_Como El-Rei D. Affonso Anriques chegou de noite aos Olivaes de
Santarem, e dos sinais que pareceram_.
Passado assi esto com outras muitas palavras, e praticas sobre o caso,
aparelharam todo o que fazia mister, para tal obra, e leixando alli as
tendas, e todo o al que traziam, cavalgaram em seus cavallos, e chegaram
aos olivaes de Santarem, de noite. Esto era em vespora de S. Miguel de
Maio sete dias andado do mez, na era de mil cento e quorenta e sete
annos, (1147) e chegados alli viram um sinal, que lhes esforçou muito
mais os corações; viram uma estrella grande ardente com grande raio
correndo pelo Ceo, da parte da Serra, que alumiava a terra, e foi ferir
no mar. Vendo esto disseram logo todos. _Senhor Deos todo poderoso a
Villa é em vossas mãos_. Esso mesmo no dia que El-Rei mandou notificar
aos Mouros o britamento das treguas, que acima dissemos aos da Villa,
appareceo outro sinal mui espantoso pronostico de sua mortindade, que
foi na terceira noite seguinte, viram no Ceo a horas do meio dia
semelhança de um Touro ir por meio do Ceo, levando chamas de fogo
acezas, desde o cabo até á cabeça. O que esses mais sabedores antre os
Mouros, intrepetáram que Santarem haveria cedo Rei novo, e seria o filho
del-Rei de Sevilha Mouro, cujo Santarem, e Lisboa, e parte da
Estremadura era.
Sendo já El-Rei com os seos perto da Villa, lançaram-se em um valle
encuberto, e escuso, tão acerca do lugar, que ouviam falar as velas do
muro, quando bradavam uns aos outros, e estiveram alli toda a noite, com
os cavallos pelas redeas, vigiando com grande cuidado, do que ao dia
seguinte esperavam de fazer, sem os Mouros delles haverem nhum
sentimento.
Em esta noite, e o dia seguinte o Prior de Santa Cruz de Coimbra, com
grande devação ocupado em rogar a Deos por El-Rei, mandou fazer aos seus
Conigos orações publicas, e particulares, e elle em seu orar mui
devotamente dizia: «Senhor Deos todo poderoso, que sem combate, nem
força humana fizeste cair os muros de Jericó, e a rogo, e voz de Jezoé,
mandaste estar quedo o Sol de seu curço contra Guabaão, pesso á tua
infinda bondade, que segundo tua grande misericordia queiras dar vitoria
a El-Rei D. Affonso afadigado por te servir, dando-lhe Sol, e sombra que
ajude sua tenção, e todo o azo como tome a Villa, que vai ganhar, para
teu serviço, e livrar dos imigos que a tem com doesto de tua santa Fé, e
por tal que a çuja seita de Mafamede seja lançada fóra della, e o teu
santo nome seja sempre hi louvado.