IX

Juliana voltára para casa de Luiza por conselhos da tia Victoria.

--Olha, minha rica, tinha-lhe ella dito, não ha que vêr, o passaro

fugiu-nos! Suspira, bem pódes suspirar que o dinheiro grosso foi-se!

Quem podia lá adivinhar que o homem desarvorava! Não, lá isso pódes

tirar d'ahi o sentido! Que d'ella escusas d'esperar nem cheta...

--Tambem me regalo de mandar as cartas ao marido, tia Victoria!

A velha encolheu os hombros:

--Não lucras nada com isso. Ou que elles se desquitem, ou que elle

lhe parta os ossos, ou que a mande para um convento--tu não ganhas

nada. E se se acommodarem, mais ficas a chuchar no dedo, porque nem

tens a consolação de fazeres a sizania. E isto é se as cousas correrem

pelo melhor, porque pódes muito bem ficar mas é em lençoes de vinagre

com alguma carga de pau que elles te mandem dar.--E vendo um gesto

espantado de Juliana:--Já não era o primeiro caso, minha rica, já não

era o primeiro. Olha que em Lisboa, passa-se muita cousa, e nem tudo

vem nos jornaes!

Positivamente o que ella tinha a fazer era voltar para a casa. Porque

emfim o que restava de tudo aquillo? O medo de D. Luiza: esse é que

lá estava sempre a dar-lhe por dentro a colica: d'esse é que era

necessario tirar partido...

--Tu voltas para lá--dizia--á espera que ella cumpra o que prometteu.

Se te dá o dinheiro, bem... Senão tem-l'a em todo o caso na mão, estás

de dentro da praça, sabes o que se passa, pódes-lhe apanhar muita

cousa...

Mas Juliana hesitava.--Era difficil viverem debaixo das mesmas telhas

sem haver uma questão por dá cá aquella palha.

--Não te diz uma palavra, tu verás...

--Mas tenho medo...

--De que?--exclamava a tia Victoria. Ella não era mulher para a

envenenar, não é verdade? Então? Quem a nada se arriscava nada

ganhava.--Isto é se queres--acrescentou--senão trata de te arranjar

n'outra parte, e deita as cartas para o fundo da arca. Que diabo! Tu

vaes vêr, se não te convém, safas-te...

Juliana decidiu ir, «a vêr».

E reconheceu logo, que «aquella finoria da tia Victoria tinha carradas

de razão».

Luiza, com effeito, parecia resignada. Sebastião tinha ido para Almada,

outra vez. Mas como estava decidida, apenas elle voltasse, a ir a casa

d'elle uma manhã, atirar-se-lhe ao pés, contar-lhe _tudo_, _tudo_,

supportava Juliana, reflectindo:--É apenas por dias!--Por isso não lhe

disse uma palavra. Para que? O que tinha a fazer era pagar-lhe e pôl-a

fóra, não é verdade? Em quanto o não podesse fazer, era aguentar e

calar. Até que Sebastião voltasse...

No entretanto evitava vêl-a. Nunca a chamava. Não sahia da alcova de

manhã, sem a ter sentido fóra no quarto encher o banho, sacudir os

vestidos. Ia para a sala de jantar com um livro, e nos intervallos não

levantava os olhos das paginas. E durante todo o dia conservava-se no

quarto com a porta fechada, lendo, costurando, pensando em Jorge--ás

vezes tambem em Bazilio com odio, desejando a volta de Sebastião, e

preparando a sua historia.

Juliana, uma manhã, encontrou Luiza no corredor trazendo para o quarto

o regador cheio d'agua.

--Oh minha senhora! porque não chamou?--exclamou, quasi escandalisada.

--Não tem duvida--disse Luiza.

Mas Juliana seguiu-a ao quarto, e cerrando a porta:

--Oh minha senhora!--disse muito offendida--isto assim não póde

continuar. A senhora parece que tem medo de me vêr, credo! Eu

voltei para fazer o meu serviço como d'antes... Verdade, verdade,

naturalmente, sempre espero que a senhora faça o que prometteu... E

lá largar as cartas não largo, sem ter seguro o pão da velhice. Mas

o que se passou foi um repente de genio, e já pedi perdão á senhora.

Quero fazer o meu serviço... Agora se a senhora não quer, então saio,

e--acrescentou com uma voz secca--talvez seja peor para todos!...

Luiza, muito perturbada, balbuciou:

--Mas...

--Não, minha senhora--cortou Juliana severamente--aqui a criada sou eu.

E sahiu, empertigada.

Tanta audacia aterrou Luiza. Aquella ladra era capaz de tudo!

Então, para a não irritar começou, d'ahi por diante, a chamal-a, a

dizer:--Traga isto, traga aquillo,--sem a olhar.

Mas Juliana fazia-se tão serviçal, era tão calada, que Luiza pouco a

pouco, dia a dia, com o seu caracter mobil, inconsistente, cheio _de

deixar-se ir_, principiou a perder o sentimento pungente d'aquella

difficuldade. E no fim de tres semanas «as cousas tinham entrado nos

seus eixos»--dizia Juliana.

Luiza já gritava por ella do quarto, já a mandava a recados fóra:

Juliana chegava a ter ás vezes migalhas de conversação:--Está um calor

de morrer... A lavadeira tarda...--Um dia arriscou esta phrase mais

intima:--Encontrei a criada da snr.^a D. Leopoldina.

Luiza perguntou:

--Ainda está para o Porto?

--Ainda se demora um mez, minha senhora...

De resto havia na casa um aspecto muito tranquillo, e Luiza, depois

de tantas agitações, abandonava-se com gozo á satisfação d'aquelle

descanço. Ia ás vezes vêr D. Felicidade á Encarnação, que já se

levantava. E esperava sempre Sebastião, mas sem impaciencia, quasi

contente por vêr adiado o momento terrivel de lhe dizer: escrevi a um

homem, Sebastião!

Assim iam passando os dias; estava-se no fim de setembro.

Uma tarde Luiza ficára mais tempo á janella da sala de jantar; deixára

cahir o livro no regaço, e olhava, sorrindo, um bando de pombas que

d'algum quintal visinho viera pousar sobre o tabique do terreno vago.

Pensava vagamente em Bazilio, no _Paraiso_... Sentiu passos, era

Juliana.

--Que é?

A mulher cerrára a porta, e vindo junto d'ella, baixo:

--Então a senhora ainda não decidiu nada?

Luiza sentiu como uma pancada no estomago.

--Ainda não pude arranjar nada...

Juliana esteve um momento a olhar para o chão:

--Bem--murmurou, por fim.

E Luiza ouviu-a, no corredor, dizer alto:

--Isto quando o senhor voltar é que são os ajustes de contas!

Quando Jorge voltasse! Immediatamente no seu espirito, que se tinha

pouco a pouco serenado, todos os sustos, as angustias estremeceram

de novo áquella ameaça--assim uma rajada subita põe em convulsão um

arvoredo. Devia, pois, fazer _alguma cousa_ antes que elle chegasse!

