O RELOGIO...

É o meu relogio que me dá assumpto para este folhetim...

Aqui está o meu pobre amigo, tão esquecido por mim em horas de

felicidade, e tão esquecido por todos os homens. Não tenho mais leal

conselheiro, companheiro mais dedicado. É uma especie de consciencia que

metti no bolço. Quando ella falla, é preciso attendel-a. E todavia, se

uma nuvem de desgosto me enoitece o horisonte da vida, se um cuidado me

preoccupa, se um sobresalto me traz perplexo, esqueço-te, pobre amigo,

não chego a lembrar-me de que te trago conchegado a mim, e de que,

obrigando-te ao silencio para que tu não foste feito, sou cruel para ti,

porque te condemno a ouvir as palpitações vertiginosas do meu coração

inquieto!

Não te dou movimento, porque inteiramente te esqueço. Condemno-te á

ociosidade, e, privando-te de trabalho, não reparo que é sobremodo

doloroso estar a gente triste e calada! Que queres? É o egoismo dos

homens; somos todos assim!

Temos de partir para uma viagem. Nossa mãe está doente, e chamou-nos

pelo telegrapho, porque não quer morrer sem nos abençoar e beijar.

Estamos sós, n'um quarto d'hospedaria. Os criados, que não comprehendem

o que é a ancia de receber o ultimo beijo materno, deitaram-se,

extenuados de trabalho, e nem siquer estão sonhando que teem ordem para

nos chamar ao alvorejar da manhã. Nós estamos deitados sobre a coberta,

já com o nosso fato de jornada, fumando, fumando, inquietos, rememorando

os dias saudosos da infancia, em que nossa mãe, áquella mesma hora, nos

ensinava a resar ao anjo da guarda, ou as noites em que acordavamos

sobresaltados, e acudia ella a limpar-nos o suor da fronte, e a

conchegar-nos a roupa aos hombros. Sobre a commoda arde tristemente a

vela que ha já duas horas precisava de ser espevitada. A um canto está a

nossa mala, com o chapéo de chuva em cima. Reina um silencio funebre no

quarto. Nem ao menos se sente o palpitar do relogio no bolço. Todavia

trabalha, mas parece que intencionalmente se reprime para nos não

perturbar. N'aquella casa de gente desconhecida, o nosso unico amigo é o

relogio. Está vigiando, trabalhando para nós. Consultamol-o. Ainda é

cedo... Parece dizer-nos que estejamos tranquillos porque elle não

adormecerá. Continuamos pensando. Agora nos lembra a pallidez orvalhada

de lagrimas com que nossa mãe se despediu ao partirmos. E ella,

estamol-a vendo na heroica resignação das mulheres que sabem sacrificar

o coração ao dever; é ella, que do topo das escadas de pedra, anciada,

fazendo um esforço supremo, nos diz ainda:

--Parte, filho, é preciso!

Depois recolheu-se de golpe, porque já lhe faltou a coragem de nos

advertir de que eram horas, muito horas...

No seu coração de mãe, relogio que só a morte póde emmudecer, havia

soado a hora fatal da despedida. E nós partimos, sósinhos, guiados pelo

rustico almocreve, sósinhos--com o nosso relogio. Não havia sol. Não

poderiamos conhecer as horas pelas sombras das arvores. O almocreve, que

se não podia orientar do curso do tempo, porque o céo estava escuro como

o nosso coração, ia-nos perguntando de legua em legua que horas eram.

Consultavamos então o relogio. «É meio dia»: «Pois olhe, volvia o

almocreve, quando é meio dia, e o ar está claro, bate o sol n'aquelle

cabeço.»

Meio dia! A hora em que nossa mãe se levantava da sua costura para resar

comnosco emquanto se não extinguia o echo da ultima badalada no

campanario da aldeia! Quem nos disse isto tudo? Foi a memoria? Não foi.

