prodigalidade das mercês. Agora, pelo que é da pobreza dos fidalgos, cumpre
saber que a maioria das casas titulares de primeira plana já principiava a
esboroar-se no principio d'este seculo. O golpe da extincção das commendas
pouco sangue já encontrou nos corpos dos commendadores. Se ainda no
_Torneio real_ de 1795, escripto pelo senhor de Pancas, encontramos trinta
e dous fidalgos pompeando as galanices da Asia, indaguemos hoje a paragem
dos netos d'esses homens, que eram os primeiros nomes de Portugal. Onde
estão os haveres do conde de Aveiras? o grande patrimonio do marquez de
Abrantes? de Lavradio? de José Telles da Silva? do marquez de Angeja? do de
Ponte de Lima? do conde da Ega? do de Obidos? do marquez de Nisa? do de
Penalva? do conde de S. Lourenço? do visconde de Barbacena? do marquez de
Tancos? do conde de Sabugal? Estes eram do numero dos trinta e dous
fidalgos que resplandeceram nas cavalhadas no anno de 1795 para festejar o
nascimento do principe D. Antonio. E dos restantes, exceptuada a casa de
Cadaval, com pesar de ss. exc.^as, força é declarar que não ha ahi barão
moderno que lhes inveje a riqueza.
A santa casa da Misericordia de Lisboa abre-nos o seu livro de creditos, no
anno de 1813, e mostra-nos a voragem da parte ainda hypothecavel dos bens
d'esses fidalgos que, em nossos dias, vimos inteiramente desbaratados.
Entre 1813 e 1833 rodaram vinte annos, e a ladeira que resvalava os
dissipadores á voragem era cada vez mais escorregadia. O proprio conde de
S. Lourenço, que presentira o naufragio da nobreza, levada a pique pela
rajada da liberdade, não educou seus filhos melhormente que os seus iguaes
em fidalguia, e desigualissimos em intelligencia. Se elle anteviu a
borrasca, devera colher as velas á nau, que se desmantelou, como as outras
norteadas por palinuros, ignorantes e cegos.
Na lista dos devedores á Misericordia, encontramos algum raro fidalgo, cuja
casa se teve no balanço, e hoje mantém o antigo luzimento. Esse tal
achal-o-hemos acostado á restauração liberal de 1833, e quinhoeiro, por
tanto, das regalias que auferiram os parciaes do imperador. No entanto, dos
que serviram a liberdade, houve d'elles que nem assim lograram reparar as
ruinas.
O leitor curioso poderá estremal-os na seguinte lista:
A casa de Rezende devia á Misericordia de Lisboa com vencimento de juros,
no dia 8 de março de 1813 9:991$509
A de Ponte de Lima 1:270$442
A de Abrantes 8:978$105
A de Tancos 11:750$000
A de Louriçal 9:600$000
A de Obidos 101:490$899[2]
A de S. Vicente 4:000$00
A de Soure 21:080$698
A de Borba 1:278$154
A de Pombeiro 18:508$500
A de Coculim 9:400$000
A de Loulé 5:715$494
A de Lavradio 11:700$000
A de Unhão 4:655$011
A de Vidigueira 353$128[3]
A de Alorna 40:665$011
A de Atouguia 3:989$115
A de S. Miguel 10:295$565
A de Tavora 7:289$433[4]
Seguem-se Antonio Telles da Silva, D. Antonio Soares de Noronha, o conde de
Alvor, dos Arcos, de José Felix da Canha, de D. Diniz d'Almeida, de D. Luiz
de Portugal da Gama, de D. Rodrigo Xavier Pedro de Sousa, e outros,
perfazendo 340:359$700.
O empregado da secretaria da Misericordia, que passou a certidão n'aquelle
mesmo anno de 1813, acrescenta de lavra sua: «Alguns d'estes capitaes se
consideram perdidos, porque os devedores tem provisões com tempo
illimilado, e não possuem bens livres. Ha outros litigiosos e duvidados
pelos devedores; de sorte que são muito poucos os que se podem manifestar
como liquidos.»
