XII

Foi por esse tempo que, n'um sabbado, o Diario do Governo publicou a

nomeação do conselheiro Accacio ao _grau de cavalleiro da ordem de S.

Thiago_, attendendo aos seus grandes merecimentos litterarios, ás obras

publicadas de reconhecida utilidade, e mais partes...

Na noite seguinte, ao entrar em casa de Jorge, todos o cercaram,

felicitando-o com alarido; o Conselheiro, depois de os abraçar um por

um, n'uma pressão nervosa e commovida, cahiu no sophá, exhausto, e

murmurou:

--Não o esperava tão cedo da real munificencia! Não o esperava tão

cedo!--E acrescentou, pondo a mão espalmada sobre o peito:--Direi como

o philosopho: Esta condecoração é o melhor dia da minha vida!

E convidou logo Jorge, Sebastião e Julião para um jantar na

quinta-feira, «um modesto jantar de rapazes, no seu humilde tugurio,

para festejarem a regia graça».

--Ás cinco e meia, meus bons amigos!

Na quinta-feira, os tres, que se tinham encontrado na Casa Havaneza,

eram introduzidos por uma rapariguita vesga, suja como um esfregão, na

sala do Conselheiro. Um vasto canapé de damasco amarello occupava a

parede do fundo, tendo aos pés um tapete onde um chileno roxo caçava ao

laço um bufalo côr de chocolate; por cima uma pintura tratada a tons

côr de carne, e cheia de corpos nús cobertos de capacetes, representava

o valente Achilles arrastando Heitor em torno dos muros de Troya. Um

piano de cauda, mudo e triste sob a sua capa de baeta verde, enchia

o intervallo das duas janellas. Sobre uma mesa de jogo, entre dous

castiçaes de prata, uma galguinha de vidro transparente galopava; e o

objecto em que se sentia mais o calor do uso era uma caixa de musica de

18 peças!

O Conselheiro recebeu-os, com o _habito_ de S. Thiago sobre a lapella

do _frac_ preto. Havia outro sujeito na sala, o snr. Alves Coutinho.

Era picado das bexigas, tinha a cabeça muito enterrada nos hombros;

quando o seu olhar parvo se fixava nas pessoas, com pasmo, o seu bigode

pellado arreganhava-se logo por habito, n'um sorriso alvar que mostrava

uma bocca medonha cheia de dentes pôdres; fallava pouco, esfregava

sempre as mãos, concordava em tudo; havia n'elle o ar d'um deboche

banal, e d'um embrutecimento antigo. Era um empregado do ministerio do

reino, illustre pela sua boa letra.

D'ahi a pouco entrou a figura conhecida do Savedra, redactor do

_Seculo_. A sua face branca parecia mais balofa; o bigode muito preto

reluzia de brilhantina; as lunetas d'ouro accentuavam o seu tom

official: trazia ainda no queixo o pó d'arroz, que lhe pozera momentos

antes o barbeiro; e a mão, que escrevia tanta banalidade e tanta

mentira, vinha aperreada n'uma luva nova, côr de gema d'ovo!

--Estamos todos!--disse com jubilo o Conselheiro. E

curvando-se:--Bemvindos, meus amigos! Estamos talvez mais á vontade

no meu quarto de estudo! Por aqui. Ha um degrau, cuidado! Eis o meu

_Sanctus Sanctorum_!

N'uma saleta muito espanejada a que as cortinas de cassa, a luz de

duas janellas de peitoril, e o papel claro davam um aspecto alvadio,

estava a larga escrivaninha de trabalho, com um tinteiro de prata, os

lapis muito aparados, as regoas bem dispostas. Via-se o sinete d'armas

do Conselheiro, pousado sobre a _Carta Constitucional_ ricamente

encadernada. Encaixilhada, na parede, pendia a _carta regia_ que o

nomeára Conselheiro; defronte uma lithographia d'El-Rei; e sobre uma

mesa, era eminente o busto em gesso de Rodrigo da Fonseca Magalhães,

tendo no alto da cabeça uma corôa de perpetuas--que ao mesmo tempo o

glorificava e o chorava.

Julião pozera-se logo a examinar a livraria.