Nós iamos entorpecidos pela dôr, não ouviamos horas que nos evocassem

recordações, a solidão era immensa, ao longe serras, ainda mais ao longe

serras... Foi o relogio, o pequenino coração que ia sentindo por nós. Se

até o almocreve, que vive sempre só, no medonho deserto das

estradas, faz do cabeço das montanhas relogio, para que o caminho lhe vá

fallando e dizendo: «Ante-hontem passaste aqui mais cedo! D'uma vez, á

mesma hora, encontraste aqui aquella pegureira, espavorida com medo dos

lobos»!

Até elle, aquella alma rude, precisa da companhia do relogio! Por isso o

vae pendurando de serra em serra, fazendo do granito mostrador, e dos

raios do sol ponteiros...

Mas emfim nossa mãe está agora doente, moribunda talvez. Que funda

melancolia nos está dando a saudade! Facto inexplicavel! A ancia de

partir foi vencida pela ancia de recordar. Iamo-nos esquecendo pelo

muito que nos estavamos lembrando... Dormem todos no predio; melhor

diriamos dorme tudo, porque os mesmos moveis parece conhecerem a

noite... Engano! Não dorme tudo. Vela o relogio. Abrimol-o. «São horas

de partir!» clama elle. Acreditamol-o como ao melhor amigo. Saltamos do

leito. Gritamos pelos criados. Os criados dormiam. Só o relogio velava,

é pois certo, porque nós mesmos estávamos atordoados pela somnolencia da

saudade...

Mais um momento, e não chegariamos a tempo d'alcançar a diligencia. E

ámanhã seria já tarde, talvez. Nossa mãe haveria morrido, quer dizer, a

nossa falta havel-a-hia assassinado, mais cruel que... a doença.

Quando todos dormiam, foi o relogio que nos avisou...

É portanto elle que nos recorda os nossos deveres, que nos diz

quando havemos de entrar para o nosso escriptorio, que sustenta em

grande parte a nossa harmonia domestica, advertindo o criado de que é

chegado o momento de ter lustrosas as botas, e a criada de que já vão

sendo horas de jantar...

Só elle nos falla verdade n'esta epoca essencialmente insidiosa.

Insidiosa, é o termo. Pois não está recebendo o principe de Bismark,

todos os dias, cartas perfumadas de almiscar e outras essencias

irritantes para o systema nervoso? Pois em Palermo, onde canta

actualmente uma _prima-dona_ formosissima, não lhe arremessou outro dia

aos pés certo admirador despeitado um _bouquet_ que, ao chofrar no

palco, rebentou como metralhadora? Querem maior insidia? Chegaram a

envenenar as duas coisas mais graciosas da creação, as flores e os

aromas; não exijam portanto lealdade na mulher.

N'este cataclismo ainda se não afundou o relogio: é a unica tabua que

resta aos naufragos da sociedade. O relogio, a despeito da corrupção

geral, representa e representará o dever. É por isso que no _Memorial de

familia_, de Emilio Souvestre, o avô lega ao neto o seu relogio,

escrevendo no testamento esta clausula: «Deixo a Leão o meu relogio

d'ouro que nunca se desconcertou durante vinte annos. Quando elle

attentar nos ponteiros, que, sempre obedientes ao impulso da machina,

marcam _fielmente_ as horas, recordará que a submissão e a observancia

são a primeira condição do dever.»

O relogio é filho do egoismo do homem, e victima do mesmo egoismo que

lhe deu vida. Nos tempos primitivos bastava o _quadrante solar_

para medir o tempo. Paulo e Virginia nem do gnomon se serviam. «São

horas de jantar, dizia ella, porque as sombras das bananeiras já lhes

dão pelo pé» ou então «É noite; os tamarindos fecham as folhas.»

As ampulhetas ou relogios d'areia remontam-se á mais nubelosa

antiguidade egypcia. Na Grecia usavam-se os clepsydros, relogios d'agua.

«Vós disputaes a minha agua» dizia Demosthenes, phrase que dá a entender

que a duração dos seus discursos era marcada por um clepsydro.

