Os bens eram grandes em terras e fóros. Casa antiga e solida

Produced by Pedro Saborano

BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA

NOITES DE INSOMNIA

OFFERECIDAS

A QUEM NÃO PÓDE DORMIR

POR

Camillo Castello Branco

PUBLICAÇÃO MENSAL

N.º 2--FEVEREIRO

LIVRARIA INTERNACIONAL

DE

ERNESTO CHARDRON

96, Largo dos Clerigos, 98

PORTO

EUGENIO CHARDRON

4, Largo de S. Francisco, 4

BRAGA

1874

PORTO

TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA

62--Rua da Cancella Velha--62

1874

BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA

NOITES DE INSOMNIA

SUMMARIO

Aquella casa triste... (romance)--Solução do problema historico--Dous

preconceitos--Lisboa--Ferreira Rangel--As joias de im ministro de D. João

5.º no prego--O oraculo do marquez de Pombal--O principe perfeito--Ave

rara--Vergonhas nacionaes--Rancho da Carqueja--Bom humor (resposta ao

noticiarista da "Actualidade")--Declaração.

AQUELLA CASA TRISTE...

(1872)

I

A casa grande das quinze janellas branqueja no espinhaço do monte.

As janellas fecharam-se ha seis mezes, ao mesmo tempo que duas sepulturas

se abriram.

A sepultura do _Africano_ que chegava ao cemiterio, quando a filha

expirava; e a sepultura de Deolinda, quando o sino dobrava ainda nos

funeraes do pai.

* * * * *

Ao homem, que morreu n'aquella casa triste, chamavam o _Africano_.

Estou-a vendo d'aqui.

As vidraças reberveram o sol poente.

Eu, ha hoje dez annos, vi abrir os alicerces d'aquella casa.

Lidavam operarios a centenares.

Entre os alveneis estava um sujeito, na pujança dos annos, magro, macilento

e tostado pelo sol da Africa.

Disseram-me que era homem muito rico, e viera do cabo do mundo, e se

chamava o «Duque» por appellido, e o _Africano_ por alcunha.

Avisinhei-me d'elle com o semblante risonho de cortezias para lhe perguntar

como ia, em monte assim agro e ermo, fabricar edificio tão grandemente

cimentado.

Respondeu que tinha em Benguela uma filha, com quem andára viajando na

Suissa. E que a sua Deolinda, estanciando nas empinadas serras de S.

Gothard, lhe dissera que seria feliz se morasse no topo d'uma montanha, em

casa imitante de outra onde pernoitára, e d'onde vira levantar-se o sol do

seu leito de neve.

E elle, pai extremoso, rico e saudoso da patria, disse á filha que, por

cima da casinha onde nascera, em um outeiro do Minho, sobranceava um alto

monte, golpeado de regatos que derivavam por entre arvoredos fresquissimos.

E a filha, cingindo-se-lhe ao pescoço, exclamára:

--E quando vamos?

--Irei fazer a casa no alto do monte, e depois irás tu, e levaremos para a

capella os ossos de tua mãi. E eu descançarei d'esta labutação em que pude

grangear mais que o preciso ao teu passadío, visto que preferes a viver em

Paris uma casa nas serras de Portugal.

E sahiu de Benguela, provido de dinheiro para edificar o ostentoso _chalet_

que a filha phantasiára.

Ora, os architectos do Minho, como não percebessem a planta do _Africano_,

construiram-lhe um palacio aldeão, espécie de dormitorio monastico, um

leviathan de granito zebrado de vidraças enormes e portas alterosas.

Perto d'alli, na outra lombada do mesmo outeiro, está o antigo solar

torreado dos senhores de Farelães.

E eu que, n'aquelle tempo, me embrenhava nas ruinarias grandiosas do paço

senhorial de Ruivães, a decifrar a lenda meio historica dos Corrêas de Sá

nos frescos do tecto apainelado, ao perpassar pelas grossas cantarias do

_Africano_, dizia entre mim: «O palacio cavalleiroso que desaba, e o

palacio industrial que se levanta. Aquelle recorda as manhas epicas do

peito illustre lusitano, a industria da lança que atirou da India para

alli, na ponta ensanguentada, a pedraria dos reis de Chaul, de Calecut e

Mombaça. Ergue-se o novo palacio para assignalar á posteridade que o peito

moderno lusitano é ainda illustre e emprehendedor, differençando-se do

antigo sómente no que vai entre adaga e azorrague, entre acutilar o indio

pela frente, ou verberar o ethyope pelas costas.»

Mas eu não sabia se aquelle homem, tão entranhadamente pai, amealhára os

seus haveres por entre os perigos do cruzeiro. Talvez que não. A riqueza

não é sempre o estipendio generoso dos homens crueis. E, em corações

afistulados por peçonha de cubiça--sêde execravel que se apaga em

lagrimas--não cabe o exaltado e santissimo sentimento do amor paternal.

Quem chora por um filho não tem olhos que vejam, enxutos, arrancar escravos

dos braços de suas mães. Verdade é que os praticos d'estes ultrajes a

Jesus--ser divino em que Deus se manifestou no mais elevado grau da

consciencia humana--dizem que lá, nas cubatas, não ha mães, nem filhos: ha

individuos bestialmente rebanhados, e inconscientes de laços de familia. Se

assim é, meu Deus, porque não déstes á vossa creatura de epiderme negra o

amor maternal que dulcifica as meiguices da hyena enroscada nos filhos?

* * * * *

Aprumadas as paredes, delineados os repartimentos, os patins, as portas, a

capella e o jardim, Duque, o _Africano_, saudoso da filha, deixou a obra em

meio, e dinheiro de sobra ao seu feitor, pautando-lhe que, no prazo de doze

mezes, a casa estaria feita.

E voltou a Benguela, onde tinha centenas de escravos, armazéns de café, de

marfim, de gommas, e as suas vastas sementeiras sobre dez leguas circulares

de terra, onde o suor da pelle fusca, porejado pelo sol a pique, era um

como adubo forte, um guano de sangue estillado por entre febras vigorosas e

distendidas pelo latego.

Vendeu as fazendas, enfeirou as bestas e os negros, abarrotou a galera de

carregação sua, esquipou a tolda, decorou de frouxeis de sêda o camarim da

filha, e proejou á patria. Parecia um dos antigos viso-reis que voltavam da

India, d'uns que não se chamavam João de Castro nem Affonso de Albuquerque.

--Vale duzentos contos a carga da _Deolinda_!--diziam os amigos do

_Africano_, quando as velas da galera, chamada com o nome da filha de seu

dono, trapeavam bafejadas por aprazivel briza.