--Prezo-me de ter os authores mais illustres, amigo Zuzarte!--disse com

orgulho o Conselheiro.

Mostrou-lhe a _Historia do consulado e do imperio_, as obras de

Delille, o _Diccionario da conversação_, a ediçãosinha bojuda da

_Encyclopedia Roret_, o _Parnaso lusitano_. Fallou dos seus trabalhos;

e acrescentou que, vendo alli reunidas pessoas de tão subida

illustração, desejaria muito lêr-lhes algumas das provas que estava

revendo do seu novo livro--_Descripção das principaes cidades do reino

e seus estabelecimentos_, para ouvir a opinião d'elles, desassombrada e

severa!

--Se não acham massada...

--Prazer, Conselheiro! prazer!

Escolheu então «como mais propria para dar idéa da importancia do

trabalho» a pagina relativa a Coimbra. Assoou-se, collocou-se no meio

da saleta, de pé, com as folhas na mão, e, com uma voz cheia, gestos

pausados, leu:

«--...Reclinada mollemente na sua verdejante collina, como odalisca

em seus aposentos, está a sabia Coimbra, a Lusa Athenas. Beija-lhe os

pés, segredando-lhe d'amor, o saudoso Mondego. E em seus bosques, no

bem conhecido salgueiral, o rouxinol e outras aves canoras soltam seus

melancolicos trilos. Quando vos aproximaes pela estrada de Lisboa,

onde outr'ora uma bem organisada _mala-posta_ fazia o serviço que o

progresso hoje encarregou á fumegante locomotiva, vêdel-a branquejando,

coroada do edificio imponente da Universidade, asylo da sabedoria. Lá

campêa a torre com o sino, que em sua folgazã linguagem a mocidade

estudiosa chama _a cabra_. Para além logo uma copada arvore vos attrahe

as vistas: é a celebrada _arvore dos Dorias_, que dilata seus seculares

ramos no jardim d'um dos membros d'esta respeitavel familia. E avistaes

logo, sentados nos parapeitos da antiga ponte, em seus innocentes

recreios, os briosos moços, esperança da patria, ou requebrando

galanteios com as ternas camponezas que passam reflorindo de mocidade e

frescura, ou revolvendo em suas mentes os problemas mais arduos de seus

bem elaborados compendios...»

--Está a sôpa na mesa--veio dizer uma criada, de avental branco, muito

nutrida.

--Muito bem, Conselheiro, muito bem!--disse logo o Savedra do _Seculo_,

erguendo-se.--É admiravel!

Declarou para os lados com authoridade: «que o estylo era digno d'um

Rebello ou d'um Latino, e que realmente estava-se precisando muito em

Portugal d'uma obra daquelle quilate...» E pensava baixo: «Grandissima

cavalgadura!...» O que era a sua apreciação generica de todas as obras

contemporaneas--exceptuando os seus artigos no _Seculo_.

--Que lhe pareceu, meu bom amigo?--perguntou baixo o Conselheiro

a Julião, passando-lhe a mão sobre o hombro.--Mas uma opinião

desaffrontada, meu Zuzarte!

--Snr. Conselheiro--disse Julião com uma voz profunda--tenho-lhe

inveja!--E as suas lunetas escuras fixavam-se com uma preoccupação

crescente n'um chale-manta pardo, que a um canto cobria

cuidadosamente, a julgar pelas saliencias, altas pilhas de livros. Que

seria?--Tenho-lhe inveja!--repetiu--E outra cousa, Conselheiro, não se

me dava de lavar as mãos.

Accacio levou-o logo ao seu quarto, e retirou-se discretamente. Julião,

sempre curioso, observou, surprehendido, duas grandes lithographias

aos lados da cama--um _Ecce Homo_! e a _Virgem das sete Dôres_. O

quarto era esteirado, o leito baixo e largo. Abriu então a gavetinha

da mesa de cabeceira, e viu, espantado, uma touca e o volume brochado

das poesias obscenas de Bocage! Entreabriu os cortinados fechados; e

teve a consolação de verificar,--que havia sobre o travesseiro duas

fronhasinhas chegadas d'um modo conjugal e terno!