Por onde se conclue que a minguada fortuna dos pobresinhos cahira em
honradas mãos! Eu, contra o parecer do escripturario, creio que os
fidalgos, menoscabados de insoluveis, pagaram todos com mais ou menos
pontualidade; e, se não pagaram, desculpe-se-lhes o começarem a
misericordia por si.
Eu sei que os fidalgos do _acaso_, como acima lhes chama o conde de S.
Lourenço, se rejubilam de ter estirado as camadas do seu lodo por cima dos
honrosos vestigios dos outros. Ouso, porém, a liberdade de lembrar a suas
excellencias que a tradição da raça e as pêas dos vinculos conservaram
através dos seculos os nomes historicos; ao passo que estes adventicios
afidalgados, á falta do vinculo que os tenha alguns seculos pendurados no
esgalho do tronco velho, bem póde ser que se estejam desentranhando em
filhos para futuras tripeças.
Se assim fôr, que Deus os faça sapateiros engenhosos, para que a comedia
humana não seja de todo em todo ridicula e inutil ás artes.
[2] O palacio d'esta familia foi comprado ha pouco pelo rei, e dado a
uma senhora d'esta casa aia do principe.
[3] O fallecido marques de Nisa succedera na posse de duas riquissimas
casas, a de Vidigueira e a de Cascaes. O Paul, vastissima propriedade
vendida ao capitalista Eugenio de Almeida, havia sido dado por D. João
I a João das Regras, ascendente dos senhores de Cascaes. O marques
morreu pobre. Deixou dous nobilissimos filhos: um é aprendiz de
negociante no Brasil, o outro tem um engenho de fazer cigarros depois
de ter tido perto de Paris um restaurante, em que era caixeiro um filho
de José Estevão. Ó Vasco da Gama!... Ó Demosthenes lusitano!
[4] Estas quatro ultimas casas estão ementadas na lista como extinctas.
LISBOA
Ha mais de dous seculos que um viajante francez de grande qualidade esteve
em Lisboa. Volvidos trinta annos, o filho do companheiro de viagem d'esse
incognito senhor mandou imprimir em Hollanda as viagens que seu pai
escrevera, e deu este titulo ao livro: _Voyages faits en divers temps en
Espagne, en Portugal, en Allemagne, en France et ailleurs. Par Monsieur M.
**** A Amsterdam, MDCC_.
Entraram os viajantes em Lisboa, no dia 18 de maio de 1669. Em sete paginas
de oitavo pequeno esgotaram as impressões que Portugal lhes suggeriu; mas
não nos detrahiram nem calumniaram. D'essas sete paginas, provavelmente
desconhecidas ao commum dos leitores, a substancia é esta:
«Lisboa é muitissimo povoada, pois que todas as nações alli trazem gente,
sendo muita a mourisma que lá é escrava, e procede de Guiné. As liteiras
são mais que as carroças; mas são magnificas. E, porque a cidade se fórma
de outeiros, o que mais se usa são cavallos e mulas. As igrejas são
aceadissimas e formosas. Os portuguezes andam armados de espada e punhal.
«São os portuguezes mais ciosos de suas esposas que os hespanhoes. As
mulheres sahem de casa menos vezes que as de Madrid: o que faz que lá se
diga que ellas vão á igreja tres vezes no anno: baptisar-se, casar-se e
enterrar-se.
«É notório que o marido, apenas suspeita do proceder da mulher, trata logo
de a esfaquear; d'onde lhes urge a ellas estarem muito de sobreaviso, e
haverem-se com grande precate no logro dos maridos, vingando-se assim da
escravidão em que vivem.
«Sobre a tarde, fomos vêr o convento da Esperança onde a rainha esteve
encerrada seis mezes[5] quando deixou o rei que está na ilha Terceira, a
trezentas leguas distante de Lisboa. D. Pedro, seu irmão, governa
actualmente, e casou com a cunhada, filha do fallecido principe de Nemours
da casa de Saboya. Ella vai ao conselho, e assiste com o marido ás
audiencias. D. Pedro não quiz ainda ir ao paço para ser coroado. Vive em
sua casa, que foi confiscada ao marquez de Castello Rodrigo, que seguiu o
partido de Castella quando Portugal se rebellou. Segundo os tratados, os
bens já deviam ter sido restituidos ao marquez; mas até agora nem n'isso
pensam. Esta casa está situada á ourela do Tejo, perto do palacio real.
