--Que _chic_! Nem uma criada do paço!
--Coitada! cousas que ella aproveita...
Prosperava, com effeito! Não punha na cama senão lençoes de linho.
Reclamára colxões novos, um tapete para os pés da cama, felpudo! Os
_sachets_ que perfumavam a roupa de Luiza iam passando para a dobra
das suas calcinhas. Tinha cortinas de cassa na janella, apanhadas com
velhas fitas de sêda azul; e sobre a commoda dous vasos da Vista Alegre
dourados! Emfim um dia santo, em lugar da _cuia_ de retroz, appareceu
com um _chignon_ de cabello!
Joanna pasmava d'aquellas tafularias. Attribuia-as á bondade da
senhora, e resentia-se de ser «esquecida». Um dia mesmo, que Juliana
estreára uma sombrinha, disse diante de Luiza, com uma voz de despeito:
--Para umas tudo, para outras nada!...
Luiza riu, acudiu:
--Tolices! Eu sou a mesma p'ra todas.
Mas reflectiu: Joanna podia ter desconfianças tambem, ter ouvido
_alguma cousa_ a Juliana... E logo ao outro dia, para a conservar
contente e amiga, deu-lhe dous lenços de sêda, depois dous mil reis
para um vestido; e d'ahi por diante nunca lhe recusou licença para
sahir á noitinha _a casa d'uma tia_...
A Joanna ia por toda a parte fallando da «senhora, que era um anjo».
Na rua, de resto, tinha-se notado o luxo de Juliana. Sabia-se do
«quarto novo», dizia-se baixo que tinha alcatifa! O Paula decidira, com
indignação, «que alli positivamente havia marosca». Mas Juliana uma
tarde, diante do Paula e da estanqueira, explicou, acalmou as suspeitas.
--Ora! dizem que tenho isto e aquillo. Não é tanto! Tenho as minhas
commodidades. Mas tambem a maneira como eu lhes tratei a tia, de dia
e de noite, sem arredar pé... Por mais que façam não me pagam, que
arruinei a minha saude!
Assim se justificou a prosperidade de Juliana. Era a familia
agradecida, dizia-se; tratavam-na como parenta!
E, pouco a pouco, a casa do «Engenheiro» teve para os criados da
visinhança a vaga seducção d'um paraiso: dizia-se que as soldadas
eram enormes, havia vinho á discrição, recebiam-se presentes todas as
semanas, ceava-se todas as noites caldo do gallinha! Cada um invejava
aquella «pechincha». Pela inculcadeira, a fama da «casa do Engenheiro»
alargou-se. Creou-se uma legenda.
Jorge, attonito, recebia todos os dias cartas de pessoas offerecendo-se
para criados de quarto, criadas de dentro, cozinheiros, escudeiros,
governantas, cocheiros, guarda-portões, ajudantes de cozinha... Citavam
as casas titulares de que tinham sahido; pediam audiencia; suspeitando
certas cousas uma bonita criada de quarto juntou a sua photographia; um
cozinheiro trouxe uma carta d'empenho do director geral do ministerio.
--Estranho caso!--dizia Jorge, pasmado--disputam-se a honra de me
servir! Imaginarão que me sahiu a sorte grande?
Mas não dava muita attenção áquella singularidade. Vivia então muito
occupado: andava escrevendo o seu relatorio; e todos os dias sahia ao
meio dia, voltava ás seis, com rolos de papeis, mappas, brochuras,
fatigado, berrando pelo jantar, radiante.
Contou o _caso_, todavia, rindo, um domingo á noite. O Conselheiro
observou logo:
--Com o bom genio da D. Luiza, com o seu, Jorge, n'este bairro
saudavel, n'uma casa sem escandalos, sem questões de familia, toda
virtude, é natural que a criadagem menos favorecida aspire a uma
posição tão agradavel.
--Somos os amos ideaes!--disse Jorge, batendo muito alegre no hombro de
Luiza.
A casa, com effeito, tornava-se «agradavel». Juliana exigira que o
jantar fosse mais largo (para ter uma parte sua, sem sobejos), e como
era boa cozinheira vigiava os fogões, provava, ensinava pratos á Joanna.
--Esta Joanna é uma revelação--dizia Jorge--vê-se-lhe crescer o
talento!...