A navegação, por perto da costa, e sempre ajudada por prosperos ventos,

correu alegre e descuidosa de receios.

Deolinda deleitava-se a remirar a prata das ondas espumantes, ou, enlevada

em leituras amenas, passava as tardes na tolda, em quanto não chegavam os

seus amores mais queridos, as estrellas do céo e as phosphorescencias do

mar.

Ella era mulata, e bella quanto cabe ser, com a face beijada por aquelles

raios ardentes e o sangue escaldeado das lufadas do deserto--mulata, com as

feições levemente denunciativas da raça materna, quasi tirante a esmaiado

amarellido, um bem harmonisado conjuncto de graças, avantajadas ao que se

diz belleza, debaixo d'este nosso céo de rostos niveos, sangue pobre, e

epiderme alvacenta.

* * * * *

Trasmontada a linha, e festejado o passo com descantes da maruja, o céo

entrou de nublar-se, a nortada a ringir nas gaveas os silvos agoureiros, e

o piloto esperto a encarar mui fito em um nevoeiro que se acastellava,

sobre noite, á volta do sol esmaecido. Era em fevereiro de 1889.

Ao repontar a manhã do dia seguinte, o mar urrava acapellado, as nuvens

desciam a sorver as ondas que se encurvavam, o sol apenas entreluzia frio e

marmoreo na baça claridade da manhã.

Ao meio dia, o escurecer fez-se rapido e pardacento como um crepusculo de

noite invernosa.

Bravejou subita furia de mar, apenas colhido o velame.

O piloto vira terra, e cobrára alento na esperança de aproar a Cabo Verde,

com quanto se temesse d'aquella costa infamada de muitos naufragios, desde

que portuguezes se andam á cata de ouro e opprobrio por entre os colmilhos

da morte, na espadoa das tempestades; a braços com a ira de Deus e dos

homens.

Noite alta, estrondeou no cavername da galera um como estampido de peça que

detonasse dentro.

Deolinda foi colhida nos braços do pai, quando resvalava da camilha ao

pavimento, com o livro das suas orações nas mãos convulsas, e o nome da Mãi

dos afflictos nos labios.

--Morreremos, meu pai?!--perguntou trespassada de horror.

--Animo!--murmurou elle--abraça-te em mim, que eu não quero chorar-te nem

que me chores, filha... Morreremos juntos.

Em cima estrugia a celeuma dos marinheiros, o rojar rispido das amarras, os

gritos, as supplicas, os apitos, o troar da peça que pedia soccorro, e o

dos trovões, que reboavam, e um relampadejar que azulava os abysmos.

E, de subito, a galera, após aquelle repellão que lhe vibrou as cavernas,

quedou-se arquejante, a roçar nos espigões da restinga.

E as vagas, raivando contra aquelle estorvo, galgavam-no rolando-se,

refervendo e marulhando de um bordo a outro. O porão descosia-se, bebendo e

golfando jorros de agua como o monstro dos mares escalavrado pelos arpéos.

O capitão, pallido mas sereno, debruçou-se no corrimão da camara, e disse:

--Encalhou a galera, snr. Duque. É tempo de sahir a terra.

--Nenhuma esperança?--perguntou o _Africano_.

--As vidas salvam-se... talvez...

--Só?...

Perguntou o homem rico; mas aquelle monosyllabo, estrangulado na garganta,

rouquejou como um arranco da vida. _Só!_ Só a vida? O meu suor de quarenta

annos, os meus duzentos contos de reis não se salvam? Eu hei de sahir pobre

d'entre esta riqueza que é minha, que é o repouso da velhice, o patrimonio

de minha filha? _Só!_

E as lanchas, balançadas no vai-vem das ondas, chofravam nos flancos do

navio por entre espadanas de espuma.

Deolinda atravessou corajosa, e firmada no braço do pai, até ao portaló. O

_Africano_ levava no rosto um terror indescriptivel, e nas contorsões e

visagens de afflicção a agonia da peor morte.

E ella saltou de impeto ao escaler, apenas amparada na mão de um

passageiro, que lhe disse:

--Adeus...

--Não vem?--perguntou ella.

--Primeiro hão de ir as crianças, as mulheres e os velhos.

Deolinda contemplou-o alguns momentos, e amparou-se na face do pai, onde as

lagrimas derivavam copiosas.

Os escaleres vararam na areia, revessados no rolo da vaga. Estavam salvos

os velhos, as mulheres e as crianças.

E, logo, os remadores intrepidos que outra vez se arrostavam com a morte,

viram a galera a balouçar-se entre o vagalhão, e ouviram o estralejar do

cavername por sobre os clamores dos naufragos; depois, levantou-se um

grande mar, e a lancha ficou para além d'essa formidavel montanha; e,

quando o escarcéo descahiu para solevar a barca, um momento quieta nas

fauces da voragem, os mareantes já não viram da galera senão o gume da

quilha, e á volta d'ella o bracejar dos agonisantes.

* * * * *

Um dos que alli morreram foi aquelle que, dando a mão a Deolinda, lhe

dissera: «Adeus!»

Era um homem de trinta annos, bem figurado, ares de fina raça e maneiras de

cortezão, com palavras polidas e muito alheias das usuaes nos homens que

viandam por aquellas paragens. Não lhe sei o nome, nem que lh'o soubera o

diria. Foi-lhe tumulo o mar, como se a sorte quizesse que o seu nome se não

lesse em epitaphio. Sei que elle cumprira sentença de tres annos em Angola,

porque aspirára ás honras de ser rico, sem escrupulisar nos meios.

Tinham-lhe dito que os seus conterraneos mais nobilitados se haviam

enriquecido, trocando as riquezas da sã consciencia por outras que levam ao

inferno, é verdade, mas pelas portas do paraiso das regalias d'este mundo.

Via-os saborearem-se em socego dos bens mal adquiridos, sem remorso que

lhes desvelasse as noites, nem injuria da sociedade que lhes pozesse

ferrete na testa; ao revez d'isso elles eram a classe mais ao de cima, a

gente chamada ás honras, sem desconto na estupidez nem proterva reputação,

quanto á procedencia de seus bens de fortuna.

Nascimento illustre, educação primorosa em letras, e bastante descuidada em

moral, pobreza repentina por effeito de demandas que o esbulharam do

patrimonio, impaciencia, ruins exemplos de infames prosperados--todas estas

cousas se travaram de mão para o perderem. O seu crime foi associar-se

desaproveitadamente com moedeiros falsos, prestando-se a servir de passador

de notas no Brazil; no acto, porém, de fazer-se á vela para lá, de um porto

do archipelago açoriano, foi denunciado, preso, e condemnado.

