CAPITULO XII

_Como o Principe D. Affonso Anriques abalou com gente a guerrear aos

Mouros a terras de Alentejo, e como no caminho adoeceo, e morreo D. Egas

Moniz, e do seu enterramento, e da muita devação dos Cavalleiros

daquelle tempo_.

Depois que o Principe D. Affonso Anriques tornou de ganhar Leiria, e

Torres Novas, esteve em Coimbra alguns dias, e vendo que tinha suas

terras, e Fortalezas mui providas, e postas em ordem do que lhe compria,

e tambem que de Castella estava seguro de guerra por algumas rezões que

a Estoria não declara, consirando elle, que não devia, nem podia milhor

empregar o bem, e honra que seu pai, e elle ganháram, que em serviço de

nosso Senhor de cuja mão a tinham récebido, e como não havia então nhum

serviço de Deos mais necessario em Espanha occupada de Mouros, que serem

guerreados, e lançados fóra della, segundo fora sempre seu proposito, e

vontade, houve conselho com os seus de fazer guerra nas terras de

Alentejo especialmente na Comarca do Campo Dourique, e esto por duas

rezões, a primeira, porque a terra era mui povoada, e de poucas

Fortalezas, em que os seus haveriam assaz mantimentos, e prezas; a

segunda, e principal porque se El-Rei Ismar, que regia em Espanha toda a

maior parte dos Mouros contra Ponente, viesse a peleijar com elle, e

dando-lhe Deos delle o vencimento que esperava, toda a terra que se

chama Estremadura, que era sob seu senhorio, não haveria poder de se lhe

defender, e o Princepe D. Affonso tinha que iria acompanhado de tão boa

gente, que era bastante para peleijar com elle.

E tanto que juntou, e teve sua gente prestes, partio de Coimbra, e a

poucas jornadas no Campo Dourique adoeceo á morte D. Egas Moniz seu Aio,

e se finou, de cujo falecimento o Principe tomou pezar, e o sentio

grandemente mostrando o menos pelo da gente, e feito a que ia. Cazo é a

morte de bons vassallos, e servidores em que os Princepes sempre devem

mostrar sentimento, por animarem mais os que ficam para seu serviço, e

se mostrarem virtuosos, e bons, não sómente em vida, mas depois de

mortos, porque as virtudes (onde ha virtude) auzentes devem de ser

queridas, e lembradas. Então mandou o Princepe tornar com o corpo de D.

Egas tantos dos seus, e taes pessoas com que podia ir honradamente.

Mandou-se elle enterrar no Moesteiro do Paço de Souza, que elle mesmo

fez, e o seu moimento está dentro da Capella que se chama do Corporal,

ou dos Freguezes, e entre elle, e a parede não está se não um moimento

baixo, esto se poz aqui para se saber onde jaz tão nobre, e honrado

Cavalleiro.

Elle fundou em sua vida dous Moesteiros, este do Paço, e o de S.

Martinho de Cucujães áquem da Cidade do Porto, os quaes dotou de muitas

possessões, e guarneceo de grandes ornamentos, no que é bem de notar, e

seguir a muita devoção dos Cavalleiros daquelle tempo, que com todas

suas presas, e trabalhos, e grandes, e continuas despezas, em guerra tão

santa, e quasi do Reino a dentro sendo então o Reino mais pequeno, e

menos rico, não se descuidáram por esso de todo o serviço de Deos,

conhecendo que o serviço de Deos salva para o outro mundo, e acrescenta

a cavallaria, e honra deste mundo, e por tanto vemos muitas Egrejas

honradas, e grandes, e sumptuosos Moesteiros feitos daquelle tempo, e

nhuns Paços, e cazarias maiores, e pompa sobeja, edeficadas, mas os

passados segundo parece, fundavam-se mais em fazer, guarnecer moradas

para as Almas, que para os corpos, lembrando-se sómente dos corpos o

enterramento que delles havia de ser, mais que a vivenda, que havia

deixar de ser.

Chronica de el-rei D. Affonso Henriques · 第 47 / 113 题