Juliana, bem alojada, bem alimentada, com roupa fina sobre a pelle,
colxões macios, saboreava a vida: o seu temperamento adoçára-se
n'aquellas abundancias; depois, bem aconselhada pela tia Victoria,
fazia o seu serviço com um zelo minucioso e habil. Os vestidos de Luiza
andavam cuidados como reliquias. Nunca os peitilhos de Jorge tinham
resplandecido tanto! O sol d'outubro alegrava a casa, muito aceada,
d'uma pacatez d'abbadia. Até o gato engordava.
E no meio d'aquella prosperidade--Luiza definhava-se. Até onde iria a
tyrannia de Juliana? era agora o seu terror. E como a odiava! Seguia-a
por vezes com um olhar tão intensamente rancoroso, que receava que ella
se voltasse subitamente, como ferida pelas costas. E via-a satisfeita,
cantarolando a _Carta adorada_, dormindo em colxões tão bons como os
seus, pavoneando-se na _sua_ roupa, reinando na _sua_ casa! Era justo,
justos céos?
Ás vezes vinha-lhe uma revolta, torcia os braços, blasphemava,
debatia-se na sua desgraça, como nas malhas d'uma rêde; mas, não
encontrando nenhuma solução, recahia n'uma melancolia aspera--em que o
seu genio se pervertia. Seguia com satisfação a amarellidão crescente
das feições de Juliana; tinha esperanças no aneurisma: não rebentaria
um dia, o demonio?
E diante de Jorge tinha de a elogiar!
A vida pesava-lhe. Apenas elle pela manhã sahia e fechava a cancella,
logo as suas tristezas, os seus receios lhe desciam sobre a alma,
devagar, como grandes véos espessos que se abatem lugubremente; não
se vestia então até ás quatro, cinco horas, e com o roupão solto, em
chinellas, despenteada, arrastava o seu aborrecimento pelo quarto.
Vinham-lhe, por momentos, de repente, desejos de fugir, ir metter-se
n'um convento! A sua sensibilidade muito exaltada impellil-a-hia de
certo a alguma resolução melodramatica,--se a não retivesse, com a
força d'uma seducção permanente, o seu amor por Jorge. Porque o amava
agora, immensamente! Amava-o com cuidados de mãi, com impetos de
concubina... Tinha ciumes de tudo, até do ministerio, até do relatorio!
Ia interrompêl-o a cada momento, tirar-lhe a penna da mão, reclamar
o seu olhar, a sua voz; e os passos d'elle no corredor davam-lhe o
alvoroço dos amores illegitimos...
De resto ella mesma se esforçava por desenvolver aquella paixão,
achando n'ella a compensação ineffavel das suas humilhações. Como
lhe viera _aquillo_? Porque sempre o amára, de certo, reconhecia-o
agora,--mas não tanto, não tão exclusivamente! Nem ella sabia.
Envergonhava-se mesmo, sentindo vagamente n'aquella violencia amorosa
pouca dignidade conjugal: suspeitava que o que tinha era apenas um
_capricho_. Um capricho por seu marido! Não lhe parecia rigorosamente
casto... Que lhe importava, de resto? Aquillo fazia-a feliz,
prodigiosamente. Fosse o que fosse era delicioso!
Ao principio a idéa do _outro_ pairava constantemente sobre este amor,
pondo um gosto infeliz em cada beijo, um remorso em cada noite. Mas
pouco a pouco esquecêra-o tanto, o _outro_--que a sua recordação,
quando por acaso voltava, não dava mais amargor á nova paixão, que um
torrão de sal póde dar ás aguas d'uma torrente. Que feliz que seria--se
não fosse a _infame_!
Era a _infame_ que se sentia feliz! Ás vezes só no seu quarto, punha-se
a olhar em redor com um riso d'avaro: desdobrava, batia os vestidos de
sêda: punha as botinas em fileira, contemplando-as de longe, extatica;
e debruçada sobre as gavetas abertas da commoda contava, recontava a
roupa branca, acariciando-a com o olhar de posse satisfeita. Como a da
_Piorrinha_!--murmurava, afogada em jubilo.
--Ai! estou muito bem!--dizia ella á tia Victoria.
--Que duvida que estás! A carta não te rendeu um conto de reis, mas
olha que te trouxe um par de regalos. E é que ha-de ser uma pingadeira:
ha-de ser a boa peça de linho, o bom adereço, boas moedas... E ainda
muito obrigada por cima. Carda-a, filha, carda-a!