De volta para Portugal, foi visto por Deolinda a bordo da galera de seu

pai, que o tratava com desdem, senão desprezo. A filha do

negreiro--negreiro no começo da vida mercantil, mas depois (bemdita seja a

civilisação!) philanthropo seguidor das leis humanitarias impostas pelo

cruzeiro--soube de seu pai o crime do passageiro, e não se compenetrou do

racional horror de tamanho delicto. Bem que o condemnado não ousasse

abeirar-se dos mercadores, e menos d'ella, Deolinda usou traças de

conversar com elle uma fugitiva hora de noite serena, em quanto o pai, no

seu camarim, formava esquadrões de algarismos, dos quaes tirou a prova real

de que os seus haveres excediam para muito os duzentos contos que lhe

attribuiam.

Desde essa hora da noite estrellada em que ella ouvira palavras nunca

ouvidas, accendeu-se no coração combustivel da mulata o fogo que costuma

purificar as culpas do homem amado, tanto monta que elle seja moedeiro

falso, como homicida, quer negreiro, quer ladrão de encruzilhada.

E elle soube que era amado d'aquella mulher que havia de herdar muito ouro,

e nem por isso lhe deu o galardão de ter descido até ao pobre estigmatisado

para sempre. Nem palavra de humildade agradecida, nem de animo alvoroçado

por esperança de ser, a um tempo, amado e rico. Deolinda ousou arguil-o de

frio e desdenhoso. Elle explicou docemente a sua frialdade, dizendo que só

havia no mundo uma mulher que não devia desprezal-o, e uma só a quem elle

devesse amar sem pejo nem temor de ser repellido.

--Quem é?--perguntou ella em sobresalto.

--É minha mãi. Vou procural-a, e pedir-lhe perdão, porque puz a minha

ignominia á cabeceira do seu leito de moribunda. Se a não mataram vergonhas

e saudades, é porque Deus quer que eu a veja.

* * * * *

Quem sabe ahi dizer o que Deus quer de nós?

O degredado, na volta da patria; alli morreu n'aquelle naufragio, depois

que ajudou a salvar as crianças, as mulheres e os anciãos, despedindo-se de

todos com aquelle sereno adeus que dissera á filha do _Africano_.

E Deolinda, quando soube que elle era um dos vinte e cinco cadaveres

escalavrados na costa de Cabo Verde, chorou poucas lagrimas, e parecia

querer romper no seio uma represa d'ellas, que lhe deliam os estames da

vida.

--Estamos pobres!--exclamava o pai.

--Temos de mais para o que havemos de viver--respondia ella com uma alegre

serenidade.

--Porque has de tu morrer, minha filha?--volvia elle já conformado com a

desgraça.

--Porque senti ha pouco um estalo no coração, e cuidei que morria abafada.

Passou esta ancia, mas sei que hei de morrer d'isto. Parece que vejo a

sepultura aberta, e que o frio do cadaver me trespassa.

O pai aconchegou-a no seio, como quem aquece uma criança enregelada, e

soluçou:

--Ó meu Deus! levai-me minha filha, quando eu me queixar da vossa vontade

que me reduziu a esta pobreza!

II

Quando soou em Ruivães a nova de haver chegado ao Porto o _Africano_, com a

filha, os homens ricos e pobres, da terra e de fóra, contribuiram com mais

ou menos para se lhes fazer uma espera de estrondo em Famalicão.

Contractaram-se as bandas musicaes mais em voga, ou _mais na berra_, como

diziam os antigos. Parece que a phrase seiscentista foi inventada

particularmente para as orchestras d'aquelles sitios, as quaes _berram_

pelas suas guelas de metal, quando a paixão philarmonica as não exalta do

berro ao mugido, do mugido ao urro, e do urro ao bramido. Ha alli trombetas

que parecem ter assistido ao arrazar-se da Jericó da Biblia, e se reservam

para trovejarem o horrendo signal da resurreição em Josaphat.

Eram quatro as philarmonicas chamadas a festejarem a entrada de Antonio

Duque no concelho. A musica de Landim, famosa por seis cornetas de chaves,

que executavam valsas e peças theatraes, de modo que, se Ducis as ouvisse,

diria que a opera lyrica balbuciára os seus primordios entre as florestas

druidicas. A banda de Fafião competia com a de Guinfões na substancia das

trompas e troada das caixas. A de Ruivães avantajava-se ás tres rivaes na

delicadeza das modas e sentimentalismo com que as charamelas respiravam o

sopro d'aquelles musicos, cujas bochechas pareciam estar cheias de alma e

castanhas assadas.

Sou um homem feliz e digno de inveja. Tenho saboreado os innocentes

deleites que prodigalisam ao seu auditorio as quatro bandas musicaes de

Landim, Fafião, Ruivães e Guinfões. Quando algum amigo vai alegrar o ermo

de S. Miguel de Seide, chamo logo a musica mais delicada, a de Ruivães;

principalmente se o amigo é de Lisboa, e frequentador de S. Carlos. O

senhor visconde de Castilho e seu filho Eugenio são chamados a depôr n'este

processo da immortalidade que vou instaurando ao figle e á requinta,

principalmente á requinta de Ruivães. Não vi o senhor visconde chorar de

prazer, mas observei que s. exc.^a estava commovido quando a requinta

assobiava uns guinchos estridentes da _Maria Caxuxa_.

Thomaz Ribeiro, o poeta eminente, recolhia-se ás vezes, não ao seu quarto a

calafetar os ouvidos, mas ao intimo de sua alma a fazer viveiro de

inspirações. Eugenio de Castilho, o poeta das phantasias louras, quer a

musica de Ruivães lhe amolentasse a sensibilidade, quer os rouxinoes das

ramarias lhe déssem invejas dos seus amores, fosse o que fosse, foi

assaltado e vencido d'uma paixão.

Esta paixão tem uma historia. Não sei se elle tenciona escrevel-a nas suas

memorias posthumas; e, assim, contal-a eu, é esbulhal-o da novidade e

primazia; desconfio, porém, que o meu hospede e amigo desconhece a historia

d'aquella raparigaça de cabellos de ouro e ancas boleadas que deslumbrava a

duzia de moças requebradas que lhe apresentei na eira.

Chamava-se ella Amelia de Landim. Contava-se que tinha vindo para alli da

roda dos expostos de Barcellos. Naturalmente, porque era linda e pobre, ou

se vendera ou tinha sido vendida. Assim se disse; mas o certo foi que um

filho de lavrador rico lhe dera o impulso no alto da ladeira, ao fundo da

qual estava a voragem. Póde ser que a alma se abysmasse e requeimasse no

fogo dos infernos por onde resvala a mulher perdida. Póde ser. Do corpo é

que ella não perdera a menor belleza; nem sequer o viçor dos dezoito annos.