Guardam-na vigilantemente trezentas sentinellas vestidas de pardo agaloado
de verde. O paço é quadrado, e cheio de mercearias(?): é edificio pouco
distincto. Tem dentro uma praça limpamente areada, e um chafariz no centro.
«É ahi a praça dos touros. O paço estava desalfaiado. A capella, rica de
azul e ouro, é bellissima. Os armazens dos utensis destinados á marinha de
guerra, são ahi ao pé. Navios mercantis tem poucos. Mandam apenas cinco ou
seis ao Brazil, e servem-se dos inglezes e hollandezes para importar
assucar e outros generos a Lisboa. Ahi perto andam a edificar-se dous
salões, em que os mercadores se ajuntam a negociar. Vimos uma igreja que a
rainha-mãi fandou, e onde está enterrada[6]. Todo o tecto é de ebano, bem
como as columnas de laçarias douradas. Os pavimentos de todas as igrejas de
Lisboa são de adobes azulejados com figuras. Ha ahi uma, onde se veem
retratadas as cabeças das pessoas condemnadas e queimadas pela inquisição.
Presentemente não ha inquisidor geral.
«O palacio onde mora D. Pedro e a rainha é composto de quatro pavilhões
pequenos e dous eirados onde aquella princeza vai de tarde tomar ar com as
damas. Está ahi sempre o «regimento da armada.» As ante-camaras estão
sempre atalaiadas.
«O principe e ella dão audiencia todas as terças feiras. Elle é corpulento,
rosto magro e trigueiro. Desde que esteve doente, usa cabelleira. Sahe
pouco acompanhado, e dizem ser affavel e cortez. A rainha traja á
hespanhola com guarda-infante, com os cabellos soltos pelas costas,
encaracolados, e laçados de fitas. Tem uma filha que parece lindissima,
cuja aia é a condessa de Añon (Unhão). Segue-a o seu mordomo duque de
Cadaval. A rainha tem um anão indio que anda sempre com ella: é tão bem
proporcionado que parece uma criança, visto pelas costas; mas pela frente
não, que já tem barba. Já tinha sido da rainha-mãi, e goza da fama de
engraçado... A rua dos Mercadores é muito bonita. Ha ahi bons acepipes, e
confeitos excellentes. A 18 de maio comemos cerejas e damascos já maduros.
O que é incommodo é não haver neve, nem as bebidas refrigerantes de
Hespanha.»
E nada mais que mereça menção.
A respeito da Lisboa de 1669, que era, pouco menos, a Lisboa de 1754, um
anno antes do terremoto, darei alguns pormenores. O que tenho visto
impresso não satisfaz a curiosidade. João Baptista de Castro, o author do
_Mappa de Portugal_, conheceu a velha Lisboa, e o que nos disse é tão
diminuto que pouco vale. No _Panorama_ e _Archivo_ ha artigos de bons
investigadores; mas pouco mais fazem que distender as noticias de Nicolau
de Oliveira e outros que viram a Lisboa do seculo XVII.
O inedito, que tenho, ácerca da capital, dá noticias que provam ser
escripto em 1754. Não lhe conheço author. Foi homem que, viajando, escrevia
uma geographia da Europa alphabeticamente e levava a sua obra na letra _L_
(_LIXA, chamada pelos europeus LARACHE_), quando, talvez, o terremoto lhe
colheu de golpe a vida, ou lhe esfriou o ardor do trabalho.
No proximo numero trasladarei o que me parecer menos sabido.
[5] A mulher de Affonso VI e de Pedro II.
[6] Era a de Corpus-Christi dos carmelitas descalços, fundada no sitio
em que Domingos Leite Pereira tentou matar D. João IV. Esta igreja
desappareceu no terremoto e incendio de 1755.