Mas já havia pouco que _cardar_. E lentamente Juliana começou a pensar,
que agora o que devia era _gozar_. Se tinha bons colxões--para que se
havia de levantar cêdo? Se tinha bons vestidos--porque não havia d'ir
espairecer para a rua? Toca a tirar partido!
Uma manhã que estava mais frio deixou-se ficar na cama até ás nove
horas, com as janellas entreabertas, um bom raio de sol na esteira.
Depois explicou seccamente, que tinha estado com a dôr. D'ahi a dous
dias Joanna, ás dez horas, veio dizer baixo a Luiza:
--A snr.^a Juliana ainda está na cama, está tudo por arrumar.
Luiza ficou aterrada. O quê? Teria de soffrer os seus desmazelos, como
soffrera as suas exigencias?
Foi ao quarto d'ella:
--Então vossê levanta-se a estas horas?
--Foi o que me recommendou o medico--replicou muito insolente.
E d'ahi por diante Juliana poucas vezes se erguia antes da hora de
servir ao almoço. Luiza pediu logo a Joanna que fizesse «o serviço por
ella»: era por pouco tempo, a pobre creatura andava tão adoentada!
E para acommodar a cozinheira deu-lhe meia moeda, para a ajuda d'um
vestido.
Juliana depois, sem pedir licença, começou a sahir. Quando voltava
tarde, para o jantar, não se desculpava!
Um dia Luiza não se conteve, disse-lhe, vendo-a passar no corredor a
calçar as luvas pretas:
--Vossê vai sahir?
Ella respondeu, muito atrevidamente:
--É como vê. Fica tudo arrumado, tudo o que é minha obrigação.--E
abalou, batendo os tacões.
Ora, não lhe faltava mais senão estar a constranger-se por causa da
_Piorrinha_!
Joanna começava a resmungar: «passa a sua vida na rua a snr.^a Juliana,
e eu é que aguento...»
--Se vossê estivesse doente, tambem ninguem lhe ia á mão--acudia Luiza,
afflicta, quando percebia estas revoltas. E presenteava-a. Dava-lhe
mesmo vinho e sobremesa.
Havia agora um desperdicio na casa. Os roes cresciam. Luiza andava
succumbida.--Como acabaria tudo aquillo?
Os desleixos de Juliana iam-se tornando graves.
Para sahir mais cedo fazia apenas o «essencial». Era Luiza que acabava
d'encher os jarros, que levantava muitas vezes a mesa do almoço, que
levava para o sotão roupa suja que ficava pelos cantos...
Um dia Jorge que entrára ás quatro horas, viu por acaso a cama por
fazer. Luiza apressou-se a dizer que «Juliana sahira, mandára-a ella á
modista».
D'ahi a dias, eram seis horas, ainda não tinha voltado para servir ao
jantar. «Tinha ido á modista...» explicou Luiza.
--Mas se a Juliana é unicamente para ir á modista, então toma-se outra
criada para fazer o serviço da casa--disse elle.
Áquellas palavras seccas Luiza fez-se pallida, duas lagrimas
rolaram-lhe pela face.
Jorge ficou pasmado. Que era? Que tinha? Luiza não se dominou, rompeu
n'um choro nervoso, hysterico.
--Mas que é, minha filha, que tens? Zangaste-te?...
Ella não podia responder, suffocada. Jorge fez-lhe respirar vinagre de
_toillette_, beijou-a muito.
Só quando o choro acalmou é que ella pôde dizer, com uma voz soluçada:
--Fallaste-me tão seccamente, e eu estou tão nervosa...
Elle riu, chamou-lhe tontinha, limpou-lhe as lagrimas--mas ficou
inquieto.
Já então lhe notára certas tristezas, abatimentos inexplicaveis, uma
irritabilidade nervosa... Que seria?
Para que Jorge não tornasse a surprehender os desleixos, Luiza começou
a completar todas as manhãs os arranjos. Juliana percebeu logo; e
muito tranquillamente decidiu-se a «deixar-lhe de cada vez mais com
que se entreter». Ora não varria, depois não fazia a cama; emfim uma
manhã não vasou as aguas sujas. Luiza foi espreitar no corredor que
Joanna não descesse, não a visse, e fez ella mesma os despejos! Quando
veio ensaboar as mãos, as lagrimas corriam-lhe pelo rosto. Desejava
morrer!... A que tinha chegado!...
D. Felicidade, um dia, tendo entrado de repente, surprehendera-a a
varrer a sala.
