeitou

principes mais louros que salmonetes, acceite agora um fidalgo retirado

na aldeia, d’onde sahe com as galantarias mais penujentas, que

marmelo temporão.--Muitas damas (tornou elle) que engeitaram grandes

senhores, não desprezaram grande amor: e outras, a quem offenderam

procedimentos ingratos, estimaram de sugeitos mais humildes devidas

cortezias.--Não façamos (acudiu Leonardo) offensa aos ausentes; nem

a ella demos por arrependida, nem a D. Julio por tão namorado: porém

maiores cousas houve no mundo. Tudo podia tecer o amor, e acabar a

ventura: e se essa cahira á conta de D. Julio, outra pudera ser peior

empregada.--Não estou bem (disse Solino) com a ventura dos casamentos

por amores.--Será (respondeu Feliciano) por estardes mal nas muitas,

que por elles se alcançaram: e bem pudéra eu a essa conta trazer alguma

historia de notavel exemplo, se estas horas não estiveram promettidas a

outro exercicio.--Antes a materia, que hontem ficou por acabar (disse

Pindaro) era como se havia de haver o cortezão nos contos e historias;

e vem a vossa a tempo, que servirá de exemplo, e, o que sobre ella se

disser, de doutrina.

--Ainda que isso parece mais concerto de amigos falados (disse

Solino) que occasião, digo que tendes justiça, e sou de parecer que

vá de historia: mas praza a Deus que não caiaes no atoleiro, de que

vos desviastes a primeira noite da nossa conversação.--Bem sabeis

(respondeu elle), que _em ribeiro grande saltar de traz_: e assim

primeiro hei de vêr as balizas de meu companheiro, do que caia nas

vossas mãos.--Enganaes-vos (replicou Solino), que menos seguro vae

o cego do que o moço que o guia.--Não aperteis tanto com os amigos

(acudiu Leonardo), ouçamos ao licenciado a sua historia; e quando as

pellas vierem a Pindaro, elle as tornará á vossa vista, e direis o

que entenderdes.--Outra cousa espero eu (accrescentou o doutor), e é

que haveis de passar pela lei que ordenardes, contando tambem a vossa

historia, da qual se ha de devassar como das mais: e, por dilatarmos

esta menos, diga o licenciado, e declare se vende a sua historia por

verdadeira.--Por tal a conto (respondeu elle) e de um auctor mui

approvado e verdadeiro, e é a seguinte:

“Na côrte do imperador da Allemanha Oton III, d’este nome, que foi

a mais florente, e frequentada de principes, que houve muitos annos

antes, e depois n’aquelle imperio, assistia, com grande satisfação

de suas partes, Aleramo, filho do duque de Saxonia, mancebo de pouca

edade, e de muita gentileza, magnanimo, esforçado, liberal, e tão

cheio de graças naturaes, que n’elle, como em um thesouro, parece

que as depositara todas a natureza. Tinha o imperador uma filha da

mesma edade, e de tanta formosura, que, sem o que a sorte devia a seu

nascimento, merecia ter o imperio do mundo: e se em a belleza tinha

esta vantagem a todas as damas de Allemanha, ainda lh’a fazia muito

maior na discrição, aviso e galanteria. Aleramo, que no serviço do

imperador tinha sempre á vista aquelle despertador de pensamentos

altos, e que, além dos que a grandeza de seu sangue lhe permittia nos

olhos de Adelazia (que este era o nome da princeza) ia aprendendo

pouco a pouco a lhe querer muito, foi descobrindo esta vontade, até

que foi testemunha de seus effeitos a propria causa. Não se houve

por offendida d’este amor Adelazia, por lhe parecer devido á sua

gentileza, e natural em um coração magnanimo, e generoso; maiormente

que na vista, e fama de Aleramo achava tudo o que podia desejar para

um emprego amoroso, ainda que a desegualdade dos estados o defendesse.

