Um d'estes dias aconteceu-me como á rainha Christina da _Joanna do
Arco_: tive saudades da Aurora.
Levantei-me alvoroçado e resolvi ir procural-a, não aos reportorios, em
que eu já vou perdendo muito a fé, mas nas ruas, onde uma pessoa já não
póde perder a fé, porque, quando sae, a deixa em casa.
E sahi a procurar a aurora, ás sete horas da manhã.
Infelizmente não a encontrei senão nos cartazes que annunciavam a
_Joanna do Arco_ e diziam:
_Aurora, filha do rei Faz-Tudo e da rainha Christina Amina--snr.ª Amelia
Menezes._
Ora as auroras dos cartazes são como tudo o que é do theatro: só se vêem
á noite.
E, como d'ahi até poder vêr amanhecer no palco do theatro Baquet
medeavam muitas horas, decidi aproveitar o meu tempo o melhor
possivel, vendo tudo quanto apparecia, ouvindo o que se dizia.
Vi e ouvi.
Na loja da primeira esquina poisava um gallego o seu copo d'aguardente
sobre o balcão, com attitude de quem se despedia.
Mas, ao contrario dos olhos de quem se despede, que estão quasi sempre
humidos, o copo estava enxuto.
Tambem podera! É que a aguardente é um combustivel para o carrejão. Quer
armar-se pela manhã, porque o seu combate começa quasi logo com o dia.
Aquella é a sua polvora;--com ella fará fogo. Depois de abastecido o
paiol, não receiará succumbir; e se ás vezes, durante o dia, houver
suada refrega, irá beber tantos copinhos quantos cartuxos requisitaria
um soldado em lance identico.
O que reconheci é que todos pela manhã, quando saiem á rua, o mais que
procuram é--a força.
Ora hoje a força já não está, como nos tempos pagãos, nos cabellos de
Sansão.
Hoje a força é a aguardente, a revalesciére, o oleo de figados de
bacalhau, o bife, e, apesar de se chamar frango a uma pessoa fraca, a
força tambem está no frango.
Eu digo isto porque encontrei uma velhinha, tão curvada, que parecia ir
procurando já a sepultura, a embrulhar no seu capote um frango que
provavelmente fôra comprar ao mercado.
Elle, o franguito, ia muito quieto, como se conhecesse que era
cobardia luctar com a velhice. Para que podia servir-lhe, sem mais nada,
porque ella não levava realmente mais compra alguma?
Para deitar á panella, com uma pouca d'agua e sobre uma pouca de lenha,
e para depois o comer, ella, que precisa de força para esperar pela
morte, ou para o dar a um neto, que está provavelmente com variola, e
precisa de força para resistir á morte.
Em todo o caso eu desconfio que fosse para o neto, pela pressa que a
velhinha se dava.
Não olhava para ninguem, e ia encostada ás casas como se quizesse evitar
encontros e demoras.
Provavelmente levava na algibeira a chave da casa, e a criança havia
ficado fechada, em quanto ella fôra comprar ao mercado o franguito com
uns restos de dinheiro abençoado que lhe esmolára o anonymo Y.
E ia com seu receio de que o neto precisasse d'alguma coisa, e desse
pela sua falta, sem se lembrar de que, quando acabar de velhice, ninguem
certamente dará pela falta d'ella.
Isso não lhe importa.
Morrer, morre ella se lhe faltar o neto. É um peso, é, mas a vida, que é
tambem um relogio, precisa d'um peso para regular, como os relogios.
O peso de mais uma bocca é para ella uma consolação.
Naturalmente o rapasinho já ganhava o seu vintem a vender jornaes. Não
era tanto pelo dinheiro, que a avó gostava do modo de vida, como
pelas novidades, que o neto contava á noite...
Tudo isso estava provavelmente em risco d'acabar,--as novidades,
a vida do neto e a alegria da avó. Por isso ella ia tão
afadigada--coitadinha!--com a sua velhice e com a sua compra...
Agora começo eu a encontrar o rancho dos criados, com as amplas cestas
enfiadas no braço.
De todas as cestas, a que mais me deu na vista foi uma que ia
completamente cheia de alfaces.
--Familia de grilos! pensei eu.
E depois ratifiquei, porque o criado, referindo-se decerto a algum dos
patrões, ia dizendo para o companheiro:
--E elle está-me sempre a _cantar_!
Uma criada dialogava com outra:
--Hoje prego-lh'a...
--Bem me fio eu n'isso!
--Ora tu verás.
--Então que fazes?
--Não me ha-de tornar a deixar fechada: hoje perco a chave da porta da rua.
Eu disse para os meus botões:
--Trabalho escusado, o de te fechar a porta! As criadas, como aves de
rapina que são, em poucas gaiolas cabem, de modo que têem sempre a
cabeça de fóra...