Justamente Jorge escrevera-lhe, que «não se demoraria, que a avisaria

pelo telegrapho...» Desejava, agora, que do ministerio o mandassem

fazer uma viagem mais longe, pela Hespanha ou pela Africa; que alguma

catastrophe, sem lhe fazer mal, o retardasse mezes!...

Que faria elle, se soubesse! Matal-a-hia? Lembravam-lhe as suas

palavras muito sérias, n'aquella noite, quando Ernestinho contára o

final do seu drama... Mettel-a-hia n'uma carruagem, leval-a-hia a um

convento? E via a grossa portaria fechar-se com um ruido funerario de

ferrolhos, olhos lugubres estudal-a curiosamente...

O seu terror irraciocinado fizera-lhe mesmo perder a idéa nitida do seu

marido; imaginava um _outro_ Jorge sanguinario e vingativo, esquecendo

o seu caracter bom, tão pouco melodramatico. Um dia foi ao escriptorio,

tomou a caixa das pistolas, fechou-a n'um bahú de roupa velha, e

escondeu a chave!...

Uma idéa amparava-a: era que apenas Sebastião viesse d'Almada, estava

salva; e apesar d'aquella agonia miuda de todos os momentos, quasi

receava saber _que elle tivesse chegado_,--tanto a confissão da verdade

lhe parecia uma agonia maior! Foi por esse tempo, então, que lhe veio

uma lembrança--escrever a Bazilio. O terror permanente amollecera-lhe

o orgulho, como a lenta infiltração da agua faz a uma parede; e todos

os dias começou a achar uma razão, _mais uma_, para se dirigir «áquelle

infame»: fôra seu amante, já sabia todo o caso das cartas, era o seu

unico parente... E não teria de «dizer» a Sebastião! Já ás vezes

pensára que não aceitar dinheiro de Bazilio fôra uma «fanfarronada

bem tola»! Um dia emfim escreveu-lhe. Era uma carta longa, um pouco

confusa, pedia-lhe _seiscentos mil reis_. Foi ella mesmo leval-a ao

correio, sobrecarregando-a de estampilhas.

N'essa tarde, por acaso, Sebastião, que chegára d'Almada, veio vêl-a.

Recebeu-o com alegria, feliz _por não ter de lhe contar_... Fallou da

volta de Jorge; alludiu mesmo ao primo Bazilio, á «pouca vergonha da

visinhança...»

--Não--disse--é a primeira cousa que hei-de contar ao Jorge.

Porque se considerava salva, agora! E todos os dias seguia a carta,

no seu caminho para França, como se a sua mesma vida fosse dentro

d'aquelle sobrescripto entregue ao acaso dos trens e á confusão das

viagens! Chegára a Madrid, depois a Bayonna, depois a Paris! Um

carteiro corria a entregal-a na rua Saint Florentin. Bazilio abria-a

tremendo, enchia um sobrescripto de notas, muitas, que cobria de

beijos, e o enveloppe, trazendo a sua salvação e o seu descanço,

começava a rolar para baixo, pela França e pela Navarra, soprando como

um monstro e apressando-se como um proprio.

No dia em que a resposta _devia_ chegar, levantou-se mais cedo,

agitada, com o ouvido pregado na porta, esperando o toque do carteiro.

Via-se já a expulsar Juliana, a soluçar de alegria!... Mas ás dez e

meia começou a estar nervosa: ás onze chamou Joanna, «que fosse saber

se o carteiro passára».

--Diz que sim, minha senhora, que já passou.

--Canalha!--murmurou, pensando em Bazilio.

Talvez, todavia, não tivesse respondido no mesmo dia! Esperou ainda,

mas desconsolada, já sem fé. Nada! Nem na outra manhã, nem nas

seguintes! O infame!

Veio-lhe então a idéa da loteria--porque insensivelmente a esperança

tornára-se-lhe necessaria. A primeira vez que sahiu comprou umas poucas

de cautelas. Apesar de não ser religiosa nem supersticiosa, metteu-as

debaixo da peanha d'um S. Vicente de Paula que tinha sobre a commoda,

na alcova. _Não se perdia nada!_ Examinava-as todos os dias, sommava os

algarismos a vêr se davam _nove_, _noves fóra_, _nada_, ou um numero

par--que é de bom agouro! E aquelle contacto diario com a imagem do

santo levando-a a pensar de certo na protecção inesperada do céo, fez

uma promessa de cincoenta missas se as cautelas fossem premiadas!...

Sahiram brancas--e então desesperou de tudo; abandonou-se a uma inacção

em que sentia quasi uma voluptuosidade, passando dias sem se importar,

quasi sem se vestir, desejando morrer, devorando nos jornaes todos os

casos de suicidios, de fallencias, de desgraças--consolando-se com a

idéa de que nem só ella soffria, e que a vida em redor, na cidade,

fervilhava de afflicções.

Ás vezes, de repente, vinha-lhe uma pontada de medo. Decidia-se então

de novo a «abrir-se» com Sebastião; depois pensava que seria melhor

escrever-lhe; mas não achava as palavras, não conseguia arranjar uma

historia racional; vinha-lhe uma cobardia; e recahia na sua inercia,

pensando: «ámanhã, ámanhã...»

Quando, só, no seu quarto, se chegava por acaso á janella, punha-se

a imaginar o que «diria a visinhança, quando se soubesse»!

Condemnal-a-hiam? Lamental-a-hiam? Diriam--«Que desavergonhada»?

Diriam--«Coitadinha»? E por dentro da vidraça seguia, com um olhar

quasi aterrado, as passeatas do Paula pela rua, o embasbacamento obeso

da carvoeira, as Azevedos por traz das bambinellas de cassa! Como elles

todos gritariam:--«Bem diziamos nós! Bem diziamos nós!» Que desgraça!

Ou então via de repente Jorge, terrivel, fóra de si, com as _cartas_ na

mão; e encolhia-se como se já estivesse sob a colera dos seus punhos

fechados.

Mas o que a torturava mais era a tranquillidade de

Juliana--espanejando, cantarolando, servindo-a ao jantar d'avental

branco. Que tencionava ella? Que preparava ella? Ás vezes vinha-lhe uma

onda de raiva; se fosse forte ou corajosa, de certo atirar-se-lhe-hia

ao pescoço, para a esganar, arrancar-lhe a carta! Mas pobre d'ella, era

«uma mosquinha»!

Justamente, n'uma d'essas manhãs, Juliana entrou no quarto--com o

vestido de sêda preto no braço. Estendeu-o na _causeuse_, e mostrou

a Luiza, na saia, ao pé do ultimo folho, um rasgão largo que parecia

feito com um prego; vinha saber se a senhora queria que o mandasse á

costureira.

Luiza lembrava-se bem, rasgára-o uma manhã no _Paraiso_ a brincar com

Bazilio!

--Isto é facil d'arranjar--dizia Juliana, passando de leve a mão

espalmada sobre a sêda, com a lentidão d'uma caricia.

