Aos ouvidos do intendente chegaram rumores sinistros. Segredava-se que

algumas pessoas, influenciadas pelos frades de mais selvagem ignorancia e

acrisolada religião, tencionavam despedaçar a machina e o aeronauta,

suspeito de feiticeria. E, visto que sua alteza licenciára a subida do

balão, cumpria a elle intendente obstar que os fanaticos insultassem o

estrangeiro. No entanto, o sagaz magistrado, que tinha mais velhacaria que

syntaxe, não queria indispôr-se com o povo intimidando-o com o poder

armado, nem indispôr-se com o principe abandonando o aeronauta á ferocidade

das turbas. Neste proposito, officiou assim ao corregedor na véspera da

ascensão:

«Vou a prevenir a vm.^ce que não deve levar official algum de capote ámanhã

de tarde para hir assistir na Praça do Commercio, nem ainda mesmo os

quadrilheiros, e aquelle que não tiver cazaca o dispense vm.^ce e lhe dê

positiva ordem para não apparecer na mesma Praça do Commercio: o mesmo

tambem ordenará vm.^ce aos Cabos geraes do seu Bairro para não haver alguma

confuzão e obviar, que alguns malvados se queiram mascarar affectando serem

officiaes, para levarem as armas a seu salvo.

«Recomendo a vm.^ce a prudencia, procurando não comprometter a authoridade,

e respeito da justiça, e só, no caso indispensavel que ameace consequencias

é que deve vm.^ce ter o procedimento, pedindo auxilio da tropa para rebater

qualquer insulto que se queira praticar: o modo nestas occasiões, e a

polidez conduzem muito para se concluir o dia sem que seja preciso praticar

procedimento algum, e sem que tambem se suscitem conflictos de jurisdicção.

Tudo isto quer a prudencia, que recomendo a vm.^ce se pratique como sem

hesitação espero; e outro sim que não separe de si os seus officiaes para

que não vão fazer acção alguma que não seja por vm.^ce regulada. Deus

guarde a vm.^ce Lisboa 23 de agosto de 1794.==_Diogo Ign.^eo de Pina

Manique.==Snr. Luiz Dias Pereira._»

Na pagina em branco d'este officio, escreveu o corregedor: _Subiu no dia 24

d'agosto na real praça do Commercio depois das quatro horas e meia da

tarde. Eu o vi subir. Foi pelas oito horas e meia da noite cahir ás Vendas

Novas, voando depois a Magaina(?) sem que elle a podesse segurar, a qual

foi depois cahir a Veiros._

Vicente Lunardi escreveu depois a sua _Viagem aerea_, impressa no mesmo mez

e anno em Lisboa. Da sua escripta não transpira queixume dos portuguezes.

Apenas estas expressões denotam uma alma nobremente magoada: _Os applausos,

com que me tem honrado a nação portugueza, me fazem esquecer «as minhas

passadas desgraças» e me obrigam a dar-lhe, em prova do meu reconhecimento,

uma exacta narração de toda a minha viagem aerea_, etc. (Veja o _Panorama_,

tom. VIII, pag. 21 e seg.)

Estes «applausos» consistiram em uns endecasyllabos _anonymos_, publicados

n'essa occasião. Quem quer que fosse, o author não teve a coragem de

assignar os seus aleijados versos. Além d'isto, uma epistola do padre José

Agostinho de Macedo a Stochler; e, sobre tudo o _elogio_ que lhe consagrou

Bocage, em versos esplendidos, que podem aferir-se por esta estancia:

_Portentoso mortal, que á summa altura_

_Vaes no ethereo baixel subindo ousado;_

_Que illusão, que prestigio, que loucura_

_Te arrisca a fim tremendo e desastrado?_

_Teu espirito insano, ah! que procura_

_Pela estrada do Olympo alcantilado?_

_Não temes, despenhando-te dos ares,_

_Qual Icaro infeliz, dar nome aos mares?_

Lunardi descrevendo os trabalhos que passou até embarcar em Aldeia Gallega,

conclue assim a narrativa da sua viagem:

«Embarquei finalmente ás quatro horas da manhã, e com uma feliz viagem;

cheguei ás 7 horas da mesma manhã ao caes do Terreiro do Paço, onde achei

um grande numero de pessoas que me esperavam, e no meio de vivas de alegria

me conduziram á minha habitação.

«Estes signaes de verdadeiro contentamento, e o concurso continuo de

pessoas ainda das ordens mais respeitaveis, provam assás os sentimentos,

que produziu a minha viagem aerea, que tanto é mais famosa, quanto mereceu

os applausos de uma nação illustre, que pelo muito, que se empenha agora em

honrar-me, tem adquirido incontrastaveis direitos ao meu reconhecimento, e

eterna gratidão.

«Esta a narração fiel da minha viagem, e dos seus successos: e posto que

ella não contenha em si nada de extraordinario para os corações

indifferentes, deve com tudo interessar as almas sensiveis, e compadecidas,

que saberão estimar em seu justo valor as minhas fadigas, e os meus

soffrimentos. Para estas pois é que eu escrevo, na certeza de que, se não

lhes merecer os seus louvores, conseguirei ao menos a sua compaixão, e o

seu affecto, que é toda a minha ambição e o unico objecto d'esta pequena

descripção.--_Vicente Lunardi._»

Seduzido pelas ovações, que alguns poetas e rapazes lhe fizeram no Terreiro

do Paço, cuidou o aeronauta que lhe seria permittido renovar a ascensão, e

auferir d'ahi recursos com que voltar a Inglaterra onde tinha o seu emprego

na embaixada napolitana. Embalado pelas poesias de Bocage e Macedo, lhe

sorria a esperança, quando na madrugada do dia 29 de agosto, cinco dias

depois da primeira subida, o acordaram para lhe noticiarem que o seu

barracão na praça do Commercio se derruia esphacelado pelos machados de

quarenta carpinteiros, á ordem do corregedor.