Á porta do Anjo cantavam dois cegos o _Noivado do sepulchro_; o povo
fazia circulo:
Vai alta a lumha na mansão di a morte,
Já meia noite com bagar zoou.
Não fui philosophando sobre a deturpação dos formosos versos do poeta
portuense. Pensei mais nos cegos que no poeta, Deus me perdôe! Como são
cegos, não podem vêr distinctamente a prosodia e a ortographia; isso já
se sabe. No que eu pensei foi n'este continuo andar divertindo os
outros, sem siquer terem tempo de se lembrar de que são cegos. Lá vão
chorando na viola as suas maguas, mas tão disfarçadamente, que á gente
parece-lhe que estão cantando, e elles estão talvez chorando. Passam no
mundo sem vêr o mundo, e isso pouco lhes importa; o que lhes custa mais
decerto é não verem o dinheiro...
N'uma barraca do mercado, um soldado da guarda municipal offerecia
morangos a uma criada de servir.
Que delicado amor aquelle, que elles iam mettendo na massa do sangue! O
morango é a fructa mais innocente, mais saborosa, talvez a mais
agradavel, e este facto, que eu presenciei, depõe realmente muito a
favor da educação do nosso exercito. Podiam amar-se com peixe frito, e
amar-se-iam assim ha vinte annos; agora o exercito ama comendo morango,
fructa que parece haver nascido para se comer de luvas, tão pequenina e
rosada é!
Quando recolhia, vinham adeante de mim dois pequenitos, com os seus
livros sobraçados.
Pelo que diziam, deprehendi que entravam n'aquelle dia o exame
d'instrucção primaria.
--Levas medo? perguntava um.
--Eu não. E tu?
--Eu! nenhum!
E, coitadinhos, iam tremulos como passarinhos quando a gente péga n'elles.
--Infelizes! pensei eu, lá vos espera o visco.
Sabeis a _origem da palavra districto_? Sabeis _qual a fórma geometrica
do reino de Portugal_?
Não sabeis? Pobresinhos de vós, que lá ficareis a esvoaçar infructifera
e desastradamente no visco da reprovação! Pois então ides fazer exame
d'instrucção primaria, ó pequenos scelerados, e não sabeis tudo!
Estive capaz de dizer que retrocedessem.
Todavia deixei-os ir, entregues ao seu destino, e ás orações das mães,
que em sua extrema bondade pensam que hão de vencer todas as
difficuldades com padre-nossos.
Santas creaturas--as mães!
Coitaditos! os pequenos lá foram andando...
Subo finalmente, com a cruz da minha ociosidade, a ladeira da rua de
Santo Antonio. Ociosidade digo, se bem que o meu animo não ande nunca
tão despreoccupado, que não chegue a lembrar-se de que o domingo é o dia
do folhetim. Por conseguinte, eu, jornaleiro do jornalismo, descanço do
labor quotidiano procurando... assumpto. E sabendo eu que ha pessoas tão
felizes que ás vezes encontram dinheiro pelas ruas, reputo-me tão
infeliz que, sem achar dinheiro, poucas vezes encontro assumpto.
Todavia d'esta vez até na rua de Santo Antonio o encontrei! Já agora
quero ser verdadeiro até ao fim, e fallar-lhes d'um quadro que estava em
exposição na loja dos snrs. Martins & Peres, e que havia sido comprado
por um cavalheiro de Villa Nova de Gaya.
Imaginem o mais formoso idyllio d'este mundo, o verdadeiro consorcio da
poesia com a pintura, e terão o quadro que se intitulava a Morte d'um
passarinho, copia de Eugene Lejeune.
É n'aldeia, e suppõe-se provavelmente que n'um largosito, onde ás
crianças costumam brincar.
Qualquer d'ellas havia engaiolado, no tempo, um ninho de melros, de que
só escapara um. Vivia á principesca o melro, tractado pelos pequenos,
que muitas vezes se esqueciam do velho cão, para encherem os comedouros
á ave. Mas, pois que até os principes morrem, o melro morreu. Era
preciso fazer um enterro condigno, e tractou-se d'isso. Emquanto uma
criança abre a cova e outra sustenta uma cruz de pau, formam as
restantes o funebre cortejo do passarinho.
O feretro vae deposto n'um carrosito de pau, o melhor que se póde
arranjar. Umas pequenitas tiram pelo carro, em direcção á cova, que se
está abrindo. Apoz o feretro vae um rapasinho lacrimoso, suspendendo a
gaiola vasia, e a par do rapasinho o cão, tão triste como qualquer das
crianças.
O quadro é isto,--e o mais que se não póde dizer e constitue a alma da
pintura.--Ainda não vi assumpto tão ligeiro mais habilmente tractado,
d'onde se infere que, se Eugene Lejeune tivesse visto os meus dois
rapasinhos, que iam fazer exame, com os seus livros, o seu medo e a sua
esperança tambem, haveria desenhado um quadro digno de figurar a par da
_Morte d'um passarinho_.
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