FERREIRA RANGEL
Vivia aqui no Porto, ha pouco mais de mez, um homem que, ha vinte annos,
atroava o café-Guichard com o trovão da sua voz. Chamava-se Francisco
Ferreira Ribeiro Pinto Rangel.
Era liberal como um dos mais egregios romanos que morreram no templo de
Diana, á beira de Caio Gracco. Era valente caudilho do povo; e das
primeiras cutiladas do sabre dos esquadrões, nos motins anteriores a 1846,
tinha elle as cicatrizes na cabeça. Era poeta da escóla antiga de Filinto e
Diniz, como se demonstra no seu poema intitalado _D. Sebastião_. Era
versado na lição dos socialistas, cujas doutrinas apregoava nos botequins,
com um fogo de convicção, que lhe afusilava através dos oculos, e mettia
medo nos peitos de mais fino aço.
Teve um irmão que lhe foi antipoda na esphera politica. As pessoas do tempo
de D. Miguel conheceram-o, vivendo faustamente. Chamavam-lhe o
_escrivão-fidalgo_, porque era escrivão e tratava-se á lei da nobreza. Este
homem conheci eu chefe de estado-maior do general realista Macdonell.
Morreu briosamente, em uma madrugada de janeiro de 1847, ao lado do
general, desfechando um par de pistolas de pederneira, cuja escorva a neve
d'aquella noite humedecera. O morto deixou dous filhos, e tres ou quatro
esbeltas meninas. Parece-me que os vi e conheci na minha mocidade. Ouvi
dizer que voltaram ricos do Brazil. Se bem me lembro, já escrevi a
necrologia de um, que por signal estava vivo, e nem sequer me agradeceu,
com um bilhete de visita, ser eu a unica pessoa de Portugal que lhe ajuntou
ao nome esquecido quatro palavras de saudade e dó.
Agora, faço o mesmo ao tio, que morreu ha pouco mais de mez, e ninguem
perguntou que pobretão era um que levaram na tumba dos pobres, entre quatro
tochas, desde a rua Chã até ao Prado.
Pois era, era aquelle Ferreira Rangel que todos ouviamos e respeitavamos, ó
rapazes de ha vinte annos!
A imprensa diária tem olheiros que superintendem em estupros, facadas,
roubos e incestos; mas a alçada d'estes espias não chega até ao esquife do
defunto sem testamento.
Ferreira Rangel chegou ao cemiterio ao fechar de uma noite orvalhada de
dezembro. O coveiro estava prevenido e a postos. Não havia que esperar
garganteações de psalmos. A fossa da valla dos pobres estava aberta. Na
gleba desaterrada alvejava ainda o craneo e as vertebras cervicaes d'outro
pobre. Tresandava o fartum da podridão abafada. Aquillo fez-se depressa. O
caixão baqueou, desamparado de alto. Deu uma toada cava na terra fôfa. Os
portadores d'aquelle pobre aconchegaram os capuzes das orelhas cortadas do
suão, e sahiram de corrida. O coveiro deixou ao relento o caixão, e foi no
dia seguinte, aquecido com aguardente, volver sobre as taboas chuviscadas o
comoro de terra, que alisou com a pata da enxada.
Depois, o eterno silencio.
...................................................
...................................................
Envio os meus sentimentos aos sobrinhos ricos d'este homem, e dispenso-os
do bilhete de visita.
AS JOIAS D'UM MINISTRO DE D. JOÃO V NO PREGO
Este ministro era Alexandre de Gusmão.
Nasceu no Brazil, em Santos, provincia de S. Paulo, por 1695, e falleceu em
Lisboa, em 1753.
Foi cavalleiro professo na ordem de Christo;
Fidalgo da casa real;
Secretario particular de D. João V--_o Dissipador_;
Conselheiro de capa e espada do conselho ultramarino:
E, quando morreu, parte dos seus haveres, as joias de sua defunta mulher
estavam empenhadas, e foram vendidas em hasta publica.
Tenho a triste satisfação de enviar esta novidade aos biographos d'aquelle
varão illustre, e nomeadamente aos escriptores brazileiros, os snrs.