Teria então vinte e cinco. Não era belleza peninsular. Aquelle escarlate,

os olhos azues, os opulentos cabellos louros, a pujança das fórmas, a

musculatura rosada e rija, a elegancia congenita, o riso, a desenvoltura

sem despejo, a graça lubrica do trajo, em fim, a mulher, os arvoredos, a

musica de Ruivães, nomeadamente a requinta, e em meio de tudo isto um rapaz

de vinte e dous annos, poeta porque é Castilho, e ardente porque é

trigueiro, e apaixonado porque é ardente, eis aqui o porquê d'aquelles

amores.

Castilho carecia de um confidente com ouvidos e critica. A poesia não lhe

deu para se confidenciar com os sobreiros da mata, nem me consta que elle

se andasse a entalhar na cortiça iniciaes e datas.

O seu confidente foi o morgado de Pereira, ultimo senhor da honra e couto

de Esmeriz, um rapaz de grande coração, que eu apresentei, no Limoeiro, a

José Cardoso Vieira de Castro, que, em 5 de outubro do anno passado, morreu

no degredo, para onde o acompanhou aquelle morgado. Este neto dos Ferreiras

Eças, e dos remotos castellões de Riba d'Ave, é hoje em Cassengo, na

Africa, negociante de café, de marfim, de gommas, de farinhas, etc. Depois

de haver bandarreado vida de fausto, com muitas illusões perdidas, mas

pouquissimas lagrimas, porque a desgraça lhe anda sempre a morder os tacões

das botas, em dia de fieis defuntos, ajoelhava, e então chorava, no

cemiterio de Loanda, defronte do cómoro onde jaz Vieira de Castro, o mais

sublime desgraçado que os homens injuriaram, desde que o sol de Deus aquece

condições de feras dentro dos covis que se chamam arcas do peito.

Ó meu caro morgado, estas linhas não chegam ao seu sertão, nem eu desejo

que as leia, para lhe não darem rebates de saudade d'aquellas noites de

1866, quando vossê e mais o seu gentil confidente, com intervenção da lua,

fallavam da Amelia de Landim, em quanto os meus queridos visconde de

Castilho e Thomaz Ribeiro se embellezavam nas trovas da Custodia da Feira,

que seria Hypathias, se nascesse na Grecia, ou Corina, se os amavíos de

Italia lhe coassem no seio cousas mais limpas do que as coplas que a

trovadora do Minho tirava do estomago em perfumes de vinho verde.

Não sei como Eugenio de Castilho sahiu de S. Miguel de Seide, pelo que

respeita á alma. Lá dizia-se que Amelia, a douda, vehementemente

apaixonada, iria depós elle. Eu receei o lanço de fino amor, d'onde

adviriam ao meu hospede agros desgostos. Se os de Lisboa lh'a vissem,

quantos rivaes, que mordentissimos ciumes! Aquillo era mulher para destinos

extravagantes. Que a sentassem n'uma friza de S. Carlos! Os binoculos

assestados n'ella seriam tantos como as paixões, e ao outro dia a engeitada

de Landim, se não fizesse ministerios, havia de fazer muito amanuense de

secretaria, e dar vazão ao estanque de muito bacharel.

Não foi: estava-lhe reservado menos brilhante, mas mais pacifico destino.

Um dia, appareceu em Landim um homem de Barcellos, procurando a mulher, que

trouxera da roda dos expostos, em 1851, uma menina chamada Amelia. Vivia

ainda a ama que a creára. Foi chamada a exposta á presença do homem que se

dizia portador de uma fausta nova.

Chegou Amelia, o recebeu do velho desconhecido o tratamento de

_excellencia_. Cuidou-se ella ludibrio do sujeito, e riu-se ás casquinadas

para lhe agorentar o prazer da zombaria.

No em tanto, o velho, composto gravemente o aspecto, disse-lhe:

--Minha senhora, não é para gargalhadas a missão que venho cumprir...

--Pois v. s.^a está a dar-me _excellencia_!--volveu Amelia.

--Dou-lhe o tratamento de seu pai e seus avós. Seu pai, o snr. Alvaro de

Mendanha, antiquissimo fidalgo e representante dos alcaides-móres de

Barcellos, falleceu ha tres dias com testamento, em que declara que houvera

de uma sua parenta, áquelle tempo freira no mosteiro de Vayrão, uma filha,

que por justos motivos expozera, assignalando-a com o nome e outras

circumstancias. Acrescenta que tem noticia de existir em Landim essa

menina, que elle reconhece sua filha, e a institue sua universal herdeira.

É v. exc.^a por tanto a herdeira do snr. Alvaro de Mendanha.

A ama abriu a bocca e despediu um _ah_ surdo, que vinha da garganta afogada

pelo jubilo.

Amelia quedou-se immovel, pensativa, triste, e murmurou:

--Se meu pai sabia que eu estava aqui, porque me não levou para a sua

companhia?

--Respondo, minha senhora. Quando v. exc.^a tinha dezoito annos, seu pai

indagou e descobriu que a snr.^a D. Amelia estava aqui; porém, ao mesmo

tempo, exactas ou inexactas informações lhe asseveraram que a senhora

levava uma vida pessima, deshonrada e cheia de opprobrio. Receou, com algum

fundamento, o snr. Alvaro de Mendanha que o aviltamento de sua filha

desluzisse o lustre do seu nome, e por isso abafou o coração e o remorso

debaixo do peso da dignidade, ou recuou diante da irrisão do mundo...

--Mas...--interrompeu Amelia--se eu estava perdida, foi porque elle me

atirou ao mundo e á sorte sem amparo de ninguem...

--Tem razão, minha senhora, e foi essa mesma a razão que moveu seu pai a

deixar-lhe todos os seus bens.

--Mas eu antes queria conhecel-o e ser pobre, que ser rica por morte

d'elle.

--Já que não é remediavel essa nobre dôr--tornou o testamenteiro de

Mendanha--receba v. exc.^a a suprema prova do arrependimento de seu pai.

N'este legado dos bens está o legado do coração. Seja de hoje em diante v.

exc.^a digna d'elle, já que desde esta hora os seus appellidos são dos mais

illustres d'esta provincia.

N'este mesmo dia, D. Amelia de Mendanha sahiu para Barcellos, onde entrou a

occultas para o palacete de seu pai, a fim de trajar luto e apparecer

convenientemente aos numerosos parentes que confluiam a desanojal-a.