Apenas elle sahiu do quarto, limpando as unhas com o lenço, o

Conselheiro conduziu-os á sala de jantar, dizendo, jovialmente:

--Não esperem o festim de Lucullo: é apenas o modesto passadio d'um

humilde philosopho!

Mas o Alves Coutinho extasiou-se sobre a abundancia das travessas

de dôce; havia _creme_ crestado a ferro d'engomar, um prato _d'ovos

queimados_, aletria com as iniciaes do Conselheiro desenhadas a canella.

--É um grande dia para Sebastião!--disse Jorge.

O Alves Coutinho voltou-se logo para Sebastião, esfregando as mãos, com

um riso na face amarella:

--É cá dos meus, hein? Gosta do bello dôce! Tambem me péllo, tambem me

péllo!...

Houve então um silencio. As colheres de prata, remexendo devagar a sopa

muito quente, agitavam os longos canudos brancos e molles do macarrão.

O Conselheiro disse:

--Não sei se gostarão da sopa. Eu adoro o macarrão!

--Gosta do macarrão?--acudiu o Alves.

--Muito, meu Alves. Lembra-me a Italia!--E acrescentou:--Paiz que

sempre desejei vêr. Dizem-me que as suas ruinas são de primeira ordem.

Póde ir trazendo o cozido, snr.^a Philomena...--Mas detendo-a, com um

gesto grave:--Perdão, com franqueza, preferem o cozido ou o peixe? É um

pargo.

Houve uma hesitação, Jorge disse:

--O cozido talvez.

E o Conselheiro com affecto:

--O nosso Jorge opina pelo cozido.

--Tambem estou pela sua!--exclamou o Alves Coutinho, voltado para

Jorge, com o olho afogado em reconhecimento:--O cozidinho!

E o Conselheiro que julgava do seu dever dar á conversação nobreza e

interesse, disse, limpando devagar o bigode da gordura da sopa:

--Dizem-me que é muito liberal a constituição da Italia!

Liberal! Segundo Julião, se a Italia fosse liberal, devia ter ha muito

expulso a coronhadas o papa, o sacro collegio, e a sociedade de Jesus!

O Conselheiro pediu, com bondade, a benevolencia do amigo Zuzarte para

o «chefe da Igreja».

--Não--explicou--que eu seja um sectario do _Syllabus_. Não que eu

queira vêr os jesuitas enthronisados no seio da familia! Mas--e a sua

voz tornou-se profunda--o respeitavel prisioneiro do Vaticano é o

vigario de Christo! Meu Sebastião, sirva o arroz!

Não havia que estranhar aquellas opiniões catholicas do Conselheiro,

ia observando Julião, porque tinha duas imagens de santos pendentes á

cabeceira da cama...

A calva d'Accacio fez-se rubra. O Savedra do _Seculo_ exclamou com a

bocca cheia:

--Não o sabia carola, Conselheiro!

Accacio, afflicto, suspendeu o trinchador sobre o paio escarlate, e

acudiu:

--Eu peço ao meu Savedra que não tire d'esse facto illações erradas.

Os meus principios são bem conhecidos. Não sou ultramontano, nem faço

votos pelo restabelecimento da perseguição religiosa. Sou liberal.

Creio em Deus. Mas reconheço que a religião é um freio...

--Para os que o precisam--interrompeu Julião.

Riram; o Alves Coutinho torcia-se. O Conselheiro interdicto respondeu,

devagar, dispondo na travessa as rodelas do paio:

--Não o precisamos nós de certo, que somos as classes illustradas. Mas

precisa-o a massa do povo, snr. Zuzarte. Senão veriamos augmentar a

estatistica dos crimes.

E o Savedra do _Seculo_, erguendo as sobrancelhas, com a physionomia

muito séria:

--Pois olhe que diz uma grandissima verdade.--Repetiu a maxima,

modificando-a:--A religião é um bridão!--Fazia com o gesto o esforço de

conter uma mula. E pediu mais arroz. Devorava.

O Conselheiro continuava, explicando:

--Como dizia, sou liberal, mas entendo que algumas lithographias ou

gravuras, allusivas ao mysterio da Paixão, tem o seu lugar n'um quarto

de cama, e inspiram de certo modo sentimentos christãos. Não é verdade,

meu Jorge?