Pereira da Silva e Fernandes Pinheiro, solicitos averiguadores da
accidentada vida do seu conterraneo.
S. exc.^as dizem que Alexandre de Gusmão morreu pobre, tendo perdido os
bens e dous filhos no incendio de sua casa. Os documentos que, pela
primeira vez se escavam no veio inexplorado das secretarias, ajustam-se á
opinião d'aquelles notaveis escriptores; mas o ex-secretario de D. João V
morreu sem ter conhecido as necessidades dos que se dizem pobres.
Do _Livro dos registros_, ou _Copiador_ dos officios remettidos do gabinete
do duque-regedor ás corregedorias, trasladamos o seguinte:
«Para o corregedor do civel da côrte Francisco Xavier de Mattos Broa. Sua
Magestade é servido ordenar que vm.^ce, em cumprimento do precatorio que
lhe passou o desembargador Antonio de Sousa Bermudes de Torres, como juiz
do inventario dos bens de Alexandre de Gusmão, faça logo remetter para o
juizo do inventario para n'elle ser vendido um laço, fita de pescoço, e uns
brincos de diamantes e rubins que se acham no deposito geral da côrte, a
requerimento de Anna Maria do Vencimento, conservando-se no preço d'estas
joias a mesma hypotheca e direito que esta credora tem pela penhora que
n'elles fez. Deus Guarde a vm.^ce Paço 13 de maio de 1755.»
Segue-se, com data do dia anterior, outro officio ao mesmo proposito:
«Para Amador Antonio de Sousa Bermudes de Torres. Sua Magestade deferindo
ao requerimento que lhe fez Miguel de Avilez Carneiro foi servido ordenar
que o corregedor do civel da côrte remettesse ao juizo do inventario dos
bens de Alexandre de Gusmão as joias que se acham no deposito da côrte, com
penhora feita por Anna Maria do Vencimento. É o mesmo senhor servido que
vm.^ce as faça vender em o leilão que se está fazendo dos ditos bens, com a
declaração, porém, que o procedido das ditas joias se não confundirá com o
preço dos outros bens, ficando no valor d'estes conservada a penhora e
hypotheca especial que n'ellas tinha a credora, para se lhe reservar n'esta
parte o direito que tiver para a preferencia. Deus Guarde a vm.^ce Paço 12
de maio de 1755.»
Os descendentes d'esta snr.^a Anna Maria, se a sorte lhes bafejou mais
propicia que ao ministro de D. João V, devem estar hoje de posse das joias
de Alexandre de Gusmão. Regosijem-se.
Quaes seriam os outros bens leiloados? Uma quinta já eu descobri folheando
um grosso volume manuscripto, intitulado: _Tombo das herdades de Nossa
Senhora da Ajuda, de Val de Figueira, e da Atalaia, sitas no termo da villa
de Cabrella, que são do ill.^mo e exc.^mo conde de Oeiras, feito por ordem
de S. M. que Deus guarde. Anno de 1763._
Vejam que cousas eu folheio no intervallo de dous capitulos de romance em
que ha meninas louras e mancebos de pupilla ardente a dialogarem á
competencia com a calhandra portugueza e o sabiá brazileiro!
Pois d'este tombo a pag. 46 v. consta que uma herdade do valido de D. José
partia _com a quinta que foi de Alexandre de Gusmão em Val de Figueira_.
Quem possue hoje a quinta do privado de D. João V?
Não me recordo onde li que elle tivera boa quinta de recreio no valle de
Alcantara, e era convisinha de outra que pertencera ao grande escriptor D.
Francisco Manoel de Mello, que lá se finou, mais pobre que Alexandre de
Gusmão, um victima da libertinagem de D. João IV, outro victima da
ingratidão de D. João V e de seu augusto filho.
Este ministro, irmão do padre Bartholomeu de Gusmão, alcunhado o _Voador_,
foi sempre malquisto dos frades que perseguiram como necromante o inventor
dos balões. Tres homens affectos a D. João V foram grandemente satyrisados
n'aquelle tempo: o marquez de Gouvêa, D. Martinho Mascarenhas, pai do que
depois foi duque de Aveiro, e morreu no patibulo como regicida; frei Gaspar
Moscoso, ou da Encarnação, da mesma familia, e Alexandre de Gusmão.