Foi elle accrescentando o amor, e este gerando atrevimentos, que são as

salamandras que n’este fogo se criam; e ella, depois de batalhar com os

receios largamente, descobriu ao mancebo sua vontade, encommendando,

na fé do que lhe queria, o segredo d’ella, porque bastava para total

destruição de suas vidas uma leve suspeita, que o imperador tivesse de

seus amores. Continuou muito tempo este segredo, sem ser entendido; e

pouco a pouco se apurava a paciencia d’estes dois amantes, tratando em

uma amorosa correspondencia seus cuidados, sem outros mensageiros, ou

secretarios mais que os seus olhos: eram estes comtudo sem esperança,

por quão alheio o imperador estava de consentir n’elles; parecendo-lhe

pouco, para os merecimentos d’aquella filha, dar-lhe por esposo o mais

rico e poderoso dos reis christãos, quanto mais um filho menor de um

seu vassallo. Mas como o poder de amor se mostra em ter em menos conta

a maior grandeza, fez tanto com Adelazia, que, esquecendo todos os

interesses, offertas e esperanças da fortuna, se determinou de fugir

com Aleramo, que, sem respeitar o perigo, se offereceu ao que sua

senhora ordenasse. Escolhido o tempo e occasião opportuna, levando

ella comsigo as joias de preço que tinha, e elle as cousas de valor

que pôde grangear, sahiram da côrte, e andaram em pouco espaço de

tempo tanto caminho, quanto lhes foi necessario para pôr em salvo as

vidas, a que a ira de Oton ameaçava: o qual achando menos a filha, a

quem queria mais que a tudo o da vida, esteve a risco de a perder com

sentimento; e mandou logo atalhar as estradas, e caminhos de toda a

Europa com bandos e pregões de grandes promessas a quem descobrisse, ou

désse novas do roubador de Adelazia: mas ella e seu esposo caminhando

a pé contra a parte de Italia em habito de peregrinos, foram ter ao

condado de Tirol: e porque o temor de serem conhecidos os desviava

sempre do povoado, vieram na montanha a poder de salteadores, que

roubando-lhes as joias e dinheiro, que traziam, lhes deixaram sómente

as vidas sujeitas a tão grande miseria e pobresa, que lhes foi

necessario, para poder sustental-as, andarem pedindo esmola por toda

Lombardia de logar em logar, já tão mudados de seu parecer, e gentileza

com os trabalhos, que a mudança lhes pudera escusar os de seu receio.

Resolvendo-se comtudo de não fazerem assento em Milão, nem em outra

cidade imperial, se foram viver a umas montanhas entre Asti e Savona,

onde amor e a necessidade lhes ensinaram com os trajos vis a conformar

exercicio de que vivessem, que era cortando lenha n’aquelles bosques,

fazerem carvão, que vendiam nos logares d’aquelle districto; e com esse

sustentavam em vivas brasas o verdadeiro amor, que lhes dava a vida.