Mas o Savedra interrompeu ruidosamente, com a face accesa n'uma

jovialidade libertina:

--Eu, n'um quarto de dormir, as unicas pinturas que admitto são uma

bella nympha núa, ou uma bacchante desenfreada!

--Isso, isso!--bradou o Alves Coutinho. A bocca dilatava-se-lhe

n'uma admiração sensual.--Este Savedra! Este Savedra!--E baixo para

Sebastião:--Tem um talento! Tem um talento!

O Conselheiro voltou-se para Julião, e puxando o guardanapo para o

estomago:

--Espero que não sejam esses os paineis immoraes, que se vêem no seu

gabinete d'estudo.

Julião emendou:

--No meu cubiculo. Ah! não, Conselheiro! Tenho apenas duas

lithographias--uma é um homem sem pelle para representar o systema

arterial, o outro é o mesmo individuo igualmente sem pelle para se vêr

o systema nervoso.

O Conselheiro teve com a sua mão branca um vago gesto enojado, e

exprimiu a opinião--que na medicina, aliás uma grande sciencia! havia

cousas bastante asquerosas. Assim, ouvira dizer que nos theatros

anatomicos, os estudantes d'idéas mais avançadas levavam o seu desprezo

pela moral até atirarem uns aos outros, brincando, pedaços de membros

humanos, pés, coxas, narizes...

--Mas é como quem mexe em terra, Conselheiro!--disse Julião, enchendo o

copo--é materia inerte!

--E a alma, snr. Zuzarte?...--exclamou o Conselheiro. Fez um gesto

de vaga reticencia; e julgando tel-o aniquilado com aquella palavra

suprema, abriu para Sebastião um sorriso cortez e protector:

--E que diz o nosso bondoso Sebastião?

--Estou a ouvir, snr. Conselheiro.

--Não dê ouvidos a estas doutrinas!--Com o garfo mostrava a figura

biliosa de Julião.--Mantenha a sua alma pura. São perniciosas. Que o

nosso Jorge (o que é de lamentar n'um homem estabelecido e empregado do

Estado) tambem vai um pouco para estas exagerações materialistas!

Jorge riu; affirmou que _sim_, que tinha essa honra...

--Então o Conselheiro quer que eu, um engenheiro, um estudante de

mathematica, acredite que ha almas que vivem no céo, com azinhas

brancas, tunicas azues, e tocando instrumentos?

O Conselheiro acudiu:

--Não, instrumentos não!--E como appellando para todos:--Não creio que

tivesse fallado em instrumentos. Os instrumentos são uma exageração.

São, podemos dizel-o, tacticas do partido reaccionario...

Ia fulminar a doutrina ultramontana--mas a snr.^a Philomena

collocou-lhe diante a travessa com a perna de vitella assada.

Compenetrou-se logo do seu dever, afiou o trinchador com solemnidade,

foi cortando fatias finas, com a testa muito franzida como na

applicação d'uma funcção grave. Então Julião, pousando os cotovêlos

sobre a mesa, e escabichando os dentes com a unha, perguntou:

--E o ministerio, cahe ou não cahe?

Sebastião ouvira dizer no vapor d'Almada, de tarde, que «a situação

estava firme».

Mas o Savedra esvaziou o copo, limpou os beiços e declarou que em duas

semanas «estavam em terra». Nem aquelle escandalo podia continuar! Não

tinham a mais pequena idéa de governo. Nem a mais leve! Assim, por

exemplo, elle...--E metteu as mãos nos bolsos, firmando-se nas costas

da cadeira--Elle tinha-os apoiado, não é verdade? E com lealdade.

Porque era leal! Sempre o fôra em politica! Pois bem, não lhe tinham

despachado o primo recebedor d'Aljustrel, tendo-lh'o promettido! e nem

lhe tinham dado uma satisfação. Assim não era possivel fazer politica!

Era uma collecção de idiotas!

Jorge alegrava-se que viessem outros; talvez lhe dessem de novo a sua

commissão no ministerio; e elle o que queria era estar quieto ao seu

cantinho...

O Alves Coutinho calava-se, com prudencia, engulindo buchas de pão.