Luiza examinava-o, hesitando:

--Elle tambem já não está novo... Olhe, guarde-o p'ra vossê!

Juliana estremeceu, fez-se vermelha:

--Oh minha senhora!--exclamou--Muito agradecida! É um rico

presente. Muito agradecida, minha senhora! Realmente...--E a voz

perturbava-se-lhe.

Tomou-o nos braços, com cuidado, correu logo á cozinha. E Luiza, que a

seguira pé ante pé, ouviu-a dizer toda excitada:

--É um rico presente, é o que ha de melhor. E novo! Uma rica

sêda!--Fazia arrastar a cauda pelo chão, com um _frou-frou_. Sempre o

invejára: e tinha-o agora, era o _seu_ vestido de sêda!--É de muito boa

senhora, snr.^a Joanna, é d'um anjo!

Luiza voltou ao quarto, toda alvoroçada; era como uma pessoa perdida de

noite, n'um descampado--que de repente, ao longe, vê reluzir um clarão

de vidraça! Estava salva! Era presenteal-a, era fartal-a! Começou logo

a pensar no que lhe podia dar mais, pouco a pouco: o vestido rôxo,

roupas brancas, o roupão velho, uma pulseira!

D'ahi a dous dias--era um domingo--recebeu um telegramma de Jorge:

«Parto ámanhã do Carregado. Chego pelo comboio do Porto ás 6.» Que

sobresalto! Voltava, emfim!

Era nova, era amorosa--e no primeiro momento todos os sustos, as

inquietações desappareceram sob uma sensação d'amor e de desejo, que a

inundou. Viria de madrugada, encontral-a-hia deitada,--e já pensava na

delicia do seu primeiro beijo!...

Foi-se vêr ao espelho: estava um pouco magra, talvez, com a physionomia

um pouco fatigada... E a imagem de Jorge apparecia-lhe então muito

nitidamente, mais queimado do sol, com os seus olhos ternos, o cabello

tão annelado! Que estranha cousa! Nunca lhe appetecêra tanto vêl-o. Foi

logo occupar-se d'elle: o escriptorio estaria bem arranjado? Quereria

um banho morno, seria necessario aquecer a agua na tina grande!... E ia

e vinha, cantarolando, com um brilho exaltado nos olhos.

Mas a voz de Juliana, de repente no corredor, fêl-a estremecer. Que

faria ella, a mulher? Ao menos que a deixasse n'aquelles primeiros

dias gozar a volta de Jorge, tranquillamente!... Veio-lhe uma audacia,

chamou-a.

Juliana entrou, com o vestido de sêda novo, movendo-se cuidadosamente:

--Quer alguma cousa, minha senhora?

--O snr. Jorge volta amanhã...--disse Luiza.

E suspendeu-se; o coração batia-lhe fortemente.

--Ah!--fez Juliana.--Bem, minha senhora.

E ia sahir.

--Juliana!--fez Luiza, com a voz alterada.

A outra voltou-se, surprehendida.

E Luiza batendo com as mãos, n'um movimento supplicante:

--Mas vossê ao menos n'estes primeiros dias... Eu hei-de arranjar,

esteja certa!...

Juliana acudiu logo:

--Oh minha senhora! Eu não quero dar desgostos a ninguem. O que eu

quero é um bocadinho de pão para a velhice. Da minha bocca não ha-de

vir mal a ninguem. O que peço á senhora é que se fôr da sua vontade e

me quizer ir ajudando...

--Lá isso, sim... O que vossê quizer...

--Pois póde estar certa que esta bocca...--E fechou os labios com os

dedos.

Que alegria para Luiza! Tinha uns dias, umas semanas, emfim, sem

tormentos, com o _seu_ Jorge! Abandonou-se então toda á deliciosa

impaciencia de o vêr. Era singular--mas parecia-lhe que o amava

mais!...--E depois pensaria, veria, daria outros presentes a Juliana,

poderia pouco a pouco preparar Sebastião... Quasi se sentia feliz.

De tarde Juliana veio dizer-lhe, muito risonha;

--A snr.^a Joanna sahiu, que era hoje o seu dia, mas eu tinha tanta

precisão de sahir, tambem! se a senhora lhe não custasse ficar só...

--Não! Fico, que tem? Vá, vá!

E, d'ahi a pouco, sentiu-a bater os tacões no corredor, fechar com

ruido a cancella.

Então de repente uma idéa deslumbrou-a, como a fulguração d'um

relampago:--ir ao quarto d'ella, rebuscar-lhe a arca, roubar-lhe as

cartas!

Viu-a da janella dobrar a esquina. Subiu logo ao sotão, devagar,

escutando, com o coração aos saltos. A porta do quarto de Juliana

estava aberta; vinha de lá um cheiro de mofo, de rato e de roupa

enxovalhada que a enjoou; pelo postigo entrava uma luz triste, de

tarde escura; e por baixo, encostada á parede, ficava a arca! Mas

estava fechada! De certo! Desceu correndo, veio buscar o seu mólho

de chaves... Sentia uma vergonha,--mas se achasse as cartas! Aquella

esperança dava-lhe todos os atrevimentos, como um vinho alcoolico.

Começou a experimentar as chaves; a mão tremia-lhe; de repente a

lingueta, com um estalinho secco, cedeu! Ergueu a tampa, estavam alli,

talvez! E então, com cautela, muito femininamente, poz-se a tirar as

cousas uma por uma, pondo-as em cima do colxão:--o vestido de merino;

um leque com figuras douradas, embrulhado em papel de sêda; velhas

fitas rôxas e azues, passadas a ferro; uma pregadeira de setim côr

de rosa, com um coração bordado a matiz: dous frasquinhos de cheiro,

intactos, tendo collados ao vidro raminhos de rosas de papel recortado;

tres pares de botinas embrulhadas em jornaes; a roupa branca, d'onde

se exhalava um cheiro de madeira e de folhas de maçã camoeza. Entre

duas camisas estava um maço de cartas atadas com um nastro... Nenhuma

era d'ella! Nem de Bazilio! Eram d'uma letra d'aldêa, inintelligivel e

amarellada! Que raiva! E ficou a olhar para a arca vazia, de pé, com os

braços tristemente cahidos.

Uma sombra de repente passou diante do postigo. Estremeceu, aterrada.

Era um gato, que com passos leves, vadiava pelo telhado.--Tornou a

repôr tudo com as mesmas dobras, fechou a arca, ia a sahir,--mas

lembrou-se de procurar na gaveta da mesa e debaixo do travesseiro.

Nada! Impacientou-se então; não se queria ir sem ter gasto toda a

esperança; desmanchou a roupa da cama, remexeu a palha amollentada do

enxergão, sacudiu as velhas botinas, esgaravatou os cantos... Nada!

Nada!

Subitamente, a campainha tocou. Desceu a correr. Que surpreza! Era D.

Felicidade.

--És tu! Como estás tu? Entra.

