paz, logo que seus filhos eram educados em suas casas, já ricas, e
poderosas pelas dadivas dos reis em commendas, pensões, governos e cargos,
necessariamente se havia de seguir uma educação estragada; a meninice
entregue na mão das amas, e de mulheres communs; a puericia entre as mãos
dos criados, e dos escravos; até o tempo d'el-rei D. Sebastião poucos
sabiam mais que lêr e escrever; porque já a escóla do infante D. Henrique
estava acabada; e toda a educação se reduzia a saber os mysterios da fé,
porque os seus mestres sendo ecclesiasticos e ignorantes da obrigação de
subdito, de filho, e de marido, chegavam á idade da adolescencia com o
animo depravado: sem humanidade, porque não conheciam igual; sem
subordinação, porque eram educados por escravas, e escravos, ficava aquelle
animo possuido da soberba, e vangloria, sem conhecimento da vida civil, nem
com a minima idéa do bem commum. Assim degenerou aquella educação do paço,
na qual pelo menos aprendiam a obedecer, na mais insolente tyrannia de
todos aquelles com quem tratavam.»
E, vindo ao ponto da reforma urgente na educação da nobreza, escreve:
«Parece-me que vistos os notaveis inconvenientes da educação domestica, e
das escolas ordinarias, que não fica outro modo para educar a nobreza, e a
fidalgia do que aprender em sociedade, ou em collegios: e como não é cousa
nova hoje em Europa esta sorte de ensino, com o titulo de _corpo de
cadetes_, ou escóla militar, ou _collegio dos nobres_, atrevo-me a propôr á
minha patria esta sorte de collegios, não sómente pela summa utilidade que
tirará d'esta educação a nobreza, mas sobre tudo, o estado, e todo o povo.»
Ahi está o aviso do christão novo, seguido, e executado dous annos depois,
quanto á fundação do _collegio dos nobres_.
Depois, indica o doutor Ribeiro Sanches as sciencias que devem ensinar-se
já no collegio, já nas aulas militares. Todas entraram na organisação dos
estatutos.
Em um §. intitulado: _Em que idade deveriam entrar os educandos na escóla
real militar_, divaga o insigne medico por considerações a respeito das
mães. Transcrevo o que me parece digno de ser lido por ellas:
«Tanto que as riquezas da Africa e do Oriente entraram em Portugal, logo
começou a mostrar-se o luxo nos vestidos, comidas, e mais commodidades
estrangeiras; começou a esfriar-se o amor das familias, e por ultimo da
patria. El-rei D. João III foi o ultimo rei que foi creado com ama nobre, e
já seus filhos, nem seu neto el-rei D. Sebastião, tiveram amas, mais que da
classe plebêa; indicio certo que as senhoras não creavam já seus filhos,
como nos tempos anteriores: introduziu-se este destructivo costume da raça
humana, do amor filial, e dos bons costumes; e apesar de tanto sermão,
missões, e praticas espirituaes, nenhuma senhora quer sacrificar a sua
formosura. Seria loucura persuadir o que ninguem quer abraçar.
«Tem para si estas mães, que não criam, que conservarão por mais tempo a
formosura, e que dilatarão a vida com mais vigor e forças, e que perderiam
a sua boa constituição creando por dezoito mezes ou dous annos. Mas é
engano manifesto, e o contrario se sabe pela experiencia, e pela boa
physica.
«A mulher que deu á luz um filho, e que não o cria, em pouco tempo vem a
conceber de novo: a gravidez de nove mezes é uma enfermidade, que
enfraquece mais o corpo, do que crear aos peitos por anno e meio: e como
concebem antes que as partes da geração adquirissem pelo repouso a sua
natural consistencia, succede, que estas senhoras abortam mais
frequentemente: enfermidade tão consideravel, que muitas ou perdem a vida,
ou ficam achacadas; perdendo em poucos annos o idolo da sua belleza,
ficando frustradas do seu intento, e expostas a viverem por toda a vida com
mil desgostos, e pezares.»
.........................................