--Que eu o faça--exclamou--que tenho só uma criada, mas tu!...
A Juliana tinha tanto que engommar...
--Ai! não lhe tires serviço do corpo, que não t'o agradece. E ainda se
ri por cima! Se a pões em maus costumes!... Que aguente, que aguente!
Luiza sorriu, disse:
--Ora, por uma vez na vida!
A sua tristeza augmentava cada dia.
Refugiava-se então no amor de Jorge como na sua unica consolação. A
noite trazia-lhe a sua desforra: Juliana a essa hora dormia; não via a
sua cara medonha; não a receava; não tinha de a elogiar; não trabalhava
por ella! Era _ella mesma_, era Luiza, como d'antes! Estava na sua
alcova com o seu marido, fechada por dentro, livre! Podia viver, rir,
conversar, ter até appetite! E trazia com effeito ás vezes marmelada e
pão para o quarto--para fazer uma cêasinha!
Jorge estranhava-a. «Tu de noite és outra», dizia. Chamava-lhe
_ave nocturna_. Ella ria em saia branca pelo quarto, com os braços
nús, o collo nú, o cabello n'um rolo; e passarinhava, cantarolava,
chalrava--até que Jorge lhe dizia:
--Passa da uma hora, filha!
Despia-se então rapidamente, cahia-lhe nos braços.
Mas que acordar! Por mais clara que estivesse a manhã, tudo lhe
parecia vagamente pardo. A vida sabia-lhe mal. Vestia-se devagar, com
repugnancia--entrando no seu dia como n'uma prisão.
Perdêra agora toda a esperança de se libertar! Ás vezes ainda lhe
vinha, como um relampago, a vontade «de contar tudo a Sebastião, tudo».
Mas quando o via, com o seu olhar honesto, abraçar Jorge, rirem ambos,
e irem fumar o seu cachimbo, e elle tão cheio sempre d'admiração por
ella, parecia-lhe mais facil sahir p'ra a rua, pedir dinheiro ao
primeiro homem que encontrasse--que ir a Sebastião, ao intimo de Jorge,
ao melhor amigo da casa, dizer-lhe: escrevi uma carta a um homem, a
criada roubou-m'a! Não, antes morrer n'aquella agonia de todos os dias,
e ter ella mesma, de rastos, de lavar as escadas! Ás vezes reflectia,
pensava:--Mas com que conto eu?--Não sabia. Com o acaso, com a morte
de Juliana... E deixava-se viver, gozando como um favor cada dia que
vinha, sentindo vagamente, a distancia, alguma cousa de indefinido e de
tenebroso onde se afundaria!
Por esse tempo Jorge começou a queixar-se que as suas camisas andavam
mal engommadas. A Juliana positivamente «perdia a mão». Um dia mesmo
zangou-se: chamou-a, e atirando-lhe uma camisa toda amarrotada:
--Isto não se póde vestir, está indecente!
Juliana fez-se amarella, cravou em Luiza um olhar chammejante; mas, com
os beiços tremulos, desculpou-se: «a gomma era má, fôra já trocal-a»,
etc.
Apenas, porém, Jorge sahiu, veio com uma rajada ao quarto, fechou a
porta e poz-se a gritar--que a senhora sujava _um rôr_ de roupa, o
senhor _um rôr_ de camisas, que se não tivesse alguem que a ajudasse
não podia dar aviamento!... Quem queria negras trazia-as do Brazil!
--E não estou para aturar o genio de seu marido, percebe a senhora? Se
quer é arranjar quem me ajude.
Luiza disse simplesmente:
--Eu a ajudarei.
Tinha agora uma resignação muda, sombria, aceitava tudo!
Logo no fim da semana houve uma grande trouxa de roupa: e Juliana veio
dizer--que se a senhora passasse, ella engommava. Senão, não!
Estava um dia adoravel, Luiza tencionava sahir... Pôz um roupão, e, sem
uma palavra, foi buscar o ferro.
Joanna ficou attonita.
--Então a senhora vai engommar?
--Ha uma carga, e a Juliana só não póde aviar tudo, coitada!
Installou-se no quarto dos engommados,--e estava laboriosamente
passando a roupa branca de Jorge, quando Juliana appareceu, de chapéo.
--Vossê vai sahir?--exclamou Luiza.
--É o que eu vinha dizer á senhora. Não posso deixar de sahir.--E
abotoava as luvas pretas.
