_Como o Principe D. Affonso passado o Tejo foi buscar El-Rei Ismar, que
com quatro Reis, outros, e infinda Mourama vinha contra elle, e como
sentaram seus arraiaes um á vista do outro_.
Finado D. Egas, e mandado assi enterrar como dito é, o Princepe D.
Affonso Anriques como quer que lhe muito pezasse do falecimento de tão
honrado Cavalleiro, em quem tinha grande confiança; seguio avante o que
ia fazer, por serviço de Deos, e partindo daquelle lugar, onde se D.
Egas finara, passou o Tejo, e as charnecas mui grandes, e despovoadas
que agora ainda hi ha, e então seriam maiores, e sahindo dellas começou
a fazer grande guerra aos Mouros, correndo-lhe a terra, e tomando-lhe
Villas, e lugares, e fazendo grandes cavalgadas, e havendo muitos
vencimentos contra elles, do que tanto que El-Rei Ismar houve nova,
mandou requerer toda a mourama dos lugares, e outras partes do redor,
mandando seus alvites, que elles entre si hão por homens de santa vida,
que fossem pregar, e requerer da parte de Mafamede, que acorressem á
terra que estava em ponto de se perder, pelo qual houve El-Rei Ismar
muita em sua ajuda de Mouros dáquem, e dalém mar, e outras gentes
barbaras, que era infinda a multidão delles em tanta desigualança dos
Christãos, que se ha por certo serem pouco menos de cento para um, entre
os quaes vieram quatro Reis outros, cujos nomes não achamos escritos, e
vieram com estas gentes molheres vezadas a peleijar como as Amazonas, o
que foi sabido, e provado depois pelos mortos, que acharam no campo. O
Princepe D. Affonso quando soube que El-Rei vinha com aquellas gentes,
foi mui ledo, e moveo contra elle, com mui grande esforço, e vontade de
servir a Deos em tal afronta, e andando suas jornadas veio a um lugar,
que se hora chama Cabeças de Rei junto com Castro Verde, onde estava uma
Ermida, e nella um Irmitão. Esto era a hora da Sexta, ali se viram as
Ostes ambas, e o Princepe D. Affonso, e El-Rei Ismar sentáram seus
arraiaes um á vista do outro, em vespera de Santiago, anno de N. Senhor
de mil cento e trinta e nove (1139).