--Eu que caiam, ou que fiquem--disse Julião--que venham estes, ou que

venham aquelles... Obrigado, Conselheiro--e recebeu o seu prato de

vitella--...é-me inteiramente indifferente. É tudo a mesma podridão! O

paiz inspirava-lhe nojo; de cima a baixo era uma _choldra_: e esperava

breve que, pela logica das cousas, uma revolução varresse a porcaria...

--Uma revolução!--fez o Alves Coutinho, assustado, com olhares

inquietos para os lados, coçando nervosamente o queixo.

O Conselheiro sentára-se, e disse, então:

--Eu não quero entrar em discussões politicas, só servem para dividir

as familias mais unidas, mas só lhe lembrarei, snr. Zuzarte, uma cousa,

os excessos da Communa...

Julião recostou-se, e com uma voz muito tranquilla:

--Mas onde está o mal, snr. Conselheiro, se fuzilarmos alguns

banqueiros, alguns padres, alguns proprietarios obesos, e alguns

marquezes cacheticos! Era uma limpezasinha!...--E fazia o gesto d'afiar

a faca.

O Conselheiro sorriu, cortezmente; tomava como um gracejo aquella

sahida sanguinaria.

O Savedra porém interpoz-se, com authoridade:

--Eu no fundo sou republicano...

--E eu--disse Jorge.

--E eu--fez o Alves Coutinho, já inquieto.--Contem-me a mim tambem!

--Mas--continuou o Savedra--sou-o em principio. Porque o principio é

bello, o principio é ideal! Mas a pratica? Sim, a pratica?--E voltava

para todos os lados a sua face balofa.

--Sim, na pratica!--exclamava o Alves Coutinho, em echo admirativo.

--A pratica é impossivel!--declarou o Savedra. E encheu a bocca de

vitella.

O Conselheiro então resumiu:

--A verdade é esta: o paiz está sinceramente abraçado á familia real...

Não acha, meu bom Sebastião?--Dirigia-se a elle, como proprietario e

possuidor d'inscripções.

Sebastião, interpellado, córou, declarou que não entendia nada de

politica; havia todavia factos que o affligiam; parecia-lhe que os

operarios eram mal pagos; a miseria crescia; os cigarreiros, por

exemplo, tinham apenas de nove a onze vintens por dia, e, com familia,

era triste...

--É uma infamia--disse Julião, encolhendo os hombros.

--E ha poucas escólas...--observou timidamente Sebastião.

--É uma torpeza!--insistiu Julião.

O Savedra calava-se, occupado com o alimento; tinha desabotoado

a fivela do collete; espalhava-se-lhe no rosto gordo uma côr

d'enfartação, e sorria vagamente, inchado.

--E os idiotas de S. Bento?...--exclamou Julião.

Mas o Conselheiro interrompeu-o:

--Meus bons amigos, fallemos d'outra cousa. É mais digno de portuguezes

e de subditos fieis.

E voltando-se logo para Jorge, quiz saber como ficára a interessante D.

Luiza?

Estava um pouco adoentada havia dias--disse Jorge.--Mas não era nada,

mudança d'estação, um bocadito d'anemia...

O Savedra pousando o copo, e comprimentando:

--Tive o prazer de a vêr passar este verão quasi todas as manhãs por

minha casa--disse.--Ia para os lados d'Arroios. Ás vezes de trem, ás

vezes a pé...

Jorge pareceu um pouco surprehendido; mas o Conselheiro ia dizendo

quanto lhe pezava não ter o prazer de a vêr partilhar d'aquelle modesto

repasto; como celibatario porém... não tendo uma esposa para fazer as

honras...

--E é o que eu admiro, Conselheiro--observou Julião--é que tendo uma

casa tão confortavel, não se tenha casado, não se tenha dado o conchego

d'uma senhora...

Todos apoiaram. Era verdade! O Conselheiro devia-se ter casado.

--São graves, perante Deus e perante a sociedade, as responsabilidades

d'um chefe de familia--considerou elle.

Mas emfim--disseram--é o estado mais natural. E depois, que diabo, ás

vezes havia de se sentir só! E n'uma doença! Sem contar a alegria que

dão os filhos!...

O Primo Bazilio: Episodio Domestico · 第 32 / 48 题