Os bens eram grandes em terras e fóros. Casa antiga e solida. Alfaias do

tempo de D. João V a dourarem os salões de tecto apainelado, com

reposteiros brazonados. Na parte mais velha do edificio cadeiras repregadas

de bronze, contadores atauxiados de prata e enxadrezados a côres,

guadalmesins nas paredes, amplas mesas de pés torneados, leitos rendilhados

com as armas dos Mendanhas na espalda, bufetes, jarras da India com as

iniciaes de um governador de Chaul, oriundo de Mendanhas, retratos de

familia a começarem em D. Gil Gutierres de Mendanha, solarengo de

Barcellos. Em meio d'isto, e senhora de tudo isto, aquella Amelia de

Landim, ó meu amigo Eugenio de Castilho! aquella Amelia, que sarabandeava a

_cana verde_, o _Leva agua o regadinho_, e descantava umas _torradas com

manteiga_ que não ha ahi mais que se diga.

--Onde estava ella?

Perguntavam entre si as primas e os primos.

E diziam exactamente onde ella estivera e de que infectos paues se

levantára com azas de ouro aquella borboleta sahida de tão feio casulo!

Relatavam-se os pormenores da sua desgraçada vida, encareciam-se, como se

fosse preciso, as deshonestidades... e visitavam-na.

Volvidos alguns mezes, tres padres, á compíta, lhe sahiram a propôr tres

casamentos: rapazes, parentes, abastados ou arruinados, mas fidalgos e

gentilissimos de suas pessoas.

Rejeitou-os.

Um dia, sahiu D. Amelia de Barcellos, na sua sege, apeou em Famalicão,

sahiu a pé, e parou perto de Landim, á porta de um lavrador. Procurou por

um homem que dava pelo nome de Antonio do Couto-de-baixo.

Sahiu a fallar-lhe no quinteiro, ou alpendre, um sujeito de trinta annos,

boa figura de camponio, estupidez em barda por todo aquelle carão.

--Antonio--disse ella--conheces-me?

--A senhora, a senhora... acho que é...--tartamudeou o lavrador agadanhando

no occipital.

--Sou a Amelia de Landim. Quando eu tinha 15 annos, amei-te. Era então

innocente. Esperava ser tua mulher, e perdi-me. Teu pai não te quiz deixar

casar commigo, porque eu era pobre. Sei que soffreste, e quizeste fugir

para o Brazil, a fim de ganhares dinheiro, para depois me receberes. Eu não

te deixei ir. Sabes qual foi a minha vida depois. Hoje estou rica, ainda te

amo, porque foste a origem da minha desventura. Queres casar commigo?

Responde.

--Quero.

--Então segue-me.

--Deixa-me ir dizer a minha mãi; que essa queria que eu casasse comtigo.

--Podes dizel-o a teu pai, que esse tambem quer agora.

E, d'ahi a momentos, o pai e a mãi sahiram ao alpendre a recebel-a, e

levaram-na para o sobrado entre caricias.

Ahi pernoitou.

O velho nunca pôde desarticular os queixos da apostura do espasmo, desde

que D. Amelia principiou a contar por milhares de alqueires de milho o

rendimento de sua casa.

Ao outro dia, que era domingo, leram-se os primeiros banhos, e, com

dispensa dos immediatos, casaram-se na igreja de Santa Maria de Abbade.

* * * * *

Mas a que proposito cahiu este conto, que não tem que vêr com AQUELLA CASA

TRISTE!...

Ah! foi por amor da requinta da musica de Ruivães, que está agora silvando

na Barca da Trofa, á espera de Antonio Duque, o _Africano_.

III

As quatro musicas reunidas na Ponte da Trofa, depois de espavorirem os

passarinhos, que, ao descer da tarde, se emboscavam nas ramarias do rio

Ave, retrocederam, porque o Duque não chegou. Os promotores da festa,

mandando sobraçar os feixes de foguetes de tres estouros, disseram entre si

que o _Africano_, faltando á hora da espera triumphal, bem demonstrava ser

filho do capador da Lamela. Outro era de parecer que o Duque, tratando de

resto as pessoas que o obsequiavam, dava a perceber que não queria

amigos... do seu dinheiro.

O _Africano_ havia escripto de Lisboa ao seu feitor, annunciando-lhe o dia

em que tencionava chegar á sua casa de Ruivães, com recommendação de lhe

ter preparados os leitos e assoldadada uma boa criada para o quarto de sua

filha.

Divulgou o feitor a nova, sem propalar a do naufragio, porque a não sabia.

Se o homem lesse gazetas, informaria os seus visinhos do desastre de seu

amo, da riqueza engolida pelas guelas da tormenta, da quasi pobreza em que

ficára o naufrago, e, em fim, das piedosas lastimas com que os periodicos

deploravam a catastrophe de duzentos contos grangeados honestamente. Se

isto se soubesse em Ruivães, não haveria quem se afanasse em busca de

musicas, competindo entre si os obsequiadores sobre qual arranjaria aquella

que maiores gritos fazia dar á fama pelos buracos da requinta. Quanto ás

vinte e quatro duzias de foguetes de tres estouros, que os rapazinhos de

Ruivães tinham carregado até á Ponte da Trofa, é bem de vêr que ninguem se

abalançaria a tamanho estrondo de generosidade, se se soubesse que o Duque

não vinha em circumstancias de chorar de ternura abraçado ao peito

magnanimo d'onde rabiavam tantos foguetes.

No dia marcado ao feitor, devia o _Africano_ chegar á Ponte, onde era

esperado; porém, apeando na estalagem da Carriça, legua e meia distante,

ouviu dizer que na Trofa estava o poder do mundo, com quatro musicas, e

muito fogo do ar, á espera de um brazileiro que vinha da Africa.

Ouvido isto, Duque disse ao boleeiro que recolhesse a parelha da sege,

porque resolvera sahir de madrugada.

Depois, foi contar á filha o que ouvira, e o desgosto que queria evitar no

encontro de festas, tão desapropositadas da tristeza de ambos.

Deolinda, prostrada no leito, approvou a resolução do pai, queixando-se de

agonias, suffocações e desmaios do coração, que mal a deixavam seguir a

jornada.

Passou o pai o restante do dia e parte da noite á beira da cama, inventando

com santo esforço alegrias que divertissem Deolinda da concentração que uma

ou outra lagrima desafogava por momentos. Alegrias!...

Que heroismos cabem em peito de pai! Quantos ha que são suppliciados por

esse amor que parece vir da mão de Deus! Que maiores angustias tem esta

vida, se comparamos todas á d'aquelle pai que alli estava ao pé da filha

que os medicos de Lisboa lhe haviam auscultado e considerado perdida!

