_Como Daciano veio a Espanha por mandado do Emperador de Roma, e mandou
matar S. Vicente depois de muito atormentado por prégar a Fé de
Christo_.
Foi S. Vicente natural da Cidade de Osqua, que ora é no Reino de Aragão,
de nobre linhagem, de Fé, e virtude muito mais nobre. Foi discipulo do
Martyre Papa Sixto I e praceiro muito como irmão de S. Lourenço, e sendo
enviado a Espanha pelo Papa, chegou-se a S. Valerio Bispo de Valença, o
qual por ser empachado na lingoa, em prégações, e muitos outros autos do
serviço de Deos, cometia o carrego a S. Vicente. Era então Emperador de
Roma Diocleciano gentio, que fez geralmente pelo mundo a decima
persecução contra Christãos, que durou dez annos, e foi maior, e mais
cruel, que nhuma feita antes, nem depois, e antre muitos emxuqutores,
que a esso mandou por todalas Provincias, enviou Daciano em Espanha o
qual estando em a Cidade de Valença, tanto que soube da vida de S.
Valerio, e S. Vicente, e da doutrina de Christo, que ao povo prégavam,
os fez trazer ante si, preguntando-lhes, e emquerendo com gram sanha, e
ameaços pelas obras que faziam, e prégavam, e S. Valerio por ser já
velho, e empachado da fala, como dito é, começou a responder manço, e de
vagar.
Disse então S. Vicente a S. Valerio: «Padre não cumpre aqui resposta que
seja emcolheita, mas se mandardes eu responderei a este Juiz». S.
Valerio respondeo: «Pras-me filho, que como sabes dias ha que te tenho
minhas vezes cometido». Então S. Vicente respondeo, e falou a Daciano
com tanto fervor, e constancia pela Fé de Christo, que Daciano mui irado
o mandou fortemente atormentar mudando-lhe, e dobrando-lhe, (a fim de o
tirar de Christo por muitos dias) os tormentos, taes, e tantos, quanto
crueza sobeja muito podia sobejamente inventar e fazer, sem ficar nhum
que se possa cuidar, os quaes por brevidade, dizer escuzo. Vendo-se
Daciano com todos seus tormentos, perante todos vencido, e S. Vicente
cada vez em elles mais vencedor, e glorificado, receando, que se por
então morresse nos tormentos leixaria de si maior gloria, mandou que o
lançassem em sua cama mui mole, e curar muito bem delle, para depois de
convalecido lhe renovar novas dores, e chagas, e assi por continuação de
tormentos faze-lo render; mas elle jazendo naquella preciosa, e não
caridosa cama, deu a Alma a Deos, que como sua a levou para si, e a quiz
haver por escuza de mais exames, nem provas de virtudes.
Sabendo sua morte Daciano ainda então se não doeo delle, se não de sendo
vivo lhe ser tolhido sua crueza, dizendo: «Pois em vivo o não venci,
morto o vencerei, e desfarei». Mandou então lançar o Corpo ás aves, e
animalias, que o comecem, onde houve pelos Anjos tão guardado, que nhuma
lhe poz boca, antes de Corvos que al não buscavam, foi um visto
guarda-lo, e defende-lo, o que sendo dito a Daciano, disse com a mesma
sanha, e crueza dantes demais: «Se nem morto o poderei vencer». Então
mandou atar uma grande mó ao Corpo, e lanca-lo no mar para debaixo do
mar ser escondido, e desfeito, quem sobre a terra não pudéra; mas o
Corpo de S. Vicente milagrosamente veio até á terra primeiro que o mesmo
barco, que o foi deitar, e alli por sua revelação foi sabido e recolhido
seu Corpo dalguns Christãos, que o devotamente enterraram, fazendo ahi
sempre muitos milagres. Padeceo depois de N. Senhor duzentos e oitenta e
sete annos (287). Deste Martyre precioso falam muitos Doutores, mui
grandes louvores, antre os quaes diz delle Santo Agostinho: «Oh
Bemaventurado Vicente, verdadeiramente venceste: venceo nas palavras,
venceo nas penas, venceo queimado, venceo alagado, venceo vivo, venceo
morto».