«Até agora os damnos que soffrem as mães. Mas os mais consideraveis e
lamentaveis são aquelles que se imprimem no animo das crianças creadas por
amas. Se fôramos nascidos para viver nos desertos da Africa, ou nos bosques
da America, pouco importava que as amas imprimissem no nosso animo aquellas
idéas de terror de feitiços, de feiticeiras, de duendes, de crueldade, e de
vingança; mas somos nascidos em sociedade civil, e christã; aquellas idéas
que nos dão as amas são destructivas de tudo o que devemos crêr, e obrar:
ficam aquellas crianças expostas ao ensino de mulheres ignorantes,
supersticiosas; são os primeiros mestres da lingua, dos desejos, dos
appetites, e das paixões depravadas: chegou o menino a fallar, já está
cercado de duas ou tres mulheres mais ignorantes, mais supersticiosas do
que a ama; porque estas são mais velhas, e sabem mais para destruir aquella
primeira intelligencia do menino: chega á idade de caminhar, já tem seu
mocinho, ordinariamente escravo, e como foram pelas mães creados por taes
amas, e velhas, são os terceiros mestres até á idade de seis ou sete annos:
e se o mau exemplo do pai e da mãi põem o sello a esta educação, fica o
menino embebido n'estes detestaveis principios, que mui difficilmente os
melhores mestres podem arrancar aquelles vicios pelo discurso da idade
pueril.
«Será impossivel introduzir-se a boa educação na fidalguia portugueza em
quanto não houver um collegio, ou recolhimento, quero dizer, uma escóla com
clausura para se educarem alli as meninas fidalgas desde a mais tenra
idade: porque por ultimo as mães, e o sexo feminino são os primeiros
mestres do nosso; todas as primeiras idéas que temos provém da creação que
temos das mães, amas, e aias; e se estas forem bem educadas nos
conhecimentos da verdadeira religião, da vida civil, e das nossas
obrigações, reduzindo todo o ensino d'estas meninas fidalgas á geographia,
á historia sagrada, e profana, e ao trabalho de mãos senhoril, que se
emprega no risco, no bordar, pintar, e estofar, não perderiam tanto tempo
em lêr novellas amorosas, versos, que nem todos são sagrados, e em outros
passatempos onde o animo não só se dissipa, mas ás vezes se corrompe; mas o
peor d'esta vida assim empregada é que se communica aos filhos, aos irmãos
e aos maridos. D'aqui vem, que sendo da mesma nação, da mesma familia, e da
mesma casa, estão introduzidas duas sortes de lingua, ou modos de fallar: a
conversação que se deve ter com as senhoras, não ha de ser sobre materia
grave, séria; estas conversações judiciosas ficam reservadas para algum
velho, ou para algum notado de extravagante: e assim succede que ficam as
senhoras por toda a vida (ordinariamente) meninas no modo de pensar, e com
tão miseraveis principios vem ellas as suas amas, as suas aias, e donas a
serem os mestres d'aquelles destinados a servir os reis.
«Não me accuse v. ill.^ma que sahi fóra do intento que lhe prometti: achei
que tratar da educação que deviam ter as meninas nobres e fidalgas merecia
a maior attenção, porque por ultimo vem a ser os primeiros mestres de seus
filhos, irmãos, e maridos. V. ill.^ma sabe muito melhor do que eu aquelles
monumentos que temos na historia romana, e tambem na nossa, de tantas mães
que por crearem, e ensinarem seus filhos foram as que salvaram a patria, e
a illustraram: houve em Roma muitas Cornelias, como em Portugal muitas
Philippas de Vilhena. Mas n'aquelle tempo ainda o luxo, ou a dissolução não
se tinha apoderado do animo portuguez, porque as riquezas não eram tão
appetecidas. A connexão que tem a educação da mocidade nobre que prometti a
v. ill.^ma me obriga a ponderar, se não seria mais util para a conservação
e augmento da religião catholica transformarem-se tantos conventos de
freiras, e das ordens, principalmente militares sem exercicio algum da sua
destinação, n'estes estabelecimentos que proponho, tanto para a mocidade
nobre masculina, como feminina? Com o exemplo das educandas, ou _Filles de
St.-Cyr_, fundação perto de Versailles, e com o da escóla real militar, se
poderiam fundar no reino outros ainda mais vantajosos para a mesma nobreza,
e para a conservação e augmento da religião e do reino. Mas espero ainda
vêr nos meus dias estabelecimentos semelhantes em tudo, ou em parte que
satisfaçam todo o meu desejo.»
Eu tinha vontade de prolongar o traslado; mas a leitora que é mãi, joven e
formosa, desdenha os conselhos do medico; a que não é mãi, de certo não
percebeu as theorias physiologicas em que se fundamentam as censuras; e o
leitor que de certo leu á esposa as paginas impregnadas de maternidade,
n'aquelle tom circumspecto de nossos avós patriarchaes, dorme...
patriarchalmente.