Meado o terceiro seculo antes de Christo, Estésibius, d'Alexandria,

construiu um clepsydro notavel por ser mais complicado que os

primitivos, que se limitavam a um vaso com um orificio na parte

inferior, por onde se coava a agua gotta a gotta. Depois o homem entrou

de profundar os segredos da natureza, e de se querer apropriar de quanto

n'ella havia de grandioso.

A ideia do relogio era innata á creação. Linneu comprehendeu-o

organisando o relogio botanico pelas horas em que certas flores abriam e

fechavam. Mas tanto isto é verdade, que os primeiros relogios eram

construidos com os primitivos elementos da terra: com o sol, os gnomons;

com a agua, os clepsydros; com a areia, as ampulhetas. Onde quer que

faltassem recursos artisticos, ahi se podia medir o tempo: no mais alto

da serra, com um raio de sol; nas solidões do deserto, com um punhado

d'areia, e no deserto do mar com uma gotta d'agua.

O espirito humano progredia. Chegou a vez do homem dizer á terra: «Até

agora creaste tu; agora quero eu crear;» E trabalhou, e empenhou-se em

dispensar o sol, a agua, e a areia; inventou o _pendulo_, conseguindo

que a força motora fosse constante. Galileu ou Huyghens, a historia

designa-os a ambos, deu este grande passo.

Mas ainda não estava completamente resolvido o problema. Era preciso

inventar mais.

Em viagem, quem, por obra do homem, havia de indicar ao homem o curso do

dia ou da noite? O sol ou as estrellas. Todavia nem o sol nem as

estrellas as fez elle. Pensou, luctou de novo, e descobriu a molla em

spiral, que substitue o peso motor pela elasticidade que tem. Ficaram

portanto descobertos os relogios d'algibeira. Podes partir, peregrino;

já conseguirás saber nas solidões do teu caminho se a noite vae adiantada!

E és tu que o dizes a ti proprio...

Realisaste, finalmente, o teu sonho. Conseguiste roubar ao relogio a

individualidade que a natureza lhe deu, e reflectir n'elle a tua propria

individualidade.

Não é verdade que a estructura do coração é uma, e que não ha

sentimentos, por mais similhantes que se affigurem, que sejam

completamente irmãos? Tambem o relogio tem o seu coração, o seu

machinismo, igual em todos, e abri quatro relogios ao mesmo tempo, que

difficilmente combinarão na indicação dos minutos. Cada um tem a

sua maneira de trabalhar; como cada homem tem a sua maneira d'escrever.

E o _estylo_; é a differente maneira de ser. Ahi temos a individualidade

homem e a individualidade relogio fundidas n'uma só. É o relogio-homem,

e o homem-relogio. O relogio mede as horas; o homem os annos. Eu tenho

doze annos, diz a creança; é meia noite, diz o relogio. Um nasceu d'um

pedaço de barro; outro d'uma gotta d'agua. A alma é o _pendulo_ do

homem-relogio; o _pendulo_ é a alma do relogio-homem. O relogio é o

coração que _sente_ o tempo; o coração é por sua vez o relogio que marca

as horas solemnes da vida, como diz a trova:

A uma hora nasci,

Ás duas fui baptisado;

Ás tres andava d'amores,

Ás quatro estava casado.

Pois apesar de tudo isto--do homem a tal ponto haver conseguido

identificar-se com o relogio, sendo preciso mergulhar na onda escura da

antiguidade para lhe ir buscar a origem, porque elle nada conserva da

sua fórma primitiva, apesar d'esta camaradagem leal, que o relogio

mantém como dedicado amigo, estamos habituados a tractal-o como escravo,

exigindo-lhe a maxima fidelidade quando carecemos do seu auxilio, e

despresando-o, obrigando-o ao silencio e á quietação, esquecendo-nos de

lhe dar corda como nos esquecemos de calçar as luvas.

Por isso é que elle ás vezes, despeitado, adoece, sendo preciso mandal-o

ao relojoeiro, porque emfim, como tambem diz a trova:

... amar sem ser amado

Faz perder a paciencia.

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Entre o caffé e o cognac · 第 53 / 64 题