Mas elle, acreditando na sciencia que tem a certeza de ser lesão mortal a

hypertrophia do coração, afigurava-se-lhe que a Providencia o não

castigaria tão severamente, fazendo-o sobreviver ao perdimento dos bens,

para depois amparar em seus braços a filha agonisante. Nunca discutira

entre si se Deus era preciso, ou que parte lhe coubesse no regimento d'este

mundo. São meditações estas que, em Africa, passam rapidas como o sirôco,

mas não abrazam, nem obrigam as caravanas a curvar o corpo até bater com as

faces nos areaes. Os que por alli veniagam, á imitação do pai de Deolinda,

pensam, se acaso pensam, que a justiça do céo tem alçada em mais amenos

climas, e descura saber se lá o homem tem mais ou menos semelhança com o

tigre. Porém, depois que o céo se azula e estrella, áquem da linha, e a

briza refrigera o sangue, os expatriados, maiormente os ricos, não recusam

crêr que ha Deus, dadas certas condições; fazem-lhe o obsequio de o

conjecturar sentado á mão direita do Padre Eterno, e absorvido na perennal

gloria de sua divindade, sem entender nas trivialidades d'este globo, mais

pequeno que os milhares de mundos que lhe circumvalam á ourela do throno.

Esta philosophia é grandiosa e barata. Cançam-se os mestres em a propagar,

e todavia qualquer sandeu bem engraxado a tem espontanea na alma, como

tortulho em lodaçal, sem que os philosophos lh'a inculquem. Estudem Ario,

Spinosa, Renan, e outros, afóra o meu bacalhoeiro, que tem dentro de si

tres philosophos, um portico, um lyceu, dentro de si, repito, porque o

_si_, o _elle_, são as cedulas bancarias, a burra, que tem um nome de

predestinação para aviso e escarmento de sabios que se burrificam, não

querendo acabar de entender que saber, honras, regalos, respeitos,

inviolabilidades, vem tudo da burra.

Succede, porém, uma vez ou outra, encrespar-se uma onda, que logo se

arqueia em vagalhão, e se abre em voragem. Ahi resvala a riqueza do homem,

que se arrodelára com ella das farpas do mundo. Os brilhantes impenetraveis

do arnez cahiram e rolam na profundidade do abysmo. Aqui está o homem a

pensar em Deus, porque está pobre, está sósinho, já se não vê idolo dos

outros e divindade de si proprio. A desgraça, que traz sempre comsigo um

anjo vestido no céo com uma luz que arde inextinguivel no tumulo de Silvio

Pellico, assenta-se ao lado do infeliz, e começa por lhe dizer:

«Que eram esses bens da vida, se tão depressa te reduziste a esta pobreza?

Olha tu para as estrellas que scintillam serenamente sobre a voragem que

t'os devorou, e pede ao meu anjo que te diga o que ha d'estes milhões de

mundos para além!»

Ah! quando esta voz repercute na consciencia de um pai, e ao mesmo tempo a

aza da morte roça e tinge de rubor febril a face de sua filha, então sim,

Deus entreluz na treva, a alma crê, mas crê para pedir de mãos erguidas.

Isto é fé, é fé que relampagueia; mas eu não sei se alguma hora a razão dos

grandes desgraçados foi alumiada por esse relampago.

Pelo que, assim orava o _Africano_, ás quatro horas da manhã, em pé,

defronte do leito da filha adormecida.

* * * * *

Entraram na casa apalaçada de Ruivães, inesperadamente.

Quando o souberam os visinhos, um correu á igreja a repicar o sino e a

sineta, outro rompeu as nuvens com girandolas, a orchestra da terra, que

andava dispersa a sachar os milharaes, confluiu de galope a casa do mestre,

escodeou as mãos do regato, travou dos metaes, e prorompeu estridulamente á

porta do _Africano_, tocando o hymno de 20, o hymno do snr. Costa Cabral, o

hymno da snr.^a Maria da Fonte, o hymno do snr. duque de Saldanha, e o do

Santo Padre Pio IX.

O _Africano_ sahiu á janella com sua filha, cortejou o publico, assistiu a

duas mazurkas tocadas com variações de requinta, e pediu venia para

recolher-se em razão de sua filha se sentir mal com o sol que lhe dava no

rosto.

O publico murmurou, tregeitando uns momos significativos de menos respeito.

O feitor foi dizer a seu amo que era preciso dar de beber aos musicos, e

receber a visita dos parentes e mais lavradores.

O Duque respondeu:

--Vá ahi fóra ao pateo, e diga bem alto que eu estou pobre.

--Pobre!--acudiu o feitor casquinando um riso perspicaz--Bem me fio eu

n'isso! V. s.^a está a mangar!...

--Faça o que lhe digo--volveu severamente o amo.

E, de facto, o criado foi ao pateo, chamou a si os lavradores mais grados,

o mestre da musica, o boticario de Délães, e o boticario de Landim, e o

regedor de Vermoim, e disse-lhes:

--O ill.^mo snr. Duque manda-me dizer a vossemecês que está pobre.

Os circumstautes olharam uns para os outros, embrutecidos pelo mesmo

choque. Um d'elles, porém, que eu presumo fosse um dos dous boticarios, deu

aos beiços um geito de quem vai orar. Encararam-o todos, e o boticario

tirou do peito estas duas palavras:

--Ora bolas!

E sahiu do pateo.

Tenho esquadrinhado o melhor sentido d'aquellas palavras do attico

pharmaceutico. Consultei philologos, que mais convisinham d'este sujeito, e

apenas colhi que as expressões «ora bolas» montavam tanto como dizer: ora

bolas.

Eu, porém, dou mais lata interpretação ao epiphonema, sabendo que todo

aquelle gentio _boloirou_ para casa[1].

O _Africano_, passados seis mezes, procurou um brazileiro rico de Ninães,

recentemente chegado, e disse-lhe:

--Sei que o senhor está resolvido a edificar uma casa. Se quer poupar-se a

grandes despezas, incommodos e desgostos, compre-me a minha. Vendo-lh'a por

metade do que me custou, com uma condição: se eu e minha filha não tivermos

morrido dentro de seis mezes, serei obrigado a dar-lhe a casa no fim d'este

prazo; mas, n'estes primeiros seis mezes, o senhor não poderá occupal-a.

Pediu o brazileiro explicações de tão estranha clausula.

O Duque respondeu:

--Minha filha está mortalmente enferma. Tem um aneurisma. Eu tambem me

sinto no termo da vida. Vou morrendo a cada hora que a doença me deixa vêr

a morte na face de minha filha. Não hei de sobreviver-lhe, se Deus me não

fizer o beneficio de me levar adiante.