Alli com a riqueza, de que elle os tinha satisfeitos, contentes de tão

saborosa necessidade, com habitos humildes, nomes mudados, e corações

conformes, houveram sete filhos varões, que logo nos rostos o pareciam

ser de paes illustres, e de um tão amoroso ajuntamento. O maior

d’elles, a quem pozeram nome Guilhelmo, começou logo na sua puericia

a ajudar a seus progenitores n’aquella miseria, levando o carvão e

lenha a vender a Asti, Savona, Alba, e a outros muitos logares, que por

alli havia: e como a sua generosa, e natural inclinação vencia a razão

daquelle estado miseravel, em que se criára, do que com seu trabalho

ganhava n’aquello trato, um dia comprava um punhal, outro uma espada,

outro um cão de caça, sem que valessem ao generoso pae as reprehensões

com que o persuadia do que convinha mais para sua pobresa. Passaram

alguns dias, quando elle veiu com o emprego de todo o cabedal, que

levára, em um gavião, a que estava muito affeiçoado, mostrando-o a

Adelazia, que com muitas lagrimas lhe disse estas razões: “Bem sei,

meu amado Guilhelmo, que com a culpa d’esta tua estranha demasia quer

a natureza em parte emendar a fortuna, deitando-lhe em rosto os bens,

que te tirou, com o emprego que te ensina a fazer d’estes: mas, se é de

animos generosos edificar torres altivas sobre a humildade, não é menor

grandeza obedecer ao tempo, e dar logar á sorte, emquanto a sua ira se

executa em nossa miseria. Se o espirito te inclina a voar mais alto,

lembra-te, filho meu, que não foram menores os pensamentos de quem vive

com as azas tão encolhidas n’este deserto; e que esse exercicio, que

desejas, não convém com o que usas, tão necessario a teu pae e mãe, que

tambem no imperio de Allemanha poderam ter logares mais levantados,

se amor quizera. Tem compaixão de mim e d’esta misera pobresa, em que

vivo; e antes para sustentar teus pequenos irmãos, e esta mãe, que com

tantas difficuldades te criou, emprega teu cuidado, que tomar outros

tão improprios a esta vida, quão naturaes a teu generoso sangue e

pensamento. E pois os thesouros, que a sorte me guardava, se tornaram

neste carvão, de que agora vivo, não levantes com elle chammas de

vaidade, que venham a espalhar as faiscas d’este fogo por Allemanha,

em cuja opinião está já sepultado nas cinzas frias.” Interneceu-se o

illustre moço com as maternas lagrimas; e entendendo que não podia

continuar n’aquella vida, nem resistir á sua inclinação, d’alli a

poucos mezes desappareceu da montanha, e se foi ao campo imperial

fazer soldado; e n’elle em pouco tempo cresceu tanto no esforço e

opinião dos homens, que já entre elles e do mesmo imperador era mui

conhecido. Sentiram Adelazia e seu marido a ausencia d’este filho

com grandes extremos, assim por o grande amor, como porque n’aquelle

seu trato humilde os ajudava: mas emquanto os outros irmãos menores

se exercitavam no officio, que elle deixára, ía Guilhelmo na guerra

dando claros signaes de seu nascimento; e veiu a ser por seu valor tão

acceito a seu avô, que para o accrescentar a dignidades, e logares,

que por sua pessoa merecia, lhe perguntou quem foram seus paes? Ao que

elle respondeu, que eram vivos, allemães de nascimento, mas que viviam

pobremente em as montanhas de Savona, posto que não desmereciam por

sangue, e ascendencia terem um filho honrado. Desejoso Oton de saber

a verdade, e já encaminhado da ventura do animoso mancebo, mandou com

elle um particular valido seu para que ambos em companhia troxessem á

côrte o pae, e mãe de Guilhelmo com sua familia. Era este privado mui

chegado parente de Aleramo: e sabendo no caminho do moço quem era, com

um novo espanto e alegria ficou enleado, abraçando com muitas lagrimas

ao sobrinho. Chegaram em poucos dias ás montanhas de Savona, á porta da

morada pobre dos ricos amantes; e d’alli chamando-o pelo seu proprio

nome, causou em toda a humilde morada estranha turbação e sobresalto.

Sahiu primeiro fóra, e cheia de um frio temor Adelazia; e conhecendo o

filho, que com os ricos vestidos e galas de soldado fazia parecer em

tudo maior sua gentilesa, com infinitas lagrimas de alegria o abraçou;

