CAPITULO XIX

_Como Daciano veio a Espanha por mandado do Emperador de Roma, e mandou

matar S. Vicente depois de muito atormentado por prégar a Fé de

Christo_.

Foi S. Vicente natural da Cidade de Osqua, que ora é no Reino de Aragão,

de nobre linhagem, de Fé, e virtude muito mais nobre. Foi discipulo do

Martyre Papa Sixto I e praceiro muito como irmão de S. Lourenço, e sendo

enviado a Espanha pelo Papa, chegou-se a S. Valerio Bispo de Valença, o

qual por ser empachado na lingoa, em prégações, e muitos outros autos do

serviço de Deos, cometia o carrego a S. Vicente. Era então Emperador de

Roma Diocleciano gentio, que fez geralmente pelo mundo a decima

persecução contra Christãos, que durou dez annos, e foi maior, e mais

cruel, que nhuma feita antes, nem depois, e antre muitos emxuqutores,

que a esso mandou por todalas Provincias, enviou Daciano em Espanha o

qual estando em a Cidade de Valença, tanto que soube da vida de S.

Valerio, e S. Vicente, e da doutrina de Christo, que ao povo prégavam,

os fez trazer ante si, preguntando-lhes, e emquerendo com gram sanha, e

ameaços pelas obras que faziam, e prégavam, e S. Valerio por ser já

velho, e empachado da fala, como dito é, começou a responder manço, e de

vagar.

Disse então S. Vicente a S. Valerio: «Padre não cumpre aqui resposta que

seja emcolheita, mas se mandardes eu responderei a este Juiz». S.

Valerio respondeo: «Pras-me filho, que como sabes dias ha que te tenho

minhas vezes cometido». Então S. Vicente respondeo, e falou a Daciano

com tanto fervor, e constancia pela Fé de Christo, que Daciano mui irado

o mandou fortemente atormentar mudando-lhe, e dobrando-lhe, (a fim de o

tirar de Christo por muitos dias) os tormentos, taes, e tantos, quanto

crueza sobeja muito podia sobejamente inventar e fazer, sem ficar nhum

que se possa cuidar, os quaes por brevidade, dizer escuzo. Vendo-se

Daciano com todos seus tormentos, perante todos vencido, e S. Vicente

cada vez em elles mais vencedor, e glorificado, receando, que se por

então morresse nos tormentos leixaria de si maior gloria, mandou que o

lançassem em sua cama mui mole, e curar muito bem delle, para depois de

convalecido lhe renovar novas dores, e chagas, e assi por continuação de

tormentos faze-lo render; mas elle jazendo naquella preciosa, e não

caridosa cama, deu a Alma a Deos, que como sua a levou para si, e a quiz

haver por escuza de mais exames, nem provas de virtudes.

Sabendo sua morte Daciano ainda então se não doeo delle, se não de sendo

vivo lhe ser tolhido sua crueza, dizendo: «Pois em vivo o não venci,

morto o vencerei, e desfarei». Mandou então lançar o Corpo ás aves, e

animalias, que o comecem, onde houve pelos Anjos tão guardado, que nhuma

lhe poz boca, antes de Corvos que al não buscavam, foi um visto

guarda-lo, e defende-lo, o que sendo dito a Daciano, disse com a mesma

sanha, e crueza dantes demais: «Se nem morto o poderei vencer». Então

mandou atar uma grande mó ao Corpo, e lanca-lo no mar para debaixo do

mar ser escondido, e desfeito, quem sobre a terra não pudéra; mas o

Corpo de S. Vicente milagrosamente veio até á terra primeiro que o mesmo

barco, que o foi deitar, e alli por sua revelação foi sabido e recolhido

seu Corpo dalguns Christãos, que o devotamente enterraram, fazendo ahi

sempre muitos milagres. Padeceo depois de N. Senhor duzentos e oitenta e

sete annos (287). Deste Martyre precioso falam muitos Doutores, mui

grandes louvores, antre os quaes diz delle Santo Agostinho: «Oh

Bemaventurado Vicente, verdadeiramente venceste: venceo nas palavras,

venceo nas penas, venceo queimado, venceo alagado, venceo vivo, venceo

morto».

Chronica de el-rei D. Affonso Henriques · 第 54 / 113 题