Boa noite.
[7] Diogo de Paiva de Andrade, o sobrinho, confirma nas soas _Memorias_
ineditas, esta passagem com a seguinte anecdota: «Duarte Galvão, um dos
benemeritos varões do seu tempo, foi secretario d'el-rei D. João II, e
por elle e seu successor el-rei D. Manoel mandado muitas vezes por
embaixador a differentes côrtes da Europa. Encarregado pelo emprego de
chronista-mór de ordenar as chronicas dos reis d'este reino, escreveu
nove desde D. Affonso Henriques até el-rei D. Fernando, servindo em
toda a sua vida com muita aceitação dos seus principes os empregos que
lhe confiaram.
O PRINCIPE PERFEITO
O snr. Pinheiro Chagas, na sua estimadissima _Historia de Portugal_, tomo
III, pag. 155, relatando vigorosamente a ferocidade de D. João II, escreve:
«Estamos bem longe d'applaudir, com Ruy de Pina e Garcia de Rezende, estas
ferocissimas repressões, mas tambem não podemos concordar com o snr.
Camillo Castello Branco, que escreve o seguinte a respeito d'el-rei D. João
II:
«O real carrasco, a quem infamissimos aduladores da corôa chamaram
_principe perfeito_, surge hediondo diante da posteridade, alçando-se por
sobre a nuvem dos incensos, com que thuribularios abjectos cuidavam
escondel-o á execração dos vindouros. Raro ha quem se canse em esgaravatar
razões d'estado, que contrapesem a ferocidade do filho d'Affonso V. A
historia, á volta d'elle, o que encontra é cadaveres, oitenta cadaveres de
homens illustres, uns estrangulados, outros decapitados, estes mortos a
punhal, aquelles a peçonha. _Oitenta_, confessou elle o numero, quando a
morte lhe acenava de perto, e se lhe desabafava a consciencia, supplicando
ao papa contritamente o perdão dos seus peccados.
«Os lances capitaes de tão má alma contou-os a historia á tragedia. O
theatro portuguez já se enlutou com os quadros de canibalismo, trazidos á
rampa e ao grande brilho dos lustres, para que o povo visse justificada a
razão que teve a villanagem dos chronistas d'alligarem ao assassino do
duque de Vizeu o antonomastico epitheto de _principe perfeito_.»
«O illustre escriptor é demasiadamente severo com o grande rei a quem
Portugal deve tanto. Que a energia de D. João II degenerava em ferocidade,
é incontestavel, e não pretendemos absolvel-o dos crimes que pesam sobre a
sua memoria. Mas qual dos grandes homens, que figuram na historia, se
apresenta immaculado no tribunal da posteridade? No assassinio do duque de
Vizeu achamos, devemos confessal-o, em attenção aos costumes da época, D.
João II, menos hediondo do que no caso do duque de Bragança. É uma luta a
todo a transe entre D. João II e a nobreza, e el-rei, que teve por tantas
vezes a morte diante dos olhos e que sempre a affrontou sem empallidecer,
pôde, quando se lhe offereceu ensejo, antecipar-se aos seus adversarios, e
voltar contra elles o punhal com que o ameaçavam. O duque de Vizeu foi
ferido pela catastrophe que trazia pendente sobre a cabeça do seu
adversario; foi vencido na batalha. Se D. João II abusou da victoria, e não
soube, como nunca soubera, perdoar, culpemos d'isso a imperfeição humana.
Perdoar! Parece que no mundo só Christo soube cumprir essa maxima sublime,
que debalde prégou na sua santa doutrina. A civilisação, abrandando os
costumes e modificando as paixões, tem introduzido felizmente, no espirito
do homem, o horror do sangue derramado, mas, nos fins do seculo XV, ainda a
vida das creaturas da nossa especie estava longe de ter o caracter
inviolavel que hoje possue. Por tanto D. João II, aceitando de rosto
descoberto a batalha, e vibrando o punhal como vibraria a espada, tem uma
certa grandeza selvagem, que não desculpa mas attenua o crime.»
Até aqui o destro escriptor. Agora, a historia que os reis e as camarilhas
não deixavam estampar.
O punhal que D. João II vibrou ao peito do duque de Vizeu foi acto cobarde
que não póde ser attenuado por grandeza selvagem. O rei apunhalava o
adversario em quanto os braços possantes de um valente alcaide prendiam
pelas costas a victima desarmada.