Aqui tem o leitor, como coronal d'este padrão de vergonha patria, o officio

do intendente Manique ao corregedor que executou brutalmente a demolição da

barraca em que Lunardi gastára os seus poucos recursos:

«Vm.^ce logo mandará chamar o mestre carpinteiro Joaquim Pereira, que o foi

da Praça construida para a machina aereostatica de ordem do capitão Vicente

Leonardi, para dar logo principio a demoli-la e deita-la abaixo, não lhe

admittindo subterfugio algum a este fim, e devendo amanhan sesta feira dar

principio á demolição para o que lhe mandará embargar os carpinteiros de

obra branca e de machado, que lhe forem necessarios: igualmente mandará

vm.^ce notificar o dito capitão Vicente Leonardi para este mesmo fim. Deus

guarde a vm.^ce Lisboa 28 de agosto de 1794.==_Diogo Ign.^eo de Pina

Manique.==Snr. Luiz Dias Pereira[9]._»

Os frades e a estupidez tinham vencido.

Não sei se lhe abriram subscripção ao pobre italiano para o livrarem de

Portugal e das presas do Manique. O que sei é que os poucos, que o

applaudiram, apenas podiam dar-lhe... versos.

E, depois, a gente irrita-se quando os estrangeiros nos não enfileiram na

vanguarda da civilisação!...

[8] Que grammatica a d'este afamado intendente geral!

[9] Estes documentos autographos podem vêr-se na livraria do insigne

bibliophilo, o snr. Innocencio Francisco da Silva, que me fez a honra

de os aceitar.

RANCHO DA CARQUEJA

São justas as reflexões do estudioso antiquario o snr. Joaquim Martins de

Carvalho, redactor do _Conimbricense_.

Agora direi os argumentos, bem que menos valiosos, em que eu assentava o

meu erro.

Em 1805 divulgou-se em Vizeu um poema ou pasquim, injuriando os

magistrados. Houve devassa e um dos pronunciados foi o doutor Ferro, que

viveu no Porto, e aqui falleceu ha vinte annos, deixando, como prova do seu

mal empregado engenho, um notavel poema que diz respeito á invasão

franceza.

Em um volume de manuscriptos, tenho a celebrada satyra do Ferro, precedida

da seguinte nota: _Este libello é dedicado á memoria do Estopa e Carqueja,

dous heroes que tudo levavam a pau e espada em Vizeu, ahi pelos annos de

mil setecentos e tantos, e de um d'esses valentões tomaram o cognome os

estudantes de Coimbra chamados o Rancho do Carqueja._

Isto não obstante, a correcção do snr. Martins de Carvalho deve antepor-se,

visto que a sentença condemnatoria diz: «_Rancho que denominaram DA

Carqueja, originando este nome de haverem queimado com ella uma porta,

etc._»

BOM HUMOR

(AO NOTICIARISTA DA _ACTUALIDADE_)

Chamar a D. João III _principe perfeito_ podia ser lapso, sem ser

ignorancia; mas nem sequer foi lapso: foi proposito.

Vá o noticiarista ao escriptorio da typographia, onde as _Noites de

insomnia_ são impressas. Peça ao snr. Antonio José da Silva Teixeira,

honrado proprietario da typographia, que lhe mostre a primeira prova do

artigo intitulado D. JOÃO III, e encontrará _piedoso_, como estava no

original, emendado para _principe perfeito_, como está no livro. Se quer

saber por que motivo corrigi o que havia escripto em harmonia com a

historia official, respondo-lhe que está no meu arbitrio alterar os

cognomes que não derivam de razão justificada; e á luz da historia, tanto

monta para mim a _perfeição_ de D. João II, o algoz, como a _piedade_ de D.

João III, o fanatico. Uns historiadores chamaram ao filho de D. Manoel o

_Pai da patria_; outros o _Filho da igreja_; outros, authorisados por Paulo

III, o _Zelador da fé_. Eu chamei-lhe o _principe perfeito_, e cancellei na

prova o titulo de _piedoso_, que lhe dera de camaradagem com o snr. Viale,

por não querer manchar um adjectivo digno de S. Francisco Xavier ou de S.

João de Deus.

Além de quê: está rigosamente estatuido que sejam dogmas historicos a

_perfeição_ e a _piedade_ do D. João II e D. João III? Poderemos, com

juizo, associar-lhes taes epithetos, fóra de ironia? Ora assim como uns

historiadores cognominaram D. João III com variados titulos, dá-me o

noticiarista licença que eu chame _perfeito_ ao principe, e _sabio_ a sua

senhoria? A patarata é a mesma.

N'isto de acolchetar antonomasias, tanto aos reis como aos subditos, quero

e peço que haja liberdade plena. Por exemplo: o redactor da noticia da

_Actualidade_, conhecido entre os seus parceiros por um epitheto qualquer,

está sujeito a que a posteridade lh'o altere ou inverta. Eu, por em quanto,

circumscrevo os limites da minha phantasia a chamar-lhe tolo.

DECLARAÇÃO

Apesar de superfluo o meu testemunho, depois da asseveração do snr. Camillo

Castello Branco, declaro que é verdade ter o mesmo snr. escripto no

original: D. JOÃO III, _o piedoso_, e na prova que lhe enviei, e que

conservo em meu poder, ter o author emendado: D. JOÃO III, o _principe

perfeito_.

Não obstante attentar na emenda feita, mandei, como devia, que o typographo

a observasse.

_A. J. da Silva Teixeira._

FIM DO 2.º NUMERO

Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 02 (de 12) · 第 4 / 4 段