chamando ao marido, com os mesmos effeitos o festejou; e conheceu ao

primo, em quem o tempo não fizera a mudança, que n’elle os trabalhos

de tão estreita vida. Recolheram os hospedes com o agasalhado de sua

pobresa. Vieram de noite os filhos de vender a sua mercadoria; e

foram n’elles e nos paes tantas as lagrimas de contentamento, que nem

davam logar ás palavras, nem ás cortezias. Sabida depois a vontade do

imperador, e que era forçado obedecer ao seu mandado, pondo nas mãos da

fortuna e nos olhos da piedade real sua esperança, d’alli a poucos dias

caminharam; que os leves apparatos da pobresa lhe faziam mais faceis as

jornadas, e muito seguros os caminhos. Chegaram á côrte: e lançados aos

pés do imperador, elle conheceu de improviso sua filha, e Aleramo: e

vendo a fecunda geração d’aquelles sete filhos, que podiam na formosura

competir com os planetas, com grande contentamento, e que nadava

nas aguas dos seus olhos, os recebeu, perdoando aos paes a culpa,

e dando aos netos a satisfação da miseria padecida em seus tenros

annos. A Guilhelmo creou marquez de Monferrato, ao segundo de Savona,

ao terceiro de Saluzzo, ao quarto de Sena, ao quinto de Inciza, ao

sexto de Ponzão, ao setimo do Bosque. E d’estes sete marquezes nasceu

generosa descendencia, que enriqueceu Italia, a qual ficou devendo a

gloria d’esta nobreza ao verdadeiro amor destes dois amantes: que,

ainda que elle encaminhe por asperas difficuldades estes successos,

sempre o fim, que por meio de suas obras se alcança, é glorioso.

--Maravilhosa é a historia para exemplo (disse o doutor) e tambem

poderá servir d’elle no como se devem contar outras semelhantes, com

boa discrição das pessoas, relação dos acontecimentos, razão dos

tempos e logares e uma pratica por parte de alguma das figuras, que

mova mais a compaixão e piedade; que isto faz dobrar depois a alegria

do bom successo.--Sómente (acudiu Leonardo) me pareceu comprida,

sendo a materia d’ella muito breve.--Essa differença (lhe tornou

Feliciano) me parece que se deve fazer dos contos ás historias; que

ellas pedem mais palavras que elles, e dão maior logar ao ornamento

e concerto das razões levando-as de maneira, que vão affeiçoando o

desejo dos ouvintes: e os contos não querem tanto de rhetorica; porque

o principal, em que consistem, é a graça do que fala, e na que tem

de seu a cousa que se conta.--Não sou contra esse parecer (disse o

doutor); mas antes de averiguarmos a demasia, deixemos logar a que

Pindaro comece a sua historia, e não lhe lancemos deante preceitos que

lhe façam receio.--Necessaria me era (disse elle) grande confiança para

vencer os que tenho, sem me crescerem outros de novo: porque, se antes

de ouvir a Feliciano tomára esta empreza, tivera um atrevimento menos

culpavel; mas agora será despejo a minha ousadia.--Eu sou (disse elle)

o que me corro da desculpa; e posto que me vinha bem que estes senhores

acceitassem qualquer das vossas para não ficar tão manifesta a vantagem

que me fazeis, não quero que com essa fingida humildade castigueis a

confiança, com que me offereci.--Melhor me está obedecer que competir

(tornou Pindaro); quero contar uma historia semelhante á vossa, só para

me aproveitar do modo que n’ella tivestes: se eu acertar, a vós se deve

o louvor de tudo; e se me perder, tambem sereis culpado, por a força

que agora me fazeis.