Eis aqui um _specimen_ das satyras:
/*
_Quem destruir-nos idéa?--Gouvêa._
_Quem merece a Inquisição?--Gusmão._
_Quem o deve acompanhar?--Gaspar._
_Pois, meu rei, acautelar!_
_Olho aberto, e vêde bem,_
_Que no reino não convém._
_Gouvêa, Gusmão, Gaspar._
*/
O ORACULO DO MARQUEZ DE POMBAL
Costumavam os nossos avós queimar os judeus--(não assevero que os avós de
quem isto escreve não fossem tambem queimados). Se os não colhiam ás mãos,
confiscavam-lhes os bens. Mas, dado caso que os judeus fugitivos enviassem
lá do exilio aos reis ou aos ministros bons alvitres da arte de governar,
aceitavam-lhes o favor e praticavam o seu parecer; mas não lhes concediam
voltarem ao reino, sem a condição de se deixarem torrar. Isto aconteceu
nomeadamente com o famoso Antonio Nunes Ribeiro Sanches, medico portuguez,
nascido em Penamacor em 1699, e fallecido em Paris, por 1783. Vivendo 84
annos, grande parte dos quaes curtiu nos invernos da Russia, não precisa
exhibir melhores certidões de bom medico. Se se deixa ficar na patria,
havia de custar-lhe a resistir á temperatura alta que os frades dominicanos
faziam no campo da Lã em obsequio á hygiene da alma.
Antonio Nunes Ribeiro Sanches, conselheiro de estado da imperatriz da
Russia, correspondia-se com os estadistas portuguezes, christãos velhos. O
marquez de Pombal, ou não quiz, ou apesar da sua omnipotencia, não logrou
assegurar repouso na patria ao seu douto oraculo, em paga dos conselhos e
projectos de boa administração que o neto de hebreus lhe suggeriu de Paris,
e o valido ingrato aproveitou, occultando-lhes a procedencia. A creação do
_collegio dos nobres_, por carta de lei de 7 de março de 1761, havia sido
aconselhada por carta de Ribeiro Sanches, datada em Paris, em 19 de
novembro de 1759.
Possuo esta carta autographa. Contém 129 paginas em 4.º maior. Não sei se
um rarissimo livro intitulado _Cartas sobre a educação da mocidade_,
impresso em Colonia em 1760, é o traslado d'este manuscripto. Não vi ainda
exemplar algum. Entre as obras ineditas do illustre medico, nomeadas na
biographia que Vicq-d'Azir lhe escreveu e Francisco Manoel do Nascimento
traduziu, ha uma intitulada: _Plano para a educação de um fidalgo moço._ O
manuscripto, de qualquer modo precioso, que possuo, deve ser o original de
alguma das duas obras.
Dous escriptores portuguezes de subida reputação, ambos ministros de estado
honorarios, os snrs. José Silvestre Ribeiro e D. Antonio da Costa,
enriqueceram recentemente a litteratura patria, com os seus livros
intitulados _Historia da instrucção popular em Portugal desde a fundação da
monarchia até aos nossos dias_, e _Historia dos estabelecimentos
scientificos, litterarios e artisticos de Portugal nos successivos reinados
da monarchia_. Os doutissimos authores, com certeza, aproveitariam optimos
subsidios da leitura do raro livro de Ribeiro Sanches, se o manuscripto,
que tenho, é o rascunho do livro impresso em Colonia, cuja raridade o snr.
Innocencio F. da Silva encarece. O senhor conselheiro José Silvestre
Ribeiro, quando louva o progresso das letras e artes no reinado de D. José
I, recordaria com menção gloriosa o nome obscurecido do medico portuguez, e
daria ao marquez de Pombal a parte mediana que lhe cabe no alvidramento da
reforma da universidade, do collegio dos nobres, nas escólas militares, e
no mais, respeitante aos beneficios que a historia lhe desconta na
ferocissima condição.
