_Como El-Rei D. Affonso Anriques depois da batalha vencida acrecentou em
suas Armas sinaes que mostrassem o que lhe alli acontecera, e da nova
que houve do Corpo de S. Vicente por alguns que ahi foram tomados_.
Depois da batalha vencida esteve El-Rei D. Affonso tres dias no campo,
como é de costume fazerem os Reis se forçados necessidade lhes não vem,
e estando assi no campo, em lembrança da grande mercê que lhe Deos
naquelle dia fizera acrecentou em suas Armas sinaes que mostrassem o que
lhe alli acontecera, no Ceo, em Cruz. Poz sobre o campo que dantes no
Escudo trazia, por Armas uma Cruz toda azul, partida em cinco Escudos,
pelos cinco Reis que vencera, e meteo trinta dinheiros de prata em cada
um dos Escudos em relembrança da morte e Paixão de Jesu Christo, vendido
por trinta dinheiros, e os Reis de Portugal, que depois vieram, vendo
que se não podiam meter tantos dinheiros em pequenos Escudos Darmas
puzeram em cada um dos cinco Escudos cinco dinheiros em aspa, e assi
contando por si cada uma carreira da Cruz do longo, e atravez metendo
sempre no conto de ambas as vezes o Escudo da ametade, fazem trinta
dinheiros, e desta maneira se trazem agora.
Depois dos tres dias passados que El-Rei D. Affonso esteve no campo com
mui grande honra, e grandes prezas de ouro, e prata, presioneiros, e
gados tomados na batalha, tornou-se para Coimbra. Antre os prisioneiros
era um bom quinhão de gente que chamavam Moçaraves, os quaes eram
Christãos, que os Mouros tinham por cativos naquella terra, e quando
El-Rei chegou a Coimbra o Prior de Santa Cruz o saio a receber, e
disse-lhe: «Oh Senhor Rei, e vós outros nobres varões que sois filhos da
Santa Madre Egreja, porque trazeis assi prezos, e cativos estes
Christãos irmãos vossos como se fossem infieis, devendo-os de ter, e
tratar como vós mesmos; ora vos peço senhor, pois são da Lei de Christo
como nós, sejam soltos, e livres da prizão». E El-Rei que era muito
sogeito a toda rezão, e virtude, de todo bom, e verdadeiro Christão,
outorgou logo no que o Prior falou, e os mandou todos soltar, e livrar
de cativeiro.
Vinham entre estes Moçaraves dous homens de grande idade, e mui louvada
vida, os quaes contáram a El-Rei como já estiveram no cabo da terra do
Algarve que mais sae ao mar do Occidente, que naquelle lugar jazia o
Corpo de S. Vicente, ao qual elles alli viram fazer muitos milagres.
Quando El-Rei esto ouvio, tomou grande desejo de haver aquelle Santo
Corpo em sua terra, mas pois me a Estoria trouxe a fazer menção de tão
glorioso Martyre que em Portugal temos, parece-me erro passar assi por
elle, sem dizer primeiro ao menos em soma como, e onde foi martyrizado,
e seu Corpo guardado dos Christãos, e depois em seus lugares contarei
como foi trazido áquelle Cabo, que se ora de seu nome chama Cabo de S.
Vicente, onde por duas vezes foy buscado, e não se podendo achar da
primeira, foi achado da segunda, e foi trazido á Cidade de Lisboa.