--Mas as camisas, quem as engomma?
--Eu vou sahir--disse a outra seccamente.
--Mas, com os diabos, quem engomma as camisas?
--Engomme-as a senhora! Olha a sarna!
--Infame!--gritou Luiza. Atirou o ferro para o chão, sahiu
impetuosamente.
Juliana sentiu-a ir pelo corredor aos soluços. Pôz-se logo a tirar o
chapéo e as luvas, assustada. D'ahi a um momento ouviu a cancella da
rua bater com força. Veio ao quarto, viu o roupão de Luiza arremessado,
a chapelleira tombada. Onde teria ido? Queixar-se á policia? Procurar
o marido? C'os diabos! Fôra estupida, com o genio! Arrumou depressa
o quarto, foi-se pôr a engommar, com o ouvido á escuta, muito
arrependida. Onde diabo teria ido? Devia ter cuidado! Se a impellisse
a fazer algum desproposito, quem perdia? Ella, que teria de sahir da
casa, deixar o seu quarto, os seus regalos, a sua posição! Safa!
Luiza sahira, como louca. Na rua da Escóla um coupé passava, vazio:
atirou-se para dentro, deu ao cocheiro a morada de Leopoldina.
Leopoldina devia ter voltado do Porto, queria vêl-a, precisava d'ella,
sem saber para que... Para desabafar! Pedir-lhe uma idéa, um meio de se
vingar! Porque a vontade de se libertar d'aquella tyrannia--era agora
menor que o desejo de se vingar d'aquellas humilhações. Vinham-lhe
idéas insensatas! Se a envenenasse! Parecia-lhe que sentiria um
prazer delicioso em a vêr torcer-se com vomitos dilacerantes, uivando
d'agonia, largando a alma!
Galgou as escadas de Leopoldina; a campainha ficou a retinir muito
tempo do puxão da sua mão febril.
A Justina apenas a viu foi a gritar pelo corredor:
--É a snr.^a D. Luiza, minha senhora, é a snr.^a D. Luiza!
E Leopoldina despenteada, com um roupão escarlate de grande cauda,
correu estendendo os braços:
--És tu! Que milagre é este? Eu levantei-me agora! Entra cá p'ra o
quarto. Está tudo desarranjado, mas não importa. Mas que é isto, que é
isto?
Abriu as janellas que estavam ainda cerradas. Havia um forte cheiro de
vinagre de _toilette_; a Justina tirava á pressa uma bacia de latão,
com agua ensaboada; toalhas sujas arrastavam; sobre uma jardineira
tinham ficado da vespera os rolos de cabello, o collete, uma chavena
com um fundo de chá cheio de pontas de cigarros. E Leopoldina corria o
transparente, dizendo:
--Ora graças a Deus que honras esta casa, minha fidalga!...
Mas vendo o rosto perturbado de Luiza, os seus olhos vermelhos de
lagrimas:
--Que é? Que tens tu? Que succedeu?
--Um horror, Leopoldina!--exclamou, apertando as mãos.
A outra foi fechar a porta, rapidamente.
--Então?
Mas Luiza chorava sem responder. Leopoldina olhava-a, petrificada.
--A Juliana apanhou-me umas cartas!--disse emfim por entre
soluços.--Quer seiscentos mil reis! Estou perdida... Tem-me
martyrisado... Quero que me digas, vê se te lembras... Estou como
douda. Sou eu que faço tudo em casa... Morro, não posso!--E as lagrimas
redobravam.
--E as tuas joias?
--Valem duzentos mil reis. E Jorge, que lhe havia eu de dizer?
Leopoldina ficou um momento calada, e olhando em roda de si, abrindo os
braços:
--Tudo o que eu tenho, no prego, minha filha, dá vinte libras!...
Luiza murmurava, limpando os olhos:
--Que expiação esta, Santo Deus, que expiação!
--Que diz a carta?
--Horrores! Estava douda... É uma minha, duas d'elle.
--De teu primo?
Luiza disse «sim», com a cabeça, lentamente.
--E elle?
--Não sei! Está em França, nunca me respondeu.
--Pulha! Como t'as apanhou, a mulher?
Luiza contou rapidamente a historia do sarcophago, e do cofre.
--Mas tu tambem, Luiza, atirar uma carta d'essas! Oh mulher, isso é
medonho!
