CAPITULO XXXI

_Como El-Rei D. Affonso Anriques chegou de noite aos Olivaes de

Santarem, e dos sinais que pareceram_.

Passado assi esto com outras muitas palavras, e praticas sobre o caso,

aparelharam todo o que fazia mister, para tal obra, e leixando alli as

tendas, e todo o al que traziam, cavalgaram em seus cavallos, e chegaram

aos olivaes de Santarem, de noite. Esto era em vespora de S. Miguel de

Maio sete dias andado do mez, na era de mil cento e quorenta e sete

annos, (1147) e chegados alli viram um sinal, que lhes esforçou muito

mais os corações; viram uma estrella grande ardente com grande raio

correndo pelo Ceo, da parte da Serra, que alumiava a terra, e foi ferir

no mar. Vendo esto disseram logo todos. _Senhor Deos todo poderoso a

Villa é em vossas mãos_. Esso mesmo no dia que El-Rei mandou notificar

aos Mouros o britamento das treguas, que acima dissemos aos da Villa,

appareceo outro sinal mui espantoso pronostico de sua mortindade, que

foi na terceira noite seguinte, viram no Ceo a horas do meio dia

semelhança de um Touro ir por meio do Ceo, levando chamas de fogo

acezas, desde o cabo até á cabeça. O que esses mais sabedores antre os

Mouros, intrepetáram que Santarem haveria cedo Rei novo, e seria o filho

del-Rei de Sevilha Mouro, cujo Santarem, e Lisboa, e parte da

Estremadura era.

Sendo já El-Rei com os seos perto da Villa, lançaram-se em um valle

encuberto, e escuso, tão acerca do lugar, que ouviam falar as velas do

muro, quando bradavam uns aos outros, e estiveram alli toda a noite, com

os cavallos pelas redeas, vigiando com grande cuidado, do que ao dia

seguinte esperavam de fazer, sem os Mouros delles haverem nhum

sentimento.

Em esta noite, e o dia seguinte o Prior de Santa Cruz de Coimbra, com

grande devação ocupado em rogar a Deos por El-Rei, mandou fazer aos seus

Conigos orações publicas, e particulares, e elle em seu orar mui

devotamente dizia: «Senhor Deos todo poderoso, que sem combate, nem

força humana fizeste cair os muros de Jericó, e a rogo, e voz de Jezoé,

mandaste estar quedo o Sol de seu curço contra Guabaão, pesso á tua

infinda bondade, que segundo tua grande misericordia queiras dar vitoria

a El-Rei D. Affonso afadigado por te servir, dando-lhe Sol, e sombra que

ajude sua tenção, e todo o azo como tome a Villa, que vai ganhar, para

teu serviço, e livrar dos imigos que a tem com doesto de tua santa Fé, e

por tal que a çuja seita de Mafamede seja lançada fóra della, e o teu

santo nome seja sempre hi louvado.

Chronica de el-rei D. Affonso Henriques · 第 66 / 113 题