“Manfredo, mancebo bem nascido, a quem em gentileza e discrição

ficavam muito inferiores todos os de sua edade, na casa do imperador

Constantino III, cujo cortezão era, teve tanta ventura nos olhos de

Eurice, filha de Constancio, que depois succedeu no imperio, que lhe

parecia a ella que não podia esperar dos fados maior ventura, que a

de o alcançar por seu esposo, e gosar em qualquer estado humilde o

fructo de sua affeição; triumpho que o amor alcança da vaidade com

o favor dos espiritos mais illustres e levantados. O mancebo alheio

d’estes pensamentos, porém obrigado das mostras que lhe revelavam

aquella affeição, determinou de lhe não ser ingrato; porque além

da grandeza de estado, que na opinião dos homens avalia melhor os

merecimentos naturaes da cousa amada, era Eurice tão formosa, que

de quem no sangue lhe fosse egual merecia os maiores extremos de

affeição. Não fazia comtudo Manfredo os que desejava, porque como

entendido sabia o risco, em que punha a vida, se se publicasse na

côrte este segredo: e posto que não via caminho de poder tirar algum

fructo de seu amor, o sustentava sem esperanças com toda a fé, que a

Eurice era devida. Passou algum tempo até que em ambos a grande força

do amor venceu a razão, e triumphou a vontade do entendimento de

Manfredo, que sem outro conselho fugiu com a sua Eurice, em companhia

de dois creados que o serviam, de cuja fidelidade tinha feito prova

da experiencia. Passaram a Italia: tomaram primeiro terra no reino de

Napoles, d’onde foram a Ravena, e d’alli ao districto de Modena, onde

agora chamam Mirandola, que eram n’aquelle tempo montanhas incultas,

habitadas sómente de alguns pastores: entre estes começaram a viver

os dois amantes guardando gado, e fazendo verdadeiros os bem fingidos

amores pastoris: tendo, em logar dos paços reaes, tanques e jardins

de Constantino, as humildes cabanas, a natural verdura dos floridos

valles, e a cristallina corrente das claras fontes: e a troco das

galas, sedas e toucados galantes, que deixaram, os simplices vestidos

da montanha, as capellas de flôres e boninas, e os surrões e cajados

de guardadores: alli pisando com um generoso desprezo a vaidade,

livres de ingratos ciumes e enganosas suspeitas, gosavam de seu puro

querer, e verdadeiro, sem haver outra cousa que perturbasse aquelle

contentamento, mais que o receio de serem por algum modo conhecidos.

Manfredo, pouco a pouco desbaratando por via d’aquelles dois creados

algumas joias de preço, foi comprando gados e propriedades n’aquellas

montanhas em tanta copia que veiu a ser o mais rico morador que n’ellas

havia: e por sua riqueza, prudencia e pessoa era tão respeitado e

querido de todos, que, como se fôra senhor d’elles lhe obedeciam.

Já n’este tempo de sua prosperidade tinha da formosa Eurice copiosa

geração; porque do primeiro parto lhe nasceram tres filhos bellissimos,

que com os trajos e nomes d’aquella montanha se crearam. Depois lhe

foram nascendo cinco, que com a melhoria de seu estado accrescentou

nos nomes, chamando a um d’elles do seu proprio; e a duas filhas a uma

Eurice e outra Constancia. Com esta generosa familia, e sem outros

cuidados, n’aquella doce e amada companhia passavam alegremente a

vida sem sobresaltos. Tendo depois Constancio o governo do imperio,

passou com grande exercito á Italia, e assentou arraial junto á cidade

de Aquileia, aonde todos os povos italianos lhe mandaram por seus

embaixadores dar a obediencia. Juntaram-se os moradores de Modena e

de seus contornos, e elegeram para esse cargo a Manfredo considerando

sua gentileza, cortezania e entendimento, e o poder ir com melhor

tratamento de sua pessoa e creados. Houve elle de acceitar o cargo,

seguro de ser já conhecido de nenhum dos que em outro tempo haviam

tratado, com a mudança dos annos, e da vida que tinha n’aquella

aspereza. Mas Eurice com amor e esperança duvidosa, com mil receios

deante, lhe dizia: “Não sei, meu querido esposo, que desejo me anima

a que consinta n’essa vossa jornada, temendo n’ella tantos perigos

assim de serdes conhecido de meu pae, a quem tanto offendestes, como

de me deixardes só n’esta montanha, onde vossa presença me sustenta a

vida, tendo-me tão mal acostumada, que nem saberei viver uma hora sem

vós, nem estar em mim, em quanto vos detiverdes em Aquileia: comtudo

um certo presagio da ventura me aconselha que não tema este damno: e

considero que não fôra muito menor, se me levareis em vossa companhia,

para que quando a sorte quizesse que, sendo do imperador descoberto

o nosso segredo, vos accommettesse a sua ira, ou o movessem minhas

lagrimas á piedade, ou, havendo de haver algum risco com vossa vida, a

padecesse a minha de um mesmo golpe. Aconselhae-me, caro Manfredo, o

que farei, tomando as minhas partes contra vossa propria determinação;

que me não deixa amor fazer a escolha; nem os receios em que tropeço

me dão caminho e logar para que acerte. Porque se a ventura me busca

para me restituir o que deixei em seu poder, quando no querer do

amor puz minhas esperanças, não quero faltar-lhe pelo que vos quero:

e se pelo contrario quer tomar vingança do despreso com que tratei

suas prosperidades, justo é que se desvie dos castigos quem se soube

esconder de seus favores.“--Estas e outras palavras piedosas lhe dizia

Eurice; a que elle com outras de muita segurança respondia, e a animava

a que não podia temer nenhum successo desencaminhado; desfazendo-lhe

com boas razões o seu feminino receio: com estas e outras de muito amor

e saudade se despediram. Ella ficou chorando sua ausencia: elle chegou

a Basyléa; e houve-se com tanto aviso e cortezania na embaixada, que

o imperador lhe ficou affeiçoado, e o fez gentil homem de sua casa,

mandando-lhe que ficasse n’ella em seu serviço com promessas e palavras

mui compridas. Houve Manfredo de acceitar o novo cargo, por não mover

alguma suspeita que sahisse em seu damno. Escreveu logo a Eurice o que

passava; e ella começou com novo sentimento e devidos extremos a chorar

sua ausencia e sua privança; mal, que só sabe receiar quem conhece a

mudança e perigo de vontades; que sempre as mais levantadas são mais

mudaveis e ligeiras, e os da inveja que sempre como sombra acompanha

os validos. O imperador cada dia cobrava a Manfredo maior affeição,

achando no seu entendimento e humildade tudo o que em todos buscava;

