CAPITULO XVIII

_Como El-Rei D. Affonso Anriques depois da batalha vencida acrecentou em

suas Armas sinaes que mostrassem o que lhe alli acontecera, e da nova

que houve do Corpo de S. Vicente por alguns que ahi foram tomados_.

Depois da batalha vencida esteve El-Rei D. Affonso tres dias no campo,

como é de costume fazerem os Reis se forçados necessidade lhes não vem,

e estando assi no campo, em lembrança da grande mercê que lhe Deos

naquelle dia fizera acrecentou em suas Armas sinaes que mostrassem o que

lhe alli acontecera, no Ceo, em Cruz. Poz sobre o campo que dantes no

Escudo trazia, por Armas uma Cruz toda azul, partida em cinco Escudos,

pelos cinco Reis que vencera, e meteo trinta dinheiros de prata em cada

um dos Escudos em relembrança da morte e Paixão de Jesu Christo, vendido

por trinta dinheiros, e os Reis de Portugal, que depois vieram, vendo

que se não podiam meter tantos dinheiros em pequenos Escudos Darmas

puzeram em cada um dos cinco Escudos cinco dinheiros em aspa, e assi

contando por si cada uma carreira da Cruz do longo, e atravez metendo

sempre no conto de ambas as vezes o Escudo da ametade, fazem trinta

dinheiros, e desta maneira se trazem agora.

Depois dos tres dias passados que El-Rei D. Affonso esteve no campo com

mui grande honra, e grandes prezas de ouro, e prata, presioneiros, e

gados tomados na batalha, tornou-se para Coimbra. Antre os prisioneiros

era um bom quinhão de gente que chamavam Moçaraves, os quaes eram

Christãos, que os Mouros tinham por cativos naquella terra, e quando

El-Rei chegou a Coimbra o Prior de Santa Cruz o saio a receber, e

disse-lhe: «Oh Senhor Rei, e vós outros nobres varões que sois filhos da

Santa Madre Egreja, porque trazeis assi prezos, e cativos estes

Christãos irmãos vossos como se fossem infieis, devendo-os de ter, e

tratar como vós mesmos; ora vos peço senhor, pois são da Lei de Christo

como nós, sejam soltos, e livres da prizão». E El-Rei que era muito

sogeito a toda rezão, e virtude, de todo bom, e verdadeiro Christão,

outorgou logo no que o Prior falou, e os mandou todos soltar, e livrar

de cativeiro.

Vinham entre estes Moçaraves dous homens de grande idade, e mui louvada

vida, os quaes contáram a El-Rei como já estiveram no cabo da terra do

Algarve que mais sae ao mar do Occidente, que naquelle lugar jazia o

Corpo de S. Vicente, ao qual elles alli viram fazer muitos milagres.

Quando El-Rei esto ouvio, tomou grande desejo de haver aquelle Santo

Corpo em sua terra, mas pois me a Estoria trouxe a fazer menção de tão

glorioso Martyre que em Portugal temos, parece-me erro passar assi por

elle, sem dizer primeiro ao menos em soma como, e onde foi martyrizado,

e seu Corpo guardado dos Christãos, e depois em seus lugares contarei

como foi trazido áquelle Cabo, que se ora de seu nome chama Cabo de S.

Vicente, onde por duas vezes foy buscado, e não se podendo achar da

primeira, foi achado da segunda, e foi trazido á Cidade de Lisboa.

Chronica de el-rei D. Affonso Henriques · 第 53 / 113 题