Nas _Memorias_ ineditas de Diogo de Paiva e Andrade, author do _Casamento
perfeito_, faz-se menção do conflicto, e encarece-se a bravura do
coadjuctor de D. João II com uma anecdota bastante significativa da coragem
do fidalgo e da cobardia do rei.
Diz assim:
«D. Pedro de Eça, alcaide-mór de Moura, foi um fidalgo a quem a natureza
dotou de muito animo e grandes forças, e por isto el-rei D. João II o
escolheu, quando quiz matar a D. Diogo, duque de Vizeu, a quem abraçou por
detraz. Acontecendo em Moura matarem um homem uns criados seus, foram-se
dous irmãos do morto queixarem a el-rei e disseram-lhe que D. Pedro lh'o
mandára; pelo que o mandou vir á côrte, e esteve n'ella mais de dous annos,
posto que, tirada a devassa, o não acharam culpado. Enfadado D. Pedro disse
a el-rei que, pois sua alteza não queria crêr que elle não tinha culpa na
morte do homem, e os que o accusavam eram dous, que lhe fizesse mercê de
lhe mandar dar campo com ambos para assim se purificar; do que,
agastando-se el-rei, lhe disse que tomára elle ser um dos dous. E D. Pedro
lhe respondeu: «não fôra vossa alteza meu rei, e fosse com elles o
terceiro.»
Não temos o desvanecimento de sobre-excitar contra D. João II o animo do
nosso talentoso amigo; todavia, insinuamos-lhe a suspeita de que o homem
não era capaz de matar outro sem lh'o agarrarem pelas costas, tendo ainda
por cautela mais dous bravos que se chamavam Diogo de Azambuja e Lopo
Mendes do Rio.
AVE RARA
O poeta satyrico Antonio Lobo de Carvalho, fallecido em Lisboa aos 26 de
outubro de 1787, nasceu em Guimarães, não se sabe precisamente quando. Era
filho illegitimo de fidalgo, e tinha em Villa Real parentes maternos que o
educaram nas letras, consoante os frades da terra podiam ministrar-lh'as. O
bom que os frades tinham não o aprendeu o rapaz. Era poeta de lingua
farpada, da escóla de Gregorio de Mattos Guerra, o maior e mais sujo
talento que deram as plagas de Santa Cruz, desde a cidade de Jequitinhonha
até á cidade de Pindamonhamgaba.
Os cavalheiros villa-realenses andavam mordidos pelas vespas das suas
trovas. Lobo não perdia lanço de os satyrisar.
Em uma procissão de Corpus-Christi, o senado da terra ordenou que S. Jorge
fosse em andor e não em cavallo. A razão d'este descavalgamento não é bem
liquida. Ha muitos mysterios que nunca se hão de dilucidar, mormente em
cousas de cavalgaduras.
N'essa occasião, Antonio Lobo de Carvalho escreveu e divulgou o seguinte
soneto:
_Patria de valentões, paiz guerreiro,_
_Só tu, Villa Real! comtigo fallo!_
_Vão Panças e Roldões jogar o talo,_
_Ou vão na tua escóla andar primeiro._
_Quem ha que os teus aguente no terreiro,_
_Se até S. Jorge foram desmontal-o!_
_Pois, indo nas mais terras a cavallo,_
_N'esta é capucho o santo cavalleiro!_
_Nos triumphos de Baccho a villa armada_
_Uns com brancos arnezes, outros tintos,_
_As meretrizes levam de assaltada._
_Fez-lhe o entrudo os broqueis, compoz-lhe os cintos,_
_E soltou um pendão co'esta fachada:_
_«Todos são pobretões; mas mui distinctos.»_
Os fidalgos da villa dilecta d'el-rei D. Diniz,--que eram muitos, a julgar
pelos brazões musgosos em que as andorinhas dormem de verão e as corujas
assobiam de inverno--assanharam-se contra o poeta, fazendo-se representar
no desforço pelos seus moxillas.
Espancado e fugitivo, foi parar a Lisboa Antonio Lobo, onde conhecia um tal
Anacleto, que mais tarde foi juiz de fóra em Angeja.
A mãi do poeta era remediada de bens da fortuna, e quanto tinha quanto deu
ao estouvanado filho, que nunca procurou modo de vida, nem bajulou os
grandes, á imitação dos vates do seu tempo.