Ribeiro Sanches, antes de indicar o methodo proficuo na educação dos
fidalgos, discorre ácerca da educação antiga, e chegando ao meado do seculo
XVI, escreve:
«.... Vimos acima que, desde o anno 1500 até o anno de 1570, existiu o
maior luxo que jámais viu Portugal. El-rei D. Manoel introduziu-o na côrte,
e foi o primeiro que se vestiu umas vezes á franceza, outras á flamenga[7].
Como não teve guerra na Europa, nem seu filho, nem seu bisneto el-rei D.
Sebastião, com as riquezas do Oriente cahiu a fidalguia no maior luxo, e
por consequencia n'aquelle total esquecimento da boa educação que tinha ou
na paço dos reis antigos ou em casa de seus paes. No tempo d'el-rei D.
Pedro, _o Justiceiro_, tanto que se sabia no paço que tinha nascido algum
filho de fidalgo, mandava logo el-rei a sua casa a provisão da moradia ou
fôro que deixava em poder da mãi ou da ama que creava o menino, e n'estes
tempos se chamavam os reis paes de seus vassallos. Depois, crescendo o
numero, se ordenou que sómente se usasse d'esta graça com o primogenito, e
d'esta resolução veio a descahir aquelle amor da patria, porque faltou a
boa educação que tinham no paço todos os filhos de fidalgos com moradia.
«Era já de quasi 80 annos quando o imperador da Ethiopia mandou a
Lisboa um embaixador com grandes presentes para el-rei D. Manoel procurando
sua amizade e propondo reciprocos interesses; e, querendo el-rei
corresponder-lhe, entrou na consideração de quem seria a pessoa que lá
mandasse por embaixador. Succedeu depois, estando el-rei em Evora, mandar
fazer um gibão de uma fazenda rara que lhe chegára da India; e, no dia em
que o vestiu, sahiu a uma sala em que estavam varios fidalgos, a cada um
foi mostrando o gibão, que todos gabavam por comprazer a el-rei; e, como
fosse um d'elles Duarte Galvão, só este o não lisongeou, dizendo-lhe que os
reis de Portugal seus antecessores cuidavam menos em atavios do que em
cumprirem com os encargos que Deus impunha aos reis. Seria melhor que não
fallasse assim para seu descanço, porque isto decidiu a eleição do
embaixador que havia de ir á Ethiopia; e logo el-rei, com palavrosos termos
de honra e conceito, nomeou o pobre ancião; mas assentando que morreria no
caminho como succedeu na altura da ilha do Camarão em 9 de junho de 1517.»
«No tempo d'el-rei D. João II lhe representaram em côrtes que ordenasse se
creassem os fidalgos no paço como era costume antigamente: signal certo que
se educava alli a primeira mocidade do reino. Já dissemos acima que a
educação da nobreza toda se reduzia a fazer o corpo robusto, e fortissimo,
o animo ousado, e destemido; além d'aquelle agrado que reinava no
galanteio, e serviço das senhoras, não deixavam de instruir o animo com
aquelles poucos conhecimentos scientificos que se conheciam: sómente na
familia do infante D. Henrique foi esta educação mais consideravel, porque
sahiram muitos do paço d'aquelle famoso principe excellentemente instruidos
nas mathematicas e boas letras, como foi o grande Albuquerque, e D. João de
Castro.»
Discorre o medico ácerca das causas que abastardaram a educação dos
fidalgos:
«Mas tanto que os reis tiveram mais que dar que as terras da corôa; tanto
que tiveram commendas, governos, e cargos lucrativos, tanto nas conquistas,
como no reino, logo os fidalgos começaram a cercar os reis, e ficarem na
côrte; porque pela adulação, pelo agrado, e pelas artes dos cortezãos
sabiam ganhar as vontades dos reis, não tendo aquellas occasiões forçosas
de obrarem acções illustres para serem premiados por ellas. Isto vêmos
succedeu no tempo d'el-rei D. Duarte, quando ordenou que todo o fidalgo que
não tivesse cargo na côrte que fosse a viver nas suas terras.