E Leopoldina pôz-se a passear pelo quarto, arrastando a longa cauda do
roupão escarlate: os seus grandes olhos negros, excitados, pareciam
procurar um meio, um expediente... Murmurava:
--A questão é de dinheiro...
Luiza, prostrada no sophá, repetia:
--A questão é de dinheiro!
Então Leopoldina, parando bruscamente diante d'ella:
--Eu sei quem te dava o dinheiro!...
--Quem?
--Um homem.
Luiza ergueu-se, espantada:
--Quem?
--O Castro.
--O d'oculos?
--O d'oculos.
Luiza fez-se muito córada:
--Oh Leopoldina!--murmurou. E depois d'um silencio, rapidamente:
--Quem t'o disse?
--Sei-o eu. Disse-o elle ao Mendonça. Sabes que eram unha e carne. Que
te dava tudo o que tu lhe pedisses! Disse-lh'o mais d'uma vez.
--Que horror!--exclamou Luiza subitamente indignada.--E tu propões-me
semelhante cousa?--O seu olhar, sob as sobrancelhas franzidas,
dardejava de colera. Ir com um homem por dinheiro!--Tirou o chapéo,
violentamente, com as mãos tremulas, arremessou-o para a jardineira, e
com passos rapidos pelo quarto:--Antes fugir, ir para um convento, ser
criada, apanhar a lama das ruas!
--Não te exaltes, creatura! Quem te diz isso? Talvez o homem te
emprestasse o dinheiro, desinteressadamente...
--Acreditas tu?
Leopoldina não respondeu: com a cabeça baixa, fazia girar os anneis nos
dedos.
--E quando fosse outra cousa?--exclamou de repente--Era um conto de
reis, eram dous, estavas salva, estavas feliz!
Luiza sacudia os hombros, indignada d'aquellas palavras--dos seus
proprios pensamentos, talvez!
--É indecente! É horrivel!--dizia.
Ficaram caladas.
--Ah! fosse eu!...--disse Leopoldina.
--Que fazias?
--Escrevia ao Castro, que viesse e com dinheiro!
--Isso és tu!--exclamou Luiza, arrebatadamente.
Leopoldina fez-se escarlate sob a camada de pó d'arroz.
Mas Luiza atirou-lhe os braços ao pescoço:
--Perdôa-me, perdôa-me! estou douda, não sei o que digo!...
Começaram ambas a chorar, muito nervosas.
--Tu zangaste-te!--dizia Leopoldina cortada de soluços.--Mas é p'ra
teu bem. É o que me parece melhor. Se eu podesse dava-te o dinheiro...
Fazia tudo. Acredita!
E abrindo os braços, indicando o seu corpo com um impudor sublime:
--Seiscentos mil reis! Se eu valesse tanto dinheiro, tinhal-o ámanhã!
Nós de dedos bateram á porta.
--Quem é?
--Eu--disse uma voz rouca.
--É meu marido. O animal ainda hoje não despegou de casa... Não posso
abrir. Logo.
Luiza limpava os olhos, á pressa, punha o chapéo.
--Quando voltas?--perguntou Leopoldina.
--Quando puder, senão escrevo-te.
--Bem. Eu vou pensar, vou esquadrinhar...
Luiza agarrou-lhe o braço:
--E d'isto, nem palavra.
--Douda!
Sahiu. Foi subindo devagar até ao largo de S. Roque. A porta da igreja
da Misericordia estava aberta, com o seu largo reposteiro vermelho
d'armas bordadas que o vento agitava brandamente. Veio-lhe um desejo
d'entrar. Não sabia para quê; mas parecia-lhe que depois da excitação
apaixonada em que vibrára, o fresco silencio da igreja a calmaria.
E depois sentia-se tão infeliz que se lembrou de Deus! necessitava
alguma cousa de superior, de forte a que se amparar. Foi-se ajoelhar
ao pé d'um altar, persignou-se, rezou o _Padre-Nosso_, depois a _Salve
Rainha_. Mas aquellas orações, que ella recitava em pequena, não a
consolavam; sentia que eram sons inertes que não iam mais alto no
caminho do céo que a sua mesma respiração; não as comprehendia bem,
nem se applicavam ao seu _caso_: Deus por ellas, nunca poderia saber o
que ella pedia, alli, prostrada na afflicção. Quereria fallar a Deus,
abrir-se toda a elle: mas com que linguagem? Com as palavras triviaes,
como se fallasse a Leopoldina? Iriam as suas confidencias tão longe,
que o alcançassem? Estaria elle tão perto, que a ouvisse? E ficou
ajoelhada, os braços molles, as mãos cruzadas no regaço, olhando as
velas de cera tristes, os bordados desbotados do frontal, a carinha
rosada e redonda d'um menino Jesus!