O duque de Cadaval, D. Miguel, ouvindo recitar versos de Antonio Lobo,
disse aos seus criados que lh'o levassem ao palacio... para se divertir. Um
lacaio de s. exc.^a procurou o poeta e deu conta do recado. Lobo mandou-o
esperar, improvisou um soneto, e remetteu-o ao duque. É o mais galhardo
feito de poeta do seculo XVIII. Dizia assim:
_Se eu fôra, excelso duque, homem perito,_
_Capinha, ferrador, cabelleireiro,_
_De cães decurião ou cozinheiro,_
_Em sopas mestre, em massas erudito:_
_Se em letra antiga visse o que anda escripto_
_Do vosso grande avô, João Primeiro,_
_Que o gothico mostrasse ao mau caseiro;_
_Que o tombo velho nunca está prescripto._
_N'este caso, senhor, a vossa graça_
_Mais quizera alcançar, que ter mil burras,_
_Do metal louro que se ri da traça._
_Mas como a sorte me tem dado surras,_
_Não vou servir-vos só por não ter praça_
_No livro mestre dos santões caturras._
Antonio Lobo indispoz-se em Lisboa com fidalgos e frades. A mezada que a
mãi lhe enviava permittia-lhe dispensar-se das sympathias de clero e
nobreza. Foi muito soado e mordido um soneto que elle dardejou contra um
frade leigo, dado a libações de certa taverna. Era d'esta laia o poema:
_Borracha de estamenha, ôdre sarrento,_
_Mil parabens te dou ao novo estado;_
_Pois de estupido leigo a um jubilado_
_Lente de rolhas vaes em largo vento._
_Se ha longos annos mettes fogo lento_
_N'essa pança que é mãi de vinho aguado,_
_Frei Bourdeaux será hoje o teu prelado,_
_A adega d'esta casa o teu convento._
_Bebe, esponja claustral, té que a fumaça_
_Das vasilhas de França encha as pichorras_
_De umas bebadas tripas de outra raça;_
_E, antes que os limos dos toneis escorras,_
_Fuja o do Carmo, fuja o Leão da Graça,_
_Que hoje o que reina é o Leão dos Borras._
Ao odio do clero e nobreza, ajuntou o poeta o odio do povo representado nas
pessoas dos capellistas, acirrados por estes versos:
_Um rapaz a gritar como um cabrito_
_Com saudades da mãi sobre o vallado,_
_Que entre duas canastras vem deitado,_
_Em burro de almocreve, ancioso e afflicto;_
_Com rosario ao pescoço mui bonito,_
_Descalço, de barrete e de cajado,_
_C'um sacco á cinta, onde traz (coitado!)_
_A sua côdda, o seu bacalhau frito._
_Posto a pé este misero mamote_
_Ora cahe, ora treme, ora encordôa,_
_Um lhe prega um sopapo, outro um calote._
_Pois esta figurinha ou má ou boa_
_Faz qualquer capellista franchinote_
_Quando vem do sertão para Lisboa._
N'esta vida de odios e irritações, viveu Antonio Lobo de Carvalho até aos
cincoenta annos. Se nos merecesse credito o que João Bernardo da Rocha
escreveu no _Portuguez_, tom. X, pag. 356, o atrevido vate haveria sido
aleivosamente assassinado por ordem de um tio do marquez de Olhão, a quem o
maldizente frechára com um soneto que abria assim:
_Ferrabras, Satanaz, Fernão Zarolho,_
_Cruel harpia das que o inferno encerra..._
Mas o snr. Innocencio Francisco da Silva, posto que não decida qual haja
sido a morte do poeta, com justificados motivos desabona a affirmativa de
João Bernardo da Rocha.
Eu tambem não sei. Ando n'essas pesquizas; e receio ir dar com elle no
hospital, expirando envolto em gloria... de cataplasmas de linhaça.
VERGONHAS NACIONAES
É notorio que o capitão Vicente Lunardi, natural de Luca, e empregado na
embaixada napolitana em Londres, effectuou em Lisboa, na tarde de 24 de
agosto de 1794, uma viagem aerea.
Mas ainda ninguem disse que o aeronauta, antes da ascensão, esteve preso á
ordem do intendente geral da policia Diogo Ignacio de Pina Manique, pelo
motivo de vir com tal novidade a Lisboa, onde a inquisição, por causa
identica, desejára queimar o padre Bartholomeu de Gusmão.