Estava melhor, veio logo contando pelo corredor. Sahira na vespera da

Encarnação: o pé ás vezes ainda lhe fazia mal: mas graças a Deus estava

escapa! E que lhe agradecesse, era a sua primeira visita!

Entraram no quarto. Escurecia, Luiza accendeu as velas.

--E como me achas tu, hein?--perguntou D. Felicidade, pondo-se diante

d'ella.

--Um bocadito mais pallida.

Ai! tinha soffrido muito! Ergueu a saia, mostrou o pé calçado n'um

sapato largo, obrigou Luiza a apalpal-o... Que uma consolação lhe

restava: é que toda a Lisboa a fôra vêr! Graças a Deus! Toda a Lisboa,

o que ha de melhor em Lisboa!

--E tu esta semana--acrescentou--nem appareceste! Pois olha que te

cortaram na pelle...

--Não pude, filha. O Jorge chega ámanhã, sabias?

--Ah sua brejeira! Viva! Está esse coraçãosinho aos pulos!--E disse-lhe

um segredinho.

Riram muito.

--Pois eu--continuou D. Felicidade sentando-se--arranjei-te hoje a

partida. Encontrei esta manhã o Conselheiro, que me disse que vinha.

Encontrei-o aos Martyres! Olha que foi sorte, logo no primeiro dia que

sahi! E um bocado adiante dou com o Julião: diz que tambem vinha!...--E

com uma voz desfallecida:

--Sabes? tomava uma colherinha de dôce...

Foi Luiza que abriu a porta ao Conselheiro e a Julião, que se tinham

encontrado na escada, dizendo-lhes a rir:

--Hoje sou eu o guarda-portão!

D. Felicidade, na sala, para disfarçar a perturbação que lhe deu o

espectaculo amado da pessoa d'Accacio, começou, fallando muito, a

censural-a «por deixar assim sahir no mesmo dia as duas criadas...»

--E se te achares incommodada, filha, se te dér alguma cousa?

Luiza riu. Não era affecta a fanicos...

Todavia achavam-na abatida. E o Conselheiro, com interesse:

--Tem continuado a soffrer dos dentes, D. Luiza?

Dos dentes? Era a primeira vez que tal ouvia!--exclamou logo D.

Felicidade. Julião declarou que raras vezes vira uma dentição tão

perfeita.

O Conselheiro apressou-se a citar:

Em labios de coral, perolas finas...

E acrescentou:

--É verdade, mas a ultima vez que tive a honra d'estar com D. Luiza,

viu-se tão repentinamente afflicta com um dente, que teve d'ir a correr

chumbal-o ao Vitry!

Luiza fez-se muito vermelha. Felizmente a campainha tocou. Devia ser a

Joanna, ia abrir...

--É verdade--continuou o Conselheiro--tinhamos feito um delicioso

passeio, quando de repente D. Luiza empallidece, e parece que a dôr era

tão urgente, que se precipitou para a escada do dentista, como louca...

A proposito de dôres, D. Felicidade, que estava anciosa por interessar,

commover o Conselheiro, começou a historia do seu pé: disse a queda,

o milagre de não ter morrido, as visitas assiduas de condessas e

viscondessas, o susto em toda a Encarnação, os cuidados do bom dr.

Caminha...

--Ai! soffri muito!--suspirou, com os olhos no Conselheiro, para

provocar uma palavra sympathica.

Accacio, então, disse com authoridade:

--É sempre um erro, ao descer uma escada ingreme, não procurar o apoio

do corrimão.

--Mas podia ter morrido!--exclamou ella. E voltando-se para

Julião:--Pois não é verdade?

--N'este mundo morre-se por qualquer cousa--disse elle enterrado n'uma

poltrona, fumando voluptuosamente. Elle mesmo estivera n'aquella tarde

para ser atropellado por um trem: destinára o domingo para se dar _um

feriado_, e fizera um grande passeio pela circumvallação...--Ha mais

d'um mez vivo no meu cubiculo, como um frade benedictino na livraria do

seu convento!--acrescentou, rindo, quebrando complacentemente a cinza

do cigarro sobre o tapete.

O Conselheiro quiz saber então o assumpto da these: de certo muito

momentoso!... E apenas Julião lhe disse: «Sobre physiologia, snr.

Conselheiro», Accacio observou logo, com uma voz profunda:

--Ah! physiologia! Deve ser então de grande magnitude! E presta-se mais

ao estylo ameno.

Queixou-se, tambem, de «vergar ao peso dos seus trabalhos

litterarios...»

--Esperemos todavia, snr. Zuzarte, que não sejam infructiferas as

nossas vigilias!

--As suas, snr. Conselheiro, as suas!--E com interesse:--Quando nos dá

o seu novo trabalho? Ha sofreguidão em o vêr!

--Ha alguma sofreguidão--concordou o Conselheiro com seriedade.--Ha

dias me dizia o snr. ministro da justiça (esse robustissimo talento),

ha dias me dizia, me fazia a honra de me dizer: Dê-nos depressa o seu

livro, Accacio, estamos precisados de luz, de muita luz! Foi assim que

elle disse. Eu inclinei-me, naturalmente, e respondi: Snr. ministro,

não serei eu que a negue ao meu paiz, quando o meu paiz a necessitar!

--Muito bem, muito bem, Conselheiro!

--E--acrescentou--dir-lhes-hei, aqui em familia, que o nosso ministro

do reino me deixou entrevêr n'um futuro não remoto, a commenda de S.

Thiago!

--Já lh'a deviam ter dado, Conselheiro!--exclamou Julião,

divertindo-se.--Mas n'este desgraçado paiz... Já a devia ter ao peito,

Conselheiro!

--Ha que tempos!--exclamou com força D. Felicidade.

--Obrigado, obrigado!--balbuciou o Conselheiro, rubro. E na expansão do

seu jubilo offereceu com uma familiaridade agradecida, a sua caixa de

rapé a Julião.

--Tomarei para espirrar--disse elle.

Sentia-se n'aquella tarde n'uma disposição benevola: o trabalho e as

altas esperanças que elle lhe dava tinham de certo dissipado o seu

azedume: parecia até ter esquecido a sua humilhação, quando encontrára

alli, n'aquella sala, o primo Bazilio, porque apenas Luiza entrou,

perguntou-lhe por elle.

--Partiu para Paris, não sabiam? ha que tempos!

D. Felicidade e o Conselheiro fizeram logo o elogio de Bazilio. Tinha

ido deixar bilhetes de visita a ambos--o que encantára D. Felicidade,

e ensoberbecera o Conselheiro. Era um verdadeiro fidalgo!--exclamava

ella. E Accacio affirmou com authoridade:

--E uma voz de barytono, digna de S. Carlos.

--E muito elegante!--disse D. Felicidade.

--Um _gentleman_!--resumiu o Conselheiro.

Julião, calado, bambaleava a perna. Agora, áquelles elogios, o seu

despeito renascia; lembrava a seccura cortante de Luiza, n'aquella

manhã, as _poses_ do outro. Não resistiu a dizer:

--Um pouco sobrecarregado nas joias e nos bordados das meias. De resto

é moda no Brazil, creio...

Luiza córou; teve-lhe odio. E, vagamente, veio-lhe uma saudade de

Bazilio.

D. Felicidade então, perguntou por Sebastião: não o via havia um

seculo; e lamentava, porque era uma pessoa que lhe dava saude, só vêl-a.

--É uma grande alma--disse com emphase o Conselheiro.--Todavia

censurava-o um pouco por não se occupar, não se tornar util ao seu

paiz.--Porque emfim--declarou--o piano é uma bonita habilidade, mas não

dá uma posição na sociedade.--Citou então Ernestinho, que, posto que

dando-se á arte dramatica, era todavia (e a sua voz tornou-se grave),

segundo todas as informações, um excellente empregado aduaneiro...

Que fazia elle, Ernestinho?--perguntaram.

Julião tinha-o encontrado. Dissera-lhe que a _Honra e Paixão_ ia d'ahi

a duas semanas, já se estavam a imprimir os cartazes, e na rua dos

Condes já lhe não chamavam senão o _Dumas filho portuguez_! E o pobre

rapaz crê-se realmente um _Dumas filho_!

--Não conheço esse author--disse com gravidade o Conselheiro--posto que

me pareça, pelo nome, ser filho do escriptor que se tornou famoso pelos

_Tres Mosqueteiros_ e outras obras de imaginação!... Mas, de resto,

o nosso Ledesma é um esmerado cultor da arte dos Corneilles! Não lhe

parece, D. Luiza?

--Sim--disse ella com um sorriso vago.

Parecia preoccupada. Fôra já duas vezes ao relogio do quarto vêr as

horas: quasi dez, e Juliana sem voltar! Quem havia de servir o chá?

Ella mesmo foi pôr as chavenas no taboleiro, armar o paliteiro. Quando

voltou á sala notou um silencio enfastiado...--Queriam que fosse

tocar?--perguntou.

Mas D. Felicidade que olhava, ao pé de Julião, as gravuras do Dante,

illustrado por G. Doré, que elle folheava, com o volume sobre os

joelhos, exclamou, de repente:

--Ai que bonito! que é? Muito bonito! Viste, Luiza?

Luiza aproximou-se.

--É um caso d'amor infeliz, snr.^a D. Felicidade--disse Julião.--É

a historia triste de Paulo e Francesca de Rimini.--E explicando o

desenho:--Aquella senhora sentada é Francesca: este moço de guedelha,

ajoelhado aos pés d'ella, e que a abraça, é seu cunhado, e, lamento ter

de o dizer, seu amante. E aquelle barbaças, que lá ao fundo levanta o

reposteiro e saca da espada, é o marido que vem, e zás!--E fez o gesto

de enterrar o ferro.

--Safa!--fez D. Felicidade, arripiada--E aquelle livro cahido o que é?

Estavam a lêr?...

Julião disse discretamente:

--Sim... Tinham começado por lêr, mas depois...

Quel giorno più no vi leggiomi avante,

o que quer dizer:--_E nós não lemos mais em todo o dia!_

--Pozeram-se a derriçar--disse D. Felicidade com um sorriso.

--Peor, minha rica senhora, peor! Porque segundo a mesma confissão de

Francesca, este moço, o da guedelha, o cunhado,

La bocca me bacciò tutto tremante,

o que significa:--_A bocca me beijou tremendo todo_...

--Ah!--fez D. Felicidade, com um olhar rapido para o Conselheiro.--É

uma novella?

--É o Dante, D. Felicidade--acudiu com severidade o Conselheiro--um

poema epico classificado entre os melhores. Inferior, porém, ao nosso

Camões! Mas rival do famoso Milton!

--Que n'essas historias estrangeiras os maridos matam sempre as

mulheres!--exclamou ella. E voltando-se para o Conselheiro:--Pois não é

verdade?

--Sim. D. Felicidade, repetem-se lá fóra com frequencia essas

tragedias domesticas. O desenfreamento das paixões é maior. Mas entre

nós, digamol-o com orgulho, o lar é muito respeitado. Assim eu, por

exemplo, em todas as minhas relações em Lisboa, que são numerosas,

graças a Deus, não conheço senão esposas modêlos.--E com um sorriso

cortezão:--De que é de certo a flôr a dona da casa!

D. Felicidade revirou os olhos para Luiza que estava encostada á

cadeira d'ella, e batendo-lhe no braço:

--Isto é uma joia!--disse com amor.

--E de resto--acudiu o Conselheiro--o nosso Jorge merece-o. Porque,

como diz o poeta:

Seu coração é nobre, e a fronte altiva

Revela-lhe da alma a pura essencia.

Aquella conversação impacientava Luiza. Ia sentar-se ao piano, quando

D. Felicidade exclamou:--Dize cá, então não se toma hoje chá n'esta

casa?

Luiza foi outra vez á cozinha. Disse a Joanna que viesse ella mesma

com o chá.--E d'ahi a pouco Joanna, d'avental branco, vermelha, muito

atarantada, entrou com o taboleiro.

--E a Juliana?--perguntou logo D. Felicidade.

--Sahiu, coitada--explicou Luiza--tem andado doente...

--E anda-te então por fóra até estas horas?... Boa! Até desacredita uma

casa...

O Conselheiro tambem achava imprudente:

--Porque emfim as tentações são grandes n'uma capital, minha senhora!

Julião exclamou, rindo:

--Não, se aquella é tentada, descreio para sempre e totalmente, dos

meus contemporaneos.

--Oh snr. Zuzarte!--acudiu o Conselheiro, quasi severamente--referia-me

a outras tentações: entrar, por exemplo, n'uma loja de bebidas,

appetecer-lhe ir ao Circo e desleixar os seus deveres...

Mas D. Felicidade não podia soffrer a Juliana: achava-lhe cara de

Judas, tinha ar de ser capaz de tudo...

Luiza defendeu-a: era muito serviçal, muito boa engommadeira, muito

honesta...

--E anda-te pela rua até ás onze da noite!... Credo! Fosse commigo!

--E creio--observou o Conselheiro--que tem uma doença mortal. Não é

verdade, snr. Zuzarte?

--Mortal. Um aneurisma--respondeu Julião, sem levantar os olhos do

Dante.

--Ainda para mais!--exclamou D. Felicidade. E abaixando a voz:--Tu

o que deves fazer é descartar-te d'ella! Uma criada com uma doença

d'essas! Que até lhe póde arrebentar a vir dar um copo d'agua á gente.

Cruzes!

O Conselheiro apoiava:

--E ás vezes, que embaraços com a authoridade!

Julião fechou o Dante, e disse:

--Eu tem-me esquecido d'avisar o Jorge; mas um dia a creatura cahe-lhes

redonda no chão.--E sorveu um gole de chá.

Luiza estava afflicta. Parecia-lhe que uma nova complicação se formava

para a torturar... Pôz-se a dizer que era tão difficil arranjar

criadas...

Lá isso era, concordaram.

Fallaram de criados, das suas exigencias. Estavam cada vez mais

atrevidos! E em se lhes dando confiança! E que immoralidade!...

--Muitas vezes é culpa das amas--disse D. Felicidade.--Fazem das

criadas confidentes, e isto, em ellas apanhando um segredo, tornam-se

as donas da casa...

As mãos tremulas de Luiza faziam-lhe tilintar a chavena. Disse, com uma

voz affectadamente risonha:

--E o Conselheiro, que tal de criados?

Accacio tossiu:

--Bem. Tenho uma pessoa respeitavel, com bom paladar, muito escrupulosa

em contas...

--E que não é feia--acudiu Julião.--Assim me pareceu uma vez que fui á

rua do Ferregial...

Uma vermelhidão espalhára-se pela calva do Conselheiro. D. Felicidade

fitava-o anciosamente, com a pupilla chammejante. Accacio, então, disse

com severidade:

--Nunca reparo para a physionomia dos subalternos, snr. Zuzarte.

Julião ergueu-se e enterrando as mãos nos bolsos, jovialmente:

--Foi um grande erro abolir a escravatura!...

--E o principio da liberdade?--acudiu logo o Conselheiro--E o principio

da liberdade? Que os pretos eram grandes cozinheiros, concordo... Mas a

liberdade é um bem maior.

Alargou-se então em considerações; fulminou os horrores do trafico,

lançou suspeitas sobre a philantropia dos inglezes, foi severo com os

plantadores da Nova-Orleans, contou o caso da _Charles et Georges_:

dirigia-se exclusivamente a Julião, que fumava, cabisbaixo.

D. Felicidade fôra-se sentar ao pé de Luiza, e muito inquieta,

fallando-lhe ao ouvido:

--Tu conheces a criada do Conselheiro?

--Não.

Será bonita?

Luiza encolheu os hombros.

--Não sei que me diz o coração, Luiza! Estou a abafar!

E em quanto Accacio, de pé, perorava para Julião, D. Felicidade ia

murmurando a Luiza as queixas da sua paixão.

Que allivio para Luiza quando elles sahiram! O que ella soffrera, lá

por dentro, toda aquella noite! Que massadores, que idiotas!--E a outra

sem vir! Oh que vida a sua!

Foi á cozinha dizer a Joanna:

--Espere pela Juliana, tenha paciencia. Que ella não póde tardar;

aquillo a mulher achou-se peor!

Mas já passava de meia noite, já Luiza estava deitada, quando a

campainha tocou de leve; depois mais forte; emfim, com impaciencia.

A rapariga adormeceu, pensou Luiza. Saltou da cama, subiu descalça

á cozinha. Joanna, estirada para cima da mesa, resonava ao pé do

candieiro de petroleo, que fumegava fetidamente. Sacudiu-a, fêl-a pôr

de pé, estremunhada; voltou, correndo, deitar-se; e sentiu d'ahi a

pouco, no corredor, a voz de Juliana dizer com satisfação:

--Já está tudo acommodado, hein? Pois eu estive no theatro. Muito

bonito! Do melhor, snr.^a Joanna, do melhor!

Luiza adormeceu tarde, e durante toda a noite um sonho inquieto

agitou-a.--Estava n'um theatro immenso, dourado como uma igreja.

Era uma gala: joias faiscavam sobre seios mimosos, condecorações

reluziam sobre fardas palacianas. Na tribuna, um rei triste e moço,

immovel n'uma attitude rigida e hieratica, sustentava na mão a esphera

armillar, e o seu manto de velludo escuro, constellado de pedrarias

como um firmamento, espalhava-se em redor em pregas d'esculptura,

fazendo tropeçar a multidão dos cortezãos vestidos como valetes de paus.

Ella estava no palco; era actriz; debutava no drama d'Ernestinho: e

toda nervosa via diante de si na vasta platéa susurrante, fileiras de

olhos negros e accesos, cravados n'ella com furor: no meio a calva

do Conselheiro, d'uma redondeza nevada e nobre, sobresahia, rodeada

como uma flôr d'um vôo amoroso d'abelhas. No palco oscillava a vasta

decoração d'uma floresta; ella notava sobretudo, á esquerda, um

carvalho secular, d'uma arrogancia heroica--cujo tronco tinha a vaga

configuração d'uma physionomia, e se parecia com Sebastião.

Mas o contra-regra bateu as palmas: era esguio, parecia-se com D.

Quixote, trazia oculos redondos com aros de lata, brandia _o Jornal do

Commercio_ torcido em saca-rolhas, e gania: salta a scenasinha de amor!

salta-me essa maravilha! Então a orchestra, onde os olhos dos musicos

reluziam como granadas e as suas cabelleiras se erriçavam como montões

d'estopa, tocou com uma lentidão melancolica o fado de Leopoldina; e

uma voz aspera e canalha cantava em falsete:

Vejo-o nas nuvens da tarde,

Nas ondas do mar sem fim,

E por mais longe que esteja

Sinto-o sempre ao pé de mim.

Luiza achava-se nos braços de Bazilio que a enlaçavam, a queimavam:

toda desfallecida, sentia-se perder, fundir-se n'um elemento quente

como o sol e dôce como o mel: gozava prodigiosamente: mas, por entre os

seus soluços, sentia-se envergonhada, porque Bazilio repetia no palco,

sem pudor, os delirios libertinos do _Paraiso_! Como consentia ella?

O theatro n'uma acclamação immensa bradava: Bravo! Bis! bis! Lenços aos

milhares esvoaçavam como borboletas brancas n'um campo de trevo: os

braços nús das mulheres lançavam com um gesto ondeado ramos de violetas

dobradas: o rei erguera-se espectralmente, e, triste, arremessou

como um _bouquet_ a sua esphera armillar: e o Conselheiro logo, n'um

phrenesi, para seguir os exemplos de Sua Magestade, desaparafusando

rapidamente a calva, atirou-lh'a, com um berro de dôr e de gloria! O

contraregra gania:--Agradeçam! Agradeçam! Ella curvava-se, os seus

cabellos de Magdalena rojavam pelo tablado: e Bazilio, a seu lado,

seguia com olhos vivos os charutos que lhe atiravam, apanhando-os com a

graça d'um toureiro e a destreza d'um _clown_!

Subitamente, porém, todo o theatro teve um _ah_! d'espanto.

Fez-se um silencio ancioso e tragico; e todos os olhos, milhares

d'olhos attonitos se fitavam no pano de fundo, onde um caramanchão

arqueava a sua estructura toda estrellada de rosinhas brancas.

Ella voltou-se tambem como magnetisada, e viu Jorge, Jorge que se

adiantava, vestido de luto, de luvas pretas, com um punhal na mão; e

a lamina reluzia--menos que os olhos d'elle! Aproximou-se da rampa e

curvando-se, disse com uma voz graciosa:

--Real magestade, senhor infante, snr. governador civil, minhas

senhoras, e meus senhores--agora é commigo! Reparem n'este trabalhinho!

Caminhou então para ella com passos marmoreos que faziam oscillar o

tablado; agarrou-lhe os cabellos, como um mólho d'herva que se quer

arrancar; curvou-lhe a cabeça para traz; ergueu d'um modo classico o

punhal; fez a pontaria ao seio esquerdo: e balançando o corpo, piscando

o olho, cravou-lhe o ferro!

--Muito bonito!--disse uma voz--Rico trabalho!

Era Bazilio que fizera entrar nobremente na platéa o seu phaeton!

Direito na almofada, com o chapéo ao lado, uma rosa na sobrecasaca,

continha com a mão negligente a inquietação soberba dos seus cavallos

inglezes; e ao seu lado, sentado como um trintanario coberto das

suas vestes sacerdotaes, vinha o patriarcha de Jerusalém!--Mas Jorge

arrancára o punhal todo escarlate; as gotas de sangue corriam até á

ponta, coalhavam; cahiam depois com um som crystallino, punham-se a

rolar pelo tablado como continhas de vidro vermelho. Ella deitára-se,

expirante, sob o carvalho que se parecia com Sebastião: então, como

a terra era dura, a arvore estendeu por baixo d'ella as suas raizes,

macias como coxins de pennas; como o sol a mordia, a arvore desdobrou

sobre ella as suas ramagens, como os panos d'uma tenda: e das folhas

deixava-lhe escorrer sobre os labios gotas de vinho da Madeira! Ella

via no entanto com terror o seu sangue sahir da ferida, vermelho e

forte, correr, alastrar-se, fazendo poças aqui, ribeirinhos tortuosos

além. E ouvia a platéa berrar:

--O author! Fóra o author!

Ernestinho, muito frisado, pallido, appareceu; agradecia soluçando; e,

ás cortezias, saltava aqui, acolá--para não sujar no sangue da prima

Luiza os seus sapatinhos de verniz...

Sentiu que ia morrer! Uma voz disse vagamente:--Ólá, como vai

isso?--Parecia-lhe de Jorge. D'onde vinha? Do céo? da platéa? do

corredor? Um ruido forte, como d'uma mala que se deixa cahir,

acordou-a. Sentou-se na cama.

--Bem, deixe ahi--disse a voz de Jorge.

Saltou em camisa. Elle entrava. E ficaram enlaçados, n'um longo abraço,

os beiços collados, sem uma palavra. O relogio do quarto dava sete

horas.

X

N'esse dia pela uma hora Jorge e Luiza acabavam d'almoçar, como na

vespera da partida d'elle. Mas agora não pesava a faiscante inclemencia

da calma, as janellas estavam abertas ao sol amavel d'outubro; já

passavam no ar certas frescuras outonaes; havia uma pallidez meiga

na luz; á tardinha já «sabiam bem» os paletots; e tons amarellados

começavam a envelhecer as verduras.

--Que bom achar-se a gente outra vez no seu ninho!--disse Jorge,

estirando-se na _voltaire_.

Estivera contando a Luiza a sua viagem. Tinha trabalhado como um mouro,

e tinha ganho dinheiro! Trazia os elementos d'um bello relatorio;

creára amigos n'aquella boa gente do Alemtejo; estavam acabadas as

soalheiras, as cavalgadas pelos montados, os quartos d'hospedaria; e

alli estava emfim na sua casinha. E como na vespera da sua partida,

soprava o fumo do cigarro, cofiando com delicias o bigode,--porque

tinha cortado a barba! Fôra a grande admiração de Luiza, quando o viu.

Elle explicára, com humilhação e melancolia, que tivera um furunculo no

queixo, com o calor...

--Mas que bem te fica!--tinha ella dito--que bem que te fica!

Jorge trouxera-lhe como presente seis pratos de louça da China, muito

antigos, com mandarins bojudos, de tunicas esmaltadas, suspensos

magestosamente no ar azulado; uma preciosidade que descobrira em

casa d'umas velhas miguelistas, em Mertola. Luiza dispunha-os muito

decorativamente nas prateleiras do guarda-louça: e em bicos de pés,

com a larga cauda do seu roupão estendida por traz, a massa loura do

cabello pesado, um pouco desmanchado sobre as costas--parecia a Jorge

mais esbelta, mais irresistivel, e nunca a sua cinta fina lhe attrahira

tanto os braços.

--A ultima vez que aqui almocei, antes de partir, foi um domingo,

lembras-te?

--Lembro--disse Luiza sem se voltar, collocando muito delicadamente um

prato.

--E é verdade--perguntou Jorge de repente--teu primo? Vistel-o? Veio

vêr-te?

O prato escorregou, houve um tlin-tlin de copos.

--Sim, veio--disse Luiza, depois d'um silencio--esteve ahi umas poucas

de vezes. Demorou-se pouco...

Abaixou-se, abriu o gavetão do guarda-louça, esteve a remexer nas

colheres de prata: ergueu-se, emfim, voltou-se com um sorriso,

vermelha, sacudindo as mãos:

--Prompto!

E foi sentar-se nos joelhos de Jorge.

--Como te fica bem!--dizia, torcendo-lhe o bigode. Admirava-o, d'um

modo ardente. Quando se atirára aos seus braços n'aquella madrugada,

sentira como abrir-se-lhe o coração, e um amor repentino revolver-lh'o

deliciosamente; viera-lhe um desejo de o adorar perpetuamente, de o

servir, de o apertar nos braços até lhe fazer mal, de lhe obedecer com

humildade; era uma sensação multipla, de uma doçura infinita, que a

traspassára até ás profundidades do seu sêr. E passando-lhe um braço

pelo pescoço, murmurava com um movimento d'uma adulação quasi lasciva:

--Estás contente? Sentes-te bom? Dize!

Nunca lhe parecera tão bonito, tão bom; a sua pessoa depois d'aquella

separação dava-lhe as admirações, os enlevos d'uma paixão nova.

--É o snr. Sebastião--veio dizer Juliana toda risonha para Jorge.

Jorge deu um pulo, afastou Luiza bruscamente, atirou-se pelo corredor

gritando:

--Aos meus braços! aos meus braços, scelerado!

D'ahi a dias, uma manhã que Jorge sahira para o ministerio, Juliana

entrou no quarto de Luiza, e fechando a porta devagarinho, com uma voz

muito amavel:

--Eu desejava fallar á senhora n'uma cousa.

E começou a dizer,--que o seu quarto em cima no sotão era peor que

uma enxovia; que não podia lá continuar; o calor, o mau cheiro, os

persevejos, a falta d'ar, e no inverno a humidade, matavam-na! Emfim,

desejava mudar p'ra baixo, p'ra o quarto dos bahus.

O _quarto dos bahus_ tinha uma janella nas trazeiras; era alto e

espaçoso; guardavam-se alli os oleados de Jorge, as suas malas, os

paletots velhos, e veneraveis bahus do tempo da avó, de couro vermelho

com pregos amarellos.

--Ficava alli como no céo, minha senhora!

E... aonde se haviam de pôr os bahus?

--No meu quarto, em cima.--E com um risinho:--Os bahus não são gente,

não soffrem...

Luiza disse um pouco embaraçada:

--Bem, eu verei, eu fallarei ao snr. Jorge.

--Conto com a senhora.

Mas apenas n'essa tarde Luiza explicou a Jorge «a ambição da pobre de

Christo», elle deu um salto:

--O quê? Mudar os bahus? Está douda!

Luiza então insistiu: era o sonho da pobre creatura desde que viera

para a casa! Enterneceu-o. Não, elle não imaginava, ninguem imaginava

o que era o quarto da pobre mulher! O cheiro empestava, os ratos

passeavam-lhe pelo corpo, o forro estava roto, chovia dentro; fôra lá

ha dias, e ia tombando para o lado...

--Santo Deus! Mas isso é o que minha avó contava das enxovias

d'Almeida! Muda-a, muda-a depressa, filha!... Porei os meus ricos bahus

no sotão.

Quando Juliana soube o _favor_:

--Ai, minha senhora, é a vida que me dá! Deus lh'o pague! Que eu não

tinha saude para viver n'um cacifro d'aquelles.

Ultimamente queixava-se mais: andava amarella, trazia os beiços

um pouco arroxeados; tinha dias d'uma tristeza negra, ou d'uma

irritabilidade morbida: os pés nunca lhe aqueciam. Ah! Precisava muitos

cuidados, muitos cuidados!...

Foi por isso que d'ahi a dous dias veio pedir a Luiza, «se fazia o

favor d'ir ao quarto dos bahus». E lá, mostrando-lhe o soalho velho e

carunchoso:

--Isto não póde ficar assim, minha senhora, isto precisa uma esteira

senão, não vale a pena mudar. Eu se tivesse dinheiro não importunava a

senhora, mas...

--Bem, bem, eu arranjarei--disse Luiza com uma voz paciente.

E pagou a esteira, sem dizer nada a Jorge. Mas na manhã em que os

esteireiros a pregavam Jorge veio perguntar attonito a Luiza o que era

aquillo, «rolos d'esteira no corredor»?

Ella pôz-se a rir, pousou-lhe as mãos sobre os hombros:

--Foi a pobre Juliana que pediu como uma esmola a esteira, que o

soalho estava podre. Até a queria pagar, e que eu lh'a descontasse

nas soldadas. Ora por uma ridicularia...--E com um gesto

compassivo:--Tambem são creaturas de Deus, não são escravas, filho!

--Magnifico! E que não tardem os espelhos e os bronzes! Mas que mudança

foi essa, tu que a não podias vêr?

--Coitada!--fez Luiza--reconheci que era boa mulher. E como estive

tão só, dei-me mais com ella. Não tinha com quem fallar, fez-me muita

companhia. Até quando estive doente...

--Estiveste doente?--exclamou Jorge espantado.

--Oh! tres dias, só--acudiu ella--uma constipação. Pois olha que dia e

noite não se tirou d'ao pé de mim.

Luiza ficou logo com receio que Jorge fallasse _na doença_, e Juliana

desprevenida negasse; por isso, n'essa tarde, ao escurecer, chamou-a ao

quarto:

--Eu disse ao snr. Jorge que vossê me tinha feito muito boa companhia

n'uma doença...--E o seu rosto abrazava-se de vergonha.

Juliana logo, risonha, contente da cumplicidade:

--Fico entendida, minha senhora! Póde estar socegada!

Com effeito Jorge, ao outro dia, depois do café, voltou-se para

Juliana, e com bondade:

--Parece que vossê fez boa companhia á snr.^a D. Luiza.

--Fiz o meu dever--exclamou, curvando-se com a mão no peito.

--Bem, bem--fez Jorge, remexendo no bolso. E ao sahir da sala meteu-lhe

na mão meia libra.

--Palerma!--rosnou ella.

Foi n'essa semana que começou a queixar-se a Luiza, «que a roupa e os

vestidos, na arca, se lhe amarfanhavam...» Estava-se-lhe a estragar

tudo! Se ella tivesse dinheiro, não vinha com aquelles pedidos á

senhora, mas... Emfim uma manhã declarou terminantemente que precisava

uma commoda.

Luiza sentiu uma raiva accender-lhe o sangue, e sem levantar os olhos

do bordado:

--Uma meia commoda?

--Se a senhora quer fazer o favor, então uma commoda inteira...

--Mas vossê tem pouca roupa--disse Luiza. Começava a installar-se na

humilhação e já regateava as condescendencias.

--Tenho, sim, minha senhora--replicou Juliana--mas vou agora

completar-me!

A commoda foi comprada em segredo, e introduzida occultamente. Que dia

de felicidade para Juliana! Não se fartava de lhe saborear o cheiro

da madeira nova! Passava a mão, com a tremura d'uma caricia, sobre

o polimento luzidio!... Forrou-lhe as gavetas de papel de sêda, _e

começou a completar-se_!

Foram semanas d'amargura para Luiza.

Juliana entrava no quarto todas as manhãs, muito comprimenteira,

começava a arrumar, e de repente com uma voz lamentosa:

--Ai! estou tão falta de camisas! se a senhora me podesse ajudar...

Luiza ia ás suas gavetas cheias, cheirosas, e começava melancolicamente

a pôr á parte as peças mais usadas. Adorava a sua roupa branca: tinha

tudo ás duzias, com lindas marcas, _sachets_ para perfumar; e aquellas

dadivas dilaceravam-n'a como mutilações! Juliana por fim já pedia com

seccura, com direito:

--Que bonita que é esta camisinha!--dizia simplesmente.--A senhora não

a quer; não?

--Leve, leve!--dizia Luiza sorrindo, por orgulho, para não se mostrar

violentada.

E todas as noites Juliana fechada no seu quarto, encruzada na esteira,

inchada d'alegria, com o candieiro sobre uma cadeira, desmarcava roupa,

desfazendo as duas letras de Luiza, marcando regaladamente as suas, a

linha vermelha, enormes--_J. C. T.,_--Juliana Couceiro Tavira!

Mas emfim cessou, porque, como ella dizia, «de roupa branca estava como

um ovo».

--Agora, se a senhora me quizer ajudar com alguma cousa para sahir...

E Luiza começou a _vestil-a_.

Deu-lhe um vestido roxo de sêda, um casaco de casimira preta,

com bordados a _soutache_. E receando que Jorge estranhasse as

generosidades, transformava-as para elle as não reconhecer: mandou

tingir de castanho o vestido, ella mesmo por sua mão pôz uma guarnição

de velludo no casaco. Trabalhava para ella, agora!--Como acabaria tudo

aquillo, Santo Deus?

Todavia Jorge um domingo disse ao jantar, rindo:

--Esta Juliana anda uma janota! Prospera a olhos vistos.

O Primo Bazilio: Episodio Domestico · 第 30 / 48 题