Lentamente perdeu-se n'um scismar que ella não dirigia, que se
formava e se movia no seu cerebro, como a fluctuação d'um fumo que se
eleva. Pensava no tempo tão distante, em que, por melancolia e por
sentimentalidade, frequentava mais as igrejas. Ainda a mamã vivia
então; e ella, com o coração quebrado--quando o _outro_, Bazilio, lhe
escrevera, rompendo--procurava dissipar a sua tristeza nas consolações
da devoção. Uma amiga sua, a Joanna Silveira, fôra por esse tempo
professar a França: e ella ás vezes lembrava-se de partir tambem,
ser irmã de caridade, levantar os feridos nos campos de batalha, ou
viver na paz d'uma cella mystica! Que differente a sua vida teria
sido--d'esta agora tão alvoroçada de cólera, e tão carregada de
peccado!... Onde estaria? Longe, n'algum mosteiro antigo, entre
arvoredos escuros, n'um valle solitario e contemplativo: na Escocia,
talvez, paiz que ella sempre amára desde as suas leituras de Walter
Scott. Podia ser nas verde-negras terras de Lamermoor ou de Glencoe,
n'alguma velha abbadia saxonia. Em redor os montes cobertos d'abetos,
esbatidos nas nevoas, isolam aquelles retiros n'uma paz funeraria: n'um
céo saudoso, as nuvens passam devagar, com recolhimento: nenhum som
festivo quebra a meiga taciturnidade das cousas: revoadas de corvos
cortam á tarde o ar n'um vôo triangular. Alli viveria entre as monjas
d'alta estatura e olhar celtico, filhas de duques normandos, ou de
lords de _clans_ convertidos a Roma: leria livros dôces e cheios das
cousas do céo: sentada na estreita janella da sua cella, veria passar
nas mattas baixas os altos paus dos veados, ou pelas tardes vaporosas
escutaria o som distante da _bagpipe_, que vai tristemente tocando o
pastor que vem dos valles de Callendar: e todo o ar estaria cheio do
murmurio choroso e gottejante dos fios d'agua, que por entre as relvas
escuras cahem de rocha em rocha!
Ou então seria outra existencia mais regalada, no convento pacato d'uma
boa provincia portugueza. Alli os tectos são baixos; as paredes caiadas
faiscam ao sol, com as suas gradesinhas devotas; os sinos repicam no
vivo ar azul; em roda, nos campos d'oliveiras que dão azeite para o
convento, raparigas varejam a azeitona cantando; no pateo lageado d'uma
pedra miudinha as mulas do almocreve, sacudindo a mosca, batem com a
ferradura: matronas cochicham ao pé da roda; um carro chia na estrada
empoeirada e branca; gallos cacarejam, brilhando ao sol; e freiras
gordinhas, d'olho negro, chalram nos frescos corredores.
Alli viveria, engordando, com uma quebrasinha de somno á hora do côro,
bebendo copinhos de licôr de rosa no quarto da madre-escrivã, copiando
receitas de dôces com uma letra garrafal; morreria velha, ouvindo as
andorinhas cantar á beira da sua grade; e o senhor bispo na sua visita,
com a pitada nos seus dedos brancos, ouviria sorrindo da bocca da madre
abbadessa a historia edificante da sua santa morte...
Um sacristão, que passava, escarrou fortemente; e, como um bando de
passaros que se cala a um ruido brusco, todos os seus sonhos fugiram.
Suspirou, ergueu-se devagar, foi indo para casa, triste.
Foi Juliana quem veio abrir, e logo no corredor, com a voz supplicante
e baixa:
--A senhora por quem é perdôe, que depois estava douda! Estava com
a cabeça perdida, não tinha dormido nada toda a noite. Fiquei mais
afflicta...
Luiza não respondeu, entrou na sala. Sebastião que vinha jantar, tocava
a serenata de D. Juan--e apenas ella appareceu:
--D'onde vem, tão pallida?
--Debilidade, Sebastião, venho da igreja...
Jorge entrava do escriptorio com uns papeis na mão:
--Da igreja!--exclamou--Que horror!