elle admittido nos conselhos e nas occasiões de maior importancia ia

crescendo; mas como estes bens lhe impediam o maior da vida, que era

a sua Eurice, não recebia d’elles contentamento, nem os tinha por

ventura. A mulher da mesma maneira vivia em pena naquella montanha,

que d’antes lhe parecia um paraiso terrestre; e como sentia egualmente

os cuidados de Manfredo e a sua ausencia, para o alliviar dos da

côrte, lhe mandou Fantulo e Manfredo seus filhos menores a visital-o,

porque a estes mostrava elle maior affeição; e eram elles taes por

seu parecer, que a todos os que os vissem a mereciam. O pae ainda

que com amorosos extremos os festejou; combatido de um novo receio,

estava turbado, porque era o do seu nome tão parecido a Constancio, que

temia que na vista désse occasião de alguma lembrança que descobrisse

o segredo de sua culpa. E como a vinda dos meninos foi sabida de

muitos, e o imperador os havia de vêr pela graça que já tinha a seu

pae, elle mesmo se quiz oppôr ao perigo, e lh’os foi apresentar com

toda a humildade. O avô os recebeu com estranha alegria; que ás vezes

a natureza com estes effeitos descobre os segredos do tempo, e acaba

o que não póde levar ao fim a industria humana. O pae como discreto

sabia escolher as occasiões; que este é o mais verdadeiro toque do

entendimento. Entrando com o imperador e com os filhos em um aposento

particular, lançado a seus pés lhe disse estas palavras: “Não é

justo, poderoso senhor, que á conta de salvar a vida, e de escusar

n’ella o castigo que meus erros merecem, tire a esses innocentes o

merecimento e o favor de vossa graça, com que agora podem tornar atraz

a fortuna: e assim com a confiança em vossa piedade e menos seguro

ao perdão, que obrigado do muito que vos devo, confesso minha culpa,

pedindo com estes meninos misericordia, que para si e para sua mãe e

irmãos estão com caricias pueris grangeando a vossa vontade. Sabei,

piedoso senhor, que são netos vossos, filhos de Eurice, vossa filha e

meus; que, sendo desposado com ella secretamente, por fugir ao rigor

da vossa ira, vivo ha tantos annos nas asperas penedias e incultas

montanhas de Modena, fazendo penitencia de minha ousadia com o mesmo

amor, que foi o culpado. Se esta confissão, com o pesar de vos haver

offendido, merece que useis commigo de brandura, lançado a vossos pés

peço perdão, tomando por padrinhos a estes caros penhores do sangue

vosso: e se pelo contrario se ha de empregar o vosso rigor em sujeito

tão vencido, aqui me tendes com a vontade offerecida para os maiores

tormentos da crueldade.” O imperador com um estranho sobresalto ficou

enleiado sem saber determinar: e pondo os olhos n’aquelles bellos

retratos da sua Eurice, abrandou a ira, com que os havia de pôr em

Manfredo, reconhecendo-os por seus netos, e perdoando ao pae a culpa

commettida. Depois foi elle proprio ás montanhas a vêr a Eurice, e á

venturosa progenie que creára; a quem com muitas lagrimas de alegria

recebeu em sua graça: e alli fez a Manfredo conde e marquez de todo

aquelle districto, que fica entre os rios Pado, Tanaro e Sequia,

dando-lhe poder para edificar villas, castellos e cidades, que

accrescentasse a seu senhorio: mandou que elle, seus netos, e todos da

sua descendencia, trouxessem por armas a aguia negra dos imperadores.

E por admiravel progenie da sua Eurice pôz á terra Miranda, que depois

chamaram vulgarmente Mirandola. Manfredo e sua mulher em vida de

Constancio seguiram a côrte com grande accrescentamento de estados: e

depois que falcou no imperio, se recolheram ao seu marquezado, fazendo

muitas povoações e cidades, em que seus filhos succederam, alliando-se

depois com todos os potentados de Italia e de Allemanha, que dão ainda

verdadeiro testemunho de que os casamentos por amor nem podem ser

extranhados da natureza, nem desfavorecidos, por a maior parte, da

ventura.

--Ambos (disse Solino), me parece que podereis partir a fogaça, porque

vos houvestes de maneira, que o que se atrever a julgar a melhoria,

tomará tão difficultosa empreza, como seria a de querer agora competir

com a boa linguagem e modo que tivestes.--Entendo (tornou Leonardo) que

chegais braza á vossa sardinha: mas não a haveis de tirar do fogo com

a mão do gato, nem livrar a vossa obrigação, com a que nós tenhamos

de dar a Feliciano e Pindaro louvores tão bem merecidos. Nenhuma

razão tendes para não fazer no terreiro vossa cortezia.--Eu sou de

voto (disse o doutor), que lhe aceitemos qualquer escusa, porque a

sua rhetorica serve mais aos contos, que ás historias, segundo disse

o Licenciado.--Grande aggravo se lhe faz (disse Pindaro) em o tirarem

da conta dos historiadores, que elle se confessou por esse, e por

affeiçoado aos livros de cavallarias; e além dos seus contos engraçados

sabe tantas historias, que a ser figura de arithmetica, poderá ser

conto de contos.--Bem sei (respondeu Solino) que me sommais para me

diminuir: ainda que a meu pesar confesso que, se a historia de cada um

de vós me cahira nas mãos, houvera de sahir d’ellas com mais

bordões, e muletas do que tem uma casa de romaria, porque me não

escapam termos das velhas, nem remendos dos descuidados que lhe

não misture.--Quando menos (disse o doutor) ouçamos isso, ficará á

vossa conta o exemplo do que se ha de fugir, pois os dois amigos nos

ensinarão a acertar.--Tambem errar por obrigação é difficultoso,

(replicou elle) mas aceito o partido, por vender por alheios meus

erros proprios. E ouvi o que passa: farei de um peão dama, e de um

conto historia por ser mais breve:

“Dizem que era um rei: vem este rei casou por amores com a filha de

um seu vassallo: era ella tão formosa que podia por sua belleza ser

confiada, pois por essa alcançára o ser rainha: mas sem lhe valerem

esses privilegios deu em tão ciosa, que bem a mão não dava o marido um

passo que ella não acompanhasse com as suspeitas; assim que apertavam

estas tanto com ella, que já mais vivia em paz com seu gosto. Vem ella,

e por vencer esta desconfiança vai, e manda secretamente chamar uma

feiticeira, que n’aquella terra havia de muita fama, em cujo engano

achavam os namorados uma botica de remedios para seus males. Assim

que dizia: esta feiticeira por lhe vender mais cara sua diligencia,

feitas algumas fingidas, metteu em cabeça á boa da rainha que o marido

amava com grande extremo a uma criada sua, que ella pintou logo a

mais galante, airosa e bem assombrada que havia no paço. Quando ella

aquillo ouviu ficou guarde-nos Deus! como uma mulher transportada, e

sem sangue; por maneira, que prometteu áquella feiticeira que lhe faria

e aconteceria, se desaffeiçoasse ao rei d’aquelles amores, e empregasse

n’ella todos os seus: a outra, que não queria mais que aquillo, vede

vós como ficaria contente; vem, e promette á rainha que lhe daria

tres aguas conficionadas de tal maneira, que uma, tanto que el-rei a

provasse, bebesse logo os ventos por ella, e lhe quizesse mais que o

lume dos olhos, com que a via; a outra, que, em a rainha a bebendo,

parecesse a seu marido o maior extremo de formosura que havia no mundo;

a terceira que, tanto que a dama a bebesse, a desfigurasse de maneira,

que a todos aborrecesse a sua vista. As palavras não eram ditas, a

rainha lhe deu muitos haveres, e fez grandes mercês e promessas; que

muito facil é de enganar a que deseja aquillo, com que lhe mentem. Vai

a feiticeira d’alli a poucos dias, e traz aquellas aguas conficionadas,

encarecendo muito a virtude, e segredo d’ellas: mas ou porque lhes

errou a tempera, ou porque todas se resolvem n’estas boas obras, a

mudança que ella queria que houvesse na vontade, e nos pareceres,

lhe houveram de fazer na vida; que a peçonha, que é sempre material

dos seus unguentos, penetrou de maneira que os teve a todos tres em

passamento; e a bom livrar ficaram d’ahi a poucos dias sem juizo. Ainda

bem a feiticeira não soube o damno que fizera, e que, por não trazer

a mão certa n’aquelles adubos, podia vir a estado de a pôrem nas da

justiça, desappareceu. Eis senão quando se juntaram todos os medicos

eminentes, que havia no Reino; e depois de muitos mezes de cura, (olhai

vós quantas se fariam a taes pessoas) foram pouco e pouco cobrando os

sentidos e entendimentos; e com a força do mal lhes cahiu a todos o

cabello da cabeça sem lhes ficar um só. E não foi tão ruim o partido,

como era ter cabeça sem elle quem antes o trazia sem ella. Tornando ao

meu proposito, tanto que a rainha se viu tão desfigurada, conhecendo

o desatino que fizera, dando todas as culpas a amor, confessou seu

erro, a criada sua innocencia, e o rei sua desgraça: d’alli adiante,

conformando-se com o exemplo daquelle successo fizeram vida sem ciumes:

que d’elles e de casamentos por amores não escapam senão ou com as mãos

nos cabellos, ou com elles pellados.”

Festejáram os amigos a historia de Solino, porque se conformava no modo

e acção de falar com o que dizia; e como tinha graça, até os erros lhes

pareciam bem. E assim lhe disse o doutor:--Tudo vos succede a pedir por

boca, porque na vossa até o exemplo do que nos outros enfada tem graça

para dar contentamento; e posto que as duas historias passadas foram

tão primas, não desdizem d’ellas os vossos bordões.--Se eu não tivera o

de vossa auctoridade para me sustentar (respondeu elle) manquejára em

tudo.--Em nada (proseguiu elle) haveis de mister favor alheio, e menos

n’este particular, em que entrais com todo o cabedal que requer uma

historia, que é _boa linguagem, discrição natural, relação ordenada,

praticas com piedade, successos com brevidade, sentenças com que se

auctorise, e graça com que se conte_. Porém são horas de deixarmos

esta, e darmos as suas ao repouso da noite.

Com isto se levantaram continuando com a mesma pratica até á escada;

que das coisas, que dão satisfação á vontade, não se sabem despedir as

razões.

DIALOGO XI

DOS CONTOS, E DITOS GRACIOSOS E AGUDOS NA CONVERSAÇÃO

Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume II) · 第 1 / 9 段