CAPITULO XXX

_Como El-Rei D. Affonso Anriques descubrio aos seus que iam sobre

Santarem, e das rezões que disse a todos_.

Na serra Dalvados, que acima dissemos, esteve El-Rei a quinta feira até

noite, e dahi abalaram ao serão andando toda a noite, até a mata que

está sobre Pernes, onde chegaram sexta feira amanhecente, então concirou

El-Rei que era bem descobrir a todos seu desejo, e ao que iam, e fez-lhe

uma falla nesta maneira: «Meus bons Cavalleiros, e amigos, mais

verdadeiramente, que a outros nhuns se ha de chamar, bem sabeis quantos

trabalhos, e fadigas comigo, e sem mi padecestes por azo desta Villa de

que ácerca estamos, e quanta guerra, e males tem feitos á nossa Cidade

de Coimbra, e a todo meu Reino por muito tempo, pelo qual detreminei de

a vir com vosco escalar, e tomar, como em Deos espero, e ainda que

parece necessario chamar mais gente para esso, e seja certo que me viera

de mui boa vontade, porém não quiz, nem escolhi mais que vós soes, em

que sempre puz, e ponho meus conselhos, e fadigas, e cuja lealdade, e

valentia, em muitos perigos meus conhecida me deu sempre de vós, tal, e

tão firme confiança, que com a graça de Deos, ei já por feito o que

vimos a fazer, alem desto vejo em vossos gestos, e continencias não

menos sentirdes, e dezejardes, esta couza que eu mesmo, o que me cauza

tanto prazer, que já me não parece termos nisto mais pejo, que a detença

deste dia, que passe azinha, para com a graça de N. Senhor nos irmos a

noite seguinte apossentar dentro na Villa, e o que tenho cuidado para se

esto mais ligeiramente fazer, escolham-se cento e vinte de nós, para dez

esquadras partidos a cada uma doze, que logo no primeiro sobir, se achem

não menos de dez sobre o muro, e assi se dobre cada vez o conto da

gente.

Os primeiros que sobirem alevantem logo minha bandeira, para esforço dos

nossos, e esmaio dos imigos se espertarem do sono, e a poz esto quebrai

as fechaduras das portas, e assi a volta, e estrondo, dos que pela porta

entrarem, ajuntados com os de dentro esmaiarão mais os imigos, em cuja

matança de homens sahidos do sono, uns, e desarmados, bem vedes quam

pouco ha de fazer. Vós a nhuma pessoa não perdoeis, nem deis vida, nem a

homem, nem a mulher, moço, nem velho, de qualquer idade, e qualidade,

todos andem á espada, e esto fazei com grande e trigozo esforço, que

Deos será ahi em nossa ajuda, para cada um de nós matar cento delles, e

hoje, e á menhã fazem por nós oração geral o Prior, e todos os Conegos

do Moesteiro de Santa Cruz, a que eu ante que partisse notifiquei o que

vinhamos fazer, e assi tambem a Cleresia, com todo o povo, e por que

lhes disse que tinha trato, e intelligencia na Villa, para nos dentro

receberem, me perdoe Deos esta mentira, que ácinte lhe disse, porque lhe

esforçasse os corações, e vontades; assi meus amigos vos esforçai, e

peleijai como sempre fizestes, lembrando-vos o que fazeis por Deos, por

mi, e por vós, por vossos filhos, e netos, hi serei eu, e me verei com

vosco, que não póde haver afronta, nem perigo, que a viver, e morrer me

aparte de vós, como vejo que fareis por mi».

Ouviram todos a El-Rei, mui promptos, e animados, em seus corações, para

ouzarem, e cometerem todo o que lhes falou, mas consirando elles antre

si, a grande ardideza del-Rei, e o muito perigo a que se queria poer,

apartaram-se com elle, e disseram. «Senhor vossa pessoa, não irá com

nosco, que se formos vencidos, nossos imigos não haverão tanto louvor,

nem que morramos delles, ou todos, não é muito de curar, salva vossa

pessoa, e tirada de semelhante risco, cuja perda que Deos defenda seria

perder-se Portugal, e leixando-vos nòs entrar em tamanho perigo, seria

nossa linhagem sempre desdita, e prasmada, como filhos de tredores, que

tendo tal Rei consentiram perde-lo». El-Rei respeitando o que lhe assi

diziam, a muito amor respondeo-lhes com outro tanto, estas palavras: «Oh

amigos, rogo a Deos se este anno, eu hei de viver sem vós tais

Cavalleiros tomardes esta Villa de Santarem, a elle praza que antes eu

desta vez em ella morra».

Chronica de el-rei D. Affonso Henriques · 第 65 / 113 题