Consolou-o o brazileiro conforme soube, aceitou a proposta, e assignou as

escripturas no dia seguinte, entregando ao vendedor alguns contos de reis.

Pagou o _Africano_ as dividas contrahidas em Cabo-Verde, encerrou-se na

ante-camara do quarto de sua filha, e deu-se pressa em aggravar os seus

padecimentos á custa de se remirar no seu infortunio, de cortar bem dentro

as fibras ainda rijas do coração, antecipando a imagem da filha morta,

repulsando todo o allivio da esperança, furtando-se a todo o desafogo,

matando-se com a lentidão de um desvairado que se encavernasse n'um antro,

esperando sem terror a entrada da fera, e anciando-a para se lhe rasgar nas

presas.

Ao quinto mez do contracto, os padecimentos de Deolinda tocaram nos

extremos symptomas da morte. As hemorrhagias amiudaram-se. Estava já

entorpecida, immovel, salvo quando arrancava do seio as aspirações, que

revelavam ao través das coberturas da cama os arquejos do coração.

N'esta conjunctura, o pai estabeleceu entre si e Deus uma convenção que era

já delirio precursor da demencia ou da morte: «Se ella hoje morrer, ou Deus

me mata ámanhã, ou, quando ella estiver sepultada, eu me matarei.»

O parocho, que sacramentára Deolinda, ouviu estas vozes, e disse aos botões

da sua batina: «Este homem está no inferno.»

Quando ficou sósinha, Deolinda chamou o pai e disse-lhe:

--Não quero ir d'esta vida, sem dizer-lhe um segredo com que não devo

morrer. No meu bahú está uma caixinha de folha, que o mar lançou á praia,

depois do naufragio. Levaram-me em Cabo-Verde esta caixinha, cuidando um

marujo que fosse minha. Abri-a, e vi que encerrava cartas de uma mãi muito

extremosa para seu filho. O filho era aquelle rapaz que vinha do degredo, e

salvou os velhos, e as crianças, antes de morrer. A mãi, que lhe escrevia,

diz-lhe em algumas cartas que tem sentido as angustias da fome. Chama-se

ella... Meu pai lhe verá o nome e a terra onde vivia... Se tiver morrido,

feliz d'ella. Se ainda viver, meu pai, mande-lhe como esmola o que ficar do

meu espolio, e diga-lhe que eu... lhe amei o seu infeliz filho... até

morrer... por elle!...

--Cumprirei a tua vontade, minha filha--respondeu o pai.

* * * * *

Ditas aquellas palavras, o _Africano_ encarou na filha com a fixidez torva

de um amaurotico. Depois, como se sentisse dobrar sobre os joelhos, sabiu

da alcova, atirou-se como ebrio para o leito, e murmurou estas vozes:

--Meu Deus! morro por amor de minha filha, e ella... morre por outro... Bem

podia consentir a desgraça que eu morresse sem este desengano... Vinte

annos a adorar esta filha, um anno a agonisar ao pé da sua agonia... e a

final ouço-lhe dizer que morre por um homem... que não era seu pai...

Escabujou em ancias muito afflictivas, pedindo a Deus com dilacerante

esforço que lhe abreviasse o transe. Rompeu em soluços; e, suffocado pelo

choro ou por um golfo de sangue, arrancou da vida n'um estremecimento

instantaneo.

Deolinda ouviu o murmurio rouco d'esta convulsão da morte, e voltou a face

para onde suppunha que estava o pai.

Chamou-o. Sentou-se no leito com supremo esforço. Tangeu a campainha.

Acudiu a criada, a quem ella pediu que lhe désse o seu vestido. Foi nos

braços da criada á sala contigua, onde o pai tinha o seu leito. Dobrou-se

sobre o peito d'elle, colhendo-lhe nos labios um halito ainda quente, como

vestigio da alma que passára queimando as fibras por onde abrira a fuga do

seu inferno.

--Morto!--bradou ella, golfando-lhe no seio o derradeiro sangue.

Transportada ao canapé fronteiro, alli se quedou empedernida. Não houve

rogos que a tirassem de lá. Viu amortalhar o cadaver de seu pai, viu-o

sahir no esquife para ser depositado na capella da casa, ouviu o ultimo

dobre da sepultura; e então, comprimindo o seio esquerdo com ambas as mãos,

invocou a compaixão da Virgem Santissima, e expirou.

* * * * *

Lá está em cima aquella casa triste... O brazileiro, que a comprou, não a

quiz habitar. As janellas nunca mais se abriram. O vestido, que despiram do

cadaver de Deolinda, pende ainda da espalda do canapé em que ella morreu.

[1] Não se procure _boloirar_ nos diccionarios, em quanto os

diccionaristas ignorarem a linguagem popular do classico povo do Minho

e Traz-os-Montes. Lá, fazer rolar uma bola, é _boloirar_.

SOLUÇÃO DO PROBLEMA HISTORICO (I)

_Snr. redactor das NOITES DE INSOMNIA_.

Conseguiu vossê que eu adormecesse antes de lêr a terceira sentença a favor

d'el-rei D. Sebastião. Muito obrigado a vossê e aos tres papas.

Aquelle D. Sebastião que em 1630, com 76 annos de idade, tinha uns filhos,

que ninguem depois conheceu, seria causa a eu descrer da authenticidade das

sentenças, se não soubesse que santo Isidoro, arcebispo de Sevilha, o

prophetisou assim, tal e quejando, com filhos, netos e bisnetos, um dos

quaes afianço a vossê que não sou eu.

Palavras de santo Isidoro: _Muitos filhos e filhas terá o Encoberto de

legitimo matrimonio, e sempre seus descendentes, uns depois dos outros,

reinarão pacificamente_ (não diz o santo onde se passa esta reinação); _e o

sceptro sagrado do temporal será administrado e regido por elles; e a

final, fazendo-se pagens do povo, tornarão do deserto_.

Não ha nada mais claro. Os descendentes de D. Sebastião, voltando do

deserto, serão pagens do povo. Por «pagens do povo» percebo eu que o

vidente de Sevilha queria fallar nos demagogos d'este paiz, nos oradores do

Casino, no Guerra Junqueiro, nos redactores do _Diario da Tarde_, no Eça e

no Ortigão, nos satanicos, e nos mais socialistas sobre quem pesam o gladio

do Zêzere, os pés do conselheiro Arrobas e o redenho do conselheiro Viale.

