CAPITULO XIV

_Como os Portuguezes vista a multidão dos Mouros requereram ao Principe

D. Affonso que escuzasse a batalha, e da fala que lhe o Princepe fez

sobre esso_.

Os Christãos que eram com o Principe, vendo a grande multidão dos Mouros

sem conto, começaram de poer duvida em se haver de dar batalha pela mui

grande desigualança, que havia delles aos Mouros. Então se foram ao

Principe, e lhe disseram: «Senhor quem sua carga compassa póde com ella,

e vós vedes bem a multidão de gente que El-Rei Ismar traz comsigo, e

cuidardes de com tão pouca, como tendes peleijar com elle, é cousa fóra

de toda a rezão, que ainda parece mais tentar a Deos, que sezuda

valentia, nem se deve haver por serviço de Deos, antes por muito seu

desserviço para tamanha aventura, e risco de uma só ora o senhorio de

Portugal, ganhado em tantos de muitos dias, e annos, pelo qual Senhor, a

todos parece, e não com mingoa de coração, e vontade que em nós nunca

achastes, devesse ter modo por onde toda via se escuze esta batalha».

Quando o Princepe D. Affonso ouvio aos seus esto, pezou-lhe muito, e

posto que nelle só houvesse o esforço que a toda a Oste compria, lhe

pareceo necessario fazer a todos uma falla, a qual depois de todos

ajuntados, assi começou.

«Meus bons vassallos, e amigos, muito vos deve lembrar a tenção e

desejos com que partimos de Coimbra para servir a Deos, e punhar por sua

santa Fé Catholica, contra estes seus imigos, e nossos, e ora estando

nós já em vista dos que viemos buscar, será grande mingua, e ainda

poder-se-ia mais azinha de Portugal seguir essa perda, não peleijando,

que peleijando receaes se fogissemos ás batalhas a que nos Deos, e

nossas vontades tão acerca trouxeram, que já nosso recolhimento não

podia leixar de parecer fugida, ou ser desbarato. Deos por sua piedade

nunca abrio mão dos que em elle esperam, nem para dar, ou tolher, a quem

lhe praz vitoria, ha mister poder de mais, nem menos gente. Lembre-vos

quantas vezes, e em quantos lugares, peleijaram nossos antecessores com

estes imigos da Fé, e os venceram poucos, pois não é agora menos

poderosa a mão do Senhor Deos para nos ajudar contra El-Rei Ismar, do

que foi nos tempos passados para ajudar a elles, e assi outros muitos

Princepes, e Senhores Christãos, em semelhantes casos, e tanto mais da

ventagem de nossos imigos; deve nosso coração, e esforço quanto temos

mais justas causas, e rezão de peleijar. Nós peleijamos por Deos, pela

Fé, pela verdade, e estes arrenegados que vedes, peleijam contra Deos,

pela falsidade. Nós por nossa terra, elles pela que nos tem tomada, e

furtada, e querem furtar. Nós pelo sangue, e vingança de nossos

Antecessores, elles por ainda cruelmente espargerem o nosso. Nós por

poer nossos pais, nossas mãis, nossas pessoas, molheres, e filhos, com

liberdade, elles a nós todos em seu cativeiro, a terra que hoje em dia

tem, e pessuem em Africa, em Espanha, nossa foi, e a Christãos por

nossos peccados a tomaram, e agora que Deos quer que a cobremos, com seu

desfazimento, e destruição, não desfaleçamos a vontade do Senhor Deos, e

a tamanho bem nosso; oh quanta mercê nos Deos faz Cavalleiros, e a

quanto bem nos chegou, se lho bem conhecessemos, chegou-nos a um dia e

feito tão glorioso, quanto Cavalleiros não poderiam, nem saberiam mais

desejar. Chegou-nos a peleijarmos por elle, e por nós, peleija sua, e

nossa contra cinco Reis Mouros imigos da sua Santa Fé, em que nos elle

salvou, peleija em que mataremos, seguros de culpa, morreremos mais

seguros de galardão, matando, ganharemos terra, e honra temporal,

morrendo ganhamos o Ceo, e gloria eterna, matando tolhemos a vida a

nossos imigos, e morrendo damos vida e gloria a nós para sempre, a quem

se deve mais nossa vida que a Deos que no la deu, nem nosso sangue que a

Christo, que o seu proprio por nós espargeo, nem que podemos fazer neste

mundo por elle, que muito mais, o primeiro não fizesse por nós, elle

sendo filho de Deos, se abaixou a fazer homem por nos fazer filhos de

Deos, e nós filhos de homens, ainda por elle não faremos por onde filhos

de Deos pareçamos? Elle padeceo por nós, só nu, e despido, sem galardão,

e nós cubertos de armas, e acompanhados, e com galardão, muito maior que

merecimento, receamos peleijar por quem assi por nós morreo, para que

nos fez logo Deos, para que nos teve amor tão sobejo, que por remir tão

ingratos servos, deu seu proprio filho, sendo logo (quanto assi por nós,

e nós possamos fazer por elle) feito tudo só por nós, e para nós, que

Deos nada lhe faz mister? Certo não é de homens, nem de Cavalleiros, e

muito menos de Christãos, e mais nós Portuguezes recearmos trabalho, que

nos sae em tanta gloria, nem morte que nos passa a vida para sempre

segura da morte, pelo qual meus bons Cavalleiros tenhamos muita Fé, e

muita Esperança, em N. Senhor, o dia de amenhã em que com sua graça

venceremos a batalha, será de tanto prazer para nós, e nos aprezenta

tanta gloria e honra para o outro mundo, e para este cuidando no premio,

faz ligeiro o trabalho; não cureis de nhumas rezões, nem temores que a

lembrança de Deos só, e de tanto bem nosso, no los deve lançar fóra de

nossos corações. Hi-vos agora todos em boa hora a repouzar, e esperai

com muito prazer, e descanço o dia damenhã, tão ledo, e de prazer, como

nunca foi a Cavalleiros, tanto que amanhecer vamos logo com a ajuda de

Deos, e sua graça ao que viemos fazer, que elle ha de ser comnosco como

sempre o é com os seus, e elle por sua piedade no-lo dará feito, e

vencido, em nossas mãos, e de manhã prazendo a elle acabareis de

confirmar para sempre o bom nome, e louvor que os Portuguezes tem de

saberem bem aguardar seu Senhor nas pressas, e perigos maiores, porque

com a ajuda do Senhor Deos, eu espero tomar tal lugar na peleija, onde

me faça mester vossas mãos, e ajuda».

Quando os Portuguezes ouviram taes palavras, com tanto e tão confiado

esforço do Principe, foram assi todos esforçados, e animados de um

coração para servir a Deos, e a elle naquella batalha que pareceo ser

trespassado em cada um o mesmo esforço, que no Princepe viam,

responderam todos mui ledos, que pois elle queria, e lhe assi perecia,

elles estavam mui prestes para fazer o que sempre fizeram aquelles donde

elles decendiam.

Chronica de el-rei D. Affonso Henriques · 第 49 / 113 题