Os documentos que sobrevivem a tamanho opprobio são autographos,
authenticados pela assignatura do famigerado intendente.
Lunardi chegou a Lisboa em fins de maio de 1794. N'esse mesmo anno, em
janeiro, tinha elle em Madrid subido no seu balão, que desceu na provincia
da Mancha, onde os camponezes o receberam tão benignamente que o levaram em
triumpho á igreja parochial da villa de Orcajo.
Cuidou elle que a familia real portugueza o recebesse com igual agrado ao
da côrte hespanhola.
Logo que chegou a Lisboa, foi intimado a comparecer na corregedoria do
bairro, e obrigado a assignar termo de não subir ao ar, sem que a machina
fosse examinada por peritos. Este exame levava em vista satisfazer as
suspeitas do publico, receoso de artes diabolicas.
Assignou Lunardi o termo, e entendeu que dava plena satisfação ás
authoridades e ao publico, expondo o balão com todos os seus aprestos. E,
para isso, construiu uma barraca na praça do Commercio, e grudou nas
esquinas das ruas mais concorridas um cartaz em que minudenciosamente
explicava o balão exposto, e os mais instrumentos necessarios ás viagens
aereas. (Veja o _Panorama_, tom. VIII, pag. 15).
Apenas o estirado cartaz appareceu, o intendente geral da policia, officiou
ao desembargador Luiz Dias Pereira, corregedor do bairro dos Romulares, no
theor seguinte, e textual orthographia:
«Vm.^ce logo mandará hir seguro á sua presença Vicente Leonardi, Author da
Maquina Aereostatica, e na presença de um dos escrivães dos Lugares, que
vm.^ce está servindo, lhe perguntará, com que authoridade fixou os editaes,
contra o que se havia determinado no termo que elle assignou perante vm.^ce
por ordem d'esta intendencia; e não apresentando ordem por escripto,
_emenada_ (sic) das Secretarias de Estado, ou do seu Real Gabinete, ou
Gentil Homem da Camara ou _Garda_ (sic) Roupa do Dito senhor; vm.^ce o
mandará prender, mandando-lhe abrir assento á minha ordem; e dar-me[8]
parte do resultado d'esta diligencia acompanhando o Auto da declaração que
o mesmo Vicente Leonardi fizer. Deus guarde a vm.^ce Lisboa 10 de junho de
1794.==_Diogo Ign.^eo de Pina Manique.==Snr. Dz.^or Luiz Dias Pereira._»
Lunardi, conduzido pelos quadrilheiros ao corregedor, e interrogado, disse
que, tendo assignado termo de não funccionar sem que o balão fosse
examinado, cuidára dar a maxima prova de boa fé e sciencia estreme de
sortilegio, exhibindo ao exame de toda a gente a sua machina.
O corregedor achou-lhe razão. Não obstante, mandou-o esperar, em custodia,
novas ordens da intendencia, em quanto elle officiava e a resposta vinha.
Eis a resposta do Manique:
«Vm.^ce executará sem exhitação, ou duvida alguma, a diligencia que lhe
encarreguei em aviso da data de hontem a respeito do estrangeiro Leonardi,
author da maquina aereostatica; pois me consta com toda a certeza não ter o
mesmo Estrangeiro licença alguma de Sua Alteza Real o Principe Nosso Senhor
para o referido fim: e vm.^ce me dará conta por escripto da execução da
sobredita diligencia, na conformidade que lhe tinha ordenado. Deus guarde a
vm.^ce Lisboa 11 de junho de 1794.==_Diogo Ign.^eo de Pina Manique.==Snr.
Dz.^or Luiz Dias Pereira._»
Em vista d'isto, o aeronauta foi conduzido ao Limoeiro; e, n'esse mesmo
dia, o intendente elogiava o corregedor n'estes termos:
«Li a conta que vm.^ce me deu em que me participava a prisão do estrangeiro
Leonardi, o que vm.^ce tem executado com todo o acerto; agora porém vm.^ce
mandará arrancar todos os editaes, que o mesmo tinha afixado. Deus guarde a
vm.^ce Lisboa 11 de junho de 1794.==_Diogo Ign.^eo de Pina Manique.==Snr.
Dz.^or Luiz Dias Pereira._»
Não sei que tempo esteve o italiano em ferros; mas tenho plausiveis razões
para presumir que o principe regente o mandou soltar, pois que, volvidos
dous mezes, foi sua alteza que lhe deu licença para subir no balão.