Os descendentes do Encoberto vem, pelos modos, a ser aquelles. Quanto a

virem do deserto, como resa a prophecia, é obvia a interpretação. «Deserto»

aqui, entende-se o conteúdo pelo continente. Veja se me percebe. Deserto é

o vasio da algibeira. Isto percebe vossê bem. Um homem está no deserto

quando não tem no bolso a voz que clama no mesmo. Deserto é estar homem só

como succede a toda a pessoa que não tem

_Aquillo com que mais se accende o engenho,_

como disse um a quem o predilecto dos tres papas mandou dar 15$000 reis por

anno em paga de ter perdido um olho em Africa e ter feito os _Lusiadas_ na

India.

Já vê vossê que, por este lado, as sentenças dos tres bispos de Roma são

invulneraveis. D. Sebastião, com toda a certeza, de quinze em quinze annos,

ia até Roma mostrar ao papa que tinha uma perna maior que a outra, um tufo

de pello no hombro esquerdo, o joanete no dedo mendinho, e um dente de

menos na queixada de baixo. Quando lá foi aos 76 annos, aposto que já não

tinha dente nenhum.

Os documentos pontificios que vossê apresentou resistiriam á critica de

João Pedro Ribeiro e Theophilo Braga. Este sabio e vossê são os dous homens

que n'este seculo tem achado as melhores peças historicas. Vossê achou as

sentenças a favor do Encoberto; o doutor Theophilo achou a carta de Ayres

Barbosa a André de Rezende. Eu achei a vossês, os dous, dous odres de

sciencia em que espero exercitar o meu intellecto como os touros exercitam

a força nos ôdres de vento. Creio que está dada a solução do problema

historico. Mande-me o premio pelo portador. E quando achar outra cousa, com

esse faro de Herder que Deus lhe deu, abra torneio aos talentos, e faça

invejas ao Theophilo a vêr se elle descobre agora a resposta de André de

Rezende a Ayres Barbosa.

* * * * *

Entreguei o premio, antes que venha outra carta mais insensata. N'este paiz

quem, como Theophilo Braga e eu, achar alguma cousa, está perdido.

DOUS PRECONCEITOS

O primeiro, é dizer-se que, no governo absoluto, as condecorações, os fóros

de fidalguia e os tratamentos eram judiciosamente dados e com muita

parcimonia a quem os merecia.

* * * * *

O segundo, é dizer-se absolutamente que a mudança do regimen politico de

1834 empobreceu de repente os fidalgos, esbulhando-os dos seus rendimentos

provindos de privilegios, encargos, commendas, etc.

* * * * *

Quanto ao primeiro preconceito, ouça-se o depoimento de um notavel fidalgo,

que estudou cincoenta annos, e meditou dezesete nas lobregas cavernas da

Junqueira. Era D. João José Ansberto de Noronha, conde de S. Lourenço, que

morreu em 1804, com 79 annos de idade. No penultimo anno de sua vida,

escreveu a sua ultima obra, que ainda não sahiu das gavetas avarentas dos

curiosos de manuscriptos, e intitulou-a _Apontamentos politicos_.

Seja o conde de S. Lourenço quem impugne a arguição injusta que se faz ao

governo representativo, doestando-o de perdulario de titulos e

nobilitações. Observe-se que o fidalgo escrevia em 1803, e que as ultimas

linhas d'este trecho do seu escripto são uma prophecia; que, n'aquelle

tempo, a raros espiritos se prefiguravam idéas de liberdade, e menos ainda

aos que haviam de ser apeados por ella do pedestal de sete seculos.

Eis a passagem que tem por epigraphe--_Dos ennobrecidos_:

«Os serviços ordinarios, e por assim dizer materiaes, pagam-se com

dinheiro, que se tarifa como qualquer salario, á proporção do trabalho. Os

serviços relevantes, isto é, os que são feitos com perigo de vida, com

força de engenho, ou com espirito de patriotismo, e de que resultam grandes

vantagens ou de facto, ou de exemplo, pagam-se com signaes honorificos, com

distincções, e com titulos, porque se julga, que não tendo preço, se não

podem remunerar senão com honras. E segue-se d'isto, que a moeda mais

preciosa do thesouro do soberano é a faculdade de distinguir e honrar,

porque alcança com ella o que não póde comprar com dinheiro. Mas se ha

facilidade em conceder honras, se se alcançam sem sacrificios, nem

habilidade, n'esse caso todos as querem, muitos as conseguem, e ninguem

fica contente; uns porque querem mais, outros porque ainda não tiveram, e

outros que as tem por seus justos cabaes, porque se acham confundidos na

inundação dos nobres de _acaso_. As consequencias são, que as distincções

deixam de o ser, porque se fazem geraes; que empobrece o thesouro politico

do soberano, porque a moeda mais preciosa perde o seu valor, e que se perde

o espirito da gloria, porque os individuos vem a achar por fim mais

vantagens em buscar conveniencia, do que signaes, que pela sua

multiplicidade, e modo por que se alcançaram vieram a ser de estimação

incerta.

«Com effeito tem-se vulgarisado as honras, não só á força de concessões

avulsas, mas até de tarifas. Na divisão das tres ordens militares deram-se

tantos habitos de S. Thiago, que apesar de ser uma ordem tão respeitavel,

já ninguem a quer. Concedea-se o fôro de fidalgo a quem no emprestimo real

entrasse com porções avultadas, sem embargo de ficar ganhando juros.

Concedeu-se o mesmo fôro a quem lavrasse certa porção de sêda para vender.

Os officiaes de secretaria, cujo numero tem crescido tanto, tem o habito de

Christo no primeiro anno de serviço, e o fôro de escudeiro no decimo. Os

officiaes do erario tem o habito de Christo, etc., etc., etc.

«Esta quantidade de tarifas em muito poucos annos reduz os tres milhões de

habitantes a tres milhões de nobres: n'este caso a maior distincção, que

póde haver, é não ser nobre; e o modo de a conseguir é não servindo o

estado de modo nenhum. Parecerá isto um paradoxo, mas a experiencia já vai

mostrando que o não é.

«As leis do tratamento já não tem vigor, e a arrogação de senhorias, e

excellencias é geral.

«É da maior difficuldade achar gente para trabalhar, e tanto que no anno de

1801 querendo-se expulsar os gallegos em razão da guerra, não se fez porque

o intendente geral da policia representou, que se se mandassem embora, não

haveria quem servisse a cidade de Lisboa e a do Porto.

«Se um corpo de nação não póde passar sem tomar criados estrangeiros, não

para as artes, mas para o serviço ordinario, ou é a nação mais fidalga do

mundo, ou a mais paralytica, _e em todo o caso a que mais velozmente corre

para o systema da igualdade, e que mais velozmente se afasta da

monarchia_.»

Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 02 (de 12) · 第 1 / 4 段