CAPITULO XXIX

_Como El-Rei D. Affonso Anriques partio com sua gente para ir tomar

Santarem, e do voto que fez no caminho a S. Bernaldo, o qual naquella

hora lhe foi revelado lá em França, onde estava_.

Depois desto fez El-Rei prestes sómente os seus continuos de sua caza, e

alguns poucos de Coimbra, com Gonçalo Gonçalves, e assi mantimentos que

lhes abastassem, e ante que partisse foi-se ao Moesteiro de Santa Cruz a

falar com aquelle devoto homem Prior do Moesteiro em que elle tinha

grande e singular devação, e encomendou-lhe sua alma, e seu estado, assi

como houvesse de partir deste mundo, dizendo-lhe todo o que tinha

ordenado para ir fazer, e quando havia de ser, encomendando-lhe muito

afincadamente que naquelle dia com seus amigos rogasse a Deos de vontade

que o quizesse ajudar naquelle feito a que iam por seu serviço, e que

esta couza tivesse em grande segredo. Então se partio El-Rei uma segunda

feira não sabendo ninguem para onde iam; salvo aquelles a que o

comunicara, e levaram o caminho tão revessado, e encuberto que os Mouros

não houveram novas delles, e vieram aquelle dia poer as tendas em

Alfasar, esta foi a sua primeira jornada, ao seguinte dia partiram, e

foram dormir a Codornolos, e dali mandou El-Rei a Martim Mohaz que fosse

dizer aos Mouros de Santarem que elle levantava a tregua da li em

diante, e que a paz dantre si, e elles, fosse quebrada até tres dias,

que segundo costume daquelle tempo, cada um podia engeitar a tregua a

seu imigo quando lhe aprovesse, com tanto que lho fizesse primeiro

saber. Martim Mohaz foi, e depois de comprir o mandado que levava,

tornou á quarta feira a Aldeguas, onde El-Rei estava, o qual partio da

li, e indo pela serra Dalvardos acertou-se que D. Pedro irmão bastardo

del-Rei, que fora já em França, ia falando com elle dos muitos milagres,

que naquella terra Deos fazia pelo Abbade S. Bernaldo que então era

vivo, e como lhe Deos outorgava toda couza que lhe pedia.

Então El-Rei movido a devação pelas couzas que lhe seu irmão assi

contava, disse: «Eu á honra, e louvor de Deos, prometo que se me elle

Santarem quizer dar, por sua piedade, e pelos rogos do Bemaventurado S.

Bernaldo, que vós dizeis, e eu lhe dê toda esta terra para a sua Ordem

quanta vejo daqui até o mar, e que faça um Moesteiro em que Frades da

sua Ordem vivam a serviço de Deos, e porque ella seja mais acrecentada».

E segundo conta a Lenda de S. Bernaldo, tanto que El-Rei fez este voto,

logo lhe a elle foi revelado lá em França, onde estava esta promessa

del-Rei, e como havia de tomar Santarem aos Mouros, e em como aquelle

Moesteiro que El-Rei prometera de fazer seria mui nobre, e abastado de

todalas couzas, segundo depois foi, e é agora um dos grandes, e ricos

Moesteiros da sua Ordem que ha na Christandade.

Tanto que o Abbade S. Bernaldo assi houve esta revelação mandou logo

tanger a Cabido, e todos os Monges juntos, lhes contou o que lhe fora

revelado, então todos cantando: «Te Deum Laudamus», foram á Egreja dar

graças a Deos, e mandáram logo partir certos Monges para Portugal com

livros da sua regra, e ordenança, e os que quizessem, viessem para alli,

os quaes em se começando a obra do Moesteiro, vieram hi ter, e tomaram

posse pela ordem da Doação que lhe El-Rei fizera, começando hi de viver,

segundo sua Regra com muito acrecentamento, o qual a N. Senhor aprouve

que fosse sempre depois, e agora neste tempo.

Chronica de el-rei D. Affonso Henriques · 第 64 / 113 题