_Como o Corpo de S. Vicente foi trazido ao Cabo que se ora chama de S.
Vicente, e como El-Rei D. Affonso o foi lá buscar, e não o podendo achar
se tornou para Coimbra_.
Contam as Estorias dos Arabigos, que andando a era dos Mouros, em cento
e trinta e cinco annos, se levantou nas Espanhas um poderoso homem, a
que chamavam Abdenamer, o qual começou a conquistar, e sobgigar por
Espanha assi Mouros, como Christãos, não achando Santuario de Christãos,
que não destruisse, nem ossos de Martyres, que não queimasse, e andando
nesta conquista foi ter a Aragão, e a Valença, e os homens que tinham o
Corpo do Martyre S. Vicente, quando souberam de sua vinda, e do que
fazia ás Reliquias, e Corpos dos Santos, houveram seu acordo de fogirem
com elle, para terra onde fosse guardado; aprouve a N. Senhor de os
guiar áquelle Cabo chamado ora de S. Vicente, como acima se diz, para o
seu Corpo alli ser enterrado, e escondido, e aquelles homens bons que o
trouxeram, estiveram continuadamente com elle até que por alli chegou um
Cavalleiro Mouro, que morava naquella terra dos Algarves, natural do
Reino de Fês a que chamavam Albofacem, e contam as Estorias em como elle
disse, que andando por alli de noite achára certos homens guardando
aquelle Corpo, os quaes matara, e leixara o Corpo.
El-Rei D. Affonso ouvindo o conteudo nesta Estoria com o que lhe tinham
falado e affirmado os dous velhos Moçaraves de como estiveram no mesmo
lugar, onde jazia o Corpo de S. Vicente, teve Conselho com os seus em
que modo o poderiam haver, e acordaram que fizessem tregua com os
Mouros, e por tempo certo. Ellas feitas El-Rei D. Affonso partio de
Coimbra para aquelle lugar, com tanto desejo, e devação, que apagava em
seu coração todo receio, trabalho, e perigo que nisto corria, e chegando
lá fez buscar com grande deligencia o Corpo, e nunca o pode achar por N.
Senhor ter ordenado, que o Jazigo deste glorioso Martyre fosse na Cidade
de Lisboa onde agora jaz, a qual ainda então era de Mouros. Quando
El-Rei D. Affonso vio que não podia achar este Santo Corpo, como quer
que muito lhe pezasse, remeteu seu pezar á vontade de Deos, que por
então parecia ser aquella, e dali tornou-se para Coimbra.