_Como o Principe D. Affonso Anriques abalou com gente a guerrear aos
Mouros a terras de Alentejo, e como no caminho adoeceo, e morreo D. Egas
Moniz, e do seu enterramento, e da muita devação dos Cavalleiros
daquelle tempo_.
Depois que o Principe D. Affonso Anriques tornou de ganhar Leiria, e
Torres Novas, esteve em Coimbra alguns dias, e vendo que tinha suas
terras, e Fortalezas mui providas, e postas em ordem do que lhe compria,
e tambem que de Castella estava seguro de guerra por algumas rezões que
a Estoria não declara, consirando elle, que não devia, nem podia milhor
empregar o bem, e honra que seu pai, e elle ganháram, que em serviço de
nosso Senhor de cuja mão a tinham récebido, e como não havia então nhum
serviço de Deos mais necessario em Espanha occupada de Mouros, que serem
guerreados, e lançados fóra della, segundo fora sempre seu proposito, e
vontade, houve conselho com os seus de fazer guerra nas terras de
Alentejo especialmente na Comarca do Campo Dourique, e esto por duas
rezões, a primeira, porque a terra era mui povoada, e de poucas
Fortalezas, em que os seus haveriam assaz mantimentos, e prezas; a
segunda, e principal porque se El-Rei Ismar, que regia em Espanha toda a
maior parte dos Mouros contra Ponente, viesse a peleijar com elle, e
dando-lhe Deos delle o vencimento que esperava, toda a terra que se
chama Estremadura, que era sob seu senhorio, não haveria poder de se lhe
defender, e o Princepe D. Affonso tinha que iria acompanhado de tão boa
gente, que era bastante para peleijar com elle.
E tanto que juntou, e teve sua gente prestes, partio de Coimbra, e a
poucas jornadas no Campo Dourique adoeceo á morte D. Egas Moniz seu Aio,
e se finou, de cujo falecimento o Principe tomou pezar, e o sentio
grandemente mostrando o menos pelo da gente, e feito a que ia. Cazo é a
morte de bons vassallos, e servidores em que os Princepes sempre devem
mostrar sentimento, por animarem mais os que ficam para seu serviço, e
se mostrarem virtuosos, e bons, não sómente em vida, mas depois de
mortos, porque as virtudes (onde ha virtude) auzentes devem de ser
queridas, e lembradas. Então mandou o Princepe tornar com o corpo de D.
Egas tantos dos seus, e taes pessoas com que podia ir honradamente.
Mandou-se elle enterrar no Moesteiro do Paço de Souza, que elle mesmo
fez, e o seu moimento está dentro da Capella que se chama do Corporal,
ou dos Freguezes, e entre elle, e a parede não está se não um moimento
baixo, esto se poz aqui para se saber onde jaz tão nobre, e honrado
Cavalleiro.
Elle fundou em sua vida dous Moesteiros, este do Paço, e o de S.
Martinho de Cucujães áquem da Cidade do Porto, os quaes dotou de muitas
possessões, e guarneceo de grandes ornamentos, no que é bem de notar, e
seguir a muita devoção dos Cavalleiros daquelle tempo, que com todas
suas presas, e trabalhos, e grandes, e continuas despezas, em guerra tão
santa, e quasi do Reino a dentro sendo então o Reino mais pequeno, e
menos rico, não se descuidáram por esso de todo o serviço de Deos,
conhecendo que o serviço de Deos salva para o outro mundo, e acrescenta
a cavallaria, e honra deste mundo, e por tanto vemos muitas Egrejas
honradas, e grandes, e sumptuosos Moesteiros feitos daquelle tempo, e
nhuns Paços, e cazarias maiores, e pompa sobeja, edeficadas, mas os
passados segundo parece, fundavam-se mais em fazer, guarnecer moradas
para as Almas, que para os corpos, lembrando-se sómente dos corpos o
enterramento que delles havia de ser, mais que